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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Ainda sobre a rotulagem dos transgênicos

A lei brasileira obriga a rotulagem dos transgênicos para alimentação. Assim, a menos que seja mudada, ela deve ser cumprida. Se isso de fato protege o consumidor de algum dano a sua saúde ou se o consumidor se interessa pela questão, são as sementes para a discussão da lei e para a elaboração de uma nova.

A questão central da rotulagem é a proteção ao consumidor. A rotulagem obrigatória não está voltada a princípios religiosos, filosóficos ou outros quaisquer. Assim, se temos a rotulagem de produtos kosher ou halal, por exemplo (http://www.abiec.com.br/3_hek.asp),  ela atende aos que demandam um alimento preparado de acordo com estes princípios religiosos, mas não é obrigatória e é regulamentada, executada e em parte fiscalizada pelas entidades religiosas respectivas (veja, por exemplo, http://judaismohumanista.ning.com/forum/topics/lan-ada-nova-rotulagem-oficial-para-alimentos-kasher).  A pergunta então é: a par das questões filosóficas ou de temores fundados na percepção de riscos, acaso os alimentos transgênicos que estão no mercado, de acordo com nossa legislação, representam algum risco à saúde humana ou animal? A resposta, claramente, é: não.

Todos os organismos geneticamente modificados que estão no mercado brasileiro foram avaliados e aprovados pelo órgão competente, isto é, a CTNBio. Qualquer um pode discordar desta decisão, por várias razões, mas ela coincide com a decisão de todos os demais órgãos similares no Mundo: a EFSA europeia, o OGTR australiano, a FDA e o EPA norte-americanos, a agência canadense e por aí vai. Sem uma única exceção. Isso dá à decisão brasileira um enorme respaldo. As decisões de moratória têm sido sempre políticas, à revelia da opinião técnica do órgão regulador. E as opiniões contrárias provêm em geral de ativistas contra a biotecnologia ou de cientistas a eles alinhados (o Séralini e seu grupo e mais dois ou três grupos similares).

Sabendo disso, podemos considerar os alimentos seguros. Porque, então, rotular?
As dúvidas sobre a segurança que são em geral apontadas na mídia foram rotineiramente analisadas pelos órgãos técnicos: potencial alergênico das proteínas (estudo baseado em análise bioinformática) e estudos de toxicidade (estudos baseados em digestibilidade enzimática e ensaios de toxicidade aguda). Também as questões ambientais foram exaustivamente avaliadas (fluxo gênico e fixação em espécies novas e variedades, toxicidade para insetos não alvo e muitas outras) e os riscos, igualmente, foram considerados negligenciáveis (que é um nome técnico para dizer “quase nulos”). Somando as avaliações de saúde e ambientais, a conclusão para todos os OGMs até agora analisados é a mesma, aqui e em outros países: o risco é muito pequeno, efetivamente nulo, quando comparado à mesma planta não geneticamente transformada.

Por outro lado, uma parcela muito variável, porém em geral pequena, entende o que significa o rótulo atual e literalmente ninguém saberia dizer o que significam coisas como Agrobacterium tumefasciens, Bacillus viridochromogenes e nomes complicados que, entretanto, deveriam estar no rótulo por lei. Obviamente, além de ser desnecessário, um rótulo deste tipo implica em aumento no custo: o produto tem que ser analisado por técnicas bioquímicas ou genéticas caras e num mercado com mais de 40 transgênicos sendo vendidos, qualquer rotulagem que obrigue a identificação de níveis e genes/proteínas vai implicar em custos que serão repassados ao consumidor, encarecendo a cesta básica. Na ausência de danos comprovados à saúde e de riscos concretos identificados pelas agências de risco em todo Mundo, e na inexistência de casos concretos de danos à saúde em animais e seres humanos após quase 20 anos de consumo em imensas quantidades em quase todos os países do Mundo, a gente se pergunta: é justo encarecer a cesta básica com informações que não estão relacionadas a riscos concretos à saúde?


Em resumo: embora a percepção de risco indique que os transgênicos podem ser perigosos como alimentos, a avaliação de risco indica o contrário. Um país não deve tomar decisões em cima de percepções de risco, que são muito variáveis de pessoa para pessoa e mudam também em diferentes circunstâncias. A decisão tem que ser técnica, respeitando os princípios científicos da avaliação de risco. Assim foi com as vacinas, a fluoretação da água, a adição se sal no iodo e muitas outras coisas que são, até hoje, combatidas por grupos mais ou menos amplos da sociedade em função de sua percepção de risco. A obrigação legal de tal ou qual ação baseada nestas percepções de risco traz sempre problemas financeiros, dentre outros, sem contribuir um cêntimo para a saúde pública e a nutrição dos brasileiros.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

“Movimento anti-transgênico é fruto de uma total irracionalidade” – será mesmo?

A afirmação acima, feita talvez num momento pouco feliz pelo Dr. António Coutinho, ex-diretor do Instituto Gulbenkian de Ciência e presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, vem sendo divulgada pela internet sem comentários de quem divulga (veja, por exemplo, a postagem no Agrolink). O Dr. Coutinho, por sua formação e atuação em ciência, compreensivelmente qualifica todo o movimento anti-transgênico como “irracional”. Mas não é assim: há uma legião de simpatizantes do movimento que se alinha a ele pela percepção de risco, que é moldada por um conjunto complexo de influências e informações. Não há irracionalidade nisso, mas um tempo limitado de cada um para se aprofundar num tema e a confiança que temos nos nossos pares.

Por exemplo, quem acredita num mundo agroecológico, sem as novidades técnicas do agronegócio nem a concentração de propriedade de terras, tende a se alinhar com o movimento anti-transgênicos. A pessoa tenderá a acreditar no que dizem os seus pares, não nos cientistas, não importa a quantidade de informação fidedigna que estes lhe possam aportar. Ela também não tem tempo, nem vontade e, em geral, nem o conhecimento, para digerir as informações científicas. O mesmo ocorre com alguém de outro grupo qualquer. Na verdade, não temos uma opinião inteiramente nossa, mas refletimos, muito mais, a opinião de nosso grupo. Fazemos isso porque somos parte de rebanhos, por mais individualistas que sejamos.

Os que militam no movimento antitransgênicos provavelmente julgam que o Dr. Coutinho, como todos os demais cientistas do main trend, seleciona as informações científicas de forma a só ver o que quer e despreza a opinião dos cientistas “independentes”. Esta ideia é repassada em seu grupo e comprada por todos os simpatizantes, sem questionamento.

No fundo, não somos muito diferentes dos alfas, betas, gamas e deltas do Admirável Mundo Novo: o Aldous Huxley apenas extrapolou num mundo imaginário o que ocorre hoje, e ainda com mais força, num mundo onde as redes sociais dão as cartas.


A conclusão: cada um seguirá dizendo aquilo que acredita e desqualificando os demais, como sempre foi, desde que o homem aprendeu a falar e talvez mesmo antes disso. Mesmo sem perceber que sua opinião é, de fato, a opinião do grupo de carneiros ao qual pertence. Que grupo vai vencer a “batalha” dos transgênicos? Provavelmente o da ciência, que vem amealhando vitórias faz muitos séculos. Espero viver bastante para ver isso.

sábado, 11 de julho de 2015

Transgênicos: ponto final

A postagem original (http://climatologiageografica.com/transgenicos-ponto-final/) saiu faz pouco tempo. Texto claro, com muita informação e, surpreendentemente, escrito por um rapaz de 16 anos, nordestino, residente em Campina Grande (PB). Sugiro a leitura atenta: é impressionante como um jovem que ainda nem ingressou na universidade possa ter mais bom senso do que vários doutores em ciência que conheço e que parecem infringir o método científico todo o tempo, além de desrespeitar as regras bases do debate científico, tão claramente expostas aqui .
Só o título peca: não há ponto final nesta discussão bizantina, que já resvala para fora da ciência faz muitos anos. Ela não será sepultada por mais informação, nem por informação de qualidade, porque a origem da discordância está no comportamento de grupo do homem. Os OGMs permanecerão como polêmica estéril ainda por décadas, como as vacinas e a fluoretação da água, que são muito mais antigas: sempre haverá quem ache (o tal grupo de like-mindeds) que o homem não foi à Lua, que as vacinas fazem mal, que a vitamina C pára o envelhecimento, que o vírus da AIDS é invenção de militares, que o aquecimento global não existe (seja lá qual for a causa) e que os transgênicos são um veneno e causam autismo, alergias e câncer.
(Paulo Andrade)

Josikwylkson Costa Brito (09 de julho de 2015)
Os transgênicos fazem mal? Essa é uma questão que vem sendo, inutilmente, levantada por algumas pessoas que ainda não conhecem o consenso científico acerca do assunto. Assim como o aquecimento global, a evolução e a eficácia das vacinas, o consenso estabelecido para os Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) no que diz respeito à sua segurança já é bem evidente dentro da comunidade científica. No entanto, muitos ainda insistem em negar por um propósito que desconheço. Antes de mais nada, quero ressaltar a concordância existente entre algumas organizações:
Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, em inglês), organização científica sem fins lucrativos respeitada internacionalmente e responsável por publicações na revista Science:
“A ciência é bastante clara: melhorias em culturas por técnicas moleculares da biotecnologia são seguras … A Organização Mundial da Saúde, a Associação Médica Americana, a Academia Nacional de Ciências dos EUA, a Royal Society e muitas outras organizações respeitadas que examinaram as evidências chegaram à mesma conclusão: consumir comidas que contém ingredientes derivados de culturas de seres ‘normais’ não tem nenhum risco maior do que consumir as mesmas comidas advindas de culturas com organismos geneticamente modificados.”
Associação Médica Americana:
“A ciência é clara: o melhoramento de culturas a partir de técnicas moleculares de biotecnologia é segura”.
Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos:
“Até a data, mais de 98 milhões de hectares de culturas geneticamente modificadas foram cultivadas em todo o mundo. Não há nenhuma evidência de problemas relacionados a essas culturas ou resultantes de alimentos geneticamente modificados”.
Padrões Alimentares da Austrália e Nova Zelândia (Food Standards Australia New Zealand):
“A tecnologia genética não demonstrou inserir quaisquer riscos novos à comida alterada, portanto, o potencial de perigo a longo prazo não é dissociada do potencial que comidas não-transgênicas possuem”.
Academia Francesa de Ciência:
“Todos as críticas feitas contra os transgênicos podem ser largamente rejeitadas baseando-se no critério estritamente científico”.
Sociedade Real de Medicina:
“Os alimentos derivados de culturas geneticamente modificadas têm sido consumidos por centenas de milhões de pessoas de todo o mundo por mais de 15 anos, com nenhum relato de efeitos danosos (ou casos legais relacionados à saúde humana), embora muitos consumidores venha do mais litigioso desses países, os EUA”.
Comissão Europeia:
“A conclusão principal a ser tirada dos esforços de mais de 130 projetos de pesquisa, que abrange um período de mais de 25 anos, envolvendo mais de 500 grupos de investigação independentes, a biotecnologia, especificamente os transgênicos, não é mais nociva do que as técnicas de melhoramento convencionais”.
União Acadêmica Germânica de Ciências e Humanidades:
“Ao consumir alimentos derivados de plantas geneticamente modificadas aprovadas na Europa e nos Estados Unidos, o risco não é maior do que o consumo de alimentos derivados de plantas que não sofreram essas alterações. Ao contrário, em alguns casos, as plantas transgênicos parecem ser superiores no quesito saúde”.
Sete das Academias Nacionais de Ciência (Brasil, China, México, Terceira Academia Mundial de Ciências, Sociedade Real e a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos):
“Comidas produzidas a partir do uso dos OGMs são mais nutritivas, estáveis no armazenamento e, em princípio, saudáveis – trazendo benefícios aos consumidores tanto em nações industrializadas quanto em nações emergentes”.
Organização Mundial da Saúde:
“Nenhum efeito na saúde humana foi mostrado como resultado do consumo de alimentos geneticamente modificados pela população geral dos países em que tais foram aprovados”.
Um estudo feito por italianos, a partir de uma análise de 1783 artigos sobre os OGMs, também endossa o consenso.


Qualquer um que tiver alguma contestação ao que é dito sobre os transgênicos deve, imprescindivelmente, basear-se na ciência, apresentando evidências para o que for argumentado. Caso não o seja feito, deve ser ignorado. Na ciência, “não importa o quanto seu argumento seja bonito. Sem evidências, não tem valor algum” (exceto, é claro, que apresente falhas na metodologia de pesquisa, que apenas seriam apontadas com precisão com uma análise minuciosa do estudo).
A partir disso, alguns seres conscientes, que tentam fomentar discursos baseados em outras coisas que não seja o próprio achismo, até apresentam alguns artigos científicos. Porém, muitos dos que vão contra os transgênicos possuem falhas horrendas, como, por exemplo, o paper descrevendo alguns ratos que, supostamente, adquiriram câncer por conta dos transgênicos. Só em resumo, os animais usados já tinham predisposição à doença, então, já dá para tirar o porquê do artigo ter sido falho. A própria revista que publicou isso desculpou-se pelo acontecido.
Tirando isso, nunca vi pessoas argumentando sobre sem se valer de falácias lógicas ou de ridículas suposições da conspiração. Alguns, no Brasil, chegam até a apelar para a afirmação: “Se os transgênicos não fazem mal, por que os deputados quiseram tirar o rótulo?”. Simples! Porque os deputados, assim como muitos, também são apedeutas e acham que os OGMs fazem mal baseando-se no próprio achismo.
Quanto às falácias lógicas – que refletem uma imensa desonestidade retórica -, citarei algumas que, frequentemente, usam:
Falácia do coletor de cerejas: apontar casos individuais ou dados que confirmem uma posição particular, ignorando todos os dados gerais que possam contradizer tal posição.
Falácia da súplica especial: segundo a Enciclopédia Internet da Filosofia, “é uma forma de inconsistência em que o pensador não aplica seus princípios de forma consistente. É a falácia da aplicação de um princípio geral a várias situações, mas não as aplica a uma situação especial que interessa o argumentador, embora o princípio geral se aplica adequadamente a essa situação especial também”.
Falácia do espantalho: distorção do argumento do oponente para facilitar a refutação.
Envenenamento de poço: estratégia retórica que consiste em expor o argumento do oponente a uma audiência, com o objetivo de desmoralizá-lo. É uma variante do argumentum ad hominem, que baseia-se em apelar para o autor do argumento com o objetivo da refutação, não para o argumento em si.
Se você tenta argumentar escolhendo um caso particular e tentando aplicá-lo ao geral, tenho duas alternativas para caracterizá-lo: [1] ou você não sabe argumentar ou; [2] você merece ganhar o prêmio Nobel por conseguir ter intelectualidade suficiente para englobar todos os milhares de genes e todas as incomensuráveis possíveis e diferentes alterações que podem ser feitas neles em uma afirmação só: faz mal.
Quanto às conspirações, vejo coisas do tipo “a ciência só não tem evidências de que os transgênicos fazem mal porque isso não é proveitoso para as grandes corporações e a ciência segue apenas ao que lhe dá lucro”, “os transgênicos servem apenas para causar o monopólio de culturas detido por grandes corporações ou para facilitar o uso de agrotóxicos por tais”. Ora, eu poderia até dar respostas mais detalhadas a isso, mas tentarei ser sucinto:
1. Se isso fosse válido, o consenso sobre o aquecimento global não existiria, visto que ter o conhecimento do evento prejudica a produção das grandes corporações;
2. Se os transgênicos fazem tão mal para que você seja inteligente o suficiente para afirmar isso sem que apresente evidências, então, é notório que descobrir se eles fazem mal não daria muito trabalho. Dessa forma, não seriam necessários tamanhos financiamentos.
3. O monopólio da produção não é culpa dos transgênicos, é culpa do determinado sistema que permite esses monopólios, afinal, eles existirão havendo ou não os transgênicos.
4. Da mesma forma que a lógica do tópico anterior, o uso de agrotóxicos ocorrerá com ou sem os transgênicos. Então, o que deve ser combatido não são os transgênicos, são os agrotóxicos. Mesmo assim, a afirmação seja, talvez, falha. Um estudo publicado na PLoS One – A Meta-Analysis of the Impacts of Genetically Modified Crops – sugere que as culturas de OGMs são, na realidade, as que menos usam agrotóxicos. No paper, é relatado que:
“Em média, a tecnologia dos transgênicos aumentou o rendimento das culturas em 21%. Esses aumentos não se devem apenas ao alto potencial genético, mas ao controle mais efetivo de pestes e, consequentemente, aos menores danos para as culturas. Ao mesmo tempo, os cultivos de OGMs reduziram o uso de pesticidas, em quantidade, por 37% e, em custo, por 39%. O efeito sobre o custo de produção não é tão significante. As sementes dos transgênicos são mais caras do que as dos não-transgênicos, mas os custos dela são compensados através da salvação das culturas de químicos e do controle mecânico de pestes. Em geral, o ganho médio que um fazendeiro tem ao adotar os OGMs é de 69%”.
Alguns até chegam a falar que são contra os transgênicos por eles não serem uma forma natural de cultivo. Eu não perderia meu tempo debatendo com um argumento desses, mas, como estou falando sobre o assunto, acho digno dizer apenas algumas coisas coisas: Batatas-doces são geneticamente modificadas de forma natural e nós as cultivamos há 5 mil anos (link abaixo); Nós temos cerca de 7% de DNA viral em nosso organismo, então, tecnicamente, possuímos material genético híbrido naturalmente; Bananas e alhos domesticados são diferentes dos selvagens (inclusive, bananas domesticadas não produzem sementes, precisam ser cultivadas por crescimento vegetativo) e a domesticação deles ocorreu de forma natural.

Sei que muitas pessoas farão, nos comentários, apelo à autoridade (outra falácia variante do ad hominem), alegando que eu, por não ser acadêmico, não tenho conhecimento para falar sobre o assunto. Então, já que sei que isso iria acontecer, decidi falar com o meu amigo Luiz Eduardo Del Bem, atualmente pesquisador da Universidade de Harvard e Ph.D. em Genética e Biologia Molecular, sobre o assunto. Eis sua resposta:
“Meu principal ponto sobre transgênicos, no sentido amplo, é que a tecnologia do DNA recombinante e todos os benefícios que ela pode trazer em diversas áreas diferentes (não somente em alimentos) pertence à humanidade, não a uma ou outra empresa. É uma tecnologia que está dando seus primeiros passos, diretamente ligados ao entendimento que temos de sistemas vivos. Quanto mais aprendermos sobre a vida, mais poderemos manipular sistemas genéticos em nosso benefício. Seria absolutamente irracional assassinar uma tecnologia nascente com tamanho potencial.
O que seria, para mim, o grande argumento para a utilização da transgenia é que diversos problemas que temos na medicina, agricultura, industria e farmacologia, por exemplo, já foram resolvidos por alguns seres vivos através de bilhões de anos de evolução. Se quisermos fermentar grãos para produzir álcool, devemos ter, em nossas cabeças, que as leveduras que temos disponíveis têm um limite de tolerância ao álcool, mas isso pode ser modificado através do uso de circuitos genéticos vindos de organismos mais resistentes. Podemos produzir hormônios peptídicos humanos em plantas ou microrganismos com baixíssimo custo e que são indistinguíveis por nosso sistema imune. Podemos usar uma DNA polimerase de uma bactéria extremófila para fazer um PCR e identificar o suspeito de um assassinato. Podemos inserir genes ligados à tolerância à salinidade ou a metais pesados de bactérias em plantas, permitindo que elas sejam cultivadas em solos inapropriados a um baixo custo, entre muitas outras coisas. Podemos utilizar vias bioquímicas para produzir moléculas de interesse em microrganismos sem a necessidade de complicados e dispendiosos processos de síntese química.
Há vida em, praticamente, toda parte deste planeta, dos ambientes mais frios aos mais quentes, superando todo tipo de adversidade. Há uma enorme riqueza tecnológica nisso que podemos usar para tornar nossas atividades humanas menos agressivas aos ecossistemas naturais. Se entendermos como estes seres vivos fazem isso, poderíamos utilizar em outros organismos… ou em nós mesmos. A vida está evoluindo no planeta há quase 4 bilhões de anos, em incontaveis espécies. Podemos supor, então, que há soluções biológicas para problemas que ainda nem conhecemos esperando para serem descobertas e utilizadas.”
Por fim, caso alguém tenha contestação ao que foi dito, assim como o pesquisador citado, estarei grato se forem mandados artigos científicos publicados em revistas de alto Fator de Impacto nos comentários abaixo. Há algum tempo, venho sugerido a Del Bem alguns textos para que ele proponha um debate sobre tais em sua universidade, mas eles não possuem, muitas vezes, nenhuma validade relevante – pelo fato de não seguirem os critérios citados acima -; por isso, os peço.
Este artigo foi publicado como o quinto de uma série de textos divulgadas pelo nosso site sobre o assunto dos transgênicos (que serviram de referência). Eis os demais:


Veja mais aqui http://climatologiageografica.com/transgenicos-ponto-final/#ixzz3faQeytg5

domingo, 21 de junho de 2015

Mais uma do Séralini e sua trupe

Quando menos se espera, o bufão de Caen retorna com mais um press release (rolou dia 18 de junho de 2015), anunciando antes da publicação seus resultados e extraordinárias conclusões aos jornalistas ansiosos por uma desgraçazinha. Este comportamento, completamente contrário ao etos científico, é compatível com o comportamento momesco do Séralini.

Mas acontece que os editores do PlosONE, onde o novo pseudo estudo do Séralini seria publicado, tiveram o bom senso de suspender a publicação na horinha! De que  trata o estudo que passou por um primeiro crivo do PlosONE e foi rejeitado na véspera do press release, tirando o doce da boca do garoto francês?

O Séralini e seus companheiros de folia avaliaram a presença de resíduos de agrotóxicos e de transgênicos na ração dos animais de experimentação. O que vocês acham que ele achou? O que é obvio: havia resíduos de um monte de agrotóxicos e as rações continham soja e milho geneticamente modificados. Acontece que os resíduos estavam abaixo do máximo permitido pela legislação. E acontece que os transgênicos são completamente seguros, como demonstrado pelo gigantesco consumo destes produtos mundo a fora nos últimos 10 anos, além do que foi mostrado por mais de 10.000 trabalhos publicados. Mas o que conclui o Séralini e seus maluquinhos, sem qualquer demonstração de causalidade? Que todos os trabalhos que envolvem saúde feitos com animais de laboratório não têm validade!

Uma tamanha viagem jamais poderia ser publicada por uma revista que se proponha a ser científica, embora vá muito bem num site como o GM Watch e em outros ambientes onde mais vale uma bravata do que a verdade. Se o PlosONE publicasse um despautério desta magnitude, seria um desastre para a revista e, ainda mais, para o ambiente científico.

Como esta postagem não tem maior profundidade, recomendo a leitura de outras postagens minhas, que tratam de assuntos mais importantes:

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Rotulagem de transgênicos: porque não fazer (em poucas palavras)

Eu posso entender que um alimento precise exibir no seu rótulo as informações relativas a sua composição ou origem quando isso afeta a saúde do consumidor. Se contém glúten, que é prejudicial a portadores de doença celíaca, ou se contém castanha do Pará, porque muita gente é alérgica a esta castanha, ou se contém lactose, pois há gente que tem intolerância a este açúcar, e por aí vai. A defesa do consumidor, quando o ingrediente que lhe pode fazer mal está em mistura com outros e não pode ser identificado, só pode vir da rotulagem.

Não é o caso dos transgênicos: a autoridade nacional, a CTNBio, já avaliou os riscos de todas as plantas transgênicas hoje no mercado e concluiu que elas são tão seguras quanto as plantas convencionais para o consumo. Esta conclusão, aliás, foi a mesma para cada uma das plantas transgênicas avaliadas por autoridades nacionais em outros países e na Europa.

Então, a questão resvala da avaliação de risco (que é tarefa da autoridade nacional) para a percepção de risco (que é diferente para cada um de nós). Acontece que, se não há riscos diferentes entre alimentos GM e convencionais, há sim custos altos tanto para se rotular um alimento como transgênico como para rotulá-lo como livre de transgênicos. A rotulagem, por ser obrigatória, encarece os produtos da cesta básica (que leva vários ingredientes potencialmente transgênicos), sem contribuir em nada com a saúde do consumidor.

Alguém poderia argumentar que é um direito do consumidor saber, quando este tiver dúvidas sobre a segurança de um ingrediente, se este está no alimento que será consumido e em que porcentagem. Mas acontece que, não importa que ingrediente se escolha, sempre haverá um grupo de pessoas que considere sua presença no alimento um risco enorme, independentemente de serem os membros do grupo intolerantes ou alérgicos ao tal ingrediente. É o caso de certos aditivos alimentares sintéticos, mas também do sal, determinadas frutas, certas sementes, o alho, a cebola e mais um sem-fim de coisas que, na percepção de risco de uma parte dos brasileiros, representa um risco na alimentação. Ocorre que a autoridade nacional (ou autoridades, em alguns casos) já se pronunciou quanto à segurança do consumo dos vários “ingredientes perigosos”, determinando sua inocuidade. Por isso, os alimentos contendo estes ingredientes, para os quais ninguém é intolerante ou, quando muito, apresenta reações alérgicas raras e discretas, não necessitam de rótulo. Este é exatamente o caso dos transgênicos: ninguém jamais ficou doente ou teve alergias provocadas pelo consumo do ingrediente proveniente de uma planta transgênica hoje no mercado e sua rotulagem só atenderia um temor infundado, que nunca abriu caminho à rotulagem em casos semelhantes.


Por isso tudo, sou contra meter rótulos pequenos ou grandes, com ou sem símbolos, para distinguir os alimentos formulados com plantas transgênicas daqueles obtidos de plantas convencionais. As razões acima me dão esta convicção, independente dos aspectos legais, que são baseados numa lei confusa – presentemente sendo revista - e em decretos ainda mais confusos. Encarecer a comida do brasileiro para atender a um pequeno grupo de consumidores que crê haver perigo onde as autoridades de vários países nada veem não é democrático e não deve ser amparado por lei.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Aprovado o milho tolerante ao herbicida 2,4-D e a determinados inibidores da acetil coenzima DAS-40278-9

No dia 05 de março de 2015, após a leitura do parecer de pedido de vistas, elaborado e lido pelo Dr. Rubens Nodari, seguiu-se a discussão dos vários pareceres e a votação na CTNBio. Foram dois votos contrários,  uma abstenção e dezenove votos pela aprovação.


Assim, e como manda a lei, a decisão será suspensa por 30 dias, aguardando o posicionamento do CNBS. A maior probabilidade é de que o Conselho não se pronuncie, seguindo o pedido de registro do produto para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.



Detalhes da pauta:
Pedido de Vistas (Dr. Rubens Nodari) - Dow AgroSciences Sementes & Biotecnologia Brasil Ltda. Processo nº.
01200.000124/2012-43. (Atendimento à Diligência) Liberação comercial de milho geneticamente modificado que
confere tolerância ao herbicida 2,4-D e a determinados inibidores da acetil coenzima DAS-40278-9; Protocolado em:
13/01/2012; Próton 1507/12; Extrato Prévio: 3190/2012, publicado em 21/05/2012; Relatores SSP Humana/Animal
(APROVADO EM ABRIL/2013): Drs. Heidge Fukumasu* e Mário Hiroyuki Hirata; Relatores SSP
Vegetal/Ambiental (APROVADO EM FEVEREIRO/2015): Drª. Maria Helena Zanettini, Dr. Leonardo Melgarejo

e Dr. Jesus Ferro. Assessoria: Marcos Bertozo (Veg/Amb) e Rubens José (Hum/Ani);

segunda-feira, 2 de março de 2015

Entidades trazem à CTNBio denúncia sobre supostos perigos do eucalipto transgênico: crítica à inconsistência da análise

Caros leitores

Como de hábito, às vésperas das votações importantes da CTNBio as redes sociais abarrotam-se de manifestos e cartas contra uma provável decisão de liberação comercial que se aproxima.

Agora é o caso da liberação do eucalipto transgênico e de um milho tolerante ao herbicida 2,4-D: um novo manifesto, liberado pelas indefectíveis Via Campesina, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), tendo por companhia a Associação de Agricultura Orgânica (AAO), vem se manifestar contra o eucalipto e o milho. Para o milho não há novidade alguma na avaliação de risco: a CTNBio já tem uma imensa experiência com os milhos anteriores e a diferença aqui é a tecnologia associada (isto é, outros herbicidas). O uso dos herbicidas NÃO É DA ALÇADA da CTNBio, mas sim do MAPA, o que invalida toda e qualquer discussão sobre o tema agora. Ele pode ser retomado quando da aprovação do produto pelo MAPA.


Quanto ao eucalipto, as argumentações no texto da própria carta e num segundo texto, linkado ao final da carta (http://www.mst.org.br/2015/03/02/entidades-escrevem-manifesto-contra-a-liberacao-de-eucalipto-transgenico-na-ctnbio.html) não trazem um único grama de novidade: todos os perigos foram tratados pela CTNBio, mesmo aqueles que não são ligados ao impacto direto do eucalipto transgênico na saúde ou no ambiente. Na maioria, os perigos estão sustentados por argumentos fantasiosos e são, eles mesmos, pura fantasia. Para constatar que os perigos foram cuidadosamente avaliados (se inerentes ao transgênico) ou ao menos discutidos (se inerentes à tecnologia) na CTNBio, está disponível uma avaliação de risco semelhante à feita pela Comissão: http://genpeace.blogspot.com.br/2015/02/avaliacao-de-risco-do-eucalipto.html. Ela segue a ciência e a forma internacional de classificar riscos, descartando perigos imaginários. Se desejarem, há também uma réplica à carta inicial que disparou a recente onda de postagens: http://genpeace.blogspot.com.br/2015/02/replica-carta-aos-ministerios.html

O curioso é que, até agora, não há novas manifestações de entidades nacionais de apicultores e nunca houve qualquer manifestação por parte dos grandes exportadores de mel e outros produtos apícolas...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Alergia e transgênicos

Crítica ao texto em

Copio e colo abaixo um texto publicado no blog Alimentação e Saúde Infantil – Nutrição consciente desde a infância. Após cada parágrafo ou depois de dois ou três eu junto meus comentários (em vermelho). Lá no blog original também fiz comentários, mas a pessoa responsável me espinafrou, me chamando de ignorante e acusando a CTNBio se ser um valhacouto de vendidos às grandes empresas (as críticas estão no final desta postagem, com o merecido reply). Tanto o texto original quanto a resposta apenas amealham o besteirol que circula na internet e não são, de fato, a opinão de quem escreve, mas de um largo grupo de like-mindeds. Uma pena, porque o blog em geral tem boas informações. O que a distorção ideológica não faz!

La vai.
Alergias alimentares x Transgênicos em carnes de animais alimentados com transgênicos
novembro 24, 2014 por Alimentação e Saúde Infantil

É sabido que leite, soja e ovos são os principais alimentos causadores de alergias alimentares, especialmente em crianças.

Não é exatamente assim: a ordem em que estes alimentos aparecem varia de país para país e mesmo de região para região. No Brasil a soja está entre as fontes de alergenos, basta ler o documento de consenso, de 2007 (http://www.crn2.org.br/pdf/artigos/artigos1285071282.pdf), sugerido pela pessoa que postou este texto numa réplica a um comentário meu. Mas o fato da soja estar na tabela em nada indica que ela é uma das fontes de alergenos mais importantes. De forma alguma! Ovo, leite, amendoim, castanhas, corantes, crustáceos, kiwi, e muitos outros vêm na frente, dependendo do lugar do Brasil. Mas esta questão não é relevante: o ponto é que dos alergenos da soja (Globulinas, 7S: β-conglicina, β-amilase, Lipoxigenase, Lecitina, 11S: glicinina, Proteínas do soro, hemaglutinina, Inibidor de tripsina, uréase) nenhum é produzido em maior quantidade nas sojas transgênicas e as novas proteínas que elas contêm não são alergênicas. A discussão da contribuição da transgenia na alergenicidade da soja se esgota aqui.

Entre 2005 e 2006, uma petição com um milhão de assinaturas circulou pela Europa exigindo maiores informações sobre a presença de organismos geneticamente modificados em produtos originários de animais consumidores de rações transgênicas, principalmente carnes, leite e ovos.
O que os europeus fazem não é dirigido pela ciência, mas pela percepção pública, que é coisa muito diferente. O consumo dos transgênicos pelos animais significa que as proteínas novas serão degradadas no trato digestivo deles e os aminoácidos vão virar proteínas de vaca, galinha, porco ou seja lá qual for o bicho que comer a ração. Não vai existir nenhuma proteína nova na carne, nos ovos ou no leite. Isso contraria a fisiologia e está amplamente demonstrado na literatura séria.
Atualmente, as principais preocupações da comunidade cientifica mundial, sobre os efeitos adversos dos organismos geneticamente modificados (OGMs), centram-se na transferência à resistência aos antibióticos, graus de toxicidade e potencial alergenicidade dos produtos manipulados geneticamente.
Num comentário que envie em resposta a este texto, deixei claro que a transferência de genes de antibiótico de plantas para qualquer outro organismo (exceto as plantas da mesma espécie e as sexualmente compatíveis) é uma fantasia. Além disso, o gene teria que se expressar no nosso organismo, mas está sob controle de um promotor de planta (ou de vírus de planta). É como querer jogar um astronauta com um canhão na Lua: só na ficção científica do bom Júlio Verne. Também esclareci que nenhuma proteína nova expressa pelas plantas transgênicas é tóxica, nem muito menos os alimentos formulados com estas plantas, exceto nas mãos de Séralini, da Judy Carman e de uns poucos outros, cujo método em seus experimentos está muito longe da Ciência. Por fim, falei também que as proteínas novas não são alergênicas e, como comentado acima, as proteínas alergênicas já encontradas na palnta convencional não estão em maior quantidade nas transgênicas. Desafio quem quer que seja a demonstrar o contrário com dados científicos, e não citações das especulações teóricas do Jack Heinemann nem alguma bizarria isolada publicada por aí. Concluo: as principais preocupações dos cientistas sérios passam longe destas três coisas citadas acima.
Em 2002, o médico imunologista e alergologista londrino, Gideon Lack, escreveu sobre a migração de DNA de alérgenos para culturas de não-alérgenos, em Clinical risk assessment of GM foods.
No documento, o alergologista discorreu sobre o primeiro cenário de contaminação cruzada ocorrido em 1996, quando proteínas de castanha do Brasil foram transferidas para a soja transgênica.
Dessa forma, a proteína expressa na soja cultivada manteve sua alergenicidade, e pacientes alérgicos ás castanhas, sem respostas para soja, passaram a apresentar resposta mediada por IgE para alergia à soja.
Se uma planta transgênica expressar um alergeno de outro organismo, seguramente pode acontecer que ela se torne um problema no mercado, uma vez que um risco não suspeitado para o consumidor. Por isso, esta tal soja com proteína de castanha do Pará não está à venda e também por isso todas as plantas GM no mercado não expressam alergenos novos. Seria uma imprudência criminosa. Os que se opõem aos OGMs sempre citam este caso da soja com proteínas da castanha, mas “esquecem” de dizer que esta coisa não está à venda em canto algum do planeta e as que estão não têm novos alergenos.
Pesquisas mais recentes apresentam comprovações sobre a deposição de frações transgênicas, não apenas em outras plantas, mas também em tecidos de animais alimentados com esses alimentos.
Uma revisão da literatura conduzida pela ONG Testbiotech encontrou crescentes evidências de que fragmentos de DNA de plantas transgênicas podem ser encontrados em leite, órgãos internos e músculos de animais.
Em abril de 2010, cientistas da Itália relataram a presença de sequências de DNA de soja transgênica em leite de cabras.
Traços deste DNA foram também encontrados nos cabritos e crianças alimentadas com o leite dessas cabras.
Em outra pesquisa, cientistas encontraram traços de plantas transgênicas em órgãos de peixes.
Professor Jack Heinemann. Universidade de Canterbury, Nova Zelândia, in: Report on Animals Exposed to GM Ingredients in Animal Feed

Todas estas pesquisas mostram o que já se sabe faz tempo: diminutas frações de DNA do que a gente come circula no sangue e está presente em outros fluidos corporais (leia também http://genpeace.blogspot.com.br/2013/08/genes-inteiros-podem-passar-do-alimento.html). Numa concentração muito maior estão os DNAs do próprio comedor... Assim, que toma leite de vaca ingere quantidades importantes de DNA e de RNA fita dupla, este último contendo sequências silenciadoras de genes muito semelhantes, senão idênticos, aos nossos. Idem prá quem come bife, carne de porco, de ovelha ou de cabrito. Também ingerimos DNA e iRNA de aves e peixes, embora as sequências sejam menos semelhantes aos nossos genes. Entretanto, isso não tem qualquer impacto em nossa saúde, porque estes DNAs não são incorporados às nossas células nem usados para nada, assim como os iRNAs. Idem para os recombinantes. O Heinemann adora especular sobre isso (o report completo dele está aqui: http://www.biosafety-info.net/file_dir/16329274254b0b792716b0f.pdf), mas em geral só conta uma parte da história, centrando a atenção do leitor nos transgenes... Nada do que está no report dele é novidade para os avaliadores de risco.


Transgênicos e Saúde Humana
O professor do programa de pós-graduação em Recursos Genéticos Vegetais da UFSC, Miguel Pedro Guerra, defensor de maior cautela com transgênicos, comentou sobre a incorporação de novas proteínas na cadeia alimentar e a ocorrência de alergias provocadas pelas modificações genéticas, em entrevista para a revista Galileu.

A revista Galileu está longe de ser uma publicação com o rigor científico para transformar em fatos algumas especulações. O fato é que as novas proteínas que são expressas pelas plantas transgênicas hoje no mercado não são alergênicas. Entendo a preocupação dos alergologistas, mas eles precisam se debruçar sobre as evidências científicas e não se fiarem em conversa mole de internet ou de certas revistas dde popularização da ciência.
Para o professor, o FDA (agência americana que regula alimentos e remédios nos EUA) não conduziu testes e, em simplificação surpreendente, liberou plantas para o cultivo com base apenas no conceito de equivalência substancial.
Absolutamente errado: o FDA (e, no caso das plantas Bt, também o EPA, além da CTNBIo, da EFSA, do FSANZ, etc) avaliaram dezenas de outros aspectos alimentares. Para o caso das alergias o que é rotina? Ver se as novas proteínas não apresentam características indesejáveis de termoestabilidade e resistência aos fluidos gástricos e ver se suas sequências não têm similaridade com alergenos conhecidos dos bancos de dados. Pois é, nenhuma das proteínas transgênicas expressas pelas plantas aprovadas para consumo tem estas características... Parece que o professor está equivocado ou foi mal interpretado pela revista Galileu.
Por esse conceito, plantas transgênicas são equivalentes às não-transgênicas.
Mas, muitos cientistas discordam dessa simplificação.
“Desde 1996, bactérias, vírus e outros genes introduzidos artificialmente no DNA de soja, milho e sementes de algodão e canola implicam em riscos de reações alérgicas mortais”, comenta Jeffrey M. Smith, do Instituto de Responsabilidade Tecnológica (IRT), com sede nos EUA.

O Jeffrey Smith é um charlatão e não um cientista, e este instituto é uma miragem para não usar uma palavra mais forte. Nenhum médico, nutricionista, biólogo ou qualquer outro profissional que respeite a ciência pode levar a sério um cara destes. Só a nossa mídia meio desorientada e sequiosa de más notícias. Tudo o que ele afirma não merece comentários.
“E as provas, colhidas ao longo da última década, sugerem ainda que estão contribuindo para o aumento das alergias alimentares em todo o mundo. Os cientistas sabem há muito tempo que os transgênicos podem causar alergias”, afirma.
O Reino Unido é um dos poucos países que realiza uma avaliação anual das alergias alimentares.
Em 1999, pesquisadores ingleses ficaram alarmados ao descobrirem que as reações à soja dispararam em 50%, em relação ao ano anterior.

E depois de 99? Sonhar é possível...

A soja geneticamente modificada havia entrado recentemente no Reino Unido, a partir de importações dos EUA.

Gozado é que nos EUA mesmos nãos e viu esta subida imensa, apesar da vigilância enorme das autoridades de saúde. Como a fonte deve se o tal IRT, já se vê que é tudo bobagem.

Na manifestação tardia de alergias, até que um alimento seja consumido com certa frequência, não é possível detectar o processo alérgico.
 “O único teste definitivo para alergias”, segundo o ex-microbiologista do FDA, Louis Pribyl, “é o consumo por pessoas afetadas, o que pode ter implicações éticas em se tratando de estudos programados.”

Isso é verdade: não há testes em animais que apontem novos alergenos. Por isso o Codex Alimentarius estabeleceu um protocolo para avaliar novos alergenos e é ele quem vem sendo seguido. Quanto ao aumento das alergias à soja ou milho, se existe pode ter várias causas, mas uma alergia específica às proteínas EPSPS, Cry (várias), VIP, Bar, etc., nunca foi demonstrada (e muito menos uma alergia cada vez mais comum), embora seja muito simples o teste. Por que? Porque simplesmente não existe.

Ainda conforme documento do IRT, culturas OGMs podem criar novas alergias.
Em 2010, o Dr. Michael Hansen, PhD em impactos da biotecnologia na agricultura e cientista sênior da Consumers Union, ao participar  de evento sobre transgênicos, em São Paulo, comentou que, no início de sua utilização, os transgênicos ocasionaram redução no uso de agrotóxicos. Porém, gradativamente, esse uso passou a duplicar.

O aumento de agrotóxicos, se existir, é só para herbicidas. O consumo de inseticidas reduziu muito desde a adoção das plantas Bt. Toda informação deste IFT é suspeitíssima, por princípio.


O glifosato, princípio ativo do herbicida Roundup Ready (RR), da Monsanto, possui forte relação com prejuízos à saúde humana como reprodução indevida de células, aumento nas taxas de abortos espontâneos, má formação fetal e manifestações imunitárias como alergias alimentares.

Todo pesticida é tóxico, mas o glifosato é dos menos tóxicos entre os herbicidas e por isso as plantas transgênicas foram feitas tolerantes a eles. A oposição ferrenha ao glifosato tem uma razão bem clara: ele é originalmente da Monsanto, a personificação empresarial do capeta na Terra... Quem vende a ideia de que o glifosato é muito perigoso não sabe nada de toxicologia.

Atenção!
Transgênicos na alimentação dos bebês e crianças menores:
Atualmente, além de muitos corantes, açúcar, xarope de milho ou outro adoçante artificial, a maioria das farinhas engrossantes para bebês e produtos lácteos, incluso  certas marcas de leite em pó, possuem transgênicos em suas composições, sem qualquer declaração nos rótulos.

Não é bem assim: vários destes produtos (por exemplo, a Maizena) já têm rotulo. Já o leite em pó, se não contiver adição de soja, é tão transgênico quanto um canguru.
Mulheres que amamentam, especialmente alérgicos, devem observar também a ingestão de carnes e ovos quando frente a alguma reação do lactente.
Fontes bibliográficas

Só a citação grifada em verde provem de uma revista científica, o resto é especulação das OGNs e institutos contra a biotecnologia agrícola (Greenpeace, Idec, etc.) ou blogs e revistas populares.O assunto da referência em verde é importante, mas não existe uma planta do jeito que ele estudou no mercado hoje.

Influência sobre CTNBio é trunfo das gigantes da transgenia
Comissão responsável por liberar pesquisa, produção e comercialização de transgênicos no Brasil é integrada por cientistas ligados às empresas do setor. Disponível em: Repórter Brasil.
Legalizados há 10 anos, transgênicos vivem apoteose
Lei 10.688/2003, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, impulsionou o mercado dos transgênicos, lavouras de soja e devastação da Amazônia para plantio.
Dossiê Transgênicos: os dois lados da moeda. Revista Galileu. Editora Globo.++++

Por fim, comento algumas das severas críticas que o autor (ou autora) do texto acima fez a mim e à CTNBio.

Em primeiro lugar, senhor professor “que possui um site em que apoia incondicionalmente os transgênicos”, basta consultar as fontes do artigo para ver que tudo está sendo pesquisado e estudado por cientistas que não possuem o rabo preso com empresa alguma, e trabalham em busca do que realmente pode ser útil e bom para o progresso da humanidade.

Não existe esta história de “rabo preso”: ou o artigo tem qualidade e os dados podem ser repetidos e serão confirmados e estendidos outros autores, ou a coisa não presta. No caso dos resultados de Séralini e de uns poucos outros que enxergam problemas enormes nos transgênicos, o que falta é método científico nos seus experimentos e isso nada tem a ver com serem independentes ou não. Aliás, para conhecimento do público, o Séralini é amplamente subsidiado pelos grandes supermercados europeus que não vendem transgênicos e por um laboratório que produz “detoxificantes” contra... transgênicos. Vai ter o rabo preso lá na China!


Em segundo lugar, ao colocar que “… dizendo que a soja é um dos principais alergenos na infância. De onde o autor arrancou isso? Está inteiramente equivocado.”
Respondo:
De inúmeros artigos nacionais e internacionais que podem ser acessados pelo senhor através da internet, se desejar, ou livros.
O fato de o senhor desconhecer o assunto não o torna um equivoco. O equivoco está na sua falta de conhecimento sobre o assunto. Entre os inúmeros estudos sobre o tema sugiro que leia esse:
Documento conjunto elaborado pela Sociedade Brasileira de Pediatria e Associação Brasileira de Alergia e Imunopatolia:
A alergia alimentar é mais comum em crianças. Estima-se que a prevalência seja aproximadamente de 6% em menores de três anos e de 3,5% em adultos e estes valores parecem estar aumentando(…) 
São identificados como principais alérgenos responsáveis pela alergia alimentar em crianças: o leite de vaca, o ovo, o trigo, omilho, o amendoim, a soja, os peixes e os frutos do mar. 
Leia completo com quadro e maiores explicações no link acima.
A leitura atenta do documento de consenso, de 2007, citado (http://www.crn2.org.br/pdf/artigos/artigos1285071282.pdf), mostra o que se sabe: a soja tem alergenos. Mas o fato dela estar na tabela em nada indica que ela é uma das fontes de alergenos mais importantes. De forma alguma! Ovo, leite, amendoim, castanhas, corantes, crustáceos, kiwi, e muitos outros vêm na frente, dependendo do lugar no Brasil, grupo de consumidores, etc.. Mas esta questão não é relevante: o ponto é que dos alergenos da soja (Globulinas, 7S: β-conglicina, β-amilase, Lipoxigenase, Lecitina, 11S: glicinina, Proteínas do soro, hemaglutinina, Inibidor de tripsina, uréase) nenhum é mais produzido nas sojas transgênicas do que nas convencionais e as novas proteínas que elas contêm não são alergênicas. O mesmo vale, aliás, para o milho, a canola, o algodão, etc. Ponto.


O senhor não possui base cientifica para afirmar em caps lock e refutar nada do que foi pesquisado e publicado no exterior sobre a contaminação cruzada em transgênicos.
Que diabos é contaminação cruzada de transgênicos? Se é a presença de novos alergenos em alimentos, pela expressão de novas proteínas, a resposta é: esta coisa não existe, porque as novas proteínas não são alergênicas (são rapidamente degradadas no fluido digestivo e não têm semelhança de sequência com qualquer alergeno conhecido nos bancos de dados). Quem parece não possuir formação científica suficiente para entender isso (ou lhe falta vontade) é o autor das críticas a mim.

O número de alergias múltiplas vem aumentando significativamente, nos últimos anos, em paralelo ao aumento do comércio de transgênicos, no mundo todo.
O senhor pode espernear quanto quiser, pois a verdade aparece quando tiver que aparecer.

O número de alergias múltiplas também aumenta com o aumento das refeições feitas fora de casa, com o consumo de orgânicos e com um mundo de outras coisas, com coeficientes de correlação tão bons quanto com o consumo de transgênicos. A causa deste aumento é múltipla e, provavelmente, os transgênicos nada têm a ver com isso porque não existe um mecanismo causal provável (já comentei antes que as proteínas novas expressas pelos transgênicos não parecem ser alergenos e que os alergenos conhecidos das plantas convencionais não estão em maior concentração nas plantas transgênicas, tudo isso é muito bem conhecido). Imaginar que uma simples correlação estatística tosca, como esta, tem um significado importante é desconhecer o método cientifico.

Infelizmente, em alguns momentos da história, um pouco tarde, e à custa da vida de milhares ou milhões de pessoas. Seja mais responsável. Desserviço é o senhor afirmar algo apenas sustentado por sua falta de conhecimento mais profundo sobre o assunto (alergias, transgênicos, etc.).
E, ademais, é importante que além de consciência tenhamos também o mínimo de conhecimento sobre a politicagem que rodeia a defesa de transgênicos no Brasil. Mesmo sabendo que está tudo mais dominado do que gostaríamos.
Quero acreditar que quando afirma que não há maior utilização de agrotóxicos, e que não há riscos de toxicidade das plantas, seja apenas por falta de informações.
O uso de agrotóxicos não implica que eles vão estar presentes no grão, na fruta, no legume ou na verdura que vão ser vendidos. Ou pelo menos, não implica que estes produtos tenham concentrações acima do admitido pelas leis do país. Se o agricultor seguir as recomendações, seu produto será saudável. A maior parte dos casos de contaminação vem da pequena agricultura e da agricultura familiar e nada tem a ver com o agronegócio dos transgênicos.

Veja esse também:
O Ministério Público Federal tem questionado as decisões da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) em relação ao método utilizado pela Comissão na liberação de produtos transgênicos.

O principal foco do MPF está nos produtos que utilzam o agente 2,4-D – ingrediente do “agente laranja”, desfolhante usado pelo exército americano na Guerra do Vietnã. 

De acordo com o procurador da República Anselmo Henrique Cordeiro Lopes, a frente deste processo, é preciso que haja uma participação maior das sociedade civil no debate da liberação de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs).
31/10/2013

O Anselmo tem boa intenção, mas ouve demais as informações da AS-PTA, do MST e de outras organizações que, por motivos políticos e ideológicos, são contra os transgênicos. Como o procurador não tem muito trânsito em genética, biologia molecular, epidemiologia e coisas assim fica refém das tolices que lhe são trazidas por alguns “cientistas”. Quanto à relação entre o 2,4-D e o famigerado Agente laranja, sugiro a leitura atenta de http://genpeace.blogspot.com.br/2014/12/10-anos-de-transgenicos-no-brasil.html. Aliás, nesta postagem comento outras afirmações errôneas deste texto acima e das críticas de seu (sua) autor(a).
Comissão responsável por liberar pesquisa, produção e comercialização de transgênicos no Brasil é integrada por muitos cientistas ligados às empresas do setor

É muito fácil para qualquer um que se esconde por trás do anonimato acusar os membros da CTNBio de terem ligações com empresas. Mas o fato é que a maioria esmagadora lá é de professores, cujo salário vem do governo e cujas verbas de pesquisa vêm dos órgãos oficiais de financiamento, O resto é lenda e fuxico, que desrespeita os cientistas excelentes que lutam para avaliar os riscos dos OGMs na Comissão, levando cacete de uma oposição carente de formação científica e, em alguns casos, de caráter.

Contra fatos, não há argumentos.
Como mostrei, não há fato algum, só besteirol.


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Depois de um segundo comentário do autor (ou autora) do texto que critiquei, posto as referências mais novas sobre o assunto que, na verdade, está em grande parte esgotado.

Ladics GS, Fry J, Goodman R, Herouet-Guicheney C, Hoffmann-Sommergruber K, Madsen CB, Penninks A, Pomés A, Roggen EL, Smit J, Wal JM.
Clin Transl Allergy. 2014 Apr 15;4(1):13. doi: 10.1186/2045-7022-4-13.

Goodman RE, Panda R, Ariyarathna H.
J Agric Food Chem. 2013 Sep 4;61(35):8317-32. doi: 10.1021/jf400952y. Epub 2013 Jul 25. Review.

Panda R, Ariyarathna H, Amnuaycheewa P, Tetteh A, Pramod SN, Taylor SL, Ballmer-Weber BK, Goodman RE.
Allergy. 2013 Feb;68(2):142-51. doi: 10.1111/all.12076. Epub 2012 Dec 4. Review.

Wang J, Yu Y, Zhao Y, Zhang D, Li J.
BMC Bioinformatics. 2013;14 Suppl 4:S1. doi: 10.1186/1471-2105-14-S4-S1. Epub 2013 Mar 8.

Young GJ, Zhang S, Mirsky HP, Cressman RF, Cong B, Ladics GS, Zhong CX.
Food Chem Toxicol. 2012 Oct;50(10):3741-51. doi: 10.1016/j.fct.2012.07.044. Epub 2012 Jul 31

Herman RA, Ladics GS.
Food Chem Toxicol. 2011 Oct;49(10):2667-9. doi: 10.1016/j.fct.2011.07.018. Epub 2011 Jul 19

Herman EM, Burks AW.
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