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domingo, 8 de março de 2015

Agrotóxicos: tamanho real do problema e não-relação com os transgênicos

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Revi este texto logo após a invasão da CTNBio pelo MST. Na ocasião os manifestantes repetiram inúmeras vezes que os transgênicos eram os culpados pelo aumento dos agrotóxicos e que os agrotóxicos estavam envenenando os trabalhadores e nossa comida. Ora, o texto abaixo, escrito em 2012, revia justamente a questão dos agrotóxicos e dos casos de intoxicação, com base nos dados do Sinitox (Fiocruz) e não apenas com base no que se escuta por aí. O resultado é surpreendente: os agrotóxicos têm um impacto muito pequeno na saúde do trabalhador e muito menor ainda, na do consumidor. Aliás, era de se esperar, uma vez que há um controle relativamente rígido no emprego destes produtos e que os mais empregados são relativamente seguros. Assim, a maioria esmagadora dos casos de intoxicação provém de erros no uso (acidentes individuais) e tentativas de suicídio (estas são 30 % dos casos notificados). Um número ínfimo (em geral rondando 10 casos por ano) é de intoxicação alimentar. Ainda assim, muito provavelmente por produtos que não envolvem transgênicos, uma vez que a maior parte dos alimentos encontrados com resíduos de agrotóxicos provem da pequena agricultura familiar. A releitura do texto, no rescaldo das invasões do MST, é importante demais.
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Recentemente o Valor Econômico (23/02/2012) publicou texto de José Agenor Alves da Silva, diretor da ANVISA, sobre o trabalho daquela agência no rastreamento de resíduos de agrotóxicos em alimentos e as dificuldades que a agência tem enfrentado na aceitação de seus resultados, tendo sido desafiada em sua credibilidade por alguns setores da sociedade (http://www.valor.com.br/opiniao/2538528/agrotoxico-pimentao-e-suco-de-laranja). Não podemos aqui discutir esta questão, que ultrapassa em muito os objetivos deste fórum, mas queremos ressaltar que a incidência de intoxicações alimentares devidas a agrotóxicos no Brasil está grosseiramente exagerada pela mídia e por alguns órgãos de governo. Isso tem também relação direta com as plantas transgênicas, falsamente acusadas de ser fonte de intoxicação por agrotóxicos, o que é uma tremenda inverdade, como se verá mais abaixo.
Se é certo que o Brasil consume uma imensa quantidade de agrotóxicos, é certo também que exporta um volume enorme de produtos agrícolas para todas as partes do mundo, com raríssimos casos de problemas relacionados a resíduos de agrotóxicos. A razão disso é que o grande produtor tem um controle rígido do uso de agrotóxicos, que não apenas representam para ele custos, mas são uma fonte de problemas pós-colheita caso resíduos acima do permitido permaneçam no produto. Isso é válido tanto para produtos de exportação como para o mercado interno, que é fiscalizado, inclusive pela ANVISA. O resultado é que os alimentos industrializados de origem vegetal raramente contem resíduos de agrotóxicos acima do permitido.
Poder-se-ia argumentar que o ideal é resíduo zero. Ora, a própria natureza se encarrega de produzir um sem número de diferentes toxinas, muitas delas análogas aos agrotóxicos, que estão em nossos alimentos sempre. Além disso, como é sabido desde Paracelso, faz quatro séculos, a dose é o que importa. Pode haver, em alguns casos, uma bioacumulação no consumidor final, mas isso só ocorre com alguns agrotóxicos que são, por isso mesmo, muito controlados. O uso bem feito dos agrotóxicos tem permitido ao Brasil ganhar um enorme espaço na exportação de grãos, ao mesmo tempo oferecendo aos brasileiros alimentos de qualidade por preço altamente competitivo.
Assim, é pouco provável que o grosso dos alimentos consumidos pelos brasileiros chegue ao mercado contaminado. Além disso, ao contrário do que afirma o diretor da ANVISA, a linha que separa os efeitos benéficos de eliminar uma praga e os efeitos maléficos, que podem levar um ser humano à morte, não tem nada de tênue. Os mecanismos de ação podem ser muito diferentes e, sobretudo, a dose de agrotóxico que chega a ser ingerida num alimento é muitas ordens de grandeza inferior àquelas observadas na lavoura. Com estas informações em mente, podemos analisar os dados que o país dispõe sobre intoxicação com agrotóxicos e sobre a parcela destes casos que é devida à ingestão de alimentos contaminados com agrotóxicos agrícolas.
O acesso online ao SINAN permite gerar várias tabelas, entre elas esta, para 2006, Não há registro no banco de anos posteriores, embora haja um relato em pdf que está discutido mais abaixo.


Uma breve análise mostra que, dos pouco mais de 3000 casos registrados em 2006, 33% foram tentativas de suicídio, a maior causa percentual de intoxicação com agrotóxicos. Em seguida, outros 30% são devidos a acidentes de trabalho, totalizando quase 1000 casos. Há 15% de casos sem identificação de circunstância. Outros 15% são devidos à acidentes.O que salta à vista é que apenas 43 casos foram atribuídos à contaminação de alimentos, embora não esteja discriminada a origem deles (se diretamente da lavoura ou de revenda, se de pequeno proprietário ou agroindústria, nem o tipo de alimento).
Assim, o número absoluto de casos é muito reduzido e as causas da contaminação alimentar são difíceis de avaliar. No total de casos, elas representam apenas 1,2% dos casos notificados. Uma análise da distribuição geográfica mostra que os casos estão espalhados por alguns estados, sem correlação óbvia com o plantio de transgênicos.
Apesar de suas deficiências conhecidas (subnotificação, viés do notificador, etc,), o SINAN é confiável e abrange todo o país. Uma estimativa precisa dos casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos está fora dos objetivos deste artigo. O que se que ressaltar aqui é a pequena relevância  percentual dos casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos (em torno de 1%) quando comparada às causas maiores (acidentes, ocupação, suicídio, etc.). Deve-se lembrar aqui que o SINITOX registra quase 10 vezes mais casos de intoxicação por alimentos devidos ao próprio estado de conservação dos alimentos do que por contaminação por resíduos de agrotóxicos.

Em um documento da SVS-MS (http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/af_III_informe_agrotoxicos_09.pdf), as mesmas informações acima podem ser apreciadas para 2008. O cenário não muda significativamente (os casos que interessam aqui são da coluna C9):



Para 2007, o SINITOX registra apenas 12 casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos para todo o país. Ainda que o total anual de casos no Brasil de intoxicação alimentar por agrotóxicos totalizasse 100, suas causas podem ser as mais diversas, assim como a origem destes produtos. Não há dúvida que a intoxicação de trabalhadores e por acidentes é um sério problema, assim como o uso destes produtos em tentativas de suicídio, mas não há qualquer base para se atribuir aos transgênicos a pecha de levar à boca do consumidor os agrotóxicos usados na lavoura. Até porque dos alimentos onde se detecta ocasionalmente níveis de pesticidas acima do permitido por lei não faz parte nem milho nem soja, as únicas plantas transgênicas consumidas como alimento no Brasil (do algodão, terceira planta transgênica, só se consome o óleo, que é um produto purificado e não contem pesticidas nem proteínas recombinantes expressas pela planta geneticamente modificada). De fato, a ANVISA monitorou  dezoito  alimentos: abacaxi, alface,  arroz, batata, beterraba, cebola, cenoura, couve, feijão, laranja, maçã, mamão, manga, morango, pepino, pimentão, repolho e tomate. A escolha das culturas baseou-se nos dados de consumo obtidos pelo  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na disponibilidade destes alimentos nos supermercados das diferentes  unidades da Federação e no uso intensivo de agrotóxicos nestas culturas. De acordo com a própria ANVISA, no texto produzido pelo programa PARA, análise dos dados do Censo Agropecuário  do IBGE de 2006 mostra alguns fatores  que  potencializam o risco de uso inadequado dos  agrotóxicos e  a contaminação dos alimentos:
• 785 mil estabelecimentos (56,3% daqueles onde houve utilização de agrotóxicos) não receberam orientação  agronômica.  Das propriedades que receberam assistência (172 mil), 76,7% usam agrotóxicos.
• Quase 85% da mão de obra agrícola se encontram nas pequenas  propriedades, e mais de 80% dos  proprietários rurais  e 37,5% dos trabalhadores com laços de parentesco com  eles é analfabeta ou sabe ler e escrever, mas não tem escolarização formal ou apenas o ensino fundamental incompleto.
Isso é especialmente válido para os produtores dos itens agrícolas que foram avaliados pelo PARA, mas não se aplica de uma forma geral aos produtores de plantas transgênicas, que tem um domínio técnico muito mais elevado. Não se está aqui afirmando que o problema da contaminação dos alimentos com agrotóxicos está restrito à pequena agricultura e à agricultura familiar, mas que ele é certamente de muito menor proporção na agroindústria. Efetivamente, não há qualquer dado que indique contaminação de agrotóxicos em soja e milho, nem razão técnica para isso, e muito menos no caso destes cultivos, quando transgênicos.

Concluímos que, na questão de intoxicação alimentar por agrotóxicos, há muito barulho por pouco. E, especificamente para a participação das plantas transgênicas nisso, há certamente muito barulho por nada. A quem interessa manter esta mentira rolando na mídia?

Atualização

A consulta ao Sinitox para 2012 (dado mais recente) não muda o cenário descrito com base no relatório anterior (1998-2007). Observemos as tabelas:


Tabela das intoxicações em 2012 (Sinitox, apenas as 3 primeiras entradas)

Agente
Vítima humana
Vítima animal
Informação
Total
% do total de intoxicações no país em 2012
Medicamentos
24029
132
627
24788
27,62
Agrotóxicos/Uso Agrícola
3937
76
98
4111
4,58
Agrotóxicos/Uso Doméstico
1843
144
118
2105
2,35

A tabela 10 (http://www.fiocruz.br/sinitox/media/tabela%2010_2012.pdf) mostra que houve cerca de 100 óbitos e 22 sequelas associadas aos agrotóxicos. Não são poucos óbitos. mas que circunstâncias estavam envolvidas nestes casos? É extremamente instrutiva a inspeção da Tabela 6 (http://www.fiocruz.br/sinitox/media/tabela%206_2012.pdf) :  dos  quase 3000 casos de intoxicação, apenas 7 foram por ingestão de alimentos. Ainda assim, não se sabe em que condições exatas. A maioria esmagadora foi a soma de casos individuais e tentativas de suicídio. Estas últimas são justamente as circunstâncias que levam à maior parte dos casos com  sequelas ou de morte.

Além disso, e não menos importante, já no início da década de 90 os casos de intoxicação aguda com agrotóxicos de uso agrícola chegavam a mais de 3.000 por ano (http://www.fiocruz.br/sinitox_novo/media/artigo1.pdf), número quase igual ao de hoje (consulte http://www.fiocruz.br/sinitox/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=8 para os vários anos). Isso parece surpreendente, sobretudo tendo em vista o enorme aumento no uso de agrotóxicos no campo, sobretudo nos últimos 5 anos. Por que o número de casos não explodiu? A explicação é simples e cristalina, mas choca o público e vou deixar ao leitor a tarefa de encontrá-la.

Conclusão de março de 2015

As palavras de ordem do MST sobre os danos dos agrotóxicos à nossa comida carecem de base nos dados levantados pelas autoridades do país. É certo que deve haver uma certa sub-notificação e que casos de intoxicação crônica por ingestão de alimentos contaminados podem existir (http://www.scielo.br/pdf/csc/v12n1/04.pdf), mas provavelmente são poucos ou fatalmente já teriam  surgido e empurrado o país a tomar as medidas cabíveis. Afinal, os médicos estão alertas e há procedimentos específicos para a avaliação de intoxicações crônicas por agrotóxicos, cujos sinais e sintomas são bem conhecidos (ver caixa abaixo)

INTOXICAÇÃO POR AGROTÓXICO A intoxicação crônica caracteriza-se pelo surgimento tardio, após meses ou anos, por exposição pequena ou moderada a produtos tóxicos ou a múltiplos produtos, acarretando danos muitas vezes irreversíveis nos indivíduos expostos. Segundo o Protocolo de Atenção à Saúde dos Trabalhadores Expostos a Agrotóxicos, elaborado pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2006), as patologias relacionados à intoxicação crônica por agrotóxicos podem ser neoplasias, como mieloma múltiplo e leucemias; anemia aplástica; transtornos mentais, como alterações cognitivas e episódios depressivos; doenças do sistema nervoso como distúrbios do movimento, polineuropatias e encefalopatia tóxica; oculares, como neurite óptica e distúrbios da visão e ainda auditivas, circulatórias, respiratórias, digestivas e dermatológicas.

Então, só posso reforçar o que disse antes, faz quase três anos: a espalhafatosa ligação entre os transgênicos e as intoxicações com agrotóxicos, sobretudo nos alimentos, é pura e simples mentira. Que continua sendo repetida, com enorme sucesso, por várias organizações sociais e pela internet, para imenso prejuízo do entendimento do problema.

Leituras recomendadas:

Resultados de campo sobre uso de agrotóxicos por pequenos produtores: muito elucidativo: http://www.ecodebate.com.br/2012/02/23/pequenos-produtores-estao-cientes-de-riscos-dos-agrotoxicos/
Neice Müller Xavier Faria,  Anaclaudia Gastal Fassa e Luiz Augusto Facchini - Intoxicação por agrotóxicos no Brasil: os sistemas oficiais de informação e desafios para realização de estudos epidemiológicos. Ciência & Saúde Coletiva, 12(1):25-38, 2007 (http://www.scielo.br/pdf/csc/v12n1/04.pdf)


Leia também:

sexta-feira, 6 de março de 2015

SBPC repudia invasão e agressão à CTNBio - MCT se posiciona

Em manifesto entidade afirma que ato representa uma ameaça ao estado de direito. Posição do MCTI ao final do texto

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) considera inaceitável e repudia veementemente a invasão ocorrida ontem (dia 5 de março de 2015) na reunião da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) em Brasília. Mais ainda, os atos de agressão e ameaças contra os pesquisadores que analisavam processos em andamento, inclusive de nova modalidade de eucalipto transgênico, ferem o estado de direito e representam a expressão mais atrasada de posicionamentos baseados em ideologias políticas ao arrepio do conhecimento científico.

Ao mesmo tempo mulheres ligadas ao mesmo movimento invadiram e depredaram instalações da empresa FuturaGene, em Itapetininga (SP), destruindo plantas e equipamentos que representam mais de 14 anos de pesquisa da modalidade transgênica de eucalipto. Entendemos que esse também foi um ato inadmissível contra o qual protestamos. 

A SBPC conclama o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) a tomar todas as medidas cabíveis para garantir a integridade física e moral dos pesquisadores membros do CTNBio, de modo que possam dar continuidade ao trabalho de extrema relevância para o desenvolvimento científico e tecnológico do País. Entendemos que debates e posicionamentos contrários a quaisquer projetos são válidos e necessários, porém quando se chega ao ponto de empregar atos de vandalismo como argumento, rompe-se o diálogo, tornando-se imperativo reestabelecer a convivência e o respeito mútuo. 

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência


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texto original em 
http://www.sbpcnet.org.br/site/noticias/materias/detalhe.php?id=3766

Ainda que possa compreender que as invasões fazem parte de um ativismo mais agressivo e que podem, em muitos casos, ser justificadas, e ainda que se possa de forma geral simpatizar e até apoiar um movimento que luta por uma distribuição mais justa de terras, isso não valida automaticamente qualquer ação das entidades que levam esta bandeira. No caso específico do MST e sua oposição aos transgênicos, o que se vê é uma extrapolação grave de sua missão original, que era lutar pela melhor distribuição de terras. Ser contra os transgênicos sem ser contra absolutamente todo o agronegócio é absurdo e vender a luta contra os transgênicos como se fosse a mais refinada forma de luta contra o modelo do agronegócio é vender uma mentira deslavada. (GenPeace)

Para comentários e fotos da invasão, veja 

Para uma avaliação de risco do eucalipto transgênico, veja 
http://genpeace.blogspot.com.br/2015/02/avaliacao-de-risco-do-eucalipto.html

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Posição do MCTI: http://www.mcti.gov.br/noticias/-/asset_publisher/IqV53KMvD5rY/content/mcti-responde-em-nota-a-preocupacao-da-sbpc
À Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC),
Em relação à nota divulgada por essa entidade manifestando preocupação com a integridade física e moral dos pesquisadores membros da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que tiveram que suspender a reunião que realizavam em Brasília, no último dia 5, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) informa que está empenhado na defesa de todos os integrantes da CTNBio e de seus servidores. A garantia de condições e ambiente de trabalho seguros para pesquisadores e demais servidores do MCTI é condição essencial para o avanço da ciência, tecnologia, inovação e do desenvolvimento, com inclusão social, de nosso País. As medidas cabíveis para garantir esse objetivo estão sendo tomadas.
Veja aqui a íntegra da nota divulgada pela SBPC.

Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação 



quinta-feira, 5 de março de 2015

Aprovado o milho tolerante ao herbicida 2,4-D e a determinados inibidores da acetil coenzima DAS-40278-9

No dia 05 de março de 2015, após a leitura do parecer de pedido de vistas, elaborado e lido pelo Dr. Rubens Nodari, seguiu-se a discussão dos vários pareceres e a votação na CTNBio. Foram dois votos contrários,  uma abstenção e dezenove votos pela aprovação.


Assim, e como manda a lei, a decisão será suspensa por 30 dias, aguardando o posicionamento do CNBS. A maior probabilidade é de que o Conselho não se pronuncie, seguindo o pedido de registro do produto para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.



Detalhes da pauta:
Pedido de Vistas (Dr. Rubens Nodari) - Dow AgroSciences Sementes & Biotecnologia Brasil Ltda. Processo nº.
01200.000124/2012-43. (Atendimento à Diligência) Liberação comercial de milho geneticamente modificado que
confere tolerância ao herbicida 2,4-D e a determinados inibidores da acetil coenzima DAS-40278-9; Protocolado em:
13/01/2012; Próton 1507/12; Extrato Prévio: 3190/2012, publicado em 21/05/2012; Relatores SSP Humana/Animal
(APROVADO EM ABRIL/2013): Drs. Heidge Fukumasu* e Mário Hiroyuki Hirata; Relatores SSP
Vegetal/Ambiental (APROVADO EM FEVEREIRO/2015): Drª. Maria Helena Zanettini, Dr. Leonardo Melgarejo

e Dr. Jesus Ferro. Assessoria: Marcos Bertozo (Veg/Amb) e Rubens José (Hum/Ani);

segunda-feira, 2 de março de 2015

Entidades trazem à CTNBio denúncia sobre supostos perigos do eucalipto transgênico: crítica à inconsistência da análise

Caros leitores

Como de hábito, às vésperas das votações importantes da CTNBio as redes sociais abarrotam-se de manifestos e cartas contra uma provável decisão de liberação comercial que se aproxima.

Agora é o caso da liberação do eucalipto transgênico e de um milho tolerante ao herbicida 2,4-D: um novo manifesto, liberado pelas indefectíveis Via Campesina, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), tendo por companhia a Associação de Agricultura Orgânica (AAO), vem se manifestar contra o eucalipto e o milho. Para o milho não há novidade alguma na avaliação de risco: a CTNBio já tem uma imensa experiência com os milhos anteriores e a diferença aqui é a tecnologia associada (isto é, outros herbicidas). O uso dos herbicidas NÃO É DA ALÇADA da CTNBio, mas sim do MAPA, o que invalida toda e qualquer discussão sobre o tema agora. Ele pode ser retomado quando da aprovação do produto pelo MAPA.


Quanto ao eucalipto, as argumentações no texto da própria carta e num segundo texto, linkado ao final da carta (http://www.mst.org.br/2015/03/02/entidades-escrevem-manifesto-contra-a-liberacao-de-eucalipto-transgenico-na-ctnbio.html) não trazem um único grama de novidade: todos os perigos foram tratados pela CTNBio, mesmo aqueles que não são ligados ao impacto direto do eucalipto transgênico na saúde ou no ambiente. Na maioria, os perigos estão sustentados por argumentos fantasiosos e são, eles mesmos, pura fantasia. Para constatar que os perigos foram cuidadosamente avaliados (se inerentes ao transgênico) ou ao menos discutidos (se inerentes à tecnologia) na CTNBio, está disponível uma avaliação de risco semelhante à feita pela Comissão: http://genpeace.blogspot.com.br/2015/02/avaliacao-de-risco-do-eucalipto.html. Ela segue a ciência e a forma internacional de classificar riscos, descartando perigos imaginários. Se desejarem, há também uma réplica à carta inicial que disparou a recente onda de postagens: http://genpeace.blogspot.com.br/2015/02/replica-carta-aos-ministerios.html

O curioso é que, até agora, não há novas manifestações de entidades nacionais de apicultores e nunca houve qualquer manifestação por parte dos grandes exportadores de mel e outros produtos apícolas...

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

10 anos de transgênicos no Brasil: a história como ela é

O texto abaixo foi elaborado como réplica a uma entrevista do ano de 2013 à Revista do IDEC. Na ocasião já havíamos feito comentários rápidos, que estão no blog neste link.

Moldando a percepção de risco dos brasileiros

Sempre que uma nova tecnologia surge no mercado há duas ondas que se propagam em sentidos contrários no meio midiático: uma que apresenta a tecnologia como uma nova maravilha que todos consumirão sem problemas e a outra que procura demonstrar o lado diabólico da novidade, que fatalmente levará os consumidores e o país ao Armaggedon. As antenas (ou os osciladores) que propagam estas ondas estão bem sintonizadas como as agendas dos grupos que representam e, mais ainda,  o framing (o tom ou a apresentação) das informações é absolutamente coerente com os objetivos das agendas. Muito bem, não se espera outra coisa de uma sociedade onde o debate é a tônica, mas a polarização do tratamento do assunto leva a graves distorções na forma como o conhecimento dobre o assunto é repassado ao público. No final, é um debate que pouco contribui para o aprofundamento das questões e o público acaba boiando neste mar turbulento da mídia, sem poder tomar um rumo consciente.

No caso dos transgênicos, a antena da oposição à tecnologia é muitas vezes mais poderosa do que a sua defensora e usa um framing muito mais adequado à sensibilização popular.  O resultado é que a percepção pública vai sendo construída com base no temor e nas suspeitas levantadas pela mídia, com pouco ou nenhum espaço para informações que, se não defendem a tecnologia, pelo menos não a tratam como instrumento de dominação ou como obra direta de mentes malévolas que trabalham para produzir e fazer germinar sementes do mal.

Um exemplo completo da visão apocalíptica da biotecnologia agrícola foi apresentado um ano atrás pelo IDEC, que tem o chapéu de defensor dos consumidores e passa ao público a ideia de que ele está sendo traído pela CTNBio, pelos cientistas, pesquisadores, professores, reguladores e toda esta ruma de profissionais “a serviço das forças do mal”. Vamos esquecer esta visão distorcida e quase fascista que o instituto parece ter da maioria dos profissionais que discordam dele e prossigamos na análise do texto da Revista do IDEC: é uma entrevista com a Profa. Marijane Lisboa, atual membro da CTNBio e árdua opositora da biotecnologia agrícola. No sentido de fazer com que estes comentários sejam bem compreendidos pelo público, vamos usar o mesmo framing e uma linguagem semelhante àquela que aparece nos portais de oposição à biotecnologia.

Como tudo começou

Em 1992 lá nos EUA várias empresas já estavam com plantas transgênicas prontas para o mercado. O Brasil, como grande mercado consumidor de sementes, tinha desde o início o potencial de usar a biotecnologia. Entendendo isso, o Governo Federal iniciou discussões sobre uma lei que estabelecesse o arcabouço regulatório de OGMs (ou transgênicos) no Brasil, resultando na primeira lei de biossegurança de transgênicos em 1995. Em 1997 a recém-criada CTNBio já estava avaliando a primeira soja transgênica a ser cultivada no Brasil e no dia 1 de janeiro de 1998 aprovou seu uso comercial (www.ctnbio.gov.br/upd_blob/0000/326.doc). Tudo estritamente dentro da lei e seguindo os princípios de avaliação de risco que vinham sendo sedimentados desde a reunião de Asilomar, lá na década de 70.  Mas logo em seguida o IDEC e o Greenpeace (este último sumiu do cenário de oposição aos transgênicos no Brasil, mas continua muito ativo em muitos países da América Latina e do Mundo que não adotaram a biotecnologia agrícola) conseguiram um embargo da liberação comercial na justiça.  Para uma cronologia deste embargo ler http://www.cnpso.embrapa.br/download/cronologia_sojarr.pdf .

Quase quatro anos depois o embargo foi suspenso porque a juíza entendeu corretamente que a CTNBio havia provado com sua avaliação serem os riscos desta soja insignificantes à saúde ou ao ambiente. Mas neste meio tempo, de olho no sucesso que a soja transgênica vinha fazendo na Argentina, os agricultores do sul do Brasil (a região produtora de soja naquela ocasião) começaram a contrabandear soja para plantar no Brasil. A produção de soja GM em 1998 foi pequena, mas cresceu em 1999 e mais ainda nos anos seguintes, enquanto o Governo se debatia com os processos movidos pelas entidades “ambientalistas” e até por outros órgãos de governo, tentando impedir a liberação comercial da soja. Este embate jurídico foi fruto de uma lei confusa que não determinava claramente atribuições.

Então, é evidente que  a adoção das plantas transgênicas começo certinho dentro da lei, mas foi logo atrapalhada por  processos jurídicos que exploravam as debilidades da primeira lei, processos estes movidos exatamente pelos que se dizem defensores do ambiente. Com isso acabaram por fomentar o contrabando e os plantios iniciais foram feitos sem qualquer controle dos órgãos de fiscalização. Uma chacrinha.

Contando o caso como o caso foi, fica evidente que a história trazida pela entrevistada do IDEC, a Marijane Lisboa,  está profundamente equivocada quando relata que as plantas transgênicas  “foram introduzidas  no país sem ter havido  qualquer  avaliação dos  impactos  à  saúde e ao meio ambiente”:  como vimos, a CTNBio avaliou e liberou o produto com base  em extensos estudos dentro e fora do país. Num salto lógico, a entrevistada ainda conclui que a primeira aprovação da soja “mostra a inviabilidade  de  uma  política  de  biossegurança”. A única coisa que é inviável aqui é a conclusão dela...

Promessas dos transgênicos: quem fez e o que se cumpriu

Começamos esta postagem comentando como os grupos que se opõem aos transgênicos são bons comunicadores e como, em geral, são maus comunicadores os que desenvolvem a tecnologia, seja nos laboratórios públicos ou nas empresas, e também os reguladores.  Quando as plantas transgênicas começaram a aparecer no Mundo, muitas empresas e muitos cientistas bestamente venderam a ideia de que iam ser uma panaceia universal, que iam aumentar a produtividade e coisas assim. Também disseram que ia haver a adoção de uma agricultura de menor impacto e que os lucros dos agricultores seriam maiores, no que estavam certos, como se verá logo adiante.

No duro, as primeiras plantas transgênicas que chegaram ao Brasil forem desenhadas para reduzir o trabalho do agricultor no combate às ervas daninhas e diminuir as pulverizações de inseticidas. As suas coisas implicam em importantes reduções de custos e, em alguns casos, num pequeno aumento de produção. Estes benefícios são reais e a prova disso é a adoção MACIÇA das plantas transgênicas em todos os países que aprovaram a biotecnologia agrícola.

Além disso, as plantas tolerantes aos herbicidas permitiram uma adoção ampla da tecnologia de plantio direto, que dispensa o arado, poupa o solo, economiza água, combustível e mão de obra. Já as plantas resistentes a insetos derrubaram para menos de 20% o uso de inseticidas, o que leva a um impacto ambiental muito menor.  Estes benefícios (ambientais) e vantagens (ao agricultor, ao consumidor e ao produtor de sementes) são evidentes e só a miopia teimosa dos opositores impede que sejam identificados. Por isso, não surge como surpresa a frase de nossa entrevistada: “nesses 10 anos, vemos que tudo aquilo que foi dito a favor dos transgênicos não se cumpriu”...

Enfim, as promessas muito audaciosas foram logo reconhecidas pela comunidade cientifica e pelos agricultores como tolices (acabar com a fome no Mundo era uma delas...), mas havia ainda um bom número de promessas concretas que de fato se realizaram, como comentado acima. O que acontece hoje é que os grupos que se opõem à biotecnologia só comentam as promessas que não se cumpriram ou que eles acham que não se cumpriram e são absolutamente cegos aos benefícios e ganhos reais da tecnologia. Comportam-se, assim, como avestruzes.

O feijão (transgênico) nosso de cada dia

A EMBRAPA desenvolveu por quase uma década um feijão transgênico resistente ao vírus do mosaico dourado. A planta não é tolerante a herbicidas, nem resistente a insetos e nem mesmo produz qualquer nova proteína. Ela expressa apenas um RNA fita dupla que interfere na replicação do vírus, tornando a planta imune à virose. A avaliação dos riscos deste feijão para a saúde e para o ambiente foi amplamente discutida e, na verdade, foi das mais fáceis que a CTNBio fez até hoje, uma vez que a planta não tem parentes silvestres, não expressa qualquer proteína nova e se mostra idêntica em composição e em comportamento ao feijoeiro convencional, exceto pela resistência à virose (bch.cbd.int/database/attachment/?id=13795) . Na ocasião algumas pessoas levantaram dúvidas sobre a segurança de ingerir RNA fita dupla: ora, todos os dias ingerimos milhares destes RNAs, provenientes de nossa dieta variada, muitos deles essencialmente idênticos aos nossos e que poderiam até interferir com nosso metabolismo, não fosse o fato de que não existe via alguma pela qual isso seja possível.  Além disso, a sequência de RNA que é produzida pela construção genética do vírus da EMBRAPA não tem qualquer semelhança com genes humanos (http://genpeace.blogspot.com.br/2013/04/rota-ao-dano-pelo-rna-de-interferencia.html;  Avaliação de risco de OGMs obtidos por tecnologia de interferência de
RNA: sistemática da CTNBio e o caso do feijão Emprapa 5.1). Acertadamente, a CTNBio deliberou que não havia risco algum adicional deste feijoeiro GM.

Ao contrário, seguindo um caminho que nada tem a ver com avaliação de risco caso a caso, a entrevistada do IDEC afirma erradamente que deveriam ter sido feitos testes toxicológicos e, ainda, acha que deveriam ser de longa duração.  Para avaliar o que, se não há novas proteínas e o RNA dupla fita é prontamente degradado pelo cozimento? Além disso, juntando os dados fajutos do Séralini , obtidos com milho tolerante a glifosato, e a avaliação do feijão, a entrevistada junta óleo e água, numa mistura impossível, além de insistir num artigo pseudocientífico que já foi inúmeras vezes desmascarado por todos os fóruns sérios (ver http://genpeace.blogspot.com.br/2013/09/o-artigo-do-seralini-e-um-cavalo-morto.html).

O fato é que o feijão GM da EMBRAPA é tão seguro quanto o convencional e vai contribuir decisivamente para a segurança alimentar do brasileiro. Por que? Porque hoje perdemos 20 a 40% de nossa safra de feijão para a virose e precisamos importar feijão, um item da cesta básica. Nunca foi possível obter uma variedade melhorada de forma convencional que seja significativamente resistente ao vírus do mosaico dourado. O feijão transgênico da EMBRAPA resolve totalmente este problema. Espertamente, o IDEC esconde isso do consumidor e a entrevistada parece também desconhecer o “pormenor”.

Pesquisas “independentes” e conclusões erradas

Sempre que um assunto polêmico aparece, aparecem também alguns pesquisadores que conseguem publicar aqui e ali artigos que “mostram” problemas onde ninguém mais vê. O que representam estas vozes isoladas? O que são as vozes isoladas na ciência: quebra de paradigma ou desvio metodológico? O assunto foi detalhadamente destrinchado em outra postagem nossa e em essência podemos resumi-lo da seguinte forma: se os resultados foram obtidos com o uso de uma metodologia científica sólida, as conclusões são válidas, mas precisarão ser referendadas pelos pares para serem amplamente aceitas, sobretudo se forem controversas. Se, por outro lado, os resultados tiverem origem numa metodologia falha, violando as normas da pesquisa científica, só servem para a lata de lixo, nem sequer podendo servir de alerta. Toda e qualquer nova conclusão e, sobretudo, as quebras de paradigma, terão que ser apoiadas pela maioria. É assim que funciona a ciência, como se pode ler nas postagens Maioria e Reducionismo na CTNBio e Ciência, independência e voto.


Então, o que é a ciência “independente”? No caso dos transgênicos não é diferente daquilo que acontece com muitas outras áreas da tecnologia -  as vacinas, os aditivos alimentares, os celulares, os preservativos e por aí vai. Em todos estes casos há e haverá sempre alguns pesquisadores que, empregando uma metodologia que não é reconhecida como válida pelos pares (embora possa sê-lo pelo editor da revista), concluem sobre a existência de riscos que os demais não veem.  Os arautos da desgraça, de plantão em todas as áreas polêmicas, e seguindo o princípio de que uma grande desgraça é uma boa notícia, seguem empurrando como válidos os resultados obtidos de uma metodologia que viola a ciência. Que argumentos usam estes adeptos do Armaggedom permanente? A existência de cientistas “independentes”, que não são pagos, como supostamente todos os outros, pelos grandes interesses corporativos. Além da suposição ser um tremendo desrespeito aos milhões de pesquisadores do mundo todo, que ralam anos a fio para produzir resultados confiáveis, quase sempre pagos com verbas públicas ou de instituições sem fins lucrativos, ela propositalmente esquece que a qualidade dos trabalhos destes “independentes” é nula ou muito baixa e que seus resultados estão inteiramente isolados dos demais, sem uma relação causa efeito e sem reprodutibilidade, seja porque violam os princípios da ciência, seja porque não se baseiam numa hipótese cientificamente plausível.

Nossa entrevistada acredita nos cientistas “independentes”. Podemos dar um desconto porque sua área de atuação passa longe da biologia molecular, mas a compreensão dos princípios científicos e da forma como se faz ciência de verdade não pode deixar de estar na mente dos membros da CTNBio. Defender ciência “de mentirinha” em nome de uma ideologia qualquer é uma forçada de barra cruel.

Desde que começaram a ser comercializados, faz mais de 15 anos, os transgênicos vem sendo anunciados pelos “independentes” como a fonte de inevitáveis problemas de saúde. Acontece que, na prática e na ciência de verdade, nunca se viu nada disso: 100 bilhões de animais foram alimentados com rações a base de transgênicos, ingerindo muito mais destes produtos do que nós poderíamos fazer, e absolutamente nada foi visto (exceto as doideiras da Judy Carman, do Séralini e de mais uns 4 outros grupos “independentes”). O que conclui nossa entrevistada? “Os efeitos nunca vão aparecer assim, pois não há como identificar, na saúde das pessoas, aquilo que possa ser consequência só da introdução do alimento transgênico, a não ser que se faça uma pesquisa isoladamente. É possível que esteja havendo uma incidência maior de certas doenças, como alergias, câncer, doenças do sistema imunológico etc. Para comprovar, é preciso ter uma pesquisa específica, como essa que comentei [estudo francês]”. Muito melhor que o estudo francês, descartado do âmbito da ciência séria, é a constatação de que as proteínas transgênicas não fazem mal, resultante de centenas de outros estudos sérios e com boa metodologia.  É muito cômodo dizer que há efeitos nas populações humanas, mas que não vemos porque não há uma metodologia adequada: é quase um dogma religioso, contra o qual a ciência é, de fato, inteiramente impotente.

Avaliação de risco e impacto de herbicidas e outros pesticidas

Uma afirmativa que aparece com frequência na internet é a de que, quando se avalia os riscos de uma planta transgênica, deve-se embutir os riscos da tecnologia associada. Assim, quando a CTNBio avalia os riscos de um milho tolerante ao 2,4-D (um herbicida bastante empregado em muitas culturas não transgênicas no Brasil e no Mundo), deve avaliar os impactos do milho e também do herbicida. Ora, a coisa não funciona assim: no Mundo todo, a avaliação de risco de OGMs se debruça sobre os impactos diretos dele sobre o ambiente ou sobre a saúde.  Os avaliadores de risco de OGMs não avaliam a tecnologia associada, que cabe aos órgãos de fiscalização e registro. Assim, no Brasil, a CTNBio avalia o impacto direto do OGM e a AVISA, o IBAMA e o MAPA podem avaliar impactos de produtos associados à tecnologia, como herbicidas, por exemplo. Não cabe à CTNBio esta avaliação que, inclusive, lhe é vetada por lei. O que cabe à CTNBio está pormenorizadamente descrito em nosso blog na postagem  O que cabe à CTNBio e quais são seus procedimentos.

A entrevistada parece querer mudar a avaliação de risco de transgênicos, que está muito bem sedimentada no Brasil e no Mundo (ver http://genpeace.blogspot.com.br/2013/09/guia-para-avaliacao-do-risco-ambiental_687.html). Embora seja uma preocupação válida, o impacto dos herbicidas é assunto de outros órgãos e agências no Brasil.

O Agente Laranja, a Guerra do Vietnam e o herbicida 2,4-D

Ninguém pode negar o horror que foi a Guerra do Vietnam. Na ocasião, os militares americanos, a grande mídia e muitas outras fontes vendiam a ideia de que os vietnamitas eram uns monstros, que não davam valor à vida como nós, ocidentais, cristãos e...brancos.  Uma visita ao país agora nos fez descobrir que os vietnamitas são os brasileiros de olho puxado:  adoram conversar, são alegres, comilões, criativos e ligados num futebolzinho. Têm um tremendo orgulho do país deles, mas não dispensam as tecnologias desenvolvidas em nenhuma parte do Mundo: importam e adaptam os produtos americanos e acabaram de promulgar uma lei para os transgênicos extremamente sensata, que lhes permitirá adotar a biotecnologia agrícola muito rápido. O que isso tudo tem com o Agente Laranja?

Primeiro, o IDEC e a entrevistada confundem seriamente o Agente Laranja e o 2,4-D. Na Guerra do Vietnam o tal agente continha 2,4-D, que é um herbicida seguro, mas tinha outros produtos: um outro herbicida, o 2,4,5-T (em partes iguais ao 2,4-D) e, o que era pior, a 2,3,7,8-tetrachorodibenzodioxina (TCDD), extremamente tóxica e que vinha como contaminante do...2,4,5-T!!!. Como o agente foi empregado numa guerra imbecil e injusta, ninguém se preocupava com isso. Os terríveis efeitos que este agente causou nada têm a ver com o 2,4-D, mas com a dioxina.  Quem não conhece este assunto, não deve repetir como um papagaio alucinado o que ouve por aí, com o risco de confundir os brasileiros e, sobretudo, com o grave risco de ofender nossos irmãos antípodas, que sofreram e sofrem com os efeitos das dioxinas, e não dos herbicidas. Instruam-se, povos do mundo todo! Nem é preciso ir muito longe, basta ler http://en.wikipedia.org/wiki/Agent_Orange.


  
O propósito das audiências públicas promovidas pela CTNBio

A entrevistada do IDEC comenta que a CTNBio deveria ter feito uma audiência pública para as plantas com tolerância ao 2,4-D. Será mesmo? Para que a CTNBio promove uma audiência pública? Qual o objetivo de tal audiência? É comum que o cidadão imagine a audiência como uma oportunidade de aprender com o proponente da audiência sobre o tema em pauta. Mas não é nada disso, juto ao contrário: a Audiência é feita para ouvir a opinião dos cidadãos e grupos sociais. Ora, a CTNBio já havia feito audiência sobre plantas transgênicas resistentes a herbicidas e, do ponto de vista técnico, isso basta. Não importa nem um pouco se o herbicida é o glifosato, o Tordon ou outro qualquer.

Acertadamente, a audiência foi rechaçada pela Plenária e também acertadamente, foi promovida pelo MPF. Se o Ministério quer aprofundar seu conhecimento e burilar sua percepção de risco sobre uma planta tolerante ao 2,4-D,  é justo que ouça os brasileiros, uma vez que não se interessou por isso na primeira audiência que a própria CTNBio promoveu nem pediu ele mesmo uma tal audiência para os demais eventos transgênicos tolerantes a herbicidas. A audiência não trouxe qualquer novidade para a CTNBio (ler aqui).

Observações finais

Em nossa leitura, não há nada de novo nesta entrevista e, o mais sério, a avaliação dos 10 anos de transgênicos no Brasil não traz informações concretas ao leitor, apenas discussões de bastidor e suspeitas infundadas. O fato é que, nestes 10 anos, a biotecnologia agrícola disparou e hoje o país adota de forma maciça as plantas transgênicas. O fato, també, é que a agricultura brasileira avançou enormemente e somos grandes exportadores de produtos que antes importávamos.

Apenas como informação que não deve ser esquecida: milho e soja transgênicos entram diariamente na alimentação humana no Brasil e, mais ainda, na animal. Seguramente muito mais do que o feijão, na média dos brasileiros. Por que? Porque os produtos derivados de soja e milho GM estão em toda parte, nos óleos, margarinas, recheios, aditivos proteicos, sucos, etc. Se nossa entrevistada se preocupa mais com o feijão, que nem expressa proteína transgênica, do que com os milhos e sojas que estão aí, precisa se reciclar em nutrição.

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quarta-feira, 21 de maio de 2014

Soja transgênica, “Academia Militar” Chinesa e riscos hipotéticos: um pouco de investigação esclarece o leitor

Mais uma vez a besteira está na mesa: a Academia Militar de Ciências Chinesa teria publicado um estudo mostrando que milhões de chineses estão doentes por causa da soja transgênica. A notícia está repetida em muitos blogs e sites, iniciando o rosário numa matéria do O Estado de S. Paulo de 09/05/2014. Lá a informação provém de um “artigo publicado pela Academia Militar de Ciências da China” que diz ter “evidências de danos à saúde de 1,3 bilhão de chineses”. O que há de verdade aí?



Nada. A tal Academia é uma Academia de Ciências Militares (e não uma Academia Miliar de Ciências, estilo IME ou ITA, que é coisa muito diferente), nada mais que um grupo (grande) de interessados em assuntos militares (http://en.wikipedia.org/wiki/Academy_of_Military_Science_(People's_Republic_of_China) ) . E o tal artigo não foi publicado, porque não é um artigo, é uma mera comunicação a um encontro técnico na China. E não é um estudo da academia, é uma opinião de um coronel de lá, ex vice-presidente da tal Academia, que vê na soja GM a causa do aumento de uma série de doenças entre os chineses (veja figura). Além disso, o grão da soja transgênica que chega lá (inclusive a brasileira) é dada essencialmente aos porcos e galinhas, não é para consumo humano. O que os chineses comem desta soja é o óleo, que é EXATAMENTE IGUAL ao óleo da soja não transgênica.

Enfim, o que o Estadão publicou é apenas e tão somente um besteirol, mas feito propositalmente para dar a impressão de que algo grave foi demonstrado em relação à saúde humana, tendo como causa a soja GM. Qual variedade de soja, evidentemente, não é citada (há umas duas dúzias), mas em alguns sites já está explícito: é a da Monsanto...

Para os sites que propagam este besteirol (como papagaios do Estadão), vejam:
2.       Pratos limpos -http://pratoslimpos.org.br/?p=6957

De onde proveio esta informação, uma vez que o chinês não é exatamente um idioma popular entre os brasileiros, nem a China é um exemplo de transparência? Tudo indica que a coisa veio do Sustainable Pulse ou do Food Democracy Now, sites de oposição aos transgênicos e a tudo que é novidade tecnológica que possa afetar direta ou indiretamente a vida dos americanos. Mas nosso jornalista bebeu na fonte do Real Farmacy, que neste caso é apenas água servida do esgoto dos outros dois sites. Os links vão abaixo:

Curiosamente, lá no Sustainable Pulse esta claro que o “artigo” é na verdade um resumo publicado num jornal dedicado a questões militares e que o autor é ex (observem bem, ex) vice-presidente da tal Academia de Ciências Militares. O Coronel Mi Zhen-yu é apenas mais um curioso a escrever sobre o que pensa: suas especulações não têm a menor base na observação científica.

Concluo aqui afirmando que o uso destes estratagemas reduz o mérito da luta ambiental e deveria ser evitado.

Apêndice 1: o resumo do texto do coronel, traduzido e disponível no Food Democracy now, parece ser o que está abaixo. Como se pode ver, o tal artigo é simplesmente uma opinião, resumida a poucos parágrafos (1.500 palavras). Erroneamente, o nosso coronel vermelho imagina que o óleo de soja é a causa de tudo, esquecendo que não há a mais ínfima diferença entre os óleos das sojas GM e convencionais, nem resíduos de pesticidas nestes óleos. No fim de seu resumo ele sugere que se façam estudos epidemiológicos, no que está certo. 

In 2013, China imported 63.38 million tons of GM soybeans from USA and other countries. Most of China's imported GM soybeans are used to extract soybean food oil (one of the main tradenames is "Golden Fish" ). GM soybean oil, widely used not because of its quality but rather due to its cheap price, has rapidly dominated China's soybean food oil market, covering most of the restaurant industry and canteens in China. The glyphosate residue contained in GM soybean food oil (and GM soybean protein powder processed from GM soybean cake, a by-product of GM soybean food oil) eaten three meals a day, continuously penetrates the bodies of most Chinese, including children at kindergarden, primary school and middle school, university students and teachers, staff members and soldiers of the Chinese army, government staff members, and other consumers (with exception of special food supplied units).

During the past 20 years, the health level of the Chinese people has rapidly deteriorated with various diseases rapidly increasing. The situation is shocking. China's national health has deteriorated sharply in recent years. Although weather, water pollution and other factors also exist, the harm from GM soybeans can not be eliminated. Assuring absolute safety of the food supply is a firm policy of the state. On the massive issue of human health and life, we have no room for trial and error. Now is the time to dismantle the "information barrier" on GM food.

Concerned departments should seriously carry out epidemiological investigations, face up to reality, control the risks, carry out the prevention priority principle, and adopt effective measures to ensure the bottom line of life and health safety of the people

Mas o texto chinês que está impresso no jornal e que aparece no nosso blog acima é muito mais longo: traduzido e incluindo as referências, ele tem cerca de 10.000 palavras e seu conteúdo é uma colagem de preocupações que circulam na internet com uma pseudo roupagem científica. Ao que tudo indica o velho coronel empenhou pelas orelhas, além de dizer disparates (como o glifosato ser componente do agente laranja!). Devemos dar a ele, contudo, o atenuante de algum erro de tradução.

O blog de onde veio a informação é chinês (blog.sina.com.cn/s/blog_4bb17e9d0102edhg.htmlblog.sina.com.cn/s/blog_4bb17e9d0102edhg.html)  e é cuspido e cagado o site do Sustainable pulse ou outro congênere ocidental, De lá os meus caros 5 ou 6 leitores podem copiar o texto e colar no Google translator, como eu fiz.

Apêndice 2: Vale a pena uma leitura da matéria do Estadão (link), origem da folie furieuse que se desencadeou entre os sites “engajados na luta contra os OGMs”. A matéria traz ao leitor as mais recentes informações que circulam contra as plantas transgênicas e sua adoção no Mundo.

Logo no início a matéria nos fala da proibição que o Senado Frances fez à única variedade de milho transgênico que vem sendo plantada na Europa. O que elaesqueceu de dizer foi que todos os órgãos técnicos franceses foram claros em afirmar: esta proibição não faz sentido do ponto de vista de segurança ambiental e à saúde. Foi uma decisão política, nada mais.

Depois otexto envereda pelo caso da tal Academia Militar de Ciências, que já comentei antes. E continua no caso curioso do Sri Lanka, dizendo que o Governo de lá proibiu a venda do glifosato por causa de uma correlação com doença renal crônica naquele país. Aqui ele resvalou da crítica aos transgênicos à luta contra os pesticidas. Depois que um artigo científico feito por pesquisadores do Sri Lanka foi publicado sobre esta correlação, o Governo local resolveu suspender temporariamente a venda de glifosato. No mesmo site do Sustainable Pulse citado anteriormente (http://sustainablepulse.com/2014/05/13/sri-lanka-lifts-ban-sale-glyphosate/#.U3uRi9JdXrQ) está informado, entretanto, que no dia 12 de maio a suspensão das vendas de glifosato no Sri Lanka havia sido terminada por ordem do Ministério da Agricultura, por falta de justificativas para impor um banimento. Como o texto é de 9 de maio, a gente entende...mas um bom jornalista deve cheirar a barriga: é evidente que um país não vai suspender o uso do herbicida considerado mais seguro e mais empregado na agricultura por causa de um artigo científico isolado e muito especulativo. Para os leitores que podem avaliar o texto que deu origem ao imbróglio no Sri Lanka,  o link está aqui: http://www.mdpi.com/1660-4601/11/2/2125.

Em seguida o nosso bom jornalista resvala para a rotulagem, que nada tem a ver com a segurança dos transgênicos, mas com um direito de informação do consumidor. E termina misturando vaca louca, cabras transgênicas no Ceará e Luiz Gonzaga. Coitado do Velho Lua, que sempre foi um desenvolvimentista e queria para o Nordeste o que existe de mais avançado, sem perder as tradições de nossa gente.

Fonte da imagem: revistaescola.abril.com.br