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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Glifosato e transgênicos: tudo como dantes no quartel de Abrantes


EFSA conclui que o glifosato não é carcinogênico nem tóxico aos seres humanos, contrariando as conclusões da IARC. O que vale mais, a conclusão de uma agência de avaliação de riscos (a EFSA) ou a de uma agência de pesquisas (a IARC)? Leiam abaixo as considerações

Um comunicado da IARC (International Agency for Research on Cancer) de  2015 (Monografia 112, ver IARC 2015 e também Guyton et al., 2015) havia reclassificado o glifosato como  ‘probably carcinogenic to humans’ (group 2A)” “provavelmente carcinogênico para seres humans (grupo 2A)”, levantando uma onda de acusações contra os agricultores que empregam o produto, contra os produtores de variedades de plantas transgênicas que apresentam tolerância ao glifosato e contra todas as agências de risco do Mundo que haviam avaliado “erroneamente” o potencial carcinogênico do herbicida. Alarmistas de plantão imediatamente encontraram (ou ressuscitaram) evidências de que o glifosato causava câncer, autismo, colapso da colmeia de abelhas e muitas outras coisas.

Em novembro a EFSA (European Food and Safety Authority) publicou suas conclusões sobre o potencial carcinogênico do glifosato, à luz das evidências existentes. As conclusões da EFSA, que contrariam as da IARC, e recolocam o glifosato como herbicida de baixo risco para a saúde humana (em particular em relação ao potencial carcinogênico), estão abaixo.

 "EFSA concluded that glyphosate is unlikely to pose a carcinogenic hazard to humans and the evidence does not support classification with regard to its carcinogenic potential according to Regulation (EC) No 1272/2008."

“A EFSA concluiu que é improvável que o glifosato represente um perigo como carcinógeno para seres humanos e que a evidência não apoia a classificação com base em seu potencial carcinogênico de acordo com a Regulação (EC) no. 1272/2008”

O processo de revisão da avaliação de risco (RAR) pela EFSA iniciou em janeiro de 2014 e foi concluído agora (novembro de 2015).  As conclusões foram baseadas na avaliação dos usos representativos do glifosato como herbicida para o controle de ervas daninhas num grande número de culturas. Os detalhes dos usos representativos podem ser encontrados no Apêndice A do estudo da EFSA, linkado acima.

Em relação à carcinogênese, a avaliação da EFSA foi focada no produto ativo (o herbicida glifosato) e pesou todas as evidências disponíveis. A conclusão final é que o glifosato não está classificado nem proposto a sê-lo como carcinogênico ou tóxico.

A EFSA identificou alguns aspectos que demandam mais dados para que se possa concluir sobre segurança: a presença de resíduos (contaminantes) nas preparações comerciais e o destino ambiental do AMPA em solos ácidos(o AMPA é o produto gerado pelas plantas transgênicas quando degradam o glifosato). As questões remanescentes nada têm a ver com o potencial carcinogênico do glifosato.

Concluo alertando os leitores que a EFSA é uma agência de avaliação de risco, mas não a IARC. A avaliação de risco é um processo bem estruturado e, embora baseado em ciência, é pouco conhecido e levado a cabo por cientistas fora das agências de risco, exceto quando são partícipes de desenvolvimento de projetos onde a avaliação de risco é requerida pelos regulatórios de seus países. Não é de estranhar, portanto, que a IARC, uma agência de pesquisa em câncer,  tenha concluído erradamente sobre os riscos do glifosato. Volta-se, portanto, ao que sempre se soube: o glifosato é um herbicida com risco muito baixo para a saúde humana. Resta ver se os arautos do apocalipse agrícola e da intoxicação em massa vão rever suas posições, inclusive nosso Instituto Nacional do Câncer (INCA). Vou esperar sentado...

Referências

Guyton KZ, Loomis D, Grosse Y, El GhissassiF, Benbrahim-Tallaa L, Guha N, Scoccianti C, Mattock H, Straif K, 2015.  Carcinogenicity of tetrachlorvinphos, parathion, malathion, diazinon, and glyphosate. The Lancet (Oncology) 16(5): 490–491.

IARC (International Agency for Research on Cancer), 2015. Monographs, Volume 112: Some organophosphate insecticides and herbicides: tetrachlorvinphos, parathion, malathion, diazinon and glyphosate. IARC Working Group. Lyon; 3–10 March 2015. IARC Monogr Eval Carcinog Risk
Chem Hum.


domingo, 8 de março de 2015

Agrotóxicos: tamanho real do problema e não-relação com os transgênicos

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Revi este texto logo após a invasão da CTNBio pelo MST. Na ocasião os manifestantes repetiram inúmeras vezes que os transgênicos eram os culpados pelo aumento dos agrotóxicos e que os agrotóxicos estavam envenenando os trabalhadores e nossa comida. Ora, o texto abaixo, escrito em 2012, revia justamente a questão dos agrotóxicos e dos casos de intoxicação, com base nos dados do Sinitox (Fiocruz) e não apenas com base no que se escuta por aí. O resultado é surpreendente: os agrotóxicos têm um impacto muito pequeno na saúde do trabalhador e muito menor ainda, na do consumidor. Aliás, era de se esperar, uma vez que há um controle relativamente rígido no emprego destes produtos e que os mais empregados são relativamente seguros. Assim, a maioria esmagadora dos casos de intoxicação provém de erros no uso (acidentes individuais) e tentativas de suicídio (estas são 30 % dos casos notificados). Um número ínfimo (em geral rondando 10 casos por ano) é de intoxicação alimentar. Ainda assim, muito provavelmente por produtos que não envolvem transgênicos, uma vez que a maior parte dos alimentos encontrados com resíduos de agrotóxicos provem da pequena agricultura familiar. A releitura do texto, no rescaldo das invasões do MST, é importante demais.
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Recentemente o Valor Econômico (23/02/2012) publicou texto de José Agenor Alves da Silva, diretor da ANVISA, sobre o trabalho daquela agência no rastreamento de resíduos de agrotóxicos em alimentos e as dificuldades que a agência tem enfrentado na aceitação de seus resultados, tendo sido desafiada em sua credibilidade por alguns setores da sociedade (http://www.valor.com.br/opiniao/2538528/agrotoxico-pimentao-e-suco-de-laranja). Não podemos aqui discutir esta questão, que ultrapassa em muito os objetivos deste fórum, mas queremos ressaltar que a incidência de intoxicações alimentares devidas a agrotóxicos no Brasil está grosseiramente exagerada pela mídia e por alguns órgãos de governo. Isso tem também relação direta com as plantas transgênicas, falsamente acusadas de ser fonte de intoxicação por agrotóxicos, o que é uma tremenda inverdade, como se verá mais abaixo.
Se é certo que o Brasil consume uma imensa quantidade de agrotóxicos, é certo também que exporta um volume enorme de produtos agrícolas para todas as partes do mundo, com raríssimos casos de problemas relacionados a resíduos de agrotóxicos. A razão disso é que o grande produtor tem um controle rígido do uso de agrotóxicos, que não apenas representam para ele custos, mas são uma fonte de problemas pós-colheita caso resíduos acima do permitido permaneçam no produto. Isso é válido tanto para produtos de exportação como para o mercado interno, que é fiscalizado, inclusive pela ANVISA. O resultado é que os alimentos industrializados de origem vegetal raramente contem resíduos de agrotóxicos acima do permitido.
Poder-se-ia argumentar que o ideal é resíduo zero. Ora, a própria natureza se encarrega de produzir um sem número de diferentes toxinas, muitas delas análogas aos agrotóxicos, que estão em nossos alimentos sempre. Além disso, como é sabido desde Paracelso, faz quatro séculos, a dose é o que importa. Pode haver, em alguns casos, uma bioacumulação no consumidor final, mas isso só ocorre com alguns agrotóxicos que são, por isso mesmo, muito controlados. O uso bem feito dos agrotóxicos tem permitido ao Brasil ganhar um enorme espaço na exportação de grãos, ao mesmo tempo oferecendo aos brasileiros alimentos de qualidade por preço altamente competitivo.
Assim, é pouco provável que o grosso dos alimentos consumidos pelos brasileiros chegue ao mercado contaminado. Além disso, ao contrário do que afirma o diretor da ANVISA, a linha que separa os efeitos benéficos de eliminar uma praga e os efeitos maléficos, que podem levar um ser humano à morte, não tem nada de tênue. Os mecanismos de ação podem ser muito diferentes e, sobretudo, a dose de agrotóxico que chega a ser ingerida num alimento é muitas ordens de grandeza inferior àquelas observadas na lavoura. Com estas informações em mente, podemos analisar os dados que o país dispõe sobre intoxicação com agrotóxicos e sobre a parcela destes casos que é devida à ingestão de alimentos contaminados com agrotóxicos agrícolas.
O acesso online ao SINAN permite gerar várias tabelas, entre elas esta, para 2006, Não há registro no banco de anos posteriores, embora haja um relato em pdf que está discutido mais abaixo.


Uma breve análise mostra que, dos pouco mais de 3000 casos registrados em 2006, 33% foram tentativas de suicídio, a maior causa percentual de intoxicação com agrotóxicos. Em seguida, outros 30% são devidos a acidentes de trabalho, totalizando quase 1000 casos. Há 15% de casos sem identificação de circunstância. Outros 15% são devidos à acidentes.O que salta à vista é que apenas 43 casos foram atribuídos à contaminação de alimentos, embora não esteja discriminada a origem deles (se diretamente da lavoura ou de revenda, se de pequeno proprietário ou agroindústria, nem o tipo de alimento).
Assim, o número absoluto de casos é muito reduzido e as causas da contaminação alimentar são difíceis de avaliar. No total de casos, elas representam apenas 1,2% dos casos notificados. Uma análise da distribuição geográfica mostra que os casos estão espalhados por alguns estados, sem correlação óbvia com o plantio de transgênicos.
Apesar de suas deficiências conhecidas (subnotificação, viés do notificador, etc,), o SINAN é confiável e abrange todo o país. Uma estimativa precisa dos casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos está fora dos objetivos deste artigo. O que se que ressaltar aqui é a pequena relevância  percentual dos casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos (em torno de 1%) quando comparada às causas maiores (acidentes, ocupação, suicídio, etc.). Deve-se lembrar aqui que o SINITOX registra quase 10 vezes mais casos de intoxicação por alimentos devidos ao próprio estado de conservação dos alimentos do que por contaminação por resíduos de agrotóxicos.

Em um documento da SVS-MS (http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/af_III_informe_agrotoxicos_09.pdf), as mesmas informações acima podem ser apreciadas para 2008. O cenário não muda significativamente (os casos que interessam aqui são da coluna C9):



Para 2007, o SINITOX registra apenas 12 casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos para todo o país. Ainda que o total anual de casos no Brasil de intoxicação alimentar por agrotóxicos totalizasse 100, suas causas podem ser as mais diversas, assim como a origem destes produtos. Não há dúvida que a intoxicação de trabalhadores e por acidentes é um sério problema, assim como o uso destes produtos em tentativas de suicídio, mas não há qualquer base para se atribuir aos transgênicos a pecha de levar à boca do consumidor os agrotóxicos usados na lavoura. Até porque dos alimentos onde se detecta ocasionalmente níveis de pesticidas acima do permitido por lei não faz parte nem milho nem soja, as únicas plantas transgênicas consumidas como alimento no Brasil (do algodão, terceira planta transgênica, só se consome o óleo, que é um produto purificado e não contem pesticidas nem proteínas recombinantes expressas pela planta geneticamente modificada). De fato, a ANVISA monitorou  dezoito  alimentos: abacaxi, alface,  arroz, batata, beterraba, cebola, cenoura, couve, feijão, laranja, maçã, mamão, manga, morango, pepino, pimentão, repolho e tomate. A escolha das culturas baseou-se nos dados de consumo obtidos pelo  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na disponibilidade destes alimentos nos supermercados das diferentes  unidades da Federação e no uso intensivo de agrotóxicos nestas culturas. De acordo com a própria ANVISA, no texto produzido pelo programa PARA, análise dos dados do Censo Agropecuário  do IBGE de 2006 mostra alguns fatores  que  potencializam o risco de uso inadequado dos  agrotóxicos e  a contaminação dos alimentos:
• 785 mil estabelecimentos (56,3% daqueles onde houve utilização de agrotóxicos) não receberam orientação  agronômica.  Das propriedades que receberam assistência (172 mil), 76,7% usam agrotóxicos.
• Quase 85% da mão de obra agrícola se encontram nas pequenas  propriedades, e mais de 80% dos  proprietários rurais  e 37,5% dos trabalhadores com laços de parentesco com  eles é analfabeta ou sabe ler e escrever, mas não tem escolarização formal ou apenas o ensino fundamental incompleto.
Isso é especialmente válido para os produtores dos itens agrícolas que foram avaliados pelo PARA, mas não se aplica de uma forma geral aos produtores de plantas transgênicas, que tem um domínio técnico muito mais elevado. Não se está aqui afirmando que o problema da contaminação dos alimentos com agrotóxicos está restrito à pequena agricultura e à agricultura familiar, mas que ele é certamente de muito menor proporção na agroindústria. Efetivamente, não há qualquer dado que indique contaminação de agrotóxicos em soja e milho, nem razão técnica para isso, e muito menos no caso destes cultivos, quando transgênicos.

Concluímos que, na questão de intoxicação alimentar por agrotóxicos, há muito barulho por pouco. E, especificamente para a participação das plantas transgênicas nisso, há certamente muito barulho por nada. A quem interessa manter esta mentira rolando na mídia?

Atualização

A consulta ao Sinitox para 2012 (dado mais recente) não muda o cenário descrito com base no relatório anterior (1998-2007). Observemos as tabelas:


Tabela das intoxicações em 2012 (Sinitox, apenas as 3 primeiras entradas)

Agente
Vítima humana
Vítima animal
Informação
Total
% do total de intoxicações no país em 2012
Medicamentos
24029
132
627
24788
27,62
Agrotóxicos/Uso Agrícola
3937
76
98
4111
4,58
Agrotóxicos/Uso Doméstico
1843
144
118
2105
2,35

A tabela 10 (http://www.fiocruz.br/sinitox/media/tabela%2010_2012.pdf) mostra que houve cerca de 100 óbitos e 22 sequelas associadas aos agrotóxicos. Não são poucos óbitos. mas que circunstâncias estavam envolvidas nestes casos? É extremamente instrutiva a inspeção da Tabela 6 (http://www.fiocruz.br/sinitox/media/tabela%206_2012.pdf) :  dos  quase 3000 casos de intoxicação, apenas 7 foram por ingestão de alimentos. Ainda assim, não se sabe em que condições exatas. A maioria esmagadora foi a soma de casos individuais e tentativas de suicídio. Estas últimas são justamente as circunstâncias que levam à maior parte dos casos com  sequelas ou de morte.

Além disso, e não menos importante, já no início da década de 90 os casos de intoxicação aguda com agrotóxicos de uso agrícola chegavam a mais de 3.000 por ano (http://www.fiocruz.br/sinitox_novo/media/artigo1.pdf), número quase igual ao de hoje (consulte http://www.fiocruz.br/sinitox/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=8 para os vários anos). Isso parece surpreendente, sobretudo tendo em vista o enorme aumento no uso de agrotóxicos no campo, sobretudo nos últimos 5 anos. Por que o número de casos não explodiu? A explicação é simples e cristalina, mas choca o público e vou deixar ao leitor a tarefa de encontrá-la.

Conclusão de março de 2015

As palavras de ordem do MST sobre os danos dos agrotóxicos à nossa comida carecem de base nos dados levantados pelas autoridades do país. É certo que deve haver uma certa sub-notificação e que casos de intoxicação crônica por ingestão de alimentos contaminados podem existir (http://www.scielo.br/pdf/csc/v12n1/04.pdf), mas provavelmente são poucos ou fatalmente já teriam  surgido e empurrado o país a tomar as medidas cabíveis. Afinal, os médicos estão alertas e há procedimentos específicos para a avaliação de intoxicações crônicas por agrotóxicos, cujos sinais e sintomas são bem conhecidos (ver caixa abaixo)

INTOXICAÇÃO POR AGROTÓXICO A intoxicação crônica caracteriza-se pelo surgimento tardio, após meses ou anos, por exposição pequena ou moderada a produtos tóxicos ou a múltiplos produtos, acarretando danos muitas vezes irreversíveis nos indivíduos expostos. Segundo o Protocolo de Atenção à Saúde dos Trabalhadores Expostos a Agrotóxicos, elaborado pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2006), as patologias relacionados à intoxicação crônica por agrotóxicos podem ser neoplasias, como mieloma múltiplo e leucemias; anemia aplástica; transtornos mentais, como alterações cognitivas e episódios depressivos; doenças do sistema nervoso como distúrbios do movimento, polineuropatias e encefalopatia tóxica; oculares, como neurite óptica e distúrbios da visão e ainda auditivas, circulatórias, respiratórias, digestivas e dermatológicas.

Então, só posso reforçar o que disse antes, faz quase três anos: a espalhafatosa ligação entre os transgênicos e as intoxicações com agrotóxicos, sobretudo nos alimentos, é pura e simples mentira. Que continua sendo repetida, com enorme sucesso, por várias organizações sociais e pela internet, para imenso prejuízo do entendimento do problema.

Leituras recomendadas:

Resultados de campo sobre uso de agrotóxicos por pequenos produtores: muito elucidativo: http://www.ecodebate.com.br/2012/02/23/pequenos-produtores-estao-cientes-de-riscos-dos-agrotoxicos/
Neice Müller Xavier Faria,  Anaclaudia Gastal Fassa e Luiz Augusto Facchini - Intoxicação por agrotóxicos no Brasil: os sistemas oficiais de informação e desafios para realização de estudos epidemiológicos. Ciência & Saúde Coletiva, 12(1):25-38, 2007 (http://www.scielo.br/pdf/csc/v12n1/04.pdf)


Leia também:

quinta-feira, 5 de março de 2015

Aprovado o milho tolerante ao herbicida 2,4-D e a determinados inibidores da acetil coenzima DAS-40278-9

No dia 05 de março de 2015, após a leitura do parecer de pedido de vistas, elaborado e lido pelo Dr. Rubens Nodari, seguiu-se a discussão dos vários pareceres e a votação na CTNBio. Foram dois votos contrários,  uma abstenção e dezenove votos pela aprovação.


Assim, e como manda a lei, a decisão será suspensa por 30 dias, aguardando o posicionamento do CNBS. A maior probabilidade é de que o Conselho não se pronuncie, seguindo o pedido de registro do produto para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.



Detalhes da pauta:
Pedido de Vistas (Dr. Rubens Nodari) - Dow AgroSciences Sementes & Biotecnologia Brasil Ltda. Processo nº.
01200.000124/2012-43. (Atendimento à Diligência) Liberação comercial de milho geneticamente modificado que
confere tolerância ao herbicida 2,4-D e a determinados inibidores da acetil coenzima DAS-40278-9; Protocolado em:
13/01/2012; Próton 1507/12; Extrato Prévio: 3190/2012, publicado em 21/05/2012; Relatores SSP Humana/Animal
(APROVADO EM ABRIL/2013): Drs. Heidge Fukumasu* e Mário Hiroyuki Hirata; Relatores SSP
Vegetal/Ambiental (APROVADO EM FEVEREIRO/2015): Drª. Maria Helena Zanettini, Dr. Leonardo Melgarejo

e Dr. Jesus Ferro. Assessoria: Marcos Bertozo (Veg/Amb) e Rubens José (Hum/Ani);

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Transgênicos e a morte de abelhas: uma grande mentira que precisa ser desmascarada

Enquanto os pseudo verdes terçam sabres contra os transgênicos e seguem argumentando que as abelhas morrem por causa das plantas GM, as ditas vão morrendo de doenças infecciosas emergentes e transmitindo seus patógenos para importantes polinizadores silvestres. Estes muitas vezes já estavam em risco de extinção e, se nada for feito, vão desaparecer. Com eles, desaparecerão também muitas espécies de plantas que são polinizadas exclusivamente por estes insetos na Natureza. E, na avalanche, desaparecerão outros animais associados a estas plantas. Isso, sim, é um problema real com o qual os ecologistas devem se preocupar de verdade.

O artigo recém-publicado na revista Nature mostra claramente a associação entre as doenças infecciosas emergentes das abelhas criadas comercialmente e as infecções entre abelhas silvestres. A abelha europeia (Apis mellifera), embora muito valorizada como prestadora de serviços ambientais, é uma espécie exótica na maior parte dos países em que é empregada como polinizadora e produtora de mel. Seu intenso manejo nos apiários, que inclui até mesmo o transporte rodoviário para distintos campos onde as floradas são exploradas comercialmente, leva ao estabelecimento e disseminação de doenças infecciosas, como ocorre com outros animais de produção sob o regime de criação intensiva. Estas doenças nada têm a ver com as plantas transgênicas, mas com a forma frequentemente super-intensiva e inadequada como as abelhas vêm sendo manejadas. Evidentemente, pode haver um aumento de predisposição às doenças, provocado por outros fatores, como a presença de inseticidas e outros pesticidas no campo, mas o pólen de plantas transgênicas não tem qualquer relação com isso.
A passagem destes agentes infecciosos emergentes para abelhas silvestres é uma questão muito grave. Com a palavra os autores do artigo “Disease associations between honeybees and bumblebees as a threat to wild pollinators”, Fürst, McMahon, Osborne, Paxton e Brown. O artigo foi publicado na Nature agora, no dia 20 de fevereiro de 2014 (doi:10.1038/nature12977). http://www.nature.com/nature/journal/v506/n7488/full/nature12977.html    

As doenças infecciosas emergentes (EIDs) representam um risco para o bem-estar humano, tanto direta1 como indiretamente, afetando animais de criação (gado, mas também abelhas e peixes) e os animais selvagens que fornecem recursos valiosos e serviços ecossistêmicos , como a polinização de culturas 2 . A abelha (Apis mellifera) é o inseto polinizador de colheita mais manejado do Mundo e sofre com as doenças provocadas por uma gama patógenos de alto impacto, emergentes e exóticos 3,4, tornando necessário um manejo pro-ativo das populações de abelhas pelos apicultores para controlar estas doenças. Polinizadores, como abelhas silvestres (Bombus spp.), estão em declínio global e uma das causas pode ser o spillover de patógenos dos polinizadores, como as abelhas em apiários 5,6 ou colônias comerciais de mangangavas, para as espécies silvestres. Neste artigo usamos uma combinação de experimentos de infecção em laboratório com dados colhidos em campo em escala de paisagem para mostrar que as doenças infecciosas emergentes de abelhas são responsáveis pela presença de facto de agentes infecciosos de forma generalizada entre o conjunto de polinizadores. A prevalência do vírus deformador da asa (DWV) e do parasita exótico Nosema ceranae em abelhas e zangões está ligada; como a DWV tem maior prevalência entre abelhas e as mangangavas e outras abelhas melíferas simpátricas estão infectados pelas mesmas cepas de DWV, Apis é a provável fonte pelo menos desta importante EID em polinizadores silvestres. As lições aprendidas com vertebrados 7,8 apontam para a necessidade de maior controle de patógenos em abelhas de apiários para a preservação dos polinizadores selvagens, uma vez que quedas nas populações de polinizadores nativos podem ser causadas por transmissão de patógenos provenientes de polinizadores manejados comercialmente.

1. Binder, S., Levitt, A. M., Sacks, J. J. & Hughes, J. M. Emerging infectious diseases: public health issues for the 21st century. Science 284, 1311–1313 (1999).
2. Oldroyd, B. P. Coevolution while you wait: Varroa jacobsoni, a new parasite of western honeybees. Trends Ecol. Evol. 14, 312–315 (1999).
3. Ratnieks, F. L. W. & Carreck, N. L. Clarity on honey bee collapse? Science 327, 152–153 (2010).
4. Vanbergen, A. J. & The Insect Pollinator Initiative. Threats to an ecosystemservice: pressures on pollinators. Front. Ecol. Environ 11, 251–259 (2013).
5. Evison, S. E. F. et al. Pervasiveness of parasites in pollinators. PLoS ONE 7, e30641(2012).
6. Genersch, E., Yue, C., Fries, I. & de Miranda, J. R. Detection of deformed wing virus, a honey bee viral pathogen, in bumble bees (Bombus terrestris and Bombus pascuorum) with wing deformities. J. Invertebr. Pathol. 91, 61–63 (2006).
7. Fisher, M. C. et al. Emerging fungal threats to animal, plant and ecosystem health. Nature 484, 186–194 (2012).
8. Krebs, J. et al. Bovine Tuberculosis in Cattle and Badgers (MAFF Publications, 1997).



Leituras associadas sugeridas pelo nosso blog

Alexander KA, Lewis BL, Marathe M, Eubank S, Blackburn JK.
Vector Borne Zoonotic Dis. 2012 Dec;12(12):1005-18. doi: 10.1089/vbz.2012.0987. Epub 2012 Nov 30
 Review.   Free PMC Article

Hayman DT, Bowen RA, Cryan PM, McCracken GF, O'Shea TJ, Peel AJ, Gilbert A, Webb CT, Wood JL.
Zoonoses Public Health. 2013 Feb;60(1):2-21. doi: 10.1111/zph.12000. Epub 2012 Sep 7.
Review.   Free PMC Article

Kojima Y, Toki T, Morimoto T, Yoshiyama M, Kimura K, Kadowaki T.
Microb Ecol. 2011 Nov;62(4):895-906. doi: 10.1007/s00248-011-9947-z. Epub 2011 Sep 30.

Fabiszewski AM, Umbanhowar J, Mitchell CE.
Ecol Appl. 2010 Mar;20(2):582-92.