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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Agroecologia e transgênicos: seis textos para análise

Numa série publicada em 2013 na  revista COLÓQUIO - Revista do Desenvolvimento Regional - Faccat - v. 10, n. 2, jul./dez. 2013, editada no Rio Grande do Sul, o Dr. Walter Colli, ex-presidente da CTNBio, escreveu um ensaio sobre Vavilov (https://en.wikipedia.org/wiki/Nikolai_Vavilov, o geneticista soviético perseguido por Lysenko até a morte, tentando fazer um paralelo com os argumentos dos Agroecologistas, que lembram - sem tirar nem por - os piores argumentos do stalinismo. Sua linha de argumentação é semelhante à minha numa postagem anterior no Genpeace: Uma “outra” ciência é possível, propõe Dario Aranda. Mas não é o primeiro a propor: Lisenko o fez antes na extinta URSS  (link: http://genpeace.blogspot.com.br/2015/08/uma-outra-ciencia-e-possivel-propoe.html). Uma leitura atenta do texto de Colli e dos demais publicados sobre agroecologia no mesmo número da revista revela um lado pouco conhecido da agroecologia, que tem, como tudo no mundo, o seu lado dark.

Seguem os títulos dos artigos, seus autores e links.

Boa leitura.

Walter Colli. Agroecologia e Ciência: um paralelo histórico – link: https://seer.faccat.br/index.php/coloquio/article/download/85/pdf_25  

Zander Navarro: Agroecologia: as coisas em seu lugar. (A agronomia brasileira visita a terra dos duendes) – link:  https://seer.faccat.br/index.php/coloquio/article/viewFile/23/pdf_11  

Amilcar Baiardi. Comentário sobre o artigo Agroecologia: as coisas em seu lugar (A Agronomia brasileira visita a Terra dos Duendes) – link:  https://seer.faccat.br/index.php/coloquio/article/download/87/pdf_27  

Zander Navarro. Agroecologia: a produção da mentira – link:

Felipe Feliz Mesquita. Agricultura orgânica: relato de uma experiência – link: https://seer.faccat.br/index.php/coloquio/article/download/86/pdf_26

Paulo Freire Mello: Agroecologia: as classes em seu lugar? – link: https://seer.faccat.br/index.php/coloquio/article/download/84/pdf_24


domingo, 19 de abril de 2015

A adoção dos transgênicos na agricultura não aumentou o uso de agrotóxicos

      Frequentemente lemos na Internet que o grande aumento do uso de agrotóxicos (ou pesticidas) no Brasil se deveu à adoção dos transgênicos. Esta afirmação, tanto menos verdadeira quanto mais repetida na mídia alternativa, tem como único propósito levar a opinião pública à oposição à biotecnologia agrícola: ela se furta a encarar a real razão deste aumento, que está fundamentada na intensificação da agricultura, em geral, e no aumento proporcional de nossa produtividade. Se o modelo agrícola é insustentável, que se discuta isso, mas colocar os transgênicos como bode expiatório está errado e só serve a um debate ideológico e político de baixa qualidade e com fins duvidosos.

 Abaixo destrinchamos preliminarmente a questão para os leitores interessados.

Introdução

Iniciamos este texto com algumas informações que estão em vários documentos oficiais do país.
·         O aumento no uso de agrotóxicos agrícolas foi de aproximadamente 200% nos últimos 10 anos
·         A área plantada com lavouras de soja, milho e trigo não ultrapassa 45 milhões de hectares (41 milhões em 2013)
·         A área agrícola brasileira chega a 160 milhões de hectares
·         Em toda atividade agrícola (exceto na orgânica) emprega-se agrotóxico, inclusive na pecuária, tanto no trato dos animais quanto no pasto e em outras aplicações.
·         De todos os agrotóxicos empregados, apenas três herbicidas podem ter um aumento devido a adoção da biotecnologia agrícola, sendo o glifosato o mais empregado. O uso de inseticidas pode ter diminuído com a adoção dos transgênicos no campo, nas lavouras de milho, soja e algodão.

Transgênicos e agrotóxicos: ausência de correlação

É sabido que o glifosato, o principal herbicida associado aos transgênicos, tem inúmeras aplicações, inclusive fora do ambiente agrícola. Este pesticida rapidamente ganhou a preferência no Brasil e no Mundo, muito antes da adoção dos transgênicos. Os dois outros herbicidas não passam de 5 % do uso global de glifosato. A Figura 1 abaixo, composta da informação até 2006 (quanto tínhamos pouca área plantada com transgênicos) e a de 2012, mostra que houve um aumento de 315% no uso do glifosato. Considerando seus múltiplos usos (muitas lavouras não GM também empregam glifosato) e que o aumento global de herbicidas foi de 200% (o glifosato participa, quando muito com 40%), fica desde o início impossível atribuir aos transgênicos o aumento do seu uso.
Para reforçar esta impossibilidade, deve-se ter em mente que o aumento da área plantada com soja transgênica foi superior a 8 vezes nos mesmos 10 anos! (Veja Figura 3) e que o aumento da área com transgênicos foi de 10 vezes! Assim, se algum aumento houve no uso do glifosato devido à adoção da biotecnologia agrícola, foi discreto:  o aumento de 315% é muito inferior ao aumento da área plantada com transgênicos, que foi de 1000%. Para o conjunto dos pesticidas, a disparidade é ainda maior: o aumento foi de apenas 200%.  A associação entre pesticidas e agrotóxicos não parece ter sustentação, o que será confirmado mais adiante.




Figura 1: Aumento do uso dos principais herbicidas ao longo de 13 anos. O glifosato permaneceu todo o tempo como o mais empregado pesticida, mesmo antes do uso dos transgênicos (iniciado em 2004 com uma área que hoje é menos de 1/10da área plantada com transgênicos.

Afinal, o que acarretou o aumento do uso de agrotóxicos?

A área plantada com cereais, leguminosas e oleaginosas não cresceu nos últimos 15 anos, mas a produção cresceu enormemente. Observe a Figura 2 abaixo, adaptada de http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/conhecimento/bnset/set3507.pdf. Nela foi adicionada a curva correspondente ao aumento de área plantada com transgênicos.



Figura 2: Em vermelho a área plantada com transgênicos, obtida do gráfico da Céleres, mostrado na figura seguinte.

O grande aumento de produtividade se deveu a uma intensificação do cultivo, com tecnificação profunda, envolvendo o manejo integrado de tecnologias. Os agrotóxicos fazem parte disso. Assim, se o aumento nos agrotóxicos foi de 200% em 10 anos, o aumento na produção foi idêntico no mesmo período! Este resultado, associado aos anteriores, indica fortemente que o aumento do uso de agrotóxicos está diretamente ligado ao aumento de produção. Como a área plantada pouco cresceu no período, ele também está ligado ao aumento de produtividade, o que faz todo o sentido: um melhor controle de pragas implica numa produtividade aumentada.


Figura 3: Aumento da área plantada com transgênicos no país. fonte: http://www.celeres.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2014/12/IB1403.pdf

Dados complementares

O IBGE lista as áreas plantadas em 2014 com 32 diferentes produtos (http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/agropecuaria/lspa/lspa_201502_4.shtm) . Eles perfazem 72 milhões de hectares. Destes, 41 milhões são cultivados com soja, milho ou algodão transgênicos. Um pouco mais da metade, portanto, da área agrícola é transgênica? Isso é muito expressivo!

De jeito nenhum, porque a conta está errada: a proporção plantada com transgênicos é muito menor. Na conta acima não estão listadas as pastagens, os plantios florestais e um grande número de fruteiras (mamão, manga, melão, banana, etc.), atividades que empregam agrotóxicos. Na verdade, a área provável de plantio no Brasil deve ultrapassar os 160 milhões de hectares e praticamente em toda parte se usa agrotóxico.
Dos 851 milhões de hectares de nosso território, temos 86 milhões com pastagens plantadas (fora da Amazônia), 60 milhões com lavouras temporárias, inclusive cana-de-açúcar; sete milhões com lavouras permanentes, principalmente frutas e café; cinco milhões com silvicultura; e dois milhões com hortaliças, que somam 160 milhões de hectares, ou apenas 19% de todo o território brasileiro. (http://www.emater.go.gov.br/w/5839)

 Por isso, a área plantada com transgênicos não passa de 30% do total da área agrícola nacional e, portanto, não deve ser responsável por muito mais do que 30% do consumo de agrotóxicos. O resto vem de outros usos e a prova disso é que o perfil de consumo de agrotóxicos não mudou significativamente entre o antes e o depois da adoção dos transgênicos.

Há ainda outros usos, não considerados acima pela Emater? Toda a pecuária brasileira! Ela console um grande volume de diferentes agrotóxicos (inseticidas, acaricidas e até herbicidas!), que estão computados junto ao volume total consumido pelo país.

Síntese e conclusão

a) A parcela do emprego de agrotóxico representada pelas plantações transgênicas está abaixode 30% do total do consumo.
b) O aumento da área plantada com transgênico em 10 anos foi de 1000%, mas o aumento do uso de agrotóxicos foi de apenas 200%.
c) O aumento de produtividade global da agricultura foi de 200%
d) Não houve mudança no perfil de uso de agrotóxicos entre 2000 e 2012, o que indica que a adoção dos transgênicos não afetou o perfil.
e) A área agrícola com transgênicos não ultrapassa ¼ da área agrícola total do país, toda ela empregando agrotóxicos (em lavouras as mais diversas, em espécies florestais e na pecuária).
f) A pecuária também consome muito pesticida e nunca é computada.

Juntando tudo de (a) até (f) é impossível concluir que os transgênicos sejam os responsáveis pelo aumento do consumo de agrotóxicos, Ao contrário, não o são,
definitivamente! É a intensificação de nossa agricultura, num modelo que pede o uso integrado de tecnologias e produtos, que implica noaumento.

Mesmo com este aumento, o número de casos de intoxicação por agrotóxico não aumentou nada em 10 anos. Está tudo no SINITOX. Especulações em cima da casuística oficial não ajudam em nada se não estiverem baseadas na melhor ciência.


segunda-feira, 2 de março de 2015

Entidades trazem à CTNBio denúncia sobre supostos perigos do eucalipto transgênico: crítica à inconsistência da análise

Caros leitores

Como de hábito, às vésperas das votações importantes da CTNBio as redes sociais abarrotam-se de manifestos e cartas contra uma provável decisão de liberação comercial que se aproxima.

Agora é o caso da liberação do eucalipto transgênico e de um milho tolerante ao herbicida 2,4-D: um novo manifesto, liberado pelas indefectíveis Via Campesina, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), tendo por companhia a Associação de Agricultura Orgânica (AAO), vem se manifestar contra o eucalipto e o milho. Para o milho não há novidade alguma na avaliação de risco: a CTNBio já tem uma imensa experiência com os milhos anteriores e a diferença aqui é a tecnologia associada (isto é, outros herbicidas). O uso dos herbicidas NÃO É DA ALÇADA da CTNBio, mas sim do MAPA, o que invalida toda e qualquer discussão sobre o tema agora. Ele pode ser retomado quando da aprovação do produto pelo MAPA.


Quanto ao eucalipto, as argumentações no texto da própria carta e num segundo texto, linkado ao final da carta (http://www.mst.org.br/2015/03/02/entidades-escrevem-manifesto-contra-a-liberacao-de-eucalipto-transgenico-na-ctnbio.html) não trazem um único grama de novidade: todos os perigos foram tratados pela CTNBio, mesmo aqueles que não são ligados ao impacto direto do eucalipto transgênico na saúde ou no ambiente. Na maioria, os perigos estão sustentados por argumentos fantasiosos e são, eles mesmos, pura fantasia. Para constatar que os perigos foram cuidadosamente avaliados (se inerentes ao transgênico) ou ao menos discutidos (se inerentes à tecnologia) na CTNBio, está disponível uma avaliação de risco semelhante à feita pela Comissão: http://genpeace.blogspot.com.br/2015/02/avaliacao-de-risco-do-eucalipto.html. Ela segue a ciência e a forma internacional de classificar riscos, descartando perigos imaginários. Se desejarem, há também uma réplica à carta inicial que disparou a recente onda de postagens: http://genpeace.blogspot.com.br/2015/02/replica-carta-aos-ministerios.html

O curioso é que, até agora, não há novas manifestações de entidades nacionais de apicultores e nunca houve qualquer manifestação por parte dos grandes exportadores de mel e outros produtos apícolas...

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Réplica à Carta aos Ministérios representados na CTNBio sobre autorização para plantio de eucalipto transgênico pela Suzano/FuturaGene

Much ado about nothing (W. Shakespeare)
No dia 27 de fevereiro de 2015, sexta- feira, faltando menos de uma semana para a decisão na Plenária da CTNBio quanto aos riscos de uma liberação comercial da variedade de eucalipto para crescimento acelerado, surge uma carta dirigida a todos os Ministérios representados na CTNBio, com cópia para a Presidente substituta da CTNBio e demais membros, publicada no portal Racismo Ambiental (http://racismoambiental.net.br/2015/02/27/carta-ao-ministro-da-ciencia-tecnologia-e-inovacao-sobre-autorizacao-para-plantio-do-eucalipto-gm-pela-suzanofuturagene/).
A carta é apócrifa, mas já está sendo divulgada, foi traduzida para o inglês e é até a base para um abaixo assinado. Vale a pena uma análise breve, que segue abaixo (contendo preciosas sugestões de outros avaliadores de risco mais gabaritados que eu).
Primeiro, quanto à oportunidade: esta variedade de eucalipto já foi tema de uma audiência pública e antes disso foram abertas consultas públicas, como manda o regimento da CTNBio. Seguiu-se um longo debate pela internet e em outros fóruns e, principalmente, dentro da CTNBio. Houve, portanto, ampla possibilidade de debate: uma carta em tom indignado não contribui com um grama no peso das discussões sérias.
Em segundo lugar, os pontos levantados pelos signatários foram abordados pela CTNBio. Os que são de sua alçada (avaliação de risco) foram devidamente tratados e os que são ligados a outros elementos da análise de risco foram discutidos, ainda que não fosse competência da CTNBio. Nenhum elemento da análise foi deixado de fora das discussões, embora a decisão técnica tenha se baseado estritamente nos elementos de risco representados pela introdução do OGM sobre a biodiversidade e sobre a saúde humana e animal.
Comento, a seguir, alguns dos posicionamentos errôneos dos missivistas;
a) Quando afirmam que “decisão (de liberação comercial) visa apenas beneficiar um segmento do setor privado do país” os autores da carta jogam fumaça nos olhos do leitor: o que a CTNBio avalia são riscos, ela não se intromete e nem tem competência para avaliar vantagens e desvantagens econômicas. Além disso, sempre que um produto tiver sua liberação comercial solicitada, evidentemente alguém (seja uma empresa pública ou privada) irá se beneficiar, e não há nada de errado nisso. Mas, em última instância, quem ganha é o país, com um produto inovador. E quem decide, em última instância, se o produto é bom ou não, é o mercado. Afinal, estamos num sistema de mercado livre, não estamos num país comunista.
b) Quanto ao país ser o primeiro a aprovar um eucalipto transgênico, isso não é problema algum. Por que o Brasil tem sempre que andar a reboque dos demais países? O que importa é que os órgãos competentes fizeram uma criteriosa avaliação de risco e decidiram pela ausência de riscos não-negligenciáveis. O mesmo já ocorreu com algas e leveduras transgênicas e com o mosquito transgênico e, de forma mais incisiva, com o feijão transgênico, desenvolvido por uma empresa do Governo. É imoral pedir que esperemos a adoção de um produto em muitas partes do mundo em nome de um ambientalismo trôpego, sem base em ciência. Se a CTNBio aprovar o plantio de eucalipto transgênico no Brasil, não seremos o primeiro país do mundo a aprovar o plantio comercial de floresta transgênica após a avaliação de sua biossegurança: em janeiro deste ano se tornou pública uma decisão do Serviço de Inspeção de Saúde de Planta e Animal (APHIS) do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) aprovando o plantio comercial de um pinheiro geneticamente modificado geneticamente para ter maior densidade de madeira (http://www.aphis.usda.gov/biotechnology/downloads/reg_loi/brs_resp_arborgen_loblolly_pine.pdf). O curioso é que este pinheiro é nativo de lá, ao contrário do eucalipto, que é exótico e não tem espécies sexualmente compatíveis no Brasil.
c) Quando afirmam que a “CTNBio não possui estudos científicos suficientes”, os redatores da carta desprezam a metodologia de avaliação de risco e a imensa quantidade de dados que foi aportada nas várias etapas do processo de avaliação do produto, tanto pela proponente, como pelos relatores. É vergonhoso tratar de forma tão inepta o trabalho sério da CTNBio. Afinal, TODOS os impactos prováveis foram cuidadosamente avaliados com base em uma riqueza enorme de dados e esta avaliação está disponível não apenas na CTNBio, mas mesmo na internet, neste mesmo blog nosso (http://genpeace.blogspot.com.br/2014/11/eucalipto-transgenico-quais-sao-de-fato.html).
d) Os missivistas divergem, então, do tema de avaliação de risco e passam a tratar do impacto que o pólen transgênico poderia ter sobre a produção de mel orgânico. Ora, isso não é da alçada da CTNBio. Entretanto, o assunto foi ventilado e discutido na CTNBio e fora dela. Sugiro a leitura dos links http://genpeace.blogspot.com.br/2014/11/exportacao-de-mel-e-o-eucalipto.html e http://genpeace.blogspot.com.br/2014/09/audiencia-publica-sobre-o-eucalipto.html)  para uma discussão ponderada sobre este tema. Aqui quero deixar claro apenas que esta NÃO É uma questão de biossegurança, mas um problema de coexistência de atividades econômicas. De toda forma, as abelhas no Brasil frequentam plantações de soja e algodoais transgênicos e também passeiam nos milharais, ainda que nem a soja nem o milho dependam de abelhas para sua polinização. É evidente que, com a taxa de adoção da transgenia nestas culturas, uma ENORME PARTE de nosso mel já contém ao menos traços de pólen transgênico. Culpar o eucalipto como único cultivo a fazer isso é desafiar a inteligência do leitor. Se, no futuro, a Europa ou outro mercado rejeitar nosso mel, haverá seguramente outro que vai comprá-lo. Além disso, um manejo relativamente simples das colmeias pode evitar a presença de pólen de eucalipto GM no mel e em outros produtos apícolas. É tudo, como diria Shakespeare, ”much ado about nothing”.
e) O risco real do pólen GM sobre as abelhas foi minuciosamente estudado, assim como todos os outros perigos arrolados pela própria CTNBio e por outros atores, inclusive a alergenicidade – improvável – das novas proteínas no pólen. Só posso concluir que o representante do MDA, mencionado na carta como muito atento, cochilou na leitura do dossiê e de seus anexos quando chegou à conclusão de que só 5 colmeias foram estudadas e que a questão da alergenicidade não foi adequadamente tratada. Os destinatários da carta (os Ministros) devem ler o dossiê e os pareceres para aquilatar o absurdo da maior parte das afirmações desta carta.
f) Mais adiante na carta os missivistas afirmam que “A CTNBio tem obrigação de respeitar todos os interesses da indústria nacional, os interesses dos cidadãos e das gerações futuras, antes de julgar o pedido que beneficia apenas a FuturaGene/Suzano”. Ora, como disse acima, não é função da CTNBio, nem legalmente nem por extensão de suas atividades de avaliação de risco, adentrar em questões econômicas ou de interesse de a, b ou c. Se não houver riscos (ou se eles forem, efetivamente, negligenciáveis), a CTNBio deixará isso claro em seu parecer de liberação comercial. A adoção do produto vai depender ainda do MAPA e talvez de outro ministério e, sobretudo, da vontade soberana do mercado. A questão de coexistência de atividades econômicas e sociais não é assunto para a CTNBio, como já frisei anteriormente.
g) O que a CTNBio tem que observar é o Protocolo de Cartagena. Ora, o método de avaliação de risco da CTNBio e sua aderência à Biosafety Clearing House são a maior prova de que a Comissão respeita as diretrizes do Protocolo. O que está na carta sobre este assunto é só conversa fiada: não temos que avaliar todos os biomas nem pelo Protocolo de Cartagena (que não tem uma vírgula sobre isso), nem pelas regras da CTNBio (que falam apenas nas regiões mais importantes de cultivo). Mesmo assim, como as avaliações são caso a caso, cabe à CTNBio decidir se isso é importante ou não, ao invés de seguir como uma toupeira uma leitura monástica do regulamento.
h) Por fim, depois de uma longa e detalhada avaliação de risco, que se arrastou por vários anos, a CTNBio está segura de que as incertezas foram muitíssimo reduzidas, se não totalmente eliminadas. Seguir repetindo que há “insuficiência dos estudos realizados” é, como disse anteriormente, uma forma arrogante e desrespeitosa de jogar ralo abaixo a imensa quantidade de dados analisada e o trabalho dedicado e criterioso dos avaliadores na CTNBio e fora dela.

Concluo dizendo a todos os leitores (e espero que os Ministros estejam entre eles) que, nesta etapa, a lei determina ser a decisão exclusivamente da CTNBio. Se quiserem, os Ministros podem, depois, analisar os aspectos econômicos e sociais envolvidos. Para isso existe o Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS), previsto na Lei. Mas até agora tem sido uma sábia decisão deixar esta questão ao mercado, sempre que os riscos forem negligenciáveis. Pedir que os Ministros violem a lei e os regulamentos e interfiram agora na decisão soa decididamente arbitrário.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

CTNBio é invadida por manifestantes contra o uso de agrotóxicos - 03 de dezembro de 2014

03 de dezembro de 2014

Como anunciado nas redes sociais, um grupo de manifestantes bem organizado invadiu a reunião da subsetorial ambiental/vegetal da CTNBio nesta manhã, em Brasília. Pelas fotografias observa-se que a maioria era formada de indígenas. Numa das fotos aparece também um manifestante com o EPI para aplicação de agrotóxicos e um pulverizador costal. Os manifestantes trouxeram também o pessoal próprio de mídia.

É impossível negar a importância da discussão dos agrotóxicos, mas a CTNBio definitivamente não é o lugar para isso. Quem decide sobre os agrotóxicos são a ANVISA, o IBAMA e o MAPA. Os manifestantes devem procurar levar suas preocupações aos órgãos de fiscalização e registro.

A argumentação de que o uso de herbicidas aumentou com a adoção dos transgênicos (estes, sim, aprovados pela CTNBiuo em relação aos seus impactos diretos no ambiente e na saúde) não procede: a agricultura brasileira como um todo tem-se acelerado enormemente na última década e toda ela, transgênica ou não, usa herbicidas. Aliás, a totalidade dos casos de intoxicação por agrotóxicos provem da pequena agricultura familiar e os alimentos que estão contaminados com eles são sempre hortaliças e frutas, jamais milho ou soja proveniente do agronegócio. O uso adequado de agrotóxicos é essencial para a agricultura moderna de alta produtividade. Ela pode conviver com a agroecologia, a exclusividade de uma ou outra forma de cultivo é uma tolice (ver comentários aqui)

É preciso serenidade na análise destas coisas e a estratégia adotada pelos manifestantes mostra tudo, menos serenidade ou ponderação.

Abaixo as primeiras fotos. Depois adicionaremos outras

Preparativos para a invasão


















terça-feira, 2 de dezembro de 2014

10 anos de transgênicos no Brasil: a história como ela é

O texto abaixo foi elaborado como réplica a uma entrevista do ano de 2013 à Revista do IDEC. Na ocasião já havíamos feito comentários rápidos, que estão no blog neste link.

Moldando a percepção de risco dos brasileiros

Sempre que uma nova tecnologia surge no mercado há duas ondas que se propagam em sentidos contrários no meio midiático: uma que apresenta a tecnologia como uma nova maravilha que todos consumirão sem problemas e a outra que procura demonstrar o lado diabólico da novidade, que fatalmente levará os consumidores e o país ao Armaggedon. As antenas (ou os osciladores) que propagam estas ondas estão bem sintonizadas como as agendas dos grupos que representam e, mais ainda,  o framing (o tom ou a apresentação) das informações é absolutamente coerente com os objetivos das agendas. Muito bem, não se espera outra coisa de uma sociedade onde o debate é a tônica, mas a polarização do tratamento do assunto leva a graves distorções na forma como o conhecimento dobre o assunto é repassado ao público. No final, é um debate que pouco contribui para o aprofundamento das questões e o público acaba boiando neste mar turbulento da mídia, sem poder tomar um rumo consciente.

No caso dos transgênicos, a antena da oposição à tecnologia é muitas vezes mais poderosa do que a sua defensora e usa um framing muito mais adequado à sensibilização popular.  O resultado é que a percepção pública vai sendo construída com base no temor e nas suspeitas levantadas pela mídia, com pouco ou nenhum espaço para informações que, se não defendem a tecnologia, pelo menos não a tratam como instrumento de dominação ou como obra direta de mentes malévolas que trabalham para produzir e fazer germinar sementes do mal.

Um exemplo completo da visão apocalíptica da biotecnologia agrícola foi apresentado um ano atrás pelo IDEC, que tem o chapéu de defensor dos consumidores e passa ao público a ideia de que ele está sendo traído pela CTNBio, pelos cientistas, pesquisadores, professores, reguladores e toda esta ruma de profissionais “a serviço das forças do mal”. Vamos esquecer esta visão distorcida e quase fascista que o instituto parece ter da maioria dos profissionais que discordam dele e prossigamos na análise do texto da Revista do IDEC: é uma entrevista com a Profa. Marijane Lisboa, atual membro da CTNBio e árdua opositora da biotecnologia agrícola. No sentido de fazer com que estes comentários sejam bem compreendidos pelo público, vamos usar o mesmo framing e uma linguagem semelhante àquela que aparece nos portais de oposição à biotecnologia.

Como tudo começou

Em 1992 lá nos EUA várias empresas já estavam com plantas transgênicas prontas para o mercado. O Brasil, como grande mercado consumidor de sementes, tinha desde o início o potencial de usar a biotecnologia. Entendendo isso, o Governo Federal iniciou discussões sobre uma lei que estabelecesse o arcabouço regulatório de OGMs (ou transgênicos) no Brasil, resultando na primeira lei de biossegurança de transgênicos em 1995. Em 1997 a recém-criada CTNBio já estava avaliando a primeira soja transgênica a ser cultivada no Brasil e no dia 1 de janeiro de 1998 aprovou seu uso comercial (www.ctnbio.gov.br/upd_blob/0000/326.doc). Tudo estritamente dentro da lei e seguindo os princípios de avaliação de risco que vinham sendo sedimentados desde a reunião de Asilomar, lá na década de 70.  Mas logo em seguida o IDEC e o Greenpeace (este último sumiu do cenário de oposição aos transgênicos no Brasil, mas continua muito ativo em muitos países da América Latina e do Mundo que não adotaram a biotecnologia agrícola) conseguiram um embargo da liberação comercial na justiça.  Para uma cronologia deste embargo ler http://www.cnpso.embrapa.br/download/cronologia_sojarr.pdf .

Quase quatro anos depois o embargo foi suspenso porque a juíza entendeu corretamente que a CTNBio havia provado com sua avaliação serem os riscos desta soja insignificantes à saúde ou ao ambiente. Mas neste meio tempo, de olho no sucesso que a soja transgênica vinha fazendo na Argentina, os agricultores do sul do Brasil (a região produtora de soja naquela ocasião) começaram a contrabandear soja para plantar no Brasil. A produção de soja GM em 1998 foi pequena, mas cresceu em 1999 e mais ainda nos anos seguintes, enquanto o Governo se debatia com os processos movidos pelas entidades “ambientalistas” e até por outros órgãos de governo, tentando impedir a liberação comercial da soja. Este embate jurídico foi fruto de uma lei confusa que não determinava claramente atribuições.

Então, é evidente que  a adoção das plantas transgênicas começo certinho dentro da lei, mas foi logo atrapalhada por  processos jurídicos que exploravam as debilidades da primeira lei, processos estes movidos exatamente pelos que se dizem defensores do ambiente. Com isso acabaram por fomentar o contrabando e os plantios iniciais foram feitos sem qualquer controle dos órgãos de fiscalização. Uma chacrinha.

Contando o caso como o caso foi, fica evidente que a história trazida pela entrevistada do IDEC, a Marijane Lisboa,  está profundamente equivocada quando relata que as plantas transgênicas  “foram introduzidas  no país sem ter havido  qualquer  avaliação dos  impactos  à  saúde e ao meio ambiente”:  como vimos, a CTNBio avaliou e liberou o produto com base  em extensos estudos dentro e fora do país. Num salto lógico, a entrevistada ainda conclui que a primeira aprovação da soja “mostra a inviabilidade  de  uma  política  de  biossegurança”. A única coisa que é inviável aqui é a conclusão dela...

Promessas dos transgênicos: quem fez e o que se cumpriu

Começamos esta postagem comentando como os grupos que se opõem aos transgênicos são bons comunicadores e como, em geral, são maus comunicadores os que desenvolvem a tecnologia, seja nos laboratórios públicos ou nas empresas, e também os reguladores.  Quando as plantas transgênicas começaram a aparecer no Mundo, muitas empresas e muitos cientistas bestamente venderam a ideia de que iam ser uma panaceia universal, que iam aumentar a produtividade e coisas assim. Também disseram que ia haver a adoção de uma agricultura de menor impacto e que os lucros dos agricultores seriam maiores, no que estavam certos, como se verá logo adiante.

No duro, as primeiras plantas transgênicas que chegaram ao Brasil forem desenhadas para reduzir o trabalho do agricultor no combate às ervas daninhas e diminuir as pulverizações de inseticidas. As suas coisas implicam em importantes reduções de custos e, em alguns casos, num pequeno aumento de produção. Estes benefícios são reais e a prova disso é a adoção MACIÇA das plantas transgênicas em todos os países que aprovaram a biotecnologia agrícola.

Além disso, as plantas tolerantes aos herbicidas permitiram uma adoção ampla da tecnologia de plantio direto, que dispensa o arado, poupa o solo, economiza água, combustível e mão de obra. Já as plantas resistentes a insetos derrubaram para menos de 20% o uso de inseticidas, o que leva a um impacto ambiental muito menor.  Estes benefícios (ambientais) e vantagens (ao agricultor, ao consumidor e ao produtor de sementes) são evidentes e só a miopia teimosa dos opositores impede que sejam identificados. Por isso, não surge como surpresa a frase de nossa entrevistada: “nesses 10 anos, vemos que tudo aquilo que foi dito a favor dos transgênicos não se cumpriu”...

Enfim, as promessas muito audaciosas foram logo reconhecidas pela comunidade cientifica e pelos agricultores como tolices (acabar com a fome no Mundo era uma delas...), mas havia ainda um bom número de promessas concretas que de fato se realizaram, como comentado acima. O que acontece hoje é que os grupos que se opõem à biotecnologia só comentam as promessas que não se cumpriram ou que eles acham que não se cumpriram e são absolutamente cegos aos benefícios e ganhos reais da tecnologia. Comportam-se, assim, como avestruzes.

O feijão (transgênico) nosso de cada dia

A EMBRAPA desenvolveu por quase uma década um feijão transgênico resistente ao vírus do mosaico dourado. A planta não é tolerante a herbicidas, nem resistente a insetos e nem mesmo produz qualquer nova proteína. Ela expressa apenas um RNA fita dupla que interfere na replicação do vírus, tornando a planta imune à virose. A avaliação dos riscos deste feijão para a saúde e para o ambiente foi amplamente discutida e, na verdade, foi das mais fáceis que a CTNBio fez até hoje, uma vez que a planta não tem parentes silvestres, não expressa qualquer proteína nova e se mostra idêntica em composição e em comportamento ao feijoeiro convencional, exceto pela resistência à virose (bch.cbd.int/database/attachment/?id=13795) . Na ocasião algumas pessoas levantaram dúvidas sobre a segurança de ingerir RNA fita dupla: ora, todos os dias ingerimos milhares destes RNAs, provenientes de nossa dieta variada, muitos deles essencialmente idênticos aos nossos e que poderiam até interferir com nosso metabolismo, não fosse o fato de que não existe via alguma pela qual isso seja possível.  Além disso, a sequência de RNA que é produzida pela construção genética do vírus da EMBRAPA não tem qualquer semelhança com genes humanos (http://genpeace.blogspot.com.br/2013/04/rota-ao-dano-pelo-rna-de-interferencia.html;  Avaliação de risco de OGMs obtidos por tecnologia de interferência de
RNA: sistemática da CTNBio e o caso do feijão Emprapa 5.1). Acertadamente, a CTNBio deliberou que não havia risco algum adicional deste feijoeiro GM.

Ao contrário, seguindo um caminho que nada tem a ver com avaliação de risco caso a caso, a entrevistada do IDEC afirma erradamente que deveriam ter sido feitos testes toxicológicos e, ainda, acha que deveriam ser de longa duração.  Para avaliar o que, se não há novas proteínas e o RNA dupla fita é prontamente degradado pelo cozimento? Além disso, juntando os dados fajutos do Séralini , obtidos com milho tolerante a glifosato, e a avaliação do feijão, a entrevistada junta óleo e água, numa mistura impossível, além de insistir num artigo pseudocientífico que já foi inúmeras vezes desmascarado por todos os fóruns sérios (ver http://genpeace.blogspot.com.br/2013/09/o-artigo-do-seralini-e-um-cavalo-morto.html).

O fato é que o feijão GM da EMBRAPA é tão seguro quanto o convencional e vai contribuir decisivamente para a segurança alimentar do brasileiro. Por que? Porque hoje perdemos 20 a 40% de nossa safra de feijão para a virose e precisamos importar feijão, um item da cesta básica. Nunca foi possível obter uma variedade melhorada de forma convencional que seja significativamente resistente ao vírus do mosaico dourado. O feijão transgênico da EMBRAPA resolve totalmente este problema. Espertamente, o IDEC esconde isso do consumidor e a entrevistada parece também desconhecer o “pormenor”.

Pesquisas “independentes” e conclusões erradas

Sempre que um assunto polêmico aparece, aparecem também alguns pesquisadores que conseguem publicar aqui e ali artigos que “mostram” problemas onde ninguém mais vê. O que representam estas vozes isoladas? O que são as vozes isoladas na ciência: quebra de paradigma ou desvio metodológico? O assunto foi detalhadamente destrinchado em outra postagem nossa e em essência podemos resumi-lo da seguinte forma: se os resultados foram obtidos com o uso de uma metodologia científica sólida, as conclusões são válidas, mas precisarão ser referendadas pelos pares para serem amplamente aceitas, sobretudo se forem controversas. Se, por outro lado, os resultados tiverem origem numa metodologia falha, violando as normas da pesquisa científica, só servem para a lata de lixo, nem sequer podendo servir de alerta. Toda e qualquer nova conclusão e, sobretudo, as quebras de paradigma, terão que ser apoiadas pela maioria. É assim que funciona a ciência, como se pode ler nas postagens Maioria e Reducionismo na CTNBio e Ciência, independência e voto.


Então, o que é a ciência “independente”? No caso dos transgênicos não é diferente daquilo que acontece com muitas outras áreas da tecnologia -  as vacinas, os aditivos alimentares, os celulares, os preservativos e por aí vai. Em todos estes casos há e haverá sempre alguns pesquisadores que, empregando uma metodologia que não é reconhecida como válida pelos pares (embora possa sê-lo pelo editor da revista), concluem sobre a existência de riscos que os demais não veem.  Os arautos da desgraça, de plantão em todas as áreas polêmicas, e seguindo o princípio de que uma grande desgraça é uma boa notícia, seguem empurrando como válidos os resultados obtidos de uma metodologia que viola a ciência. Que argumentos usam estes adeptos do Armaggedom permanente? A existência de cientistas “independentes”, que não são pagos, como supostamente todos os outros, pelos grandes interesses corporativos. Além da suposição ser um tremendo desrespeito aos milhões de pesquisadores do mundo todo, que ralam anos a fio para produzir resultados confiáveis, quase sempre pagos com verbas públicas ou de instituições sem fins lucrativos, ela propositalmente esquece que a qualidade dos trabalhos destes “independentes” é nula ou muito baixa e que seus resultados estão inteiramente isolados dos demais, sem uma relação causa efeito e sem reprodutibilidade, seja porque violam os princípios da ciência, seja porque não se baseiam numa hipótese cientificamente plausível.

Nossa entrevistada acredita nos cientistas “independentes”. Podemos dar um desconto porque sua área de atuação passa longe da biologia molecular, mas a compreensão dos princípios científicos e da forma como se faz ciência de verdade não pode deixar de estar na mente dos membros da CTNBio. Defender ciência “de mentirinha” em nome de uma ideologia qualquer é uma forçada de barra cruel.

Desde que começaram a ser comercializados, faz mais de 15 anos, os transgênicos vem sendo anunciados pelos “independentes” como a fonte de inevitáveis problemas de saúde. Acontece que, na prática e na ciência de verdade, nunca se viu nada disso: 100 bilhões de animais foram alimentados com rações a base de transgênicos, ingerindo muito mais destes produtos do que nós poderíamos fazer, e absolutamente nada foi visto (exceto as doideiras da Judy Carman, do Séralini e de mais uns 4 outros grupos “independentes”). O que conclui nossa entrevistada? “Os efeitos nunca vão aparecer assim, pois não há como identificar, na saúde das pessoas, aquilo que possa ser consequência só da introdução do alimento transgênico, a não ser que se faça uma pesquisa isoladamente. É possível que esteja havendo uma incidência maior de certas doenças, como alergias, câncer, doenças do sistema imunológico etc. Para comprovar, é preciso ter uma pesquisa específica, como essa que comentei [estudo francês]”. Muito melhor que o estudo francês, descartado do âmbito da ciência séria, é a constatação de que as proteínas transgênicas não fazem mal, resultante de centenas de outros estudos sérios e com boa metodologia.  É muito cômodo dizer que há efeitos nas populações humanas, mas que não vemos porque não há uma metodologia adequada: é quase um dogma religioso, contra o qual a ciência é, de fato, inteiramente impotente.

Avaliação de risco e impacto de herbicidas e outros pesticidas

Uma afirmativa que aparece com frequência na internet é a de que, quando se avalia os riscos de uma planta transgênica, deve-se embutir os riscos da tecnologia associada. Assim, quando a CTNBio avalia os riscos de um milho tolerante ao 2,4-D (um herbicida bastante empregado em muitas culturas não transgênicas no Brasil e no Mundo), deve avaliar os impactos do milho e também do herbicida. Ora, a coisa não funciona assim: no Mundo todo, a avaliação de risco de OGMs se debruça sobre os impactos diretos dele sobre o ambiente ou sobre a saúde.  Os avaliadores de risco de OGMs não avaliam a tecnologia associada, que cabe aos órgãos de fiscalização e registro. Assim, no Brasil, a CTNBio avalia o impacto direto do OGM e a AVISA, o IBAMA e o MAPA podem avaliar impactos de produtos associados à tecnologia, como herbicidas, por exemplo. Não cabe à CTNBio esta avaliação que, inclusive, lhe é vetada por lei. O que cabe à CTNBio está pormenorizadamente descrito em nosso blog na postagem  O que cabe à CTNBio e quais são seus procedimentos.

A entrevistada parece querer mudar a avaliação de risco de transgênicos, que está muito bem sedimentada no Brasil e no Mundo (ver http://genpeace.blogspot.com.br/2013/09/guia-para-avaliacao-do-risco-ambiental_687.html). Embora seja uma preocupação válida, o impacto dos herbicidas é assunto de outros órgãos e agências no Brasil.

O Agente Laranja, a Guerra do Vietnam e o herbicida 2,4-D

Ninguém pode negar o horror que foi a Guerra do Vietnam. Na ocasião, os militares americanos, a grande mídia e muitas outras fontes vendiam a ideia de que os vietnamitas eram uns monstros, que não davam valor à vida como nós, ocidentais, cristãos e...brancos.  Uma visita ao país agora nos fez descobrir que os vietnamitas são os brasileiros de olho puxado:  adoram conversar, são alegres, comilões, criativos e ligados num futebolzinho. Têm um tremendo orgulho do país deles, mas não dispensam as tecnologias desenvolvidas em nenhuma parte do Mundo: importam e adaptam os produtos americanos e acabaram de promulgar uma lei para os transgênicos extremamente sensata, que lhes permitirá adotar a biotecnologia agrícola muito rápido. O que isso tudo tem com o Agente Laranja?

Primeiro, o IDEC e a entrevistada confundem seriamente o Agente Laranja e o 2,4-D. Na Guerra do Vietnam o tal agente continha 2,4-D, que é um herbicida seguro, mas tinha outros produtos: um outro herbicida, o 2,4,5-T (em partes iguais ao 2,4-D) e, o que era pior, a 2,3,7,8-tetrachorodibenzodioxina (TCDD), extremamente tóxica e que vinha como contaminante do...2,4,5-T!!!. Como o agente foi empregado numa guerra imbecil e injusta, ninguém se preocupava com isso. Os terríveis efeitos que este agente causou nada têm a ver com o 2,4-D, mas com a dioxina.  Quem não conhece este assunto, não deve repetir como um papagaio alucinado o que ouve por aí, com o risco de confundir os brasileiros e, sobretudo, com o grave risco de ofender nossos irmãos antípodas, que sofreram e sofrem com os efeitos das dioxinas, e não dos herbicidas. Instruam-se, povos do mundo todo! Nem é preciso ir muito longe, basta ler http://en.wikipedia.org/wiki/Agent_Orange.


  
O propósito das audiências públicas promovidas pela CTNBio

A entrevistada do IDEC comenta que a CTNBio deveria ter feito uma audiência pública para as plantas com tolerância ao 2,4-D. Será mesmo? Para que a CTNBio promove uma audiência pública? Qual o objetivo de tal audiência? É comum que o cidadão imagine a audiência como uma oportunidade de aprender com o proponente da audiência sobre o tema em pauta. Mas não é nada disso, juto ao contrário: a Audiência é feita para ouvir a opinião dos cidadãos e grupos sociais. Ora, a CTNBio já havia feito audiência sobre plantas transgênicas resistentes a herbicidas e, do ponto de vista técnico, isso basta. Não importa nem um pouco se o herbicida é o glifosato, o Tordon ou outro qualquer.

Acertadamente, a audiência foi rechaçada pela Plenária e também acertadamente, foi promovida pelo MPF. Se o Ministério quer aprofundar seu conhecimento e burilar sua percepção de risco sobre uma planta tolerante ao 2,4-D,  é justo que ouça os brasileiros, uma vez que não se interessou por isso na primeira audiência que a própria CTNBio promoveu nem pediu ele mesmo uma tal audiência para os demais eventos transgênicos tolerantes a herbicidas. A audiência não trouxe qualquer novidade para a CTNBio (ler aqui).

Observações finais

Em nossa leitura, não há nada de novo nesta entrevista e, o mais sério, a avaliação dos 10 anos de transgênicos no Brasil não traz informações concretas ao leitor, apenas discussões de bastidor e suspeitas infundadas. O fato é que, nestes 10 anos, a biotecnologia agrícola disparou e hoje o país adota de forma maciça as plantas transgênicas. O fato, també, é que a agricultura brasileira avançou enormemente e somos grandes exportadores de produtos que antes importávamos.

Apenas como informação que não deve ser esquecida: milho e soja transgênicos entram diariamente na alimentação humana no Brasil e, mais ainda, na animal. Seguramente muito mais do que o feijão, na média dos brasileiros. Por que? Porque os produtos derivados de soja e milho GM estão em toda parte, nos óleos, margarinas, recheios, aditivos proteicos, sucos, etc. Se nossa entrevistada se preocupa mais com o feijão, que nem expressa proteína transgênica, do que com os milhos e sojas que estão aí, precisa se reciclar em nutrição.

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terça-feira, 8 de abril de 2014

Juiz usa os mesmos argumentos que ativistas usam contra os transgênicos para negar pleito do MPF que pretendia suspender o registro do herbicida 2,4-D

Ironia: o magistrado Jamil Oliveira, da 14ª Vara Federal do Distrito Federal muito apropriadamente avaliou as informações que consubstanciavam o pleito do Ministério Público Federal e concluiu:

“Sem base em estudos conclusivos e sem debate amplo nos foros apropriados e que forneçam aos órgãos competentes, inclusive o Poder Legislativo, informações suficientes, claras, tecnicamente irrespondíveis, não se pode paralisar a produção e o uso de tão importante herbicida, com reflexos prejudiciais à produção de alimentos, de pastagens e de matéria prima para produção de biocombustíveis, assim também às empresas, geradoras de empregos e de divisas e tributos”.

Parece que estamos ouvindo a oposição aos transgênicos, quando diz que não existem estudos conclusivos sobre a segurança das plantas transgênicas, que o debate fica limitado à CTNBio, que os demais órgãos competentes não opinam ou a opinião de seus representantes na Comissão não é considerada e que a lei brasileira está sendo violada. Qual a diferença?

No caso da ação do MPF:
a)      as “evidências” técnicas e científicas eram muito fracas
b)      as autoridades no assunto não foram de fato consultadas e
c)       o debate não foi estendido para um foro mais amplo.

No caso da CTNBio:
a)      as evidências proveem de milhares de publicações. Quanto à questão de credibilidade dos trabalhos científicos, um artigo (ver abaixo) revê essencialmente tudo que foi publicado em revistas científicas sobre riscos de transgênicos. O artigo é de Nicolia e colaboradores e foi publicado na Critical Reviews on Biotechnology. Vale a pena a leitura. Ele tem como anexo online uma impressionante tabela com todos os artigos referenciados: tirando os que são sobre rastreabilidade, há 1482 artigos sobre todos os aspectos de biossegurança e avaliação de risco de transgênicos. Quem quiser conferir, olhe ao menos uma centena deles, tomados ao acaso, e verá que são financiados pelos "CNPq"s de cada país. Nicolia A, Manzo A, Veronesi F, Rosellini D. (2013) - An overview of the last 10 years of genetically engineered crop safety research. Crit Rev Biotechnol. 2013 Sep 16. [Epub ahead of print]. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24041244
b)      Todas as demais agências de risco no Mundo, que são as autoridades nacionais naqueles países, corroboram as conclusões da CTNBio (http://genpeace.blogspot.com.br/2014/03/a-ctnbio-nao-decide-diferente-dos.html)
c)       Além das consultas e audiências públicas, as reuniões da CTNBio são públicas, são membros acessíveis a consultas e sua composição suficientemente eclética, permitindo contemplar todos os mais importantes setores da sociedade.


Por isso, o magistrado negou provimento ao pedido do MPF, assim como o TRF4 negou provimento ao pedido da AS-PTA para anular a RN-04 (norma de coexistência do milho). E por isso também as críticas ferozes à CTNBio acabam batendo em solo estéril quando são analisadas pelo crivo da ciência, seja por magistrados, seja pela imprensa, seja pelos próprios movimentos sociais.

terça-feira, 25 de março de 2014

Sobre enxadas e agrotóxicos, jumentos e carros

Que  toda tecnologia nova traz riscos, não há a menor dúvida. Assim também, a não adoção de uma nova tecnologia também traz riscos, com certeza. Vamos fazer uma metáfora rápida entre as enxadas e os jumentos e os herbicidas e os carros. Arabicamente, comecemos de trás prá frente.

Os carros introduziram no trânsito e na vida um elemento importante de risco. No Brasil os acidentes de
motos, carros e ônibus matam muito mais do que boa parte das doenças e não poupam crianças nem jovens. Se abandonássemos o uso de motos, carros e coletivos motorizados, sem dúvida alguma reduziríamos enormemente o número de vítimas do trânsito. A população teria que mudar sua forma de chegar às escolas, ao trabalho e ao lazer, mas com algum esforço e desprendimento, poderíamos substituir os veículos automotivos citados por jumentos, cavalos, burros e por carroças puxadas por mulas. Já foi assim e funcionava muito bem, nos bons tempos do Segundo Império. Seguramente a pressão das multinacionais empurrou goela abaixo dos brasileiros esta mania de carros, motos, ônibus, metrôs e caminhões. Afinal, para que servem os veículos automotores se não para fazer exatamente o que fazem os jumentos, cavalos e outros muares?

Exatamente para fazer um dos principais papéis da enxada, a saber - a capina, inventaram o tal de herbicida. Com ele, ao exemplo do carro, chega-se mais rápido ao fim do trabalho, mas os acidentes se multiplicam, ao sabor da falta de cuidado do agricultor, da mesma forma que no trânsito os acidentes dependem da falta de cuidado do motorista ou do pedestre. Estão certíssimos os que querem um Brasil livre desta tecnologia perigosa, que mata e polui da mesma forma que os veículos automotivos por combustível fóssil.

Muito bem, então vamos proibir todos os herbicidas e levar a agricultura do país na enxada. Sugiro que, na mesma época, façamos a troca dos carros por jegues e dos ônibus por carroças puxadas por mulas, proibindo também as motos. Assim teremos um país livre de agrotóxicos e de vapores de gasolina e diesel, buzinas e correrias, sem acidentes no campo ou nas cidades. Evoé!

É inútil fazer as contas para mostrar quão insensato é sumir com os carros, motos e ônibus, fora o fato de que ninguém quer ficar sem eles. Então, vamos fazer as contas para a substituição dos herbicidas por enxadas, enxadões, enxadecos, estrovengas, foices, cacumbus et caterva.

De acordo com o CONAB, temos uma área de aprox. 50 milhões de hectares plantada com grãos, onde se emprega uma mecanização intensa. Se tirarmos todos os herbicidas de circulação (na verdade, basta tirar 4 mais usados, inclusive o glifosato e o tordon), precisaremos ter 3 homens trabalhando por hectare (um homem por tarefa, que são 25 braças por 25 braças, pra quem não entende nada de lavoura arcaica), o que implica em ter 150 milhões de enxadas e todos os brasileiros no campo, fora os velhos e os menores de 10 anos.


Estupenda solução verde para nosso país. Ou esta turma não sabe fazer conta ou quer encolher a agricultura do país às roças pequenas, explodindo os preços no varejo e condenando o país à fome. Haverá falta de conhecimentos matemáticos ou será um complô para levar o país prá trás?

domingo, 1 de abril de 2012

Segurança de transgênicos: reportagem do IDEC alarma, mas não informa corretamente o consumidor

Recentemente o IDEC - Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – divulgou em sua página na Internet uma reportagem sobre o que são alimentos transgênicos e quais são os riscos à saúde e à vida. A íntegra da matéria pode ser acessada em http://www.idec.org.br/consultas/dicas-e-direitos/saiba-o-que-sao-os-alimentos-transgenicos-e-quais-os-seus-riscos#.T2pBuZwpzxs.email

O texto, cuja intenção é a de esclarecer o consumidor brasileiro sobre os transgênicos, acaba prestando serviço contrário, pois tem graves falhas conceituais, apresenta como verdade especulações e hipóteses não provadas e, ao final, gera apenas apreensão do leitor. Avaliamos a seguir com detalhes o texto original do IDEC (em itálicos), com nossas observações em fonte normal.

O texto se inicia com a conceituação de alimento transgênico.

CONCEITO: são alimentos modificados geneticamente com a alteração do código genético, isto é, é inserido no organismos genes proveniente de outro. Esse procedimento pode ser feito até mesmo entre organismos de espécies diferentes (inserção de um gene de um vírus em uma planta) por exemplo) . O procedimento pode ser realizado com plantas, animais e micro-organismos.

Evidentemente, o conceito que se quer passar aqui é o de organismo transgênico. De fato, nenhum alimento é modificado desta forma, já que alimento em geral é uma mistura de diferentes materiais. Não se pode falar em pão, nem biscoito, nem macarrão transgênico, mas se pode, sem  prejuízo ao consumidor e mantendo a transparência e a boa ciência, dizer que eles contem proteínas transgênicas ou uma certa porcentagem de um determinado grão transgênico. No duro, mesmo, só os grãos de milho e soja são transgênicos no Brasil (já que não consumimos os grãos de algodão). E só os alimentos formulados com estes dois grãos, E QUE CONTENHAM AS PROTEÍNAS DESTES, podem ser rotulados um dia como transgênicos. Óleo de milho, soja ou algodão não contêm proteína e são absolutamente iguais ao óleo não GM, ao menos para os grãos GM atualmente no mercado.

O conceito de GM do IDEC se restringe aos organismos (e aos alimentos produzidos com eles) que tenham um gene proveniente de outro organismo. Logo o Brasil estará avaliando a segurança de muitas plantas GM que não tem genes novos, mas apenas modificações de seus próprios genes. Elas serão o grosso da nova geração de plantas GM, que não são transgênicas.

Seja como for, não são jamais os alimentos que são geneticamente modificados, mas os seus componentes vivos, animais, vegetais, fungos ou bactérias, seja a modificação genética convencional (inclusive, e muito frequentemente, por mutação) ou por engenharia genética. Este conceito errado leva o consumidor a achar que se faz biscoito, bala e bolacha GM, o que amplia inutilmente o horizonte do temor na cabeça do brasileiro comum.

(IDEC) RISCOS PARA A AGRICULTURA: as espécies transgênicas são protegidas por patentes, o que significa que o agricultor que decidir utilizá-las (se autorizadas no Brasil), terá de pagar royalties para a empresa detentora da tecnologia. A consequência mais imediata será o aumento da dependência do agricultor das empresas transnacionais do setor. Isto por que, por regra contratual, o agricultor não pode utilizar as sementes do plantio anterior, assim terá que comprar as sementes transgênicas a cada safra. Além disso, é muito difícil o agricultor “se livrar” totalmente das plantas transgênicas, o que pode ocorrer com qualquer plantação, já que, caso ele não queira mais plantá-las, a chance de ainda nascer uma planta transgênica na plantação convencional existe. Caso isso ocorra, ele poderá ser compelido a pagar uma multa e mais royalties.

Na agricultura moderna as sementes frequentemente são híbridas e devem ser compradas a cada nova safra. No preço da semente está embutido o royalty do desenvolvedor da tecnologia. Isso acontece há décadas e nada tem a ver com a transgenia, mas com a proteção industrial. Pagamos royalties embutidos no preço de quase tudo, sem saber. Mas é defendendo o direito de quem inova que temos o progresso industrial. Os transgênicos, neste aspecto, NADA TEM DE NOVO em relação aos seus parentes não GM.

A dependência do agricultor brasileiro aos produtores de semente de alta qualidade já é antiga. A diferença é que agora uma enorme parcela da produção de sementes híbridas ou linhagens de alta performance de milho e soja (e só destas duas espécies) está na mão de empresas estrangeiras. Ainda assim, o agricultor pode continuar plantando seu milho e sua soja de paiol, ou linhagens vendidas pela EMBRAPA e por outros órgãos de governo, se assim o quiserem.

Os brasileiros dependem, para o transporte de tudo o que roda neste país, de empresas estrangeiras, que produzem carros, caminhões, tratores e trens. Não há uma única empresa nacional. Isso, evidentemente, não coloca em risco o país, assim como a produção de sementes por empresas estrangeiras também não.

Por fim, é inteiramente falsa a ideia de que o agricultor não consegue se livrar de uma planta transgênica se, na outra safra, decidir plantar uma variedade não GM. Pode até aparecer, aqui e lá , um pé de planta GM, mas no conjunto a porcentagem de colheita GM vai ser tão baixa que ele jamais será acusado de pirataria de semente. O que aparece na internet sobre isso é, na sua totalidade, fábula.

(IDEC) Além disso, existe o risco da contaminação. A contaminação pode ocorrer por meio de insetos ou até mesmo por meio do vento. É o caso do milho, assim se não existir um espaçamento adequado entre as lavouras transgênicas e convencionais a contaminação pode ocorrer, pegando de surpresa o agricultor no momento da venda. Ocorre com freqüência a perda de contrato desses agricultores, já que o comprador estava interessado em um produto não transgênico.

As normas de coexistência para estas culturas estão muito bem estabelecidas. Aqui e lá aparecem notícias de problemas, mas quando se analisam os pleitos, vê-se que as suspeitas eram falsas. O milho e a soja são polinizados pelo vento. O pólen da soja dificilmente voa mais do que uns poucos metros. O do milho, sob certas condições, pode ser levado por mais de 100 m, mas em geral chega tão desidratado que não poliniza mais nada. Este conhecimento (o da polinização cruzada) é muito antigo e bem estabelecido, seja por nós ou pelos índios, há milhares de anos, e não há nada de novo ou imprevisto nisso.

(IDEC) RISCOS PARA A SAÚDE: são vários e graves os riscos potenciais, tendo os cientistas apontado como os principais deles:

1. Aumento das alergias

Quando se insere um gene de um ser em outro, novos compostos podem ser formados nesse organismo, como proteínas e aminoácidos. Se este organismo modificado geneticamente for um alimento, seu consumo pode provocar alergias em parcelas significativas da população, por causa dessas novas substâncias. Por exemplo, no Instituto de Nutrição de York, Inglaterra, em 1999, uma pesquisa constatou o aumento de 50% na alergia a produtos à base de soja, afirmando que o resultado poderia ser atribuído ao consumo de soja geneticamente modificada.

Quando se insere um gene novo num organismo, em princípio apenas o produto daquele gene será um novo composto. Efeitos imprevistos na expressão gênica NUNCA foram observados nas plantas GM comerciais, nem são efetivamente esperados, já que no processo de seleção do evento elite (aquele que vai servir de base para os híbridos comerciais) toda e qualquer modificação dos parâmetros normais da planta é razão para o descarte do produto.

As alergias alimentares são muito comuns, mas as plantas GM hoje no mercado nunca tiveram qualquer relação com alergias alimentares, tanto no homem como em animais de criação. A nova proteína produzida pela planta GM (quando alguma o é), evidentemente, passa por análises de alergenicidade antes da liberação do produto no mercado.

(IDEC) Outra preocupação é que se o gene de uma espécie que provoca alergia em algumas pessoas for usado para criar um produto transgênico, esse novo produto também pode causar alergias, porque há uma transferência das características daquela espécie. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos: reações em pessoas alérgicas impediram a comercialização de uma soja que possuía gene de castanha-do-pará (que é um famoso alergênico).

Esta frase demonstra um desconhecimento profundo de genética por parte de quem a redigiu: se um gene de um organismo frequentemente associado a alergias (camarão, por exemplo) for passado a uma planta, esta só poderá talvez produzir alergias se O GENE RESPONSÁVEL PELA PROTEÍNA ALERGÊNICA for empregado na transformação. Todos os outros 20.000 genes ou mais do camarão nada tem a ver com isso. A frase é apenas alarmista, soa científica, mas é um disparate.

O uso de genes que codificam alérgenos é, evidentemente, desaconselhado, na produção de novos transgênicos. Este NÃO É um risco real, mas apenas uma divagação que cria insegurança e temor no leitor da reportagem do IDEC.


(IDEC) 2. Aumento de resistência aos antibióticos

Para se certificar de que a modificação genética "deu certo", os cientistas inserem genes (chamados marcadores) de bactérias resistentes a antibióticos. Isso pode provocar o aumento da resistência a antibióticos nos seres humanos que ingerem esses alimentos. Em outras palavras, pode reduzir ou anular a eficácia dos remédios à base de antibióticos, o que é uma séria ameaça à saúde pública.

Esta especulação é antiga e redundante, mas só é ainda citada e sustentada pelos internautas menos experientes. Nenhuma planta GM nova expressa proteínas de resistência a antibiótico e mesmo as antigas, que o faziam, nunca foram relacionadas com aumento de resistência na população bacteriana que afeta os homens ou seus animais de criação. A razão disso é que em geral os alimentos são cozidos, e as proteínas se desnaturam, não servindo para selecionar bactérias resistentes no intestino do consumidor. Como é possível que o IDEC ainda sustente um ponto de vista tão superado?


(IDEC) 3. Aumento das substâncias tóxicas

Existem plantas e micróbios que possuem substâncias tóxicas para se defender de seus inimigos naturais, os insetos, por exemplo. Na maioria das vezes, não fazem mal ao ser humano. No entanto, se o gene de uma dessas plantas ou de um desses micróbios for inserido em um alimento, é possível que o nível dessas toxinas aumente muito, causando mal às pessoas, aos insetos benéficos e aos outros animais. Isso já foi constatado com o milho transgênico Bt, que pode matar lagartas de uma espécie de borboleta, a borboleta monarca, que é um agente polinizador. Sequer a toxicidade das substâncias inseridas intencionalmente nas plantas foi avaliada adequadamente. Estas substâncias estão entrando nos alimentos com muito menos avaliação de segurança que qualquer aditivo, corante, pesticida ou medicamento.


Outra vez, o IDEC parece seguir as fábulas da internet ao invés de seguir o avanço do conhecimento: o impacto das proteínas Bt sobre a borboleta monarca é, de fato, nulo. Centenas de estudos foram feitos para elucidar o potencial danoso das várias proteínas obtidas do Bacillus thuringiensis (as tais proteínas Bt) sobre os mais diversos organismos. Exceto por uns poucos artigos discordantes, que entretanto têm falhas metodológicas graves, nada foi encontrado que implicasse em dano ambiental. Se observarmos com atenção, não há relatos de danos ambientais produzidos pelo Bt, seja ele a formulação usada na agricultura orgânica, seja o produzido pelas plantas transgênicas. Isso é verdade para o Brasil e para vários outros países que empregam as plantas GM produtoras de Bt ou os cristais de Bt na agricultura orgânica. (Para um comentário sobre vozes discordantes, em especial sobre impacto do Bt sobre organismos não-alvo, ver http://genpeace.blogspot.com.br/2012/03/vozes-isoladas-na-ciencia-quebra-de.html)

A ideia equivocada de que estas proteínas não tiveram seu potencial tóxico corretamente avaliado é inteiramente fantasiosa: como dito antes, centenas de artigos esmiuçaram o potencial tóxico destas proteínas, que não são novas, mas empregadas comumente na agricultura orgânica há mais de 50 anos, sem qualquer relato de problema tóxico. Evidentemente, a avaliação de segurança alimentar de uma proteína nada tem a ver com a de um medicamento ou de um pesticida, e se o IDEC crê que o Brasil deveria tratar as proteínas Cry e Vip como se fossem inseticidas químicos, deve começar desafiando as sociedades científicas e a ANVISA, que pensam de outra forma.


(IDEC) 4. Maior quantidade de resíduos de agrotóxicos

Com a inserção de genes de resistência a agrotóxicos em certos produtos transgênicos, as pragas e as ervas-daninhas poderão desenvolver a mesma resistência, tornando-se "super-pragas" e "super-ervas". Por exemplo, a soja Roundup Ready tem como característica resistir à aplicação do herbicida Roundup (glifosato). Consequentemente, haverá necessidade de aplicação de maiores quantidades de veneno nas plantações, o que representa maior quantidade de resíduos tóxicos nos alimentos que nós consumimos. No Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou em 2004 o aumento em cinquenta vezes do limite de glifosato permitido em alimentos a base de soja. Os prejuízos para o meio ambiente também serão graves: maior poluição dos rios e solos e desequilíbrios incalculáveis nos ecossistemas.


O uso de agrotóxicos faz parte da agroindústria, use ela plantas GM ou não. Só que é preciso distinguir duas situações muito distintas, embaralhadas pelo parágrafo acima: a) plantas resistentes a insetos e b) plantas tolerantes a herbicidas.

No primeiro caso as plantas GM DEFINITIVAMENTE diminuem o uso de inseticidas (embora não o eliminem). Isto o IDEC, convenientemente, não comenta. Ora, resíduos de inseticida nos vegetais que serão consumidos frescos são a principal fonte de contaminação alimentar por agrotóxicos. É verdade que, por enquanto, as plantas que são consumidas frescas (frutas e legumes) não são ainda transgênicas. Por tanto, este assunto deverá ser tratado no futuro, e não como é feito nesta reportagem do IDEC. Sugerimos a leitura de http://genpeace.blogspot.com.br/2012/02/agrotoxicos-e-transgenicos-no-brasil.html) para uma avaliação da relação entre transgênicos e intoxicação alimentar por agrotóxicos no Brasil.

No caso das plantas tolerantes a herbicidas, o que ocorreu foi a substituição de um conjunto de herbicidas de largo impacto ambiental por outros de classe toxicológica muito mais baixa. É certo que houve um aumento no uso de herbicidas, mas também houve um enorme aumento da produção, que acompanha passo a passo o aumento do emprego de pesticidas, em geral. Portanto, não foram os transgênicos que implicaram num aumento do uso de agrotóxicos, mas o aumento global de produção. Só não vê isso quem quer não quer.

Que os agrotóxicos têm um impacto no ambiente é claro. Isso deve ser controlado, fiscalizado e, quando for o caso, punido o mau uso. Mas eliminar por completo os agrotóxicos é impossível no modelo atual de agricultura intensiva que o mundo todo emprega. Podemos voltar a produzir de forma mais artesanal e agroecológica e eliminar a agroindústria, é claro, mas para isso o Mundo deve encolher sua população em pelo menos 50%.


(IDEC) RISCOS PARA O MEIO AMBIENTE: os perigos que os transgênicos podem oferecer ao meio ambiente são muitos.

A inserção de genes de resistência a agrotóxicos em certos produtos transgênicos faz com que as pragas e as ervas-daninhas (inimigos naturais) desenvolvam a mesma resistência, tornando-se "super-pragas" e "super-ervas". Por exemplo, a soja Roundup Ready tem como característica resistir à aplicação do herbicida Roundup (glifosato). Isso vai exigir a aplicação de maiores quantidades de veneno nas plantações, com maior poluição dos rios e solos. Haverá ainda desequilíbrios nos ecossistemas a partir da maior resistência desenvolvida, ao longo dos anos, pelas pragas e ervas-daninhas.

O surgimento de plantas e insetos resistentes tem muito mais com o manejo do campo do que com o mecanismo de ataque e de defesa. Assim, roças mal conduzidas são logo punidas pelo aparecimento de plantas resistentes. A opção NÃO É aumentar a dosagem do agrotóxico, mas trocar o princípio ativo. E fazer o manejo correto do campo. Isso NADA TEM A VER com os transgênicos, mas sim com a agricultura, seja ela do pequeno produtor ou da agroindústria. Assim, este parágrafo da reportagem veicula um conceito errado e conclui ainda mais erradamente.

(IDEC) Para o Brasil, detentor de uma biodiversidade ímpar, os prejuízos decorrentes da poluição genética e da perda de biodiversidade são outros graves problemas relacionados aos transgênicos. 

A frase está completamente perdida aqui. Primeiro: o que vem a ser poluição genética? Isso soa meio nazista, ainda que o contexto seja outro. Segundo: porque o milho, a soja e o algodão transgênicos, resistentes a inseto ou tolerantes aos herbicidas, vão destruir nossa biodiversidade? Depois de dez anos de adoção desta tecnologia em 31 milhões de hectares, onde estão as evidências de que os transgênicos estão matando nossa biodiversidade? Se fossem as mesmas áreas plantadas com variedades não GM, seria o impacto ambiental menor? Duvidamos muito.