O manifesto Declaración
Latinoamericana por una Ciencia Digna – Por la prohibición de los transgénicos
en Latinoamérica fala de uma “outra” ciência, supondo que a atual está
comprometida com as corporações, em particular a ciência que tem interface com
a biotecnologia. Há aqui um grave erro conceitual: a ciência é uma só e
caracterizada pelo uso do método científico para a elucidação de questões. Não
importa se o cientista está se debruçando sobre a busca de uma fórmula para uma
série matemática ou se está em busca da compreensão de um novo mecanismo de
manipulação do DNA. Seus resultados e sua análise, se obtidos com o emprego do
método científico (consubstanciado nas várias metodologias de seu trabalho),
serão válidos. Qualquer experimento que fuja destas regras básicas não tem
validade.
Além disso, a ciência é um processo de construção e
desconstrução gradual, com idas e vindas e uma história complexa de acertos e
erros. Neste caminho a verdade nunca é absoluta, mas não deixa de existir. Esta
afirmação parece absurda ao leigo, mas assim é: o que é aceito pela maioria dos
cientistas é a “verdade”. Se houver outro ponto de vista igualmente baseado em
ciência (isto é, com resultados obtidos e analisados de acordo com o método
científico), ele será considerado como uma alternativa em estudo e só vencerá o
main trend se for apoiado por uma parcela grande de cientistas. Se um
grupo tem resultados que foram obtidos em violação aos princípios da
experimentação científica, não pode pretender impor seu ponto de vista nem
desafiar o que a maioria acredita, porque falta consistência (e, em última
instância, verdade) nos resultados.
Claro está que existem regras rígidas quanto à ética experimental
quando ela envolve animais e seres humanos nos experimentos. E o cientista,
enquanto Homem, deve também pautar-se pela ética em seu comportamento em
relação à sociedade. Estas regras não alteram resultados, mas validam o
trabalho do cientista como ser social. Em todas as instituições de pesquisa,
sejam públicas ou privadas, há comitês de ética e os próprios cientistas estão
agudamente conscientes de seu papel como exemplos de comportamento ético, além de
serem exemplos do indispensável modus operandi científico.
É certo que nem todo cientista é ético, mas a maioria o
é. Imaginar que a maior parte dos que trabalham em investigação na interface
com a biotecnologia é composta de cientistas antiéticos e que apenas um pequeno
grupo de “independentes” é ético compõe a fantasia dos ativistas anti-OGM. O
que fazem os ativistas é um julgamento ideológico dos cientistas que geram as
descobertas e daqueles que fazem a inovação nesta área aplicada. Quem os julga tem
em geral seus trabalhos na mesma área rejeitados pela maioria dos cientistas,
não por qualquer característica ética ou anti-ética de quem gerou os
resultados, mas pelo descumprimento do método cientifico na geração de seus
resultados. É o caso do Séralini, do falecido Carrasco e de alguns outros: seus
resultados foram obtidos com violações mais ou menos graves do método
científico.
Poder-se-ia argumentar: acaso existe só um método
científico? Uma “outra” ciência, em que a ética e a ideologia fossem os guias
principais, e não a ditadura do método científico cartesiano, não poderia
desenvolver sua própria metodologia? Sim, poderia! Tivemos um exemplo completo
disso no biólogo Lisenko, que inventou uma nova genética e um novo método
experimental que convinha à ideologia e à ética do Partido Comunista Soviético
na ocasião. Os que se alinharam ao seu novo método, ungidos pelos santos óleos
da ética stalinista, enterraram a agricultura soviética, que até hoje patina no
underground. E os que tentaram continuar sendo cientistas à antiga, bem
cartesianos, foram mandados para a Sibéria, como o grande geneticista Vavilov.
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