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domingo, 22 de junho de 2014

O zumbi redivivo: Séralini tenta republicar seu artigo “mostrando” outra vez danos aos ratos pela ingestão de milho transgênico

Soube de fonte muito bem informada da França que o artigo zumbi do Séralini e de sua trupe será republicado. Bizarro!

O CRIIGEN, instituto de pesquisa “independente” onde trabalha o Séralini, já preparou a press conference aos mínimos detalhes, provando mais uma vez que, se eles são ruins em ciência, são excelentes na agenda setting da mídia. Tudo vai ocorrer com grande espalhafato dentro de dois dias na França (onde mais?): a entrevista coletiva terá lugar em Paris no dia 24 de junho, na Salle du bureau d'information du Parlement européen, Bvd St Germain, 288 (chega-se com o Métro 12, parada Assemblée Nationale) às 11:00 hs, quando será revelado o nome da revista e respondidas as questões dos jornalistas. O tal press release do CRIIGEN será então divulgado como informação suplementar.

Embora a revista ainda seja uma surpresa, não é difícil especular que será, provavelmente, a Environmental Sciences Europe, uma revista na qual o Séralini publicou recentemente e que também publica artigos de outros pesquisadores anti-OGM, como a Angela Hilbeck e a turma de “institutos de pesquisa” tais como Epigen, Gesellschaft für Ökologische Forschung e
Testbiotech, todos de Munique e que juntam a fina flor dos “ecologistas” de plantão. Esta turma garimpa verbas públicas e privadas para financiar pesquisas contra um monte de temas que trazem a si os holofotes da mídia. Como a revista é Open Access, há uma porção de downloads dos artigos, menos pela sua qualidade do que pela polêmica que geram.
Estejam preparados, portanto, para a repetição ad neuseam da mesma ária cantada pelos papagaios de plantão aqui no Brasil e no exterior. Haverá leitura prévia do "novo" artigo pelos psitacídeos, antes que repitam o press release do Criigen? Duvido muitíssimo.

Depois da press conference eu posto o “novo” artigo e outras informações e, então vocês, meus caros quatro ou cinco leitores, poderão avaliar com cuidado e se posicionar.

Observações adicionadas 48hs depois da postagem original:
Leiam também:
a) http://genpeace.blogspot.com.br/2014/06/republicado-o-artigo-zumbi-de-seralini.html
b) http://genpeace.blogspot.com.br/2014/06/o-artigo-republicado-de-seralini.html 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Soja transgênica, “Academia Militar” Chinesa e riscos hipotéticos: um pouco de investigação esclarece o leitor

Mais uma vez a besteira está na mesa: a Academia Militar de Ciências Chinesa teria publicado um estudo mostrando que milhões de chineses estão doentes por causa da soja transgênica. A notícia está repetida em muitos blogs e sites, iniciando o rosário numa matéria do O Estado de S. Paulo de 09/05/2014. Lá a informação provém de um “artigo publicado pela Academia Militar de Ciências da China” que diz ter “evidências de danos à saúde de 1,3 bilhão de chineses”. O que há de verdade aí?



Nada. A tal Academia é uma Academia de Ciências Militares (e não uma Academia Miliar de Ciências, estilo IME ou ITA, que é coisa muito diferente), nada mais que um grupo (grande) de interessados em assuntos militares (http://en.wikipedia.org/wiki/Academy_of_Military_Science_(People's_Republic_of_China) ) . E o tal artigo não foi publicado, porque não é um artigo, é uma mera comunicação a um encontro técnico na China. E não é um estudo da academia, é uma opinião de um coronel de lá, ex vice-presidente da tal Academia, que vê na soja GM a causa do aumento de uma série de doenças entre os chineses (veja figura). Além disso, o grão da soja transgênica que chega lá (inclusive a brasileira) é dada essencialmente aos porcos e galinhas, não é para consumo humano. O que os chineses comem desta soja é o óleo, que é EXATAMENTE IGUAL ao óleo da soja não transgênica.

Enfim, o que o Estadão publicou é apenas e tão somente um besteirol, mas feito propositalmente para dar a impressão de que algo grave foi demonstrado em relação à saúde humana, tendo como causa a soja GM. Qual variedade de soja, evidentemente, não é citada (há umas duas dúzias), mas em alguns sites já está explícito: é a da Monsanto...

Para os sites que propagam este besteirol (como papagaios do Estadão), vejam:
2.       Pratos limpos -http://pratoslimpos.org.br/?p=6957

De onde proveio esta informação, uma vez que o chinês não é exatamente um idioma popular entre os brasileiros, nem a China é um exemplo de transparência? Tudo indica que a coisa veio do Sustainable Pulse ou do Food Democracy Now, sites de oposição aos transgênicos e a tudo que é novidade tecnológica que possa afetar direta ou indiretamente a vida dos americanos. Mas nosso jornalista bebeu na fonte do Real Farmacy, que neste caso é apenas água servida do esgoto dos outros dois sites. Os links vão abaixo:

Curiosamente, lá no Sustainable Pulse esta claro que o “artigo” é na verdade um resumo publicado num jornal dedicado a questões militares e que o autor é ex (observem bem, ex) vice-presidente da tal Academia de Ciências Militares. O Coronel Mi Zhen-yu é apenas mais um curioso a escrever sobre o que pensa: suas especulações não têm a menor base na observação científica.

Concluo aqui afirmando que o uso destes estratagemas reduz o mérito da luta ambiental e deveria ser evitado.

Apêndice 1: o resumo do texto do coronel, traduzido e disponível no Food Democracy now, parece ser o que está abaixo. Como se pode ver, o tal artigo é simplesmente uma opinião, resumida a poucos parágrafos (1.500 palavras). Erroneamente, o nosso coronel vermelho imagina que o óleo de soja é a causa de tudo, esquecendo que não há a mais ínfima diferença entre os óleos das sojas GM e convencionais, nem resíduos de pesticidas nestes óleos. No fim de seu resumo ele sugere que se façam estudos epidemiológicos, no que está certo. 

In 2013, China imported 63.38 million tons of GM soybeans from USA and other countries. Most of China's imported GM soybeans are used to extract soybean food oil (one of the main tradenames is "Golden Fish" ). GM soybean oil, widely used not because of its quality but rather due to its cheap price, has rapidly dominated China's soybean food oil market, covering most of the restaurant industry and canteens in China. The glyphosate residue contained in GM soybean food oil (and GM soybean protein powder processed from GM soybean cake, a by-product of GM soybean food oil) eaten three meals a day, continuously penetrates the bodies of most Chinese, including children at kindergarden, primary school and middle school, university students and teachers, staff members and soldiers of the Chinese army, government staff members, and other consumers (with exception of special food supplied units).

During the past 20 years, the health level of the Chinese people has rapidly deteriorated with various diseases rapidly increasing. The situation is shocking. China's national health has deteriorated sharply in recent years. Although weather, water pollution and other factors also exist, the harm from GM soybeans can not be eliminated. Assuring absolute safety of the food supply is a firm policy of the state. On the massive issue of human health and life, we have no room for trial and error. Now is the time to dismantle the "information barrier" on GM food.

Concerned departments should seriously carry out epidemiological investigations, face up to reality, control the risks, carry out the prevention priority principle, and adopt effective measures to ensure the bottom line of life and health safety of the people

Mas o texto chinês que está impresso no jornal e que aparece no nosso blog acima é muito mais longo: traduzido e incluindo as referências, ele tem cerca de 10.000 palavras e seu conteúdo é uma colagem de preocupações que circulam na internet com uma pseudo roupagem científica. Ao que tudo indica o velho coronel empenhou pelas orelhas, além de dizer disparates (como o glifosato ser componente do agente laranja!). Devemos dar a ele, contudo, o atenuante de algum erro de tradução.

O blog de onde veio a informação é chinês (blog.sina.com.cn/s/blog_4bb17e9d0102edhg.htmlblog.sina.com.cn/s/blog_4bb17e9d0102edhg.html)  e é cuspido e cagado o site do Sustainable pulse ou outro congênere ocidental, De lá os meus caros 5 ou 6 leitores podem copiar o texto e colar no Google translator, como eu fiz.

Apêndice 2: Vale a pena uma leitura da matéria do Estadão (link), origem da folie furieuse que se desencadeou entre os sites “engajados na luta contra os OGMs”. A matéria traz ao leitor as mais recentes informações que circulam contra as plantas transgênicas e sua adoção no Mundo.

Logo no início a matéria nos fala da proibição que o Senado Frances fez à única variedade de milho transgênico que vem sendo plantada na Europa. O que elaesqueceu de dizer foi que todos os órgãos técnicos franceses foram claros em afirmar: esta proibição não faz sentido do ponto de vista de segurança ambiental e à saúde. Foi uma decisão política, nada mais.

Depois otexto envereda pelo caso da tal Academia Militar de Ciências, que já comentei antes. E continua no caso curioso do Sri Lanka, dizendo que o Governo de lá proibiu a venda do glifosato por causa de uma correlação com doença renal crônica naquele país. Aqui ele resvalou da crítica aos transgênicos à luta contra os pesticidas. Depois que um artigo científico feito por pesquisadores do Sri Lanka foi publicado sobre esta correlação, o Governo local resolveu suspender temporariamente a venda de glifosato. No mesmo site do Sustainable Pulse citado anteriormente (http://sustainablepulse.com/2014/05/13/sri-lanka-lifts-ban-sale-glyphosate/#.U3uRi9JdXrQ) está informado, entretanto, que no dia 12 de maio a suspensão das vendas de glifosato no Sri Lanka havia sido terminada por ordem do Ministério da Agricultura, por falta de justificativas para impor um banimento. Como o texto é de 9 de maio, a gente entende...mas um bom jornalista deve cheirar a barriga: é evidente que um país não vai suspender o uso do herbicida considerado mais seguro e mais empregado na agricultura por causa de um artigo científico isolado e muito especulativo. Para os leitores que podem avaliar o texto que deu origem ao imbróglio no Sri Lanka,  o link está aqui: http://www.mdpi.com/1660-4601/11/2/2125.

Em seguida o nosso bom jornalista resvala para a rotulagem, que nada tem a ver com a segurança dos transgênicos, mas com um direito de informação do consumidor. E termina misturando vaca louca, cabras transgênicas no Ceará e Luiz Gonzaga. Coitado do Velho Lua, que sempre foi um desenvolvimentista e queria para o Nordeste o que existe de mais avançado, sem perder as tradições de nossa gente.

Fonte da imagem: revistaescola.abril.com.br



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Transgênicos e a morte de abelhas: uma grande mentira que precisa ser desmascarada

Enquanto os pseudo verdes terçam sabres contra os transgênicos e seguem argumentando que as abelhas morrem por causa das plantas GM, as ditas vão morrendo de doenças infecciosas emergentes e transmitindo seus patógenos para importantes polinizadores silvestres. Estes muitas vezes já estavam em risco de extinção e, se nada for feito, vão desaparecer. Com eles, desaparecerão também muitas espécies de plantas que são polinizadas exclusivamente por estes insetos na Natureza. E, na avalanche, desaparecerão outros animais associados a estas plantas. Isso, sim, é um problema real com o qual os ecologistas devem se preocupar de verdade.

O artigo recém-publicado na revista Nature mostra claramente a associação entre as doenças infecciosas emergentes das abelhas criadas comercialmente e as infecções entre abelhas silvestres. A abelha europeia (Apis mellifera), embora muito valorizada como prestadora de serviços ambientais, é uma espécie exótica na maior parte dos países em que é empregada como polinizadora e produtora de mel. Seu intenso manejo nos apiários, que inclui até mesmo o transporte rodoviário para distintos campos onde as floradas são exploradas comercialmente, leva ao estabelecimento e disseminação de doenças infecciosas, como ocorre com outros animais de produção sob o regime de criação intensiva. Estas doenças nada têm a ver com as plantas transgênicas, mas com a forma frequentemente super-intensiva e inadequada como as abelhas vêm sendo manejadas. Evidentemente, pode haver um aumento de predisposição às doenças, provocado por outros fatores, como a presença de inseticidas e outros pesticidas no campo, mas o pólen de plantas transgênicas não tem qualquer relação com isso.
A passagem destes agentes infecciosos emergentes para abelhas silvestres é uma questão muito grave. Com a palavra os autores do artigo “Disease associations between honeybees and bumblebees as a threat to wild pollinators”, Fürst, McMahon, Osborne, Paxton e Brown. O artigo foi publicado na Nature agora, no dia 20 de fevereiro de 2014 (doi:10.1038/nature12977). http://www.nature.com/nature/journal/v506/n7488/full/nature12977.html    

As doenças infecciosas emergentes (EIDs) representam um risco para o bem-estar humano, tanto direta1 como indiretamente, afetando animais de criação (gado, mas também abelhas e peixes) e os animais selvagens que fornecem recursos valiosos e serviços ecossistêmicos , como a polinização de culturas 2 . A abelha (Apis mellifera) é o inseto polinizador de colheita mais manejado do Mundo e sofre com as doenças provocadas por uma gama patógenos de alto impacto, emergentes e exóticos 3,4, tornando necessário um manejo pro-ativo das populações de abelhas pelos apicultores para controlar estas doenças. Polinizadores, como abelhas silvestres (Bombus spp.), estão em declínio global e uma das causas pode ser o spillover de patógenos dos polinizadores, como as abelhas em apiários 5,6 ou colônias comerciais de mangangavas, para as espécies silvestres. Neste artigo usamos uma combinação de experimentos de infecção em laboratório com dados colhidos em campo em escala de paisagem para mostrar que as doenças infecciosas emergentes de abelhas são responsáveis pela presença de facto de agentes infecciosos de forma generalizada entre o conjunto de polinizadores. A prevalência do vírus deformador da asa (DWV) e do parasita exótico Nosema ceranae em abelhas e zangões está ligada; como a DWV tem maior prevalência entre abelhas e as mangangavas e outras abelhas melíferas simpátricas estão infectados pelas mesmas cepas de DWV, Apis é a provável fonte pelo menos desta importante EID em polinizadores silvestres. As lições aprendidas com vertebrados 7,8 apontam para a necessidade de maior controle de patógenos em abelhas de apiários para a preservação dos polinizadores selvagens, uma vez que quedas nas populações de polinizadores nativos podem ser causadas por transmissão de patógenos provenientes de polinizadores manejados comercialmente.

1. Binder, S., Levitt, A. M., Sacks, J. J. & Hughes, J. M. Emerging infectious diseases: public health issues for the 21st century. Science 284, 1311–1313 (1999).
2. Oldroyd, B. P. Coevolution while you wait: Varroa jacobsoni, a new parasite of western honeybees. Trends Ecol. Evol. 14, 312–315 (1999).
3. Ratnieks, F. L. W. & Carreck, N. L. Clarity on honey bee collapse? Science 327, 152–153 (2010).
4. Vanbergen, A. J. & The Insect Pollinator Initiative. Threats to an ecosystemservice: pressures on pollinators. Front. Ecol. Environ 11, 251–259 (2013).
5. Evison, S. E. F. et al. Pervasiveness of parasites in pollinators. PLoS ONE 7, e30641(2012).
6. Genersch, E., Yue, C., Fries, I. & de Miranda, J. R. Detection of deformed wing virus, a honey bee viral pathogen, in bumble bees (Bombus terrestris and Bombus pascuorum) with wing deformities. J. Invertebr. Pathol. 91, 61–63 (2006).
7. Fisher, M. C. et al. Emerging fungal threats to animal, plant and ecosystem health. Nature 484, 186–194 (2012).
8. Krebs, J. et al. Bovine Tuberculosis in Cattle and Badgers (MAFF Publications, 1997).



Leituras associadas sugeridas pelo nosso blog

Alexander KA, Lewis BL, Marathe M, Eubank S, Blackburn JK.
Vector Borne Zoonotic Dis. 2012 Dec;12(12):1005-18. doi: 10.1089/vbz.2012.0987. Epub 2012 Nov 30
 Review.   Free PMC Article

Hayman DT, Bowen RA, Cryan PM, McCracken GF, O'Shea TJ, Peel AJ, Gilbert A, Webb CT, Wood JL.
Zoonoses Public Health. 2013 Feb;60(1):2-21. doi: 10.1111/zph.12000. Epub 2012 Sep 7.
Review.   Free PMC Article

Kojima Y, Toki T, Morimoto T, Yoshiyama M, Kimura K, Kadowaki T.
Microb Ecol. 2011 Nov;62(4):895-906. doi: 10.1007/s00248-011-9947-z. Epub 2011 Sep 30.

Fabiszewski AM, Umbanhowar J, Mitchell CE.
Ecol Appl. 2010 Mar;20(2):582-92.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Refutando “A ineficácia dos transgênicos e suas verdadeiras intenções“: a abordagem da precaução, a avaliação de risco e a CTNBio


Em entrevista concedida à Página do MST, que resultou na nota intitulada “A ineficácia dos transgênicos e suas verdadeiras intenções”, publicada no blog Em Pratos Limpos, de 19/04/2012, Pedro Ivan Christoffoli, da Universidade Federal da Fronteira Sul tece uma série de comentários sobre as culturas transgênicas no Brasil. O texto de três páginas tem como enfoque principal as questões econômicas ligadas ao uso de sementes transgênicas, mas em alguns momentos discute aspectos de biossegurança dos transgênicos. Sendo este o tema central do blog GenPeace, comentamos abaixo alguns pontos de vista do Prof. Christoffoli, dos quais discordamos e que estão mais diretamente ligados à avaliação de risco.

O entrevistado afirma que, para o capital, os transgênicos foram um achado, pois a engenharia genética abre todas as possibilidades de manipulação da natureza. Cabe aqui a seguinte pergunta: porque apenas para o capital? A humanidade se beneficia do desenvolvimento científico e o modelo de negócio pelo qual ele vai chegar ao mercado, que nunca é único, é que vai determinar se haverá uma distribuição mais justa da inovação ou se ficará restrita a um pequeno grupo. Veja-se, por exemplo, o feijão resistente ao vírus do mosaico dourado, desenvolvido pela Embrapa: ele é fruto da mesma engenharia genética que os milhos e sojas das multinacionais, mas será entregue sem custos aos brasileiros. Será que o professor Christoffoli julga que a tecnologia do DNA recombinante é exclusiva dos capitalistas? É bom olhar com cuidado para a China, a Rússia e Cuba, apenas para pegar os exemplos extremos. É bom também olhar as empresas de governo e as iniciativas humanitárias, que estão trazendo plantas transgênicas que serão de grande ajuda para os consumidores e pequenos produtores.

A pergunta seguinte, já na área da biossegurança e da avaliação de risco, vem imediatamente após a afirmação anterior e é seguida de sua resposta imediata: Agora, isso é seguro? Uma vez que se introduz transgênicos, que são seres vivos, é muito difícil, praticamente impossível, de removê-los do ecossistema, pois esses organismos se auto-reproduzem. Eles se espalham pelo mundo e você perde o controle.  Um dos pontos principais da avaliação de risco é a questão da dispersão dos transgênicos e, sobretudo, da construção gênica (o transgene e regiões controladoras) através de organismos sexualmente compatíveis com o transgênico introduzido. Claro está que nos casos das plantas transgênicas comercialmente liberadas no Brasil este estudo foi feito, e muito bem feito, sendo a CTNBio o órgão técnico responsável pelo parecer final. Devemos lembrar que milho, soja e algodão só se propagam se forem plantados pelo homem, nenhuma destas plantas tem nem jamais terá características e comportamento de plantas invasoras. Assim, não é verdade que os transgênicos saiam pelo mundo afora, sem controle da sociedade. Claro que cada caso é diferente dos precedentes: um peixe transgênico poderia ser um problema, mas também vai depender do gene inserido e de muitos outros elementos, que serão analisados, quando aparecer o produto, pela CTNBio. No caso da passagem do transgene para plantas nativas ou pragas sexualmente compatíveis, o caso requer mais cuidado. Ocorre quem nem a soja nem o milho têm estes parentes no Brasil. O algodão pode cruzar com um algodoeiro nativo, mas o híbrido provavelmente não será competitivo. Ainda assim, a CTNBio estabeleceu zonas de exclusão para o cultivo do algodão GM. Somos forçados a concluir que a afirmação do professor Christoffoli é apressada e sugerimos que ele reveja sua posição.

No texto surge, então, uma reivindicação: A sociedade tem que controlar isso, tem que acompanhar; não pode deixar na mão das empresas, porque elas querem
lucro. Se descobrirem mais tarde que os transgênicos fazem mal à saúde,
o ônus será da sociedade. De fato, a lei 11.105, de novembro de 2005, dá ao Estado Brasileiro as ferramentas para o controle dos transgênicos (não apenas plantas, mas absolutamente tudo que é transgênico ou produzido por transgênicos). Não se trata, pois, de dizer que a sociedade deve controlar os transgênicos: ela JÁ O FAZ. Se bem ou mal, isto é outra questão.

Logo adiante o Prof. Christoffoli afirma que na ciência, existe o princípio da precaução. Se não temos certeza que os transgênicos fazem mal à saúde, o princípio da precaução diz que você deve agir no sentido de evitar que o dano aconteça, e não liberar barreiras. A frase tem vários erros, que precisamos corrigir. Primeiramente, a palavra princípio tem um significado jurídico muito abrangente, que não se aplica aqui. O que o Protocolo de Cartagena estabelece, no seu Princípio 15 (aqui, sim, é princípio), é que as Partes devem adotar uma abordagem (ou um critério) de precaução. O Protocolo e as leis que o interiorizam no Brasil não são instrumentos da ciência, mas do Judiciário e do legislativo; por isso, na verdade, a abordagem de precaução é exclusiva dos avaliadores de risco (membros e assessores da CTNBio, e seus pares nos institutos de pesquisa e empresas públicas e privadas) no âmbito da experimentação e liberação comercial de transgênicos, e não dos cientistas em geral. Por fim, o Princípio 15 do Protocolo de Cartagena define a abordagem de precaução de uma forma que parece equivalente à expressa pelo professor, mas não é: uma tradução possível da versão em inglês diz "com a finalidade de proteger o meio ambiente, os Estados devem aplicar amplamente o critério da precaução conforme suas capacidades. Quando houver perigo de dano grave ou irreversível, a falta de uma certeza absoluta não deverá ser utilizada para postergar-se a adoção de medidas eficazes para prevenir a degradação ambiental". Ora, o texto indica que medidas preventivas e mitigatórias devem ser tomadas se houver perigo de dano grave ou irreversível. Para todos os transgênicos até hoje liberados, seja no Brasil, seja em qualquer outro país, nunca foram identificados perigos de dano grave ou irreversível ao meio ambiente ou à saúde humana e animal. Muito ao contrário, eles foram considerados tão seguros quanto seus parentais não transgênicos. De toda forma, o Princípio 15 não diz que se deve proibir o produto, mas apenas que medidas para prevenir a degradação ambiental devem ser tomadas. Por isso, numa abordagem talvez excessivamente precaucionária, a CTNBio determinou áreas de exclusão para o plantio de algodão GM.

A seguir o entrevistado afirma que uma série de protocolos de segurança devem existir antes da liberação comercial. É exatamente isso que acontece: as liberações planejadas, além de todos os experimentos em laboratório e casas de vegetação, prévios a elas, dão os subsídios para a decisão do avaliador de risco. É assim no mundo todo e o Brasil não faz diferente, nem de forma menos rigorosa e não, como afirma o professor, muito superficial. Aliás, suas críticas continuam afirmando que o Estado tem sido tolerante com eventuais perigos, apontados sempre por algumas vozes na ciência que publicam resultados diferentes dos observados por todos os demais. Neste sentido, sugerimos a leitura de http://genpeace.blogspot.com.br/2012/03/vozes-isoladas-na-ciencia-quebra-de.html. Aqui o problema não é quem financia a pesquisa (as vozes alarmistas, por exemplo, são frequentemente financiadas por organizações contra os transgênicos), mas a qualidade e consistência dos dados e a experiência de 15 anos na liberação de milhões de hectares plantados com transgênicos.

Por fim, segundo o professor, há claramente um problema de restrição da liberdade científica. Dada a gravidade deste problema, seria conveniente que o entrevistado desse indicações claras de onde isso está ocorrendo, ao invés de ser genérico e repetir o que circula pelos sites da internet contra os transgênicos. Só para informação do público, o primeiro artigo que “mostrava” a presença de fragmentos de construção transgênica de variedades de um milho comercial GM para variedades de paiol no México foi amplamente refutado. Depois dele, uma longa série de afirmações e desmentidos se seguiram. Mas o ponto principal ficou claro: a presença de transgenes nos milhos crioulos, se existir, em nada altera sua competitividade no ambiente, nem seu uso como alimento e ração.