segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Agrotóxicos e transgênicos – sinopse de postagens no GenPeace

Caros,

O assunto “Agrotóxicos e transgênicos” (e, em alguns casos, mais agrotóxicos que transgênicos...) foi tratado no Genpeace em várias ocasiões, com textos meus (sozinho ou em colaboração com colegas mais sábios) e em textos de terceiros. A maior parte foi em resposta à hipótese sem fundamento de que o aumento do uso de agrotóxicos no Brasil se deve ao aumento do uso de transgênicos. A turma que propõe esta ligação se esquece que:

a) só o glifosato (e em menor grau dois outros herbicidas) pode ter um aumento relacionado à expansão das plantas GM tolerantes a ele. Todas as plantas Bt e similares determinaram uma redução importante do uso de inseticidas. Mas mesmo o glifosato sempre foi e continuará sendo usado em uma infinidade de aplicações agropecuárias e é por isso que ele é o líder de vendas. Os demais herbicidas, inseticidas, fungicidas, vermicidas, etc., que estão computados no tal aumento de 200% em dez anos, nada têm a ver com as plantas transgênicas.

b) o aumento no uso de plantas transgênicas, de 2005 a 2014, foi de mais de 10 vezes! Que matemática é essa que iguala um aumento no uso de agrotóxicos em geral, que foi de 2X, com o das plantas GM, que foi de 10X?!!

c) o que de fato aumentou muito (umas 1,5 a 2X) foi a produtividade de nossa agricultura: com um aumento insignificante de área nossa produção aumentou 2X.
Para bom entendedor, a coisa é óbvia: a intensificação da agricultura promoveu um maior uso de agrotóxicos em geral. Mas a turma vai continuar insistindo nesta história da carochinha de aumento de agrotóxico devido aos infernais transgênicos; por várias razões...

Aqui está um sumário das postagens

1. Agrotóxicos: tamanho real do problema e não-relação com os transgênicos -  http://genpeace.blogspot.com.br/2015/03/agrotoxicos-tamanho-real-do-problema-e.html  
2. A adoção dos transgênicos na agricultura não aumentou o uso de agrotóxicos   http://genpeace.blogspot.com.br/2015/04/a-adocao-dos-transgenicos-na.html
3. Instituto culpa transgênicos por aumento no uso de agrotóxicos, sem provas; especialistas rebatem   http://genpeace.blogspot.com.br/2015/05/instituto-culpa-transgenicos-por.html  
4. Cientistas reafirmam ausência de correlação entre aumento do uso de agrotóxicos e aumento do uso de transgênicos: ativista erra nas contas e resvala na ética   http://genpeace.blogspot.com.br/2015/05/cientistas-reafirmam-ausencia-de.html  
5. Resposta detalhada às afirmações de Alan Tygel intituladas “Transgênicos: malefícios do mau uso dos dados e o diálogo mentiroso” publicadas em 11/05/2015 no Jornal da Ciência (SBPC)  http://genpeace.blogspot.com.br/2015/05/resposta-detalhada-as-afirmacoes-de.html  


De toda forma, para a CTNBio o assunto “agrotóxico” é, na prática, vetado pela lei 11.105, no seu artigo 39. Tudo que se refere a agrotóxico vai para a seara do MAPA, da ANVISA e do IBAMA. Mesmo quando a CTNBio aprova um produto que vai usar um agrotóxico, quem regulamenta isso não é ela e quem determina os níveis aceitáveis de uso, menos ainda. De toda forma, não há nada de “imoral” nisso: os níveis de agrotóxicos tolerados para uso em plantas transgênicas não são elevados (10 partes por milhão de resíduo no grão de soja, por exemplo, é o máximo permitido e resulta de limites estabelecidos por aplicações em quantidades rotineiras) e esta história de que as plantas GM foram feitas para tomar banhos de herbicidas é uma fantasia tremenda de alguns ativistas.

Prós e contras dos transgênicos na percepção pública e na avaliação de risco


Paulo Paes de Andrade
Departamento de Genética/ UFPE

Alguns questionamentos sobre as plantas transgênicas hoje no mercado brasileiro surgem sempre, de forma redundante. Muitos são voltados à questão do modelo agrícola brasileiro, outros envolvem o uso de herbicidas, outros ainda questionam os cientistas que não encontraram problemas com os transgênicos e alguns poucos estão centrados nos riscos diretos das plantas transgênicas à saúde e ao ambiente. Embora estes últimos questionamentos sejam os únicos que, de fato, me interessam integralmente, acabo me posicionando sobre os demais, nem sempre com a base técnica ideal. Isso pode me dar dor de cabeça no futuro, mas como sempre me consulto com os especialistas e leio o máximo que posso dentro do tempo que meu trabalho e demais atividades permitem, acho que não erro muito.
A postagem que se segue é baseada em vários questionamentos do Sr. Ruy Freire Filho (link), que gentilmente colocou suas opiniões no blog Tudo sobre plantas e as discutiu comigo. Creio que a ordenação e formalização textual destas respostas podem ser de alguma utilidade ao público interessado nos transgênicos e seu uso na agricultura.

1. Melhor seria se fôssemos um país agroecológico ou ao menos livre de transgênicos
Somos grandes exportadores de grãos. Se isso é bom ou mau, não sei, mas o país foi levado a isso por uma série de circunstâncias históricas, que envolvem o descaso com a educação, a concentração de terras, a aptidão agrícola, nossa vasta área e muitas outras coisas. Se quisermos competir no mercado internacional, tempos que seguir o que há de mais moderno na produção de grãos ou nossos preços não serão competitivos. Isso inclui a transgenia. Alguns argumentam que existe um mercado convencional grande (dos países que não compram transgênicos), mas este mercado é pequeno para o tamanho do nosso país. Outro modelo de agricultura (agroecológico, orgânico, etc.) pode fornecer suficiente grão para o consumo interno, mas duvido muitíssimo que possamos competir e exportar gerando a renda que hoje geramos.
Uma quantidade gigantesca de milho e soja é transformada na comida diária do brasileiro, diretamente (em geral através de produtos industrializados) ou indiretamente (através da pecuária). Grandes e médios agricultores também contribuem para a produção de outros itens da nossa mesa: arroz, batata, açúcar, laranja, café e por ai vai. Evidentemente o país possui também uma vasta área plantada por pequenos agricultores, agricultores familiares e cooperados, que produzem grande variedade de produtos agrícolas, em geral para o consumo in natura ou com pouco processamento. O Governo Federal apoia os dois tipos de agricultura e está certíssimo em fazer assim. Um país que quer garantir divisas com a agricultura e alimentar seu povo deve evitar polarizações tecnológicas e ideológicas e nosso país convive (nem sempre bem) com os modelos baseados em pequena agricultura e grandes produtores, facilitando o suprimento interno de alimentos e garantindo divisas. Também não devemos acreditar que os pequenos agricultores são os responsáveis majoritários pela mesa do brasileiro: não é assim – os pequenos, médios e grandes produtores, todos, garantem nossas refeições diárias com hortaliças e frutas, feijão, cebola, óleo, margarina, arroz, açúcar, café, sucos embalados e engarrafados, embutidos de todo tipo, biscoito, bolachas, cuscuz, canjica, macarrão, pão, leite, queijo, carne, vinhos, cerveja, cachaça e por aí vai, numa lista que inclui todos os agricultores deste país. É uma tremenda inverdade afirmar que 70 % do que comemos provém da pequena agricultura.

2. Compra de sementes e dependência tecnológica
 A compra de sementes a cada safra, no lugar do plantio de grãos, pode parecer ruim para o agricultor, mas não é assim: a cada ano novas variedades são lançadas, cada vez mais produtivas e adaptadas a cada nicho de terra de nosso país. Plantar grãos de uma safra na próxima não incorpora estes ganhos. Além disso, doenças e pragas podem facilmente ser propagadas quando se usa grãos como sementes e isso todo agricultor que planta muitos hectares de terra sabe muito bem. Daí a vantagem de comprar sementes. Mais uma vez, o cenário aqui é o de alta produtividade e o “lucro” com sementes melhoradas, mesmo que adquiridas de uma empresa multinacional, se espalha por toda a cadeia produtiva e para os consumidores. Isso é bem visível nos gráficos da Céleres (http://celeres.com.br/3o-levantamento-de-adocao-da-biotecnologia-agricola-no-brasil-safra-201415/) .
Por outro lado, o melhoramento é feito tanto pelas empresas privadas como pela EMBRAPA, e todas elas bebem da fonte do agricultor: há, sim, um diálogo contínuo entre o produtor e o melhorista, ao menos no Brasil. Cria-se, desta forma, uma certa interdependência entre os melhoristas brasileiros, os agricultores e as empresas multinacionais.
Ainda que o uso de sementes desenvolvidas por multinacionais seja muito difundido (e não apenas no agronegócio, é bom dizer), se os preços não forem vantajosos o agricultor escapa pela tangente, usando grãos como sementes e empregando sementes distribuídas pelo governo. A ninguém interessa um impasse comercial, onde o produtor de semente não consegue vender e o agricultor não consegue plantar.

3. Venda casada de sementes e insumos
A “venda casada” é um problema sério, mas o ubíquo glifosato (herbicida mais usado no Mundo, mesmo antes dos transgênicos) não é um caso típico: várias empresas produzem plantas tolerantes ao glifosato e muitas empresas produzem o glifosato, de forma que o conceito de “venda casada” não se aplica. O mesmo é válido para o 2,4-D, que é produzido por muita gente e para o qual muitas plantas GM de diferentes empresas estão sendo avaliadas pela CTNBio (sugiro uma leitura da última pauta da Comissão, que está sempre disponível no site da CTNBio). A venda casada ocorre desbragadamente em outros setores e os brasileiros raramente percebem...

4. Boatos e suspeitas sobre os OGMS
A questão do suicídio devido aos transgênicos pode ser descartada, seguramente (http://www.nature.com/news/case-studies-a-hard-look-at-gm-crops-1.12907) . Se o algodão GM é proibido em determinadas áreas da Índia, é muito mais uma questão política (e que envolve a percepção de risco) do que uma questão científica (e que envolve a avaliação de risco).
Quanto às superpragas, elas se devem ao mau manejo de pragas e não á tecnologia em si. Além disso, elas não são, na verdade, “super” em nada: a revista Nature, linkada acima, apenas adotou a linguagem usada na mídia popular.
Há um grande número de outros mitos e algumas suspeitas. A diferença entre estas duas categorias é que os mitos não têm qualquer base científica e as suspeitas derivam de trabalhos publicados, relatórios técnicos e outras formas de ordenar resultados de acordo com a praxe científica. Muitas questões pertinentes estão detalhadamente descritas na Wikipedia (https://en.wikipedia.org/wiki/Genetically_modified_food_controversies) e recomendamos uma leitura atenta.

5. Endividamento do agricultor
Os empréstimos bancários, seguros de compra e coisas assim fazem parte da agricultura moderna, como também da indústria inovadora. Mas começou a muito tempo atrás!  Isso é tão antigo como a agricultura brasileira e pode ser facilmente aquilatado lendo o bom “Fogo Morto”, do José Lins do Rego, no tempo que a agroindústria do açúcar estava em plena expansão no Nordeste. É quase impossível entrar no setor da agricultura moderna sem empréstimos, sobretudo se a escala for grande, mas isso nada tem a ver com a transgenia: aplica-se igualmente ao milho, à soja, ao cacau, ao café e por aí vai. E lembro: os royalties raramente ultrapassam 5% do custo da produção: combustível, água, adubos, pesticidas vários e mão de obra importam em custos muito, mas muito maiores mesmo. No fundo, o uso de sementes de alta qualidade é como a compra de sêmen de bons touros para melhorar a genética do rebanho. Não é necessário manter o touro e o benefício da boa genética chega do mesmo jeito.

6. A concentração dos lucros na agricultura
A divisão dos lucros na agricultura é péssima, concordo com os leitores. Mas é ainda pior entre os pequenos agricultores que, muitas vezes sem saber se organizar em cooperativas, entregam por quaisquer 10 réis seus produtos ao dono do caminhão. Ao menos os grandes produtores são tremendamente bem articulados no comércio global.

7. Valor de um trabalho publicado: o que sai em boas revistas é necessariamente bom?
 Um trabalho publicado numa boa revista não significa imediatamente que ele é um bom trabalho: revisores erram e algumas vezes as revistas têm interesse em publicar um artigo polêmico, mesmo que de baixa qualidade ou mesmo um embuste. Todos os anos centenas de artigos são retirados de circulação pelas revistas por várias causas (plágio é uma delas), e isso sempre ocorre porque a comunidade científica denuncia a fraude ou o erro. Foi o que aconteceu com o artigo de Séralini dos ratos com tumor. Sabiamente, a PlosONE suspendeu a publicação de uma nova fantasia do Séralini no último dia 18 (maio/2015) e o homem perdeu seu tempo com o já tradicional circo de press release: só os jornais sensacionalistas da mídia irresponsável na França compraram o embuste. Agora (dia 2 de julho) o artigo finalmente apareceu, mas as críticas de todos os lados (inclusive as nossas - http://genpeace.blogspot.com.br/2015/07/dissecando-o-novo-artigo-do-grupo-de.html)  já não lhe asseguram um futuro promissor.
Afinal, o que é então um trabalho sério (ou mais especificamente, quando um resultado se converte em fato)? Aquele que vai sendo confirmado por outros autores e que está baseado no método científico. Fora disso tudo mais é ilusão.
Para resumir: um resultado só vira um fato quando é corroborado por muita gente. Antes disso é só uma suspeita (se a metodologia for boa) ou um boato (se for ruim). Sobre este tema complexo sugiro a leitura de http://genpeace.blogspot.com.br/2012/03/vozes-isoladas-na-ciencia-quebra-de.html .

8. Os transgenes contaminam o milho crioulo e comprometem a biodiversidade
A “contaminação” de variedades crioulas de milho é assunto muito discutido. É a única que pode ocorrer no Brasil hoje. Mas os produtores de milho crioulo sabem muitíssimo bem manter a identidade de suas variedades, quando querem. Muitos deles também fazem trocas nas feiras de sementes orgânicas e embaralham tudo de novo, com imenso risco para as variedades existentes em cada região. Isso tudo foi cuidadosamente avaliado num livro sobre coexistência do milho GM e não GM que publicamos pelo MCTI vários anos atrás.
A “contaminação” comercial em milho é uma fantasia, sobretudo no replantio de grãos: todo agricultor sabe o que o vizinho está plantando e se insiste em usar para o plantio grãos colhidos a menos de 25 m da cerca do vizinho para o próximo plantio, ou é louco ou mal intencionado. Por outro lado, se alguém planta milho orgânico, tem que seguir as regras dos orgânicos, que exigem uma separação muuuuuito maior entre cultivos orgânicos e convencionais (sejam transgênicos ou não) do que pede a regra de coexistência da CTNBio. Há outras fontes de “contaminação”, como maquinário, caminhão, etc., mas isso foge ao nosso foco.
O Brasil e vários outros países mantêm bancos de germoplasmas que são os responsáveis pelos programas de melhoramento genético das plantas de interesse comercial. No caso do milho o centro de origem é na América Central e o Brasil e demais países fora desta área são, quando muito, centros de diversidade secundária. Além disso, não vejo como as plantas transgênicas poderiam causar mais danos ao milho original do que as variedades comerciais não transgênicas. O transgene em si só será fixado na população nativa se contribuir de forma muito importante para a seleção de grãos no novo plantio. Isso é um assunto complexo e que extrapola um pouco  o espaço aqui. A riqueza de germoplasmas de outras plantas independe do milho, claro.
No contexto do milho, não pode haver erosão genética como entendemos para espécies que se propagam sem a mão do homem. Pode haver perda transiente de diversidade, mas para isso existem os bancos de germoplasma, que são ordens de grandeza mais ricos do que o depósito de sementes dos noruegueses e de outros defensores estelares da Natureza.

9. Superpragas aparecerão em resposta ao uso dos OGMs
 Desde que o Homem ingressou na agricultura que o MIPT (Manejo integrado de pragas e tecnologias) vem sendo exercido, com maior ou menor sucesso, dependendo da base técnica, da pressão econômica e do clima. As pragas sempre driblam, com o tempo, qualquer técnica de controle exceto a destruição completa por fogo ou por máquina.  A tecnologia Bt pode ser superada pelas pragas, mas seu tempo de duração vai depender, como para qualquer outra tecnologia, da adoção de boas práticas agrícolas (que reduz o problema dos heterozigotos e também da subdosagem). É tão simples como isso e não há solução mágica.


10. Percepção de risco X avaliação de risco

O público vê os transgênicos com desconfiança. É difícil aquilatar até que ponto esta desconfiança muda o padrão de consumo e é possível que o preço, o sabor, a forma e outros elementos determinem a decisão de compra, muito mais do que o símbolo T, existente em milhares de embalagens e desconhecido da maioria dos brasileiros. Mas o órgão técnico que avalia os transgênicos, a CTNBio, não vê riscos adicionais nos produtos hoje no mercado. Esta é a diferença entre percepção do risco (de todos nós) e avaliação do risco (dos especialistas). Sugiro a leitura de um texto antigo meu sobre isso: http://genpeace.blogspot.com.br/2014/04/principio-da-precaucao-herbicidas-e.html

Por fim, fico feliz em discutir estas questões de uma forma civilizada com os leitores. Concordo que nosso país poderia ter seguido outro caminho no seu desenvolvimento, mas fomos empurrados para este beco por séculos de incúria quando o assunto era educação, que continua muito ruim. Nosso povo carece de instrução para trabalhar em indústrias de ponta, para se organizar em cooperativas e, de forma geral, para exercer seus direitos. Enquanto isso, tem que gerar renda para fazer o país progredir e ser um pouco menos ingrato aos brasileiros que virão. A biotecnologia tem ajudado nosso país a ter uma balança comercial positiva. Pode ser que em 20 anos a agricultura seja muito diferente do que é hoje e que o país ingresse na área industrial, deixando à agricultura um papel secundário na geração de riquezas. Aí, então, poderemos fazer uma agricultura mais equilibrada e menos produtiva. Mas hoje não vejo como desprezar a agricultura intensiva e, dentro dela, a biotecnologia.

APENAS 10 EMPRESAS DOMINAM 75% DO MERCADO MUNDIAL DE SEMENTES – E DAÍ?

Frequentemente lemos que umas poucas multinacionais dominam o mercado mundial de sementes e que isso seria um imenso risco à soberania alimentar dos povos. Mas será mesmo?

É preciso muita serenidade e certa clareza para entender a questão das sementes vendidas por empresas, sejam elas multinacionais ou pequenas companhias. Nada disso é novo e sementes são vendidas há mais de 50 anos. E sementes “livres”, aquelas fornecidas por órgãos de governo ou propagadas livremente pelos agricultores? Estas sempre continuarão existindo.

Sabendo disso, podemos nos perguntar: em que setor atuam as grandes empresas de sementes? No setor de commodities, ou seja, no setor de grãos que vendem muito pelo mundo todo. As sementes dos demais produtos agrícolas (frutas, legumes, verduras, grãos de menor expressão e outras plantas) também são vendidas por uma infinidade de empresas (inclusive as grandes), assim como podem ser obtidas de graça em muitos órgãos de governo ou pelo menos propagadas de graça. Também podem ser trocadas nas feiras de sementes da agricultura familiar. Finalmente, em muitos casos, os grãos podem ser plantados como sementes.

Então, o que está sendo explorado (mas de forma alguma controlado de verdade!) é o setor de commodities. Do mesmo jeito que celulares, computadores, carros, etc. Da mesma forma, sempre existirão alternativas aos produtores mais prestigiados... Além dos seis grandes há, como afirmamos acima, agências de governo, pequenas empresas, sementes crioulas e sementes de paiol, tudo acessível ou mesmo gratuito.

E, ao contrário dos carros e celulares, sementes e grãos podem ser propagados sempre que os preços não forem convidativos. Se a Monsanto e os outros grandes criam uma dependência do agricultor aos seus produtos (e tecnologias embutidas neles), elas também dependem do agricultor: se o preço for ruim ou a planta não emplacar, babau.

Se a gente olha com calma, não há a mais mínima diferença entre o mercado de sementes e muitos outros onde há concentração de produtos nas mãos de uns poucos e a qualidade do produto varia muito. Mas o Mundo não vai morrer nem sofrer com isso, porque a lei da oferta e procura escraviza igualmente produtores e consumidores, enquanto ela existir, independente de qualquer regime e de qualquer ideologia.

PS. Por que alguém compraria uma semente se pode obter de graça ou plantar seus próprios grãos? Os que combatem o mercado privado de sementes evitam fazer esta pergunta e assim escondem uma parte importante da discussão: a semente vendida só existe porque incorpora vantagens (e tecnologia) que a gratuita não tem. Se o agricultor entra num mercado muito competitivo (como o de grãos), terá que usar as melhores sementes e a melhor tecnologia para alcançar a produtividade necessária. Se ele atua num setor menos competitivo, pode usar uma semente de governo (boas variedades existem para o pequeno agricultor), sementes crioulas ou ainda propagar seus grãos, com as vantagens e riscos destes procedimentos. Em nenhuma destas sementes há tanta tecnologia embutida quanto a que existe nas sementes de grandes empresas. É o mesmo que comprar um Gol em vez de um Porsche ou construir seu próprio veículo em vez de comprar de algum fabricante. E da mesma forma, o Gol tem seu mercado, assim como o Porsche...


(esta postagem está baseada em um comentário que fiz ao site Controversia: http://controversia.com.br/18859?utm_source=wysija&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim+Controversia )

quarta-feira, 29 de julho de 2015

CTNBio bota ordem na presença de público às suas reuniões: se você quiser saber como os transgênicos são avaliados na Comissão, não chegue de surpresa por lá.

Faz tempo que qualquer um podia chegar na hora das reuniões setoriais ou da plenária da CTNBio, colocar seu nome num papel na entrada e sentar-se para acompanhar os trabalhos. Mas muitos abusaram deste acesso e se organizaram em grandes grupos para tumultuar a reunião. Agora a Comissão, sem restringir o direito das pessoas em ouvir o que se discute lá, bota um pouco de ordem: serão precisas inscrições prévias, o número de vagas será determinado pela Secretaria Executiva em função de vários parâmetros , assim como a escolha dos participantes. O objetivo é evitar tumultos e garantir a presença da maior diversidade possível de participantes.


As regras, esclarecidas no site da Comissão e válidas já para a reunião de agosto de 2015, estão abaixo:

Inscrições para as Reuniões da CTNBio

Informações gerais:
1) Fica autorizada a presença de espectadores externos a Comissão nas reuniões ordinárias e setoriais da CTNBio;
2) O numero de vagas será determinado pela disponibilidade de assentos no local da reunião, após garantir espaço a todos os membros da CTNBio, equipe de assessores que dá suporte às reuniões, eventuais palestrantes, convidados e participantes com presença previstas em leis e regulamentos;
3)  As inscrições dos interessados seguirá os procedimentos determinados pela Secretaria Executiva da CTNBio;
4) Os espectadores externos não terão direito a voz, salvo mediante autorização da Coordenação da reunião ou convite formal para isso;
5) Os espectadores externos que poderão participar de cada reunião serão definidos pela Secretaria Executiva da CTNBio:
a. Considerando o número de assentos disponíveis, as justificativas apresentadas, segurança do local e a logística da reunião;
b. Mediante inscrição prévia pelo e-mail: reuniaoctnbio@mcti.gov.br
c. Procurando dar oportunidade para que representantes de diferentes instituições possam participar.

Procedimentos para Inscrição:
• Fazer inscrição prévia pelo e-mail: reuniaoctnbio@mcti.gov.br
• No momento da inscrição os dados pessoais dos interessados deverão ser informados:
1 - Nome;
2 - Endereço;
3 -  Telefone de contato;
4 - Número da identidade e CPF.

• Na inscrição deve-se indicar se a instituição a qual representa possui algum item na pauta em questão ou qual outro interesse específico em acompanhar a reunião;
• Indicar quais reuniões deseja-se acompanhar: (setoriais e/ou plenária)

A seleção dos participantes obedecerá os seguintes critérios:
o Ordem da inscrição;
o Disponibilidade de assentos na reunião escolhida (setorial/plenária);
o Inscrição de mais de um representante da instituição;
o Relevância do assunto a ser acompanhado.

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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Decisões da CTNBio são impessoais, como a de qualquer outra comissão no Mundo – réplica a Transgênicos e o mito da decisão técnica

As decisões colegiadas são sempre impessoais. Pode não acontecer o mesmo quando um pequeno número de pessoas toma decisões que não têm base técnica. Menos ainda quando a decisão é de um só. Mas ainda assim, se a decisão segue um procedimento estabelecido e aceito por todos, tende a ser igual para qualquer um que avalie a questão.

Ligar as decisões aos membros, sempre transitórios no colegiado da CTNBio, e assim alegar que elas perdem a validade porque tomadas por indivíduos, invalidaria todas as decisões colegiadas no Mundo. É um contrassenso ético e jurídico.

Em texto publicado pelo Estado de São Paulo em 30 de junho de 2015, o Dr. Miniuci discute a personalização das decisões da CTNBio e comoisso termina por levar a decisões individuais arbitrárias, tomadas pelos membros da Comissão.  O texto integral está disponível em http://brasil.estadao.com.br/blogs/direito-e-sociedade/transgenicos-e-o-mito-da-decisao-tecnica/ e aqui ressalto apenas alguns pontos, para não estender demasiadamente a postagem.

O Dr. Miniuce argumenta que, dada a pressão para a adoção da biotecnologia pelo agronegócio, “os principais questionamentos voltam-se para os OGM e suas implicações. Ficam em segundo plano as questões ético-políticas que, se aprofundadas, poderiam levar a uma subversão ou revisão dos valores vigentes. Em vez delas, discutem-se questões pragmáticas, focalizando-se os aspectos técnicos necessários para a realização do modelo, dando ao debate uma roupagem especializada e hermética, acessível apenas a pessoas com determinado saber”.  No texto não fica imediatamente claro que os questionamentos voltados ao OGM se dão essencialmente na CTNBio, uma vez que fora dela as questões sociais e econômicas são trazidas continuamente pelos opositores à biotecnologia e ferozmente discutidas. Na CTNBio o que se faz é avaliação de risco e por isso a composição da Comissão é voltada para a biologia, nas suas várias áreas.  A Comissão não tem a atribuição de discutir internamente as questões sócio-econômicas de um produto novo e nem seus membros têm a formação técnica para tal. As questões fora da biologia são da alçada da gestão e da comunicação de riscos, que deveriam ser exercidas pelo Conselho Nacional de Biossegurança. É uma decisão de Governo deixar que a adoção do produto e suas consequências sejam ponderadas pela sociedade como um todo, através das regras de mercado e de outros mecanismos de expressão da vontade popular.

Numa tentativa de diminuir a importância da decisão técnica, o Dr. Miniuci qualifica o debate que sempre ocorre na CTNBio imputando-lhe um” rótulo: “assunto técnico””. A designação “técnica”, contudo, não é rótulo  algum, é apenas uma consequência imediata da função da Comissão, que já está clara em seu próprio nome! Afinal, ela é uma comissão técnica e sua atribuição é a avaliação de risco, não lhe cabendo polemizar nem discutir as questões socio-econômicas ligadas aos produtos que ela analisa (ver acima). Como toda decisão técnica, ela é baseada em ciência. Por isso mesmo a linguagem das reuniões da CTNBio é árida e impermeável ao cidadão comum e mesmo ao mais instruído, mas que não tenha domínio das áreas afeitas à avaliação de riscos de OGMs.

Logo adiante o Dr. Miniuci conclui que esta forma de proceder da CTNBio “reafirma a separação entre moral e política, de um lado, e ciências da natureza, de outro”. Ora, aqui o Dr. Miniuci francamente passa a ofender os que trabalham na CTNBio e todos os demais membros de comissões técnicas pelo Mundo a fora!!! A Ciência não se opõe à moral, embora ela não a dite. O que ocorre é a separação entre avaliação de risco – que é científica e restrita à biologia, e os demais aspectos, que são afeitos à análise de risco. Tão simples quanto isso. Não é necessário ofender ninguém, apenas compreender a clareza e a sabedoria desta separação, que é funcional e baseada na lei e na capacidade técnica limitada dos membros da CTNBio.

Aproveitando o gancho da separação entre avaliação de risco e gestão/comunicação de risco, o Dr. Miniuci extrapola suas conclusões afirmando que  “reconfirmaram-se, no âmbito da engenharia genética, o mito da neutralidade científica e, a partir dele, o da “decisão técnica””. A ideia lançada nesta afirmação é a de levar o leitor a acreditar que os membros da CTNBio não são neutros em sua decisão e que, portanto, a decisão da Comissão, de forma colegiada, também não o é. Ora, nenhum vivente é completamente neutro na hora de tomar uma decisão técnica: como parte de uma sociedade ele compartilha ideologias, crenças, convicções. Individualmente, qualquer um de nós pode ter maior ou menor viés ao tomar uma decisão técnica. Mas quando a decisão é tomada de forma colegiada, as diferenças ideológicas se diluem. É exatamente por isso que não se individualizam os votos na CTNBio, mas se leva em consideração uma decisão por maioria. Além disso, a CTNBio tem uma metodologia de avaliação de risco, que todos devem seguir, e isso restringe muitíssimo o viés ideológico (ver abaixo). Quando este existe, salta aos olhos: é frequentemente o caso de pareceres divergentes que resvalam fora da ciência e se convertem em exemplos completos de incompreensão do que seja avaliação de risco.

Na sua conclusão, reforçando a falsa ideia de que uma decisão de Colegiado é apenas a soma de decisões individuais, o Dr. Miniuci afirma que “em seus pareceres sobre biossegurança, os especialistas relatam a situação, referindo-se aos aspectos científicos do problema, e, depois, posicionam-se sobre ele (...) conforme estejam satisfeitos ou não com as pesquisas realizadas e dispostos ou não a correr riscos ainda desconhecidos”. O que o Dr. Miniuci parece desconhecer inteiramente é que existe um procedimento, caso a caso, passo a passo, para a avaliação de risco (comentado acima), e pouco espaço para convicções individuais na hora de uma decisão! Não é uma satisfação pessoal que leva a um voto, mas a constatação de que as perguntas pertinentes de avaliação de risco foram respondidas, de acordo com uma metodologia que vem se consagrando na última década.

Sabendo que o Dr. Miniuci é Professor de Direito, tenho certeza que ele compreende que mesmo as decisões individuais se revestem de um caráter impessoal quando baseadas em procedimentos bem estabelecidos. Assim, a decisão de um juiz é aceita por todos e não é personificada: é a decisão que vale e não importa quem a tomou. No máximo, a instância decisória pode ter alguma importância. Neste caso, a CTNBio é a instância técnica máxima, da mesma forma que o STJ no seu âmbito.


Na minha conclusão, fecho dizendo que falta ao Dr. Miniuci a prática da avaliação de risco, que ele vai certamente aprender e saber apreciar se tiver a humildade de aceitar os ensinamentos dos mais experientes e evitar jogar pedras na Comissão da qual faz parte.

sábado, 11 de julho de 2015

Transgênicos: ponto final

A postagem original (http://climatologiageografica.com/transgenicos-ponto-final/) saiu faz pouco tempo. Texto claro, com muita informação e, surpreendentemente, escrito por um rapaz de 16 anos, nordestino, residente em Campina Grande (PB). Sugiro a leitura atenta: é impressionante como um jovem que ainda nem ingressou na universidade possa ter mais bom senso do que vários doutores em ciência que conheço e que parecem infringir o método científico todo o tempo, além de desrespeitar as regras bases do debate científico, tão claramente expostas aqui .
Só o título peca: não há ponto final nesta discussão bizantina, que já resvala para fora da ciência faz muitos anos. Ela não será sepultada por mais informação, nem por informação de qualidade, porque a origem da discordância está no comportamento de grupo do homem. Os OGMs permanecerão como polêmica estéril ainda por décadas, como as vacinas e a fluoretação da água, que são muito mais antigas: sempre haverá quem ache (o tal grupo de like-mindeds) que o homem não foi à Lua, que as vacinas fazem mal, que a vitamina C pára o envelhecimento, que o vírus da AIDS é invenção de militares, que o aquecimento global não existe (seja lá qual for a causa) e que os transgênicos são um veneno e causam autismo, alergias e câncer.
(Paulo Andrade)

Josikwylkson Costa Brito (09 de julho de 2015)
Os transgênicos fazem mal? Essa é uma questão que vem sendo, inutilmente, levantada por algumas pessoas que ainda não conhecem o consenso científico acerca do assunto. Assim como o aquecimento global, a evolução e a eficácia das vacinas, o consenso estabelecido para os Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) no que diz respeito à sua segurança já é bem evidente dentro da comunidade científica. No entanto, muitos ainda insistem em negar por um propósito que desconheço. Antes de mais nada, quero ressaltar a concordância existente entre algumas organizações:
Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, em inglês), organização científica sem fins lucrativos respeitada internacionalmente e responsável por publicações na revista Science:
“A ciência é bastante clara: melhorias em culturas por técnicas moleculares da biotecnologia são seguras … A Organização Mundial da Saúde, a Associação Médica Americana, a Academia Nacional de Ciências dos EUA, a Royal Society e muitas outras organizações respeitadas que examinaram as evidências chegaram à mesma conclusão: consumir comidas que contém ingredientes derivados de culturas de seres ‘normais’ não tem nenhum risco maior do que consumir as mesmas comidas advindas de culturas com organismos geneticamente modificados.”
Associação Médica Americana:
“A ciência é clara: o melhoramento de culturas a partir de técnicas moleculares de biotecnologia é segura”.
Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos:
“Até a data, mais de 98 milhões de hectares de culturas geneticamente modificadas foram cultivadas em todo o mundo. Não há nenhuma evidência de problemas relacionados a essas culturas ou resultantes de alimentos geneticamente modificados”.
Padrões Alimentares da Austrália e Nova Zelândia (Food Standards Australia New Zealand):
“A tecnologia genética não demonstrou inserir quaisquer riscos novos à comida alterada, portanto, o potencial de perigo a longo prazo não é dissociada do potencial que comidas não-transgênicas possuem”.
Academia Francesa de Ciência:
“Todos as críticas feitas contra os transgênicos podem ser largamente rejeitadas baseando-se no critério estritamente científico”.
Sociedade Real de Medicina:
“Os alimentos derivados de culturas geneticamente modificadas têm sido consumidos por centenas de milhões de pessoas de todo o mundo por mais de 15 anos, com nenhum relato de efeitos danosos (ou casos legais relacionados à saúde humana), embora muitos consumidores venha do mais litigioso desses países, os EUA”.
Comissão Europeia:
“A conclusão principal a ser tirada dos esforços de mais de 130 projetos de pesquisa, que abrange um período de mais de 25 anos, envolvendo mais de 500 grupos de investigação independentes, a biotecnologia, especificamente os transgênicos, não é mais nociva do que as técnicas de melhoramento convencionais”.
União Acadêmica Germânica de Ciências e Humanidades:
“Ao consumir alimentos derivados de plantas geneticamente modificadas aprovadas na Europa e nos Estados Unidos, o risco não é maior do que o consumo de alimentos derivados de plantas que não sofreram essas alterações. Ao contrário, em alguns casos, as plantas transgênicos parecem ser superiores no quesito saúde”.
Sete das Academias Nacionais de Ciência (Brasil, China, México, Terceira Academia Mundial de Ciências, Sociedade Real e a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos):
“Comidas produzidas a partir do uso dos OGMs são mais nutritivas, estáveis no armazenamento e, em princípio, saudáveis – trazendo benefícios aos consumidores tanto em nações industrializadas quanto em nações emergentes”.
Organização Mundial da Saúde:
“Nenhum efeito na saúde humana foi mostrado como resultado do consumo de alimentos geneticamente modificados pela população geral dos países em que tais foram aprovados”.
Um estudo feito por italianos, a partir de uma análise de 1783 artigos sobre os OGMs, também endossa o consenso.


Qualquer um que tiver alguma contestação ao que é dito sobre os transgênicos deve, imprescindivelmente, basear-se na ciência, apresentando evidências para o que for argumentado. Caso não o seja feito, deve ser ignorado. Na ciência, “não importa o quanto seu argumento seja bonito. Sem evidências, não tem valor algum” (exceto, é claro, que apresente falhas na metodologia de pesquisa, que apenas seriam apontadas com precisão com uma análise minuciosa do estudo).
A partir disso, alguns seres conscientes, que tentam fomentar discursos baseados em outras coisas que não seja o próprio achismo, até apresentam alguns artigos científicos. Porém, muitos dos que vão contra os transgênicos possuem falhas horrendas, como, por exemplo, o paper descrevendo alguns ratos que, supostamente, adquiriram câncer por conta dos transgênicos. Só em resumo, os animais usados já tinham predisposição à doença, então, já dá para tirar o porquê do artigo ter sido falho. A própria revista que publicou isso desculpou-se pelo acontecido.
Tirando isso, nunca vi pessoas argumentando sobre sem se valer de falácias lógicas ou de ridículas suposições da conspiração. Alguns, no Brasil, chegam até a apelar para a afirmação: “Se os transgênicos não fazem mal, por que os deputados quiseram tirar o rótulo?”. Simples! Porque os deputados, assim como muitos, também são apedeutas e acham que os OGMs fazem mal baseando-se no próprio achismo.
Quanto às falácias lógicas – que refletem uma imensa desonestidade retórica -, citarei algumas que, frequentemente, usam:
Falácia do coletor de cerejas: apontar casos individuais ou dados que confirmem uma posição particular, ignorando todos os dados gerais que possam contradizer tal posição.
Falácia da súplica especial: segundo a Enciclopédia Internet da Filosofia, “é uma forma de inconsistência em que o pensador não aplica seus princípios de forma consistente. É a falácia da aplicação de um princípio geral a várias situações, mas não as aplica a uma situação especial que interessa o argumentador, embora o princípio geral se aplica adequadamente a essa situação especial também”.
Falácia do espantalho: distorção do argumento do oponente para facilitar a refutação.
Envenenamento de poço: estratégia retórica que consiste em expor o argumento do oponente a uma audiência, com o objetivo de desmoralizá-lo. É uma variante do argumentum ad hominem, que baseia-se em apelar para o autor do argumento com o objetivo da refutação, não para o argumento em si.
Se você tenta argumentar escolhendo um caso particular e tentando aplicá-lo ao geral, tenho duas alternativas para caracterizá-lo: [1] ou você não sabe argumentar ou; [2] você merece ganhar o prêmio Nobel por conseguir ter intelectualidade suficiente para englobar todos os milhares de genes e todas as incomensuráveis possíveis e diferentes alterações que podem ser feitas neles em uma afirmação só: faz mal.
Quanto às conspirações, vejo coisas do tipo “a ciência só não tem evidências de que os transgênicos fazem mal porque isso não é proveitoso para as grandes corporações e a ciência segue apenas ao que lhe dá lucro”, “os transgênicos servem apenas para causar o monopólio de culturas detido por grandes corporações ou para facilitar o uso de agrotóxicos por tais”. Ora, eu poderia até dar respostas mais detalhadas a isso, mas tentarei ser sucinto:
1. Se isso fosse válido, o consenso sobre o aquecimento global não existiria, visto que ter o conhecimento do evento prejudica a produção das grandes corporações;
2. Se os transgênicos fazem tão mal para que você seja inteligente o suficiente para afirmar isso sem que apresente evidências, então, é notório que descobrir se eles fazem mal não daria muito trabalho. Dessa forma, não seriam necessários tamanhos financiamentos.
3. O monopólio da produção não é culpa dos transgênicos, é culpa do determinado sistema que permite esses monopólios, afinal, eles existirão havendo ou não os transgênicos.
4. Da mesma forma que a lógica do tópico anterior, o uso de agrotóxicos ocorrerá com ou sem os transgênicos. Então, o que deve ser combatido não são os transgênicos, são os agrotóxicos. Mesmo assim, a afirmação seja, talvez, falha. Um estudo publicado na PLoS One – A Meta-Analysis of the Impacts of Genetically Modified Crops – sugere que as culturas de OGMs são, na realidade, as que menos usam agrotóxicos. No paper, é relatado que:
“Em média, a tecnologia dos transgênicos aumentou o rendimento das culturas em 21%. Esses aumentos não se devem apenas ao alto potencial genético, mas ao controle mais efetivo de pestes e, consequentemente, aos menores danos para as culturas. Ao mesmo tempo, os cultivos de OGMs reduziram o uso de pesticidas, em quantidade, por 37% e, em custo, por 39%. O efeito sobre o custo de produção não é tão significante. As sementes dos transgênicos são mais caras do que as dos não-transgênicos, mas os custos dela são compensados através da salvação das culturas de químicos e do controle mecânico de pestes. Em geral, o ganho médio que um fazendeiro tem ao adotar os OGMs é de 69%”.
Alguns até chegam a falar que são contra os transgênicos por eles não serem uma forma natural de cultivo. Eu não perderia meu tempo debatendo com um argumento desses, mas, como estou falando sobre o assunto, acho digno dizer apenas algumas coisas coisas: Batatas-doces são geneticamente modificadas de forma natural e nós as cultivamos há 5 mil anos (link abaixo); Nós temos cerca de 7% de DNA viral em nosso organismo, então, tecnicamente, possuímos material genético híbrido naturalmente; Bananas e alhos domesticados são diferentes dos selvagens (inclusive, bananas domesticadas não produzem sementes, precisam ser cultivadas por crescimento vegetativo) e a domesticação deles ocorreu de forma natural.

Sei que muitas pessoas farão, nos comentários, apelo à autoridade (outra falácia variante do ad hominem), alegando que eu, por não ser acadêmico, não tenho conhecimento para falar sobre o assunto. Então, já que sei que isso iria acontecer, decidi falar com o meu amigo Luiz Eduardo Del Bem, atualmente pesquisador da Universidade de Harvard e Ph.D. em Genética e Biologia Molecular, sobre o assunto. Eis sua resposta:
“Meu principal ponto sobre transgênicos, no sentido amplo, é que a tecnologia do DNA recombinante e todos os benefícios que ela pode trazer em diversas áreas diferentes (não somente em alimentos) pertence à humanidade, não a uma ou outra empresa. É uma tecnologia que está dando seus primeiros passos, diretamente ligados ao entendimento que temos de sistemas vivos. Quanto mais aprendermos sobre a vida, mais poderemos manipular sistemas genéticos em nosso benefício. Seria absolutamente irracional assassinar uma tecnologia nascente com tamanho potencial.
O que seria, para mim, o grande argumento para a utilização da transgenia é que diversos problemas que temos na medicina, agricultura, industria e farmacologia, por exemplo, já foram resolvidos por alguns seres vivos através de bilhões de anos de evolução. Se quisermos fermentar grãos para produzir álcool, devemos ter, em nossas cabeças, que as leveduras que temos disponíveis têm um limite de tolerância ao álcool, mas isso pode ser modificado através do uso de circuitos genéticos vindos de organismos mais resistentes. Podemos produzir hormônios peptídicos humanos em plantas ou microrganismos com baixíssimo custo e que são indistinguíveis por nosso sistema imune. Podemos usar uma DNA polimerase de uma bactéria extremófila para fazer um PCR e identificar o suspeito de um assassinato. Podemos inserir genes ligados à tolerância à salinidade ou a metais pesados de bactérias em plantas, permitindo que elas sejam cultivadas em solos inapropriados a um baixo custo, entre muitas outras coisas. Podemos utilizar vias bioquímicas para produzir moléculas de interesse em microrganismos sem a necessidade de complicados e dispendiosos processos de síntese química.
Há vida em, praticamente, toda parte deste planeta, dos ambientes mais frios aos mais quentes, superando todo tipo de adversidade. Há uma enorme riqueza tecnológica nisso que podemos usar para tornar nossas atividades humanas menos agressivas aos ecossistemas naturais. Se entendermos como estes seres vivos fazem isso, poderíamos utilizar em outros organismos… ou em nós mesmos. A vida está evoluindo no planeta há quase 4 bilhões de anos, em incontaveis espécies. Podemos supor, então, que há soluções biológicas para problemas que ainda nem conhecemos esperando para serem descobertas e utilizadas.”
Por fim, caso alguém tenha contestação ao que foi dito, assim como o pesquisador citado, estarei grato se forem mandados artigos científicos publicados em revistas de alto Fator de Impacto nos comentários abaixo. Há algum tempo, venho sugerido a Del Bem alguns textos para que ele proponha um debate sobre tais em sua universidade, mas eles não possuem, muitas vezes, nenhuma validade relevante – pelo fato de não seguirem os critérios citados acima -; por isso, os peço.
Este artigo foi publicado como o quinto de uma série de textos divulgadas pelo nosso site sobre o assunto dos transgênicos (que serviram de referência). Eis os demais:


Veja mais aqui http://climatologiageografica.com/transgenicos-ponto-final/#ixzz3faQeytg5

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Dissecando o novo artigo do grupo de Séralini: pesticidas, glifosato, plantas transgênicas e ... muita insensatez



Sinceramente achei que o PlosONE  não ia publicar a algaravia científica de Mesnage e cols., recém saída do prelo. Tudo indicava que havia erro prá todo lado. Mas até uma revista séria precisa turbinar seu “citation index” e esta farsa científica será certamente muito citada, ainda que seja para dizer que não presta. Ponto para a PlosONE, ainda que obtido de forma quase fraudulenta.

Comentários gerais sobre o artigo

Este novo artigo do grupo do Séralini é mais um imbroglio típico destes autores: eles constatam o óbvio (há resíduo de pesticidas nas rações), mas usam uma metodologia muito particular para determinar que valores serão considerados no estudo e concluem (usando outra metodologia sem referendo de uso) o que é IMPOSSÍVEL  concluir: que estes resíduos estariam falseando os resultados de tudo que vem sendo publicado em câncer experimental com animais!!!

Além disso, eles juntam alhos com bugalhos: os resíduos (quase todos de inseticidas) com plantas transgênicas (que reduzem o uso destes mesmos pesticidas químicos). Somente o glifosato tem relação com as plantas GM, mas mesmo assim a dose que ele toma como referência é completamente absurda e escolhida a dedo de um único estudo: 3400 X mais que o limite aceitável na alimentação humana.

Para simplificar o comentário: um artigo mal escrito publicado numa revista que, cada vez mais, vai deixando os cientistas preocupados com sua credibilidade.




Observações pontuais (mas importantíssimas), que desmascaram a relação entre a presença de tudo que é pesticida em rações animais e as plantas transgênicas.

a) Já no resumo os autores afirmam que o principal pesticida encontrado foi o glifosato, em concentrações de até 370 ppb. Mas a maior parte dos resíduos era de inseticidas químicos! Basta ler o que dizem: dos 9 pesticidas, só dois eram herbicidas – glifosato ou AMPA+glifosato.
Na verdade os autores escreveram o resumo como uma peça jornalística, sabedores de que 99% dos leitores só vão ler aquelas poucas linhas do artigo.
Além disso, o glifosato só foi detectado (claro!) em rações formuladas com soja GM: os níveis variaram de 130 a 310 ppb nos lotes examinados. O valor de 370 ppb é a soma de glifosato e AMPA. Isso é muito ou está dentro do tolerado? Vejamos abaixo.

b) Os limites máximos de resíduos de praguicida por cultura no Brasil estão estabelecidos em normativa do MAPA (http://www.agricultura.gov.br/arq_editor/file/CRC/IN18%20de%202013.pdf) e seguem essencialmente o que é adotado no Mundo. No caso do glifosato a concentração máxima varia de 0,1 até 10 ppm, o que seria equivalente a 100 – 10.000 partes por bilhão. Se uma ração levasse muita soja transgênica tolerante a herbicida (suponhamos 50%) com o máximo de resíduos permitido por lei (10.000 ppb), ela poderia ter até 7.000 partes por bilhão de glifosato e ainda seria considerada segura pela nossa legislação e pela da maioria dos países. Mesmo aqueles países que só autorizam 1/10 do que permitimos na soja ainda aceitariam grãos com 1.000 parte por bilhão de glifosato.

Então, para a legislação brasileira as poucas marcas (e lotes) examinados neste artigo continham glifosato numa concentração 30 vezes inferior ao limite máximo tolerado no grão (de soja).

Em tempo: os autores encontraram mais glifosato na ração examinada no Brasil e deduzem que usamos mais. Até pode ser, porque nosso clima favorece muito mais as ervas daninhas do que os climas temperados, que geraram a soja das outras amostras. Mas ainda assim os resíduos estão muito abaixo do máximo permitido, que é muuuuuito abaixo do nível reconhecidamente danoso aos mamíferos.

c) O que os autores chamam impropriamente de “toxinas Bt mutadas” e que eles imputam uma enorme importância, nem aparece nas dosagens... claro, é uma proteína que se desnatura na preparação das rações, como qualquer proteína...

d) Não há mesmo correlação entre pesticidas totais e plantas transgênicas, somente esta ligação pontual com o glifosato e os autores assim o afirmam e reconhecem: “There is no other correlation between GMO content and total pesticide residues”  (pág, 11).

Esta curta dissecção mostra que o artigo falseia suas conclusões(e seu resumo!) e tenta botar os OGMs como bode expiatório, quando a maior parte dos resíduos é de inseticidas, que tiveram seu uso DIMINUÍDO pelos transgênicos. Mesmo para o glifosato, as doses mais altas encontradas ainda estão MUITO ABAIXO do limite máximo tolerado pelos países e, seguramente, várias ordens de grandeza abaixo do limite que reconhecidamente causa danos aos mamíferos.


O artigo é, portanto, mais uma fantasia deste grupo irresponsável de cientistas, que se mantém ativo chupitando dos recursos das indústrias de homeopatia e das grandes redes de venda de produtos “livres de OGMs”. Esta turma não precisa de apoio de recursos federais franceses, nem pede apoio dos órgãos internacionais (FAO, etc,) e ainda se diz (e é vendida como) independente... ôxe!