domingo, 21 de junho de 2015

Mais uma do Séralini e sua trupe

Quando menos se espera, o bufão de Caen retorna com mais um press release (rolou dia 18 de junho de 2015), anunciando antes da publicação seus resultados e extraordinárias conclusões aos jornalistas ansiosos por uma desgraçazinha. Este comportamento, completamente contrário ao etos científico, é compatível com o comportamento momesco do Séralini.

Mas acontece que os editores do PlosONE, onde o novo pseudo estudo do Séralini seria publicado, tiveram o bom senso de suspender a publicação na horinha! De que  trata o estudo que passou por um primeiro crivo do PlosONE e foi rejeitado na véspera do press release, tirando o doce da boca do garoto francês?

O Séralini e seus companheiros de folia avaliaram a presença de resíduos de agrotóxicos e de transgênicos na ração dos animais de experimentação. O que vocês acham que ele achou? O que é obvio: havia resíduos de um monte de agrotóxicos e as rações continham soja e milho geneticamente modificados. Acontece que os resíduos estavam abaixo do máximo permitido pela legislação. E acontece que os transgênicos são completamente seguros, como demonstrado pelo gigantesco consumo destes produtos mundo a fora nos últimos 10 anos, além do que foi mostrado por mais de 10.000 trabalhos publicados. Mas o que conclui o Séralini e seus maluquinhos, sem qualquer demonstração de causalidade? Que todos os trabalhos que envolvem saúde feitos com animais de laboratório não têm validade!

Uma tamanha viagem jamais poderia ser publicada por uma revista que se proponha a ser científica, embora vá muito bem num site como o GM Watch e em outros ambientes onde mais vale uma bravata do que a verdade. Se o PlosONE publicasse um despautério desta magnitude, seria um desastre para a revista e, ainda mais, para o ambiente científico.

Como esta postagem não tem maior profundidade, recomendo a leitura de outras postagens minhas, que tratam de assuntos mais importantes:

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Transgênicos e riscos: qual o consenso, que valor têm os trabalhos publicados mostrando possíveis danos e porque não se pode estender as observações de um transgênico para outro.

Frequentemente se diz que há um corpo de evidências apontando para danos provocados por alguma planta transgênica. Seriam 20 ou 30 trabalhos, segundo alguns, e quase 700, segundo outros. E o carro chefe costuma ser o trabalho de Séralini e colaboradores com ratos com tumor depois de ingerirem milho transgênico.

É verdade que o trabalho do Séralini foi republicado, ainda que numa revista muito fraca. Mas a publicação não garante que os resultados encontrados e, sobretudo, as conclusões deles exaradas, sejam adequados: é preciso que eles sejam confirmados e estendidos por outros trabalhos. Assim funciona a ciência. No meu conhecimento, nenhum dos trabalhos que mostram danos ocasionados pelos transgênicos, seja ao ambiente ou à saúde, foi confirmado por outros autores. No caso específico do trabalho do Séralini, também não existe uma hipótese de causalidade (um mecanismo molecular) que minimamente pudesse explicar como uma proteína que é prontamente degradada no fluido gástrico poderia causar os danos observados. A falta de uma hipótese que guie os trabalhos é um elemento importante na qualificação negativa de um artigo científico. Há, naturalmente, erros metodológicos graves neste trabalho, como amplamente apontado pelas principais autoridades de avaliação de risco e academias de ciências pelo mundo a fora (por exemplo, EFSA, França, CTNBio). Muitos outros artigos que “mostram” danos dos OGMs têm os mesmos defeitos do artigo do Séralini.

É comum se ouvir e ler que não há consenso entre os cientistas sobre a segurança dos OGMs hoje no mercado. Não é verdade: o que não há é unanimidade, o que é diferente de consenso. O consenso é estabelecido pela maioria. Vozes discordantes sempre existirão, são e serão sempre ouvidas, mas suas afirmações passarão a integrar o corpo maior de evidências apenas na medida em que outros autores forem confirmando e estendendo seus resultados, sempre pressupondo que se baseiem no método científico. Quando os trabalhos mostrando danos derivados dos OGMs tiverem empregado uma metodologia sólida e concluírem por danos que possam ser extrapolados para a vida real, seguramente serão estendidos por outros autores e mudarão o entendimento (ou o consenso) que existe hoje sobre a segurança dos OGMs que estão no mercado. Sugiro a leitura do link para a questão das vozes isoladas na ciência.

Ainda é preciso entender que a avaliação de risco é levada a cabo caso a caso. Assim, pode ser que um dia se prove que certo OGM traz danos à saúde ou ao ambiente, mas é inteiramente equivocado estender a afirmação para todos os OGMs, como se lê frequentemente nos sites, páginas e blogs leigos que abundam na internet.

Por fim, creio que todos os consumidores desejam produtos seguros para si e para sua família e amigos. É natural. Por isso os produtos industrializados e alguns novos produtos são avaliados por agências de governo especializadas: uma gama enorme de produtos, tanto alimentos como outros, é avaliada pela ANVISA. No caso dos transgênicos, o seu impacto direto na saúde e no ambiente é atribuição exclusiva da CTNBio. Nada é liberado pela Comissão sem uma longa e detalhada avaliação, que segue as regras paulatinamente estabelecidas por especialistas e por agências de avaliação de risco de OGMs no resto do Mundo. Não é, portanto, nenhuma surpresa, que as plantas transgênicas aprovadas aqui também o tenham sido pelas principais agências de avaliação de riso no Mundo: as agências americanas, a canadense, a argentina, a europeia, a japonesa, a australiana e por aí vai. Quando avaliados lá fora (a grande maioria o foi), estes produtos que estão em uso no Brasil nunca foram rejeitados para o consumo humano. Em muitos casos o plantio não foi permitido, mas isso é muito mais uma política de estado (pelas suas implicações econômicas) do que uma questão de risco ambiental. Por isso nós, brasileiros, e todos os outros povos, assim como nossos animais de produção e companhia,consomem alimentos formulados com milho e soja transgênico e estamos muito bem alimentados, sem que haja  qualquer relato de dano à saúde humana. Os danos à saúde animal em observações com animais de produção estão restritos a poucos trabalhos com metodologia muito equivocada. A conclusão a que chego, como consumidor, é que posso estar seguro de que os riscos destes alimentos devem ser mesmo muito reduzidos, como concluem as avaliações das muitas autoridades no assunto. Esta conclusão se alia àquela que chego como avaliador de riscos de OGMs, que fui na CTNBio e que continuo sendo, como pesquisador: o consenso científico aponta para a segurança dos produtos que agora estão no mercado e que consumimos diariamente faz mais de 10 anos.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Transgênicos: diálogo retomado

Como é impossível postar um comentário no site do Em Pratos Limpos (o captcha sempre retorna erros, e isso já faz anos), uso o GenPeace para responder ao texto Transgênicos: diálogos (http://pratoslimpos.org.br/?p=7803).

 Algumas observações sobre o que afirmam os autores:

a) Ao contrário do que concluem do texto acima citado, a separação entre avaliação de risco e análise de risco é técnica: a primeira, sendo exclusivamente biológica, é feita por um grupo de experts diferente das demais etapas da análise de risco.

b) O aumento do uso do glifosato, e apenas deste, tem relação parcial com o aumento do uso dos transgênicos. E porque apenas parcial? Porque o glifosato sempre foi usado e continuará sendo em muitas outras aplicações. Poucos anos depois de lançado ele já era o líder de vendas, muito antes do aparecimento dos transgênicos. Por isso, o aumento do uso ambém reflete, sim, a intensificação da atividade agrícola, mesmo no caso do glifosato.

c) Os casos de intoxicação com glifosato são muito menos frequentes do que os provocados por inseticidas ou mesmo por outros herbicidas, apesar de menos usados. Razão?  São muito mais tóxicos que o glifosato. Os estudos feitos no Mato Grosso, por exemplo, mostram que inseticidas de efeito residual, como o DDT e seus análogos, continuam fazendo estragos muito tempo depois da suspensão de uso. O mesmo estudo não tem menção sobre impacto de glifosato.

d) Não há um estudo abrangente do desfecho clínico dos casos de intoxicação por glifosato no país, embora exista uma casuística. Em outros países há suspeitas (inclusive as que foram usadas para reclassificar o glifosato), mas não há também um estudo que conclua pela existência de um impacto importante sobre comunidades. Afirmar, como está no texto acima, que “depois de exposição ao glifosato, trabalhadores rurais e suas comunidades tiveram sérios problemas de saúde” é a mais pura fantasia.

e) A agência que regula o uso do glifosato é a ANVISA. Um paralelo: quem avalia segurança de veículos nãoé a ANP, que avalia a segurança dos combustíveis... O glifosato não é um produto transgênico, mas um insumo empregado no caso das plantas tolerantes a ele. É exatamente como o caso da gasolina, que também é tóxica.


f) Por fim, de volta ao meu assunto: as avaliações de risco feitas pela CTNBio coincidem com aquelas feitas por todas as demais agências governamentais similares no Mundo. Estarão elas todas erradas?  As deficiências apontadas pelos autores acima também existem na EFSA, no OGTR, nas agências canadenses e americanas, na CONABIO e por aí vai? Ou será que o que os autores vêm como deficiência é um viés, como este de cobrar da CTNBio uma posição sobre os agrotóxicos?

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Rotulagem de transgênicos: porque não fazer (em poucas palavras)

Eu posso entender que um alimento precise exibir no seu rótulo as informações relativas a sua composição ou origem quando isso afeta a saúde do consumidor. Se contém glúten, que é prejudicial a portadores de doença celíaca, ou se contém castanha do Pará, porque muita gente é alérgica a esta castanha, ou se contém lactose, pois há gente que tem intolerância a este açúcar, e por aí vai. A defesa do consumidor, quando o ingrediente que lhe pode fazer mal está em mistura com outros e não pode ser identificado, só pode vir da rotulagem.

Não é o caso dos transgênicos: a autoridade nacional, a CTNBio, já avaliou os riscos de todas as plantas transgênicas hoje no mercado e concluiu que elas são tão seguras quanto as plantas convencionais para o consumo. Esta conclusão, aliás, foi a mesma para cada uma das plantas transgênicas avaliadas por autoridades nacionais em outros países e na Europa.

Então, a questão resvala da avaliação de risco (que é tarefa da autoridade nacional) para a percepção de risco (que é diferente para cada um de nós). Acontece que, se não há riscos diferentes entre alimentos GM e convencionais, há sim custos altos tanto para se rotular um alimento como transgênico como para rotulá-lo como livre de transgênicos. A rotulagem, por ser obrigatória, encarece os produtos da cesta básica (que leva vários ingredientes potencialmente transgênicos), sem contribuir em nada com a saúde do consumidor.

Alguém poderia argumentar que é um direito do consumidor saber, quando este tiver dúvidas sobre a segurança de um ingrediente, se este está no alimento que será consumido e em que porcentagem. Mas acontece que, não importa que ingrediente se escolha, sempre haverá um grupo de pessoas que considere sua presença no alimento um risco enorme, independentemente de serem os membros do grupo intolerantes ou alérgicos ao tal ingrediente. É o caso de certos aditivos alimentares sintéticos, mas também do sal, determinadas frutas, certas sementes, o alho, a cebola e mais um sem-fim de coisas que, na percepção de risco de uma parte dos brasileiros, representa um risco na alimentação. Ocorre que a autoridade nacional (ou autoridades, em alguns casos) já se pronunciou quanto à segurança do consumo dos vários “ingredientes perigosos”, determinando sua inocuidade. Por isso, os alimentos contendo estes ingredientes, para os quais ninguém é intolerante ou, quando muito, apresenta reações alérgicas raras e discretas, não necessitam de rótulo. Este é exatamente o caso dos transgênicos: ninguém jamais ficou doente ou teve alergias provocadas pelo consumo do ingrediente proveniente de uma planta transgênica hoje no mercado e sua rotulagem só atenderia um temor infundado, que nunca abriu caminho à rotulagem em casos semelhantes.


Por isso tudo, sou contra meter rótulos pequenos ou grandes, com ou sem símbolos, para distinguir os alimentos formulados com plantas transgênicas daqueles obtidos de plantas convencionais. As razões acima me dão esta convicção, independente dos aspectos legais, que são baseados numa lei confusa – presentemente sendo revista - e em decretos ainda mais confusos. Encarecer a comida do brasileiro para atender a um pequeno grupo de consumidores que crê haver perigo onde as autoridades de vários países nada veem não é democrático e não deve ser amparado por lei.

domingo, 24 de maio de 2015

Homenagem a Eugênio César Ulian


Aliando de forma exemplar a formação científica sólida e um raro senso de responsabilidade total na iniciativa privada, Eugênio se destacou na biotecnologia brasileira.

Caros.

Faleceu hoje, vítima de atropelamento, o Dr. Eugênio Ulian, que tive a oportunidade de conhecer e com o qual me relacionei profissionalmente por longos 8 anos. Não sou a pessoa certa para lhe fazer uma bibliografia e, por isso, forneço aqui o link para o CV no sistema Lattes e o resumo dele.

Graduado em Agronomia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, campus de Jaboticabal (1981), mestrado (1988) e doutorado (1991) em Fisiologia Vegetal pela Texas A&M University. Foi pesquisador e gestor de tecnologia do Centro de Tecnologia Canavieira (Copersucar) durante 15 anos e gerente de relações científícas e regulamentação da Monsanto do Brasil Ltda. por 5 anos. Atualmente exerce a função de Vice Presidente para Assuntos Regulatórios da FuturaGene Ltd. Tem experiência na área de Genética, com ênfase em Genética Vegetal, atuando principalmente nos seguintes temas: Biotecnologia de cana-de-açúcar, produção de plantas transgênicas, gestão de pesquisa. Nos últimos anos tem atuado na área regulatória de organismos geneticamente modificados.

Mas gostaria de render-lhe a justa homenagem como avaliador de riscos, no caso específico do eucalipto transgênico: quando me debrucei sobre este evento, com vistas a uma atualização do guia de avaliação de riscos de OGMs que editei, em colaboração com vários colegas, faz três anos quase, recebi do Eugênio opiniões técnicas sempre muito bem fundamentadas. Estas opiniões, na minha visão, derivaram de sua enorme experiência em avaliação de risco e no regulatório de OGMs dentro e fora do Brasil.

Também preciso destacar a serenidade com que Eugênio sempre enfrentou os embates públicos e aqueles dentro da CTNBio a respeito do risco dos OGMs. Sua posição ponderada provinha seguramente de uma sólida formação científica e da já mencionada experiência com o regulatório brasileiro.

Sua partida será uma perda para nossa biotecnologia, pois poucos ascenderam tanto na área de avaliação de riscos e de regulação nas empresas do país. Fica aqui registrada a minha admiração e respeito e meus sentimentos de solidariedade humana a sua família e amigos.

Leiam também: http://www.canalrural.com.br/noticias/agricultura/morre-pesquisador-responsavel-pelo-primeiro-eucalipto-transgenico-mundo-56622 

Recife, 24 de maio de 2015
Prof. Paulo Paes de Andrade

Departamento de Genética/ UFPE

terça-feira, 19 de maio de 2015

Resposta detalhada às afirmações de Alan Tygel intituladas “Transgênicos: malefícios do mau uso dos dados e o diálogo mentiroso” publicadas em 11/05/2015 no Jornal da Ciência (SBPC)

Sr. Tygel.

Lamentamos dizer que suas contas foram apressadas. Afinal, segundo suas próprias palavras, o Sr. empregou apenas 10 minutos... enquanto nós levamos bem mais de um mês digerindo esta questão com os números disponíveis, alguma vezes conflitantes e parciais. As suas contas, Sr. Tygel, chegaram a resultados divergentes dos nossos e que não refletem o cerne da nossa discussão: a ausência de relação entre os transgênicos e os agrotóxicos. Vejamos com mais detalhes como os dados que embasaram nossa argumentação foram obtidos e computados.

Na Figura 1 abaixo está um resumo das informações para uma avaliação de produção, área e produtividade da agricultura brasileira. A fonte é o mesmo IBGE que o Sr. consultou. No gráfico está claro que área plantada no cálculo da produtividade não é de toda a agricultura brasileira, mas também não é só a de milho, soja e algodão: ela envolve todos os cereais, leguminosas e oleaginosas. Não houve aumento significativo da área, ainda que existam oscilações ao longo dos anos. A produção também oscilou um pouco ao longo dos anos, mas basta passa a régua e se vê que a produtividade aumentos os 200% que afirmamos, pelo menos para estas culturas.


Figura 1:  Aumento da produção agrícola de cereais, leguminosas e oleaginosas (curva e eixo à direita) e área plantada (barras e eixo à esquerda). Observa-se um grande aumento de produção sem um correspondente aumento de área, o que implica em ganhos de produtividade acentuados no período mostrado.

E o resto do Brasil que usa agrotóxico é ocupado com que? Vejamos o que diz a EMATER

Dos 851 milhões de hectares de nosso território, temos 86 milhões com pastagens plantadas (fora da Amazônia), 60 milhões com lavouras temporárias, inclusive cana-de-açúcar; sete milhões com lavouras permanentes, principalmente frutas e café; cinco milhões com silvicultura; e dois milhões com hortaliças, que somam 160 milhões de hectares, ou apenas 19% de todo o território brasileiro. (http://www.emater.go.gov.br/w/5839)

Baseamos nossos dados aí e na figura acima, no que estão parecidos com o que o Sr. nos traz, mas adicionam alguma novidade: 74 são vários tipos de lavoura e 86 milhões são ocupados por pecuária, o que soma 160 milhões para a agricultura. Lembramos ao Sr. Tygel que a pecuária emprega agrotóxicos de diversos tipos, desde carrapaticidas e inseticidas até herbicidas de amplo espectro e este vasto arsenal de agrotóxicos está também computado no aumento visto nos últimos anos.

Por tudo o que está acima, é evidente que nossa agricultura avançou muitíssimo em produtividade: se não foi 200%, foi perto disso, pelo menos nas nossas contas, baseadas nos dados mostrados. Tomando outros dados disponíveis no IBGE ou no MAPA estas estimativas variam de 130 a 170%, o que é muito bom, de todo jeito, e demonstra o que estamos afirmando: houve uma enorme intensificação de nossa agricultura na última década.

Mas este não o cerne da questão: entre 2004 e 2014 houve um aumento de 1000%  pelo menos na área plantada com transgênicos. Aqui ninguém fez divisão por zero, Sr. Tygel, que isso não existe na matemática. Pode-se usar muito bem 4 milhões de hectares como base de cálculo (3 milhões em 2003 ou os 5 milhões do ano seguinte), porque não é uma área desprezível e porque, desde o primeiro plantio, os agrotóxicos começaram a ser empregados, Aliás, como é de seu conhecimento, logo de início já apareceu o glifosato... Se lhe incomoda muito a tomada de um ponto no início da curva, pode usar também a reta interpolada ao longo da década: vai dar no mesmo número. Não há mau-caratismo nenhum nisso e nem é “conta de chegada”, mas a forma correta de equacionar a questão. Quando nos chama de gente de mau caráter, o Sr. reduz muito a possibilidade de futuros diálogos que poderiam, quem sabe, resultar promissores para nosso país.

Acontece que, no mesmo período, o uso dos agrotóxicos subiu, no máximo, 200%. Como é que se explica que o “responsável” pelo aumento do uso de agrotóxicos possa crescer 10X (ainda que fosse 5 ou 6 X, na concepção matemática do Sr. Tygel) e o uso de agrotóxicos só 2X?  Esta imensa diferença não fecha de forma alguma com a hipótese sem fundamento de que a maior parte do aumento do uso de agrotóxicos seja devida ao plantio de transgênicos. Esta é conta que importa, Sr. Tygel.

A sua conta não fecha  pelo que mostramos antes: uma imensa área do país é palco do uso de agrotóxicos - os tais 160 milhões de hectares. Nos dados do MAPA e de outras agências não há discriminação do que é usado na agricultura ou na pecuária, mas nas contas que se vê na internet, inclusive nas suas, todo o aumento é devido ao uso de transgênicos. Não há invenção nenhuma e o Sr. vai ver as mesmíssimas conclusões a que chegamos também lá no Estadão (http://ciencia.estadao.com.br/blogs/herton-escobar/instituto-culpa-transgenicos-por-aumento-no-uso-de-agrotoxicos-especialistas-rebatem/), num artigo completamente independente do nosso.

Por fim, quando não se consegue destruir uma ideia, tenta-se  destruir o autor. Ao contrário de nosso procedimento, que é baseado na análise de dados, o Sr. e seus colegas que o acompanharam na crítica à nossa postagem no Jornal da Ciência atacam o caráter e o compromisso com a verdade que temos. Este procedimento é nefasto e nada traz de positivo para um diálogo produtivo. Porque os senhores o adotam? Porque, efetivamente não querem diálogo algum.

O Brasil é simplesmente o maior produtor agrícola da região tropical do planeta, e com as maiores produtividades. Produzir nos trópicos é desafiador, uma vez que não temos o frio para diminuir populações de pragas ou paralisar seu ciclo de vida. Mas a agricultura brasileira se modernizou e muitos problemas vistos no passado, como os casos de erosão do solo, são cada vez menos  frequentes, graças ao plantio direto, barreiras físicas etc. Há anos não temos os problemas recorrentes (antes de 2005) de falta de milho para alimentar os animais (principalmente frangos).   Obviamente ainda temos muitos problemas e precisamos trabalhar para gerar soluções. Os agricultores precisam  tomar consciência dos problemas e deixar de ter visão de muito curto prazo.  Muitos outros acham que se houver a perda das tecnologias atuais, novas irão substituí-las   imediatamente, o que sabemos que pode ser falso. Mas não podemos desprezar soluções novas por um viés ideológico, sem base em ciência.


Outra réplica à opinião do Sr. Tygel, redigida a 10 mãos, está em http://www.jornaldaciencia.org.br/edicoes/?url=http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/34-opiniao-do-leitor/ .

Cientistas reafirmam ausência de correlação entre aumento do uso de agrotóxicos e aumento do uso de transgênicos: ativista erra nas contas e resvala na ética

Sobre afirmações de Alan Tygel intituladas “Transgênicos: malefícios do mau uso dos dados e o diálogo mentiroso” publicadas em 11/05/2015 no JC
O Sr. Alan Tygel, na seção Opinião do Leitor teceu considerações que pretendem refutar afirmações que fizemos em artigo denominado “Transgênicos: benefícios e diálogo”. A uma certa altura xinga os autores daquele artigo de “mau caratismo”, uma prática comum nos últimos 13 anos, segundo a qual se costuma desqualificar o oponente acusando-o de qualquer coisa, desde que a acusação seja derrogatória. Essa prática imediatamente identifica a tribo à qual pertence quem fez o ataque. Mas não vamos discutir isso.
Nosso artigo quis mostrar que ao perceberem que atacar os transgênicos não funciona porque há 20 anos são consumidos sem evidência de danos ao ambiente ou seres vivos, os ativistas, para não perder a causa, passaram a repetir ad nauseam os dois termos “transgênicos e agrotóxicos” de forma a incutir na população uma percepção inconsciente de sinonímia. O Sr. Tygel afirma, em determinado ponto de sua peroração, que “transgênico é feito para ser resistente a agrotóxico”. Ora, isso é uma inverdade que apenas serve para enganar os incautos. Afirmamos, alto e bom som, que nem todos os transgênicos são feitos para ser resistentes a agrotóxicos. Há muitos que não são: podem ser resistentes a insetos, a vírus ou crescer mais rapidamente, para ficar apenas nos que a CTNBio aprovou.
É verdade que a soja transgênica foi construída para resistir ao agroquímico glifosato que – só para lembrar o leitor – mata todas as ervas daninhas que, assim, deixam de competir com a soja por nutrientes, solo e luz. É verdade também que o primeiro registro de plantação de soja transgênica marca 3 milhões de hectares em 2003 e 5 milhões em 2004. Portanto, nada demais considerar 4 milhões como ponto inicial de cálculo. Segundo as informações atuais (Informativo Céleres IC15.04 de 16/04/2015) a plantação de soja da safra 2014/2015 ocupa 31,4 milhões de hectares. Logo, a plantação de soja cresceu 7,8 vezes. Se considerarmos o número inicial como 5 milhões o crescimento terá sido de 6,3 vezes. É óbvio que aumentando a produção de soja aumenta o uso de glifosato. No entanto, assim que foi lançado, o glifosato tornou-se rapidamente o herbicida mais usado, muito antes do aparecimento da soja transgênica. No ano de 2000 o Brasil consumiu 40.000 toneladas de glifosato e a soja foi introduzida oficialmente em 2004. Nesse ano de 2004, o Brasil já consumia quase 80.000 toneladas desse agroquímico. O consumo atual gira em torno de 180.000 toneladas, isto é, um aumento de 2,25 vezes no período 2004 – 2014. Na verdade, sendo o Brasil um país tropical, o consumo de agroquímicos (nome mais adequado, pois, nem todos têm a mesma toxicidade) aumenta em proporção à atividade agrícola. Para evitar confusão com palavras repetimos um trecho de texto que se encontra emhttp://www.emater.go.gov.br/w/5839 : “Dos 851 milhões de hectares de nosso território, temos 86 milhões com pastagens plantadas (fora da Amazônia), 60 milhões com lavouras temporárias, inclusive cana-de-açúcar; sete milhões com lavouras permanentes, principalmente frutas e café; cinco milhões com silvicultura; e dois milhões com hortaliças, que somam 160 milhões de hectares, ou apenas 19% de todo o território brasileiro.” A soma de tudo isso é 160 milhões de hectares. E por que usamos esse número? A razão é simples: é muito difícil separar, nos dados existentes, o que é pecuária e o que é agricultura. E agricultura não é só milho e soja, mas cereais em geral, leguminosas e oleaginosas.  E para a nossa finalidade não importa separar porque ambas as atividades usam agroquímicos (agrotóxicos): carrapaticidas, inseticidas, herbicidas de amplo espectro e outros. Portanto, o aumento de 200% no uso de agrotóxicos nos últimos 10 anos, isto é, 2 vezes, deve ser atribuído a toda atividade agrícola que, no período, também cresceu 200%. Se considerarmos que a área plantada com transgênicos – incluindo agora milho, algodão e a soja já comentada – é de 47,5 milhões de toneladas, não importa se consideramos o ponto inicial como 4 ou 5 porque teríamos um aumento respectivo de 11,8 e 9,5 vezes de área plantada com transgênicos o que, aproximadamente, é 1000% mais ou menos, mas sem dúvida muito mais do que o aumento do uso de agrotóxicos.
É evidente que o aumento da produção de soja transgênica nos últimos dez anos acompanhou a tendência crescente da atividade agrícola brasileira (aumento de 200%) no uso de agroquímicos (aumento de 200%). No entanto, não há correlação causal entre aumento do uso de agroquímicos e o aumento de área plantada com todos os transgênicos, já que esta cresceu significativamente mais.
Por fim, se quisermos exemplificar o que seja mau caratismo diríamos que é o ato de induzir a crença na população de uma mentira, isto é, que transgênicos e agrotóxicos são sinônimos. Uma mentira vira verdade se repetida muitas vezes, já dizia Goebbels.
Paulo Paes de Andrade, geneticista, UFPE
Francisco G. Nóbrega, microbiólogo, ex-ICB/USP
Zander Navarro, sociólogo, EMBRAPA
Flávio Finardi Filho, farmacêutico, FCF/USP
Walter Colli, bioquímico, IQ/USP