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terça-feira, 5 de maio de 2015

Transgênicos: benefícios e diálogo


Em resposta a artigo publicado no JC Notícias no último dia 30 de abril, questionando decisões da CTNBio, pesquisadores demonstram que “o aumento no uso de agrotóxicos nada tem a ver com os transgênicos, mas com a agricultura intensiva brasileira”

Pode-se perfeitamente entender a preocupação de Hugh Lacey, José Corrêa Leite, Marcos Barbosa de Oliveira, e Pablo Rubén Mariconda* em relação aos transgênicos: afinal, ela reflete uma percepção pública do risco, que é o produto da base analítica de cada um de nós, da mídia e das expectativas que temos para nosso futuro. Mas as decisões de Governo sobre novas tecnologias não podem ser tomadas com base no senso comum e sim na avaliação de risco, que trata do impacto direto e específico do organismo geneticamente modificado (OGM) na natureza, e da análise de risco, que envolve outros aspectos ligados à tecnologia. A separação dos dois procedimentos analíticos não é uma manobra antidemocrática ou reducionista, mas é um posicionamento técnico aceito e referendado no mundo todo e em sintonia com os tratados e acordos internacionais de comércio e de proteção à saúde e ao ambiente.

Tendo esta informação em mente, percebe-se que estão equivocados nossos colegas do IEA/USP quando pedem que a CTNBio se debruce sobre a questão dos agrotóxicos: ela não pode fazê-lo pela lei 11.105/2005 e não lhe cabe tal tarefa, que é de alçada exclusiva da ANVISA e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Em que pese o fato de que os agrotóxicos tenham impacto na saúde humana e animal, este é um assunto que foge do escopo da CTNBio. Poder-se-ia argumentar que os transgênicos e os agrotóxicos estão sempre associados, mas esta é uma percepção que, embora muito difundida na mídia alternativa, não encontra amparo na realidade, como comentaremos a seguir.

De fato, o Brasil usa agrotóxicos em centenas de diferentes cultivos, assim como na pecuária, mas os transgênicos representam apenas 30% da área plantada: são 160 milhões de hectares cultivados com as mais diversas culturas no país contra apenas 45 milhões com cultivos transgênicos. Por isso, a contribuição dos transgênicos no consumo de agrotóxicos é menor. Esta primeira inferência é claramente referendada pela análise do aumento do uso de agrotóxicos nos últimos 10 anos e do aumento da área plantada com transgênicos: para o primeiro o valor é de 200%, enquanto a área com transgênicos cresceu mais de 1000%! O que justifica, então, o aumento do uso de agrotóxicos? Basta olhar o aumento da produtividade geral da agricultura brasileira nos mesmos 10 anos: foi de 200%. Este valor não é uma coincidência, mas resulta da intensificação do processo produtivo, que demanda um controle mais rígido das ervas daninhas e das pragas em geral. A conclusão é clara: o aumento no uso de agrotóxicos nada tem a ver com os transgênicos, mas com a agricultura intensiva brasileira.

Vale lembrar ainda que as plantas transgênicas resistentes a inseto levaram a uma importante redução do uso de inseticidas, que também são agrotóxicos. Aliás, uma análise da literatura, do banco de dados do Sinitox e da ANVISA, mostra que os inseticidas estão entre os que causam mais malefício à saúde humana e, portanto, devemos neste sentido ser gratos à adoção das plantas transgênicas resistentes a insetos, que reduziram de forma global o uso destes agrotóxicos em soja e milho. Aqui estamos falando da tecnologia Bt, uma simplificação do nome da bactéria Bacillus thuringiensis que mata as lagartas que comem as plantas. Originalmente, essa bactéria foi usada por plantadores orgânicos. Os cientistas apenas usaram os genes dessa bactéria, incorporando-os na planta. Por isso, com a tecnologia Bt incorporada evita-se, em muito, o excesso de uso dos agrotóxicos.

Vale, então, a pergunta: porque a insistência em ligar os agrotóxicos aos transgênicos? A resposta é simples: porque após 20 anos de produção e consumo verifica-se que as plantas transgênicas no mercado não prejudicam o ambiente ou a saúde humana e animal. A nova forma de atacar a biotecnologia agrícola é ligá-la ao uso de produtos que são tóxicos para uma série de organismos e também para o homem, se ingeridos ou assimilados pelo nosso organismo acima de certa dose. Como mostramos acima, esta associação é falsa.

De fato, atualmente no mundo 180 milhões de hectares são cultivados com plantas transgênicas, sem qualquer impacto diferente daquele observado nas plantas convencionais cultivadas em iguais condições. Bilhões de animais e pessoas se alimentam com produtos formulados a partir de soja, milho, canola e outras plantas transgênicas e nenhum, absolutamente nenhum, problema de saúde foi comprovado. Não há base científica alguma para esperar estes danos e é aí que entra a avaliação de risco, função da CTNBio: depois de 15 anos de plantio e consumo no Brasil, não há sequer uma demonstração de que os OGMs façam mal à saúde ou ao ambiente no nosso país, o que prova, até agora, o acerto das decisões da CTNBio. Lembramos aos leitores também que milhares de outros produtos derivados da biotecnologia fazem parte de nosso dia a dia, indo de fármacos até sabões, tudo consumido e produzido de forma segura. Um exemplo contundente é a insulina, que hoje é idêntica à humana e que antes era derivada de suínos e produzia uma longa lista de problemas colaterais, tanto para o paciente como para o ambiente.

Finalmente, gostaríamos de esclarecer aos nossos colegas do IEA/USP que os membros da CTNBio empregam uma vasta literatura para apoiar seus pareceres e não apenas os dados trazidos pela empresa (inverdade muito encontrada na internet, infelizmente). Além disso, lembramos que os produtos que chegam à linha final da liberação comercial estão, em geral, na ponta de um longo procedimento de avaliação que começa nas casas de vegetação e passam pelos experimentos a campo, muitos anos antes da liberação comercial. Lembramos também que, embora alguns pontos específicos (em geral sobre a construção genética do transgênico) sejam confidenciais, a maioria esmagadora dos processos é pública: basta acessar o e-SIC do MCTI e pedir uma cópia. Por fim, afirmamos aos colegas que a geração de dados pelos cientistas brasileiros e estrangeiros é, de forma muito ampla, independente de financiamento das empresas, pois, o que vale é a consistência do método científico e não quem fez o trabalho ou quem o financiou. Entra aí a honestidade do profissional e sua adesão aos princípios morais de sua carreira e de sua sociedade.

Se os filósofos do IEA/USP ou qualquer outro grupo que crê haver erros na forma de agir da CTNBio desejam de fato o diálogo com a Comissão ou com as sociedades científicas, devem primeiro despir-se do preconceito que revelam a respeito da conduta dos membros da Comissão e dos cientistas em geral, acusando-os de emitirem seus pareceres porque têm apoio indireto ou direto do setor privado que leva seus produtos à CTNBio ou de produzirem dados favoráveis às empresas em troca de financiamentos. Tal posição, além de falsa, é desrespeitosa e não leva a diálogo algum.

Paulo Paes de Andrade, geneticista, UFPE
Francisco G. Nóbrega, microbiólogo, ex-ICB/USP
Zander Navarro, sociólogo, EMBRAPA
Flávio Finardi Filho, farmacêutico, FCF/USP
Walter Colli, bioquímico, IQ/USP

Veja o artigo anterior no link abaixo:

Instituto culpa transgênicos por aumento no uso de agrotóxicos, sem provas; especialistas rebatem

Autor: HERTON ESCOBAR
23 Abril 2015 | 14:00

Instituto Nacional de Câncer (Inca) diz que sementes geneticamente modificadas são responsáveis pelo país ser o maior consumidor de pesticidas no mundo. Representantes do setor agrícola e da biotecnologia dizem que diagnóstico é “grosseiro”, não considera outros fatores e não retrata a realidade no campo.

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, e o segundo maior produtor de transgênicos, com mais de 42 milhões de hectares plantados com soja, milho e algodão geneticamente modificados.

Uma coisa está relacionada à outra? O Instituto Nacional de Câncer (Inca) diz que sim, apesar de não haver dados que comprovem isso diretamente. Em um posicionamento oficial sobre o uso de agrotóxicos e seus impactos na saúde, publicado em 10 de abril, o instituto chama atenção para o fato de que o Brasil é o maior consumidor de defensivos agrícolas do mundo, e atribui esse consumo elevado ao plantio de lavouras transgênicas.

“É importante destacar que a liberação do uso de sementes transgênicas no Brasil foi uma das responsáveis por colocar o país no primeiro lugar do ranking de consumo de agrotóxicos, uma vez que o cultivo dessas sementes geneticamente modificadas exigem o uso de grandes quantidades destes produtos”, afirma o Inca, que é vinculado ao Ministério da Saúde e fica no Rio de Janeiro. Para ler a íntegra do posicionamento, clique aqui: INCA-Agrotoxicos-Posicionamento

O documento, porém, não apresenta nenhuma estatística ou trabalho científico que corrobore essa afirmação. Procurado pela reportagem, o instituto forneceu uma pequena lista de referências que dariam sustentação ao seu posicionamento, incluindo reportagens e artigos científicos. Desses, apenas dois (um deles com mais de 10 anos) traçam uma relação estatística entre plantio de transgênicos e aumento no consumo de agrotóxicos, e nenhum deles é específico para o Brasil: GMO-PesticideUse-Benbrook e SojaGM-Pelaez-2004

Segundo Márcia de Campos Mello, toxicologista da Unidade Técnica de Exposição Ocupacional, Ambiental e Câncer do Inca, o consumo de agrotóxicos no Brasil aumentou de aproximadamente 700 milhões de litros por ano em 2005 (dois anos após a legalização dos transgênicos no País) para cerca de 1 bilhão de litros por ano, em 2013. “Quando você faz a correlação dessas datas, observa-se que houve um aumento muito grande no consumo de agrotóxicos (desde a liberação dos transgênicos)”, justifica.

“Me assusta muito um instituto como o Inca, que trabalha com câncer — uma doença multifatorial, que não se presta a generalizações grosseiras — fazer esse tipo de generalização com a biotecnologia”, diz a bioquímica Adriana Brondani, diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB). O uso intensivo de agrotóxicos no país, segundo ela, deve-se a uma série de fatores relacionados à agricultura brasileira. “O Inca faz um diagnóstico equivocado, olhando apenas para os dados brutos, sem levar em conta o que acontece no campo.”

“Somos o maior consumidor de agrotóxicos porque somos a maior agricultura tropical do mundo.” - Júlio Britto, coordenador de agrotóxicos do Ministério da Agricultura

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) confirma que o consumo de agrotóxicos cresceu significativamente no Brasil nos últimos dez anos, e que o País é hoje o maior consumidor desses produtos no mundo. Mas discorda da avaliação feita pelo Inca. Segundo Júlio Britto, coordenador geral de Agrotóxicos e Afins do MAPA, o aumento no uso de agrotóxicos no País é reflexo do aumento da área plantada e da produção agrícola, independentemente de ela ser transgênica ou não.

“Vivemos num país tropical, de clima quente, em que se planta o ano inteiro, com alta incidência de pragas”, diz. As mesmas condições excepcionais de clima e solo que favorecem a produtividade das lavouras favorecem o crescimento de ervas daninhas, insetos e outras pestes tropicais. “Não usamos agrotóxicos porque queremos, mas porque precisamos. Sem defesa das lavouras, você não produz”, completa Britto, ressaltando que, relativamente ao tamanho da área plantada, o Brasil usa muito menos agrotóxicos (por hectare) do que países do primeiro mundo, como o Japão.

No caso dos transgênicos Bt, que são resistentes ao ataque de determinadas lagartas, houve uma “redução drástica” no uso de inseticidas contra esses insetos: de 20 para 4 aplicações por lavoura, segundo Adriana. “Ainda assim, a plantação é atacada por outras pragas, para as quais é necessário aplicar outros produtos”, completa.



Ameaças múltiplas

A cultura transgênica mais plantada no Brasil e no mundo é a soja resistente ao herbicida glifosato, desenvolvida pela Monsanto. Com o aumento da área plantada dessa variedade, aumentou também o uso do glifosato, enquanto que o uso de outros herbicidas diminuiu, segundo Britto. Paralelamente, aumentou o uso de inseticidas e fungicidas, devido ao surgimento de novas pragas, como a ferrugem da soja (causada por um fungo) e a lagarta helicoverpa, para as quais os transgênicos não oferecem proteção.

Quando todos os fatores são computados, diz Britto, o volume total de agrotóxicos usados no País aumentou apesar das vantagens oferecidas pelos transgênicos, e não por causa deles.

A conclusão é clara: o aumento no uso de agrotóxicos nada tem a ver com os transgênicos, mas com a agricultura intensiva brasileira.” - Pesquisadores, em artigo publicado no Jornal da Ciência da SBPC

Em uma carta publicada pelo Jornal da Ciência da SBPC no dia 4 de maio, cinco pesquisadores também desmontam o suposto elo entre transgênicos e aumento no uso de pesticidas: “De fato, o Brasil usa agrotóxicos em centenas de diferentes cultivos, assim como na pecuária, mas os transgênicos representam apenas 30% da área plantada: são 160 milhões de hectares cultivados com as mais diversas culturas no país contra apenas 45 milhões com cultivos transgênicos. Por isso, a contribuição dos transgênicos no consumo de agrotóxicos é menor. Esta primeira inferência é claramente referendada pela análise do aumento do uso de agrotóxicos nos últimos 10 anos e do aumento da área plantada com transgênicos: para o primeiro o valor é de 200%, enquanto a área com transgênicos cresceu mais de 1000%! O que justifica, então, o aumento do uso de agrotóxicos? Basta olhar o aumento da produtividade geral da agricultura brasileira nos mesmos 10 anos: foi de 200%. Este valor não é uma coincidência, mas resulta da intensificação do processo produtivo, que demanda um controle mais rígido das ervas daninhas e das pragas em geral. A conclusão é clara: o aumento no uso de agrotóxicos nada tem a ver com os transgênicos, mas com a agricultura intensiva brasileira.”

A carta é assinada pelo geneticista Paulo Paes de Andrade (da UFPE), pelo microbiólogo Francisco Nóbrega (ex-ICB/USP), o sociólogo Zander Navarro (Embrapa), o farmacêutico Flávio Finardi Filho (FCF/USP) e o bioquímico Walter Colli (IQ/USP). O texto foi escrito em resposta a um artigo, também publicado no Jornal da Ciência, no dia 30 de abril, em que três pesquisadores ligados ao Instituto de Estudos Avançados da USP (Hugh Lacey, José Corrêa Leite, Marcos Barbosa de Oliveira, e Pablo Rubén Mariconda) defendem o relatório do Inca e criticam a atuação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) na aprovação de transgênicos no Brasil.

“Cada um tem o seu discurso, pela causa com que está comprometido”, afirma Márcia, do Inca. “A nossa causa é proteger a saúde da população.” Segundo ela, ainda não há garantias de que os transgênicos sejam seguros para a saúde. Isso, apesar de eles já serem plantados e consumidos em larga escala, há mais de duas décadas, com a aprovação dos órgãos reguladores de vários países do mundo, sem qualquer registro de efeitos adversos à saúde humana. “Os efeitos só poderão ser notados com o tempo”, argumenta. “Nossa posição é reduzir o uso de agrotóxicos e incentivar a agricultura orgânica.”

Polêmica do glifosato

O posicionamento do Inca surge na sequência de uma outra publicação polêmica: Um relatório da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer (IARC, em inglês), um braço da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em 20 de março, reclassificando o herbicida glifosato como uma substância “provavelmente carcinogênica (causadora de câncer) para seres humanos”. Veja o relatório aqui: http://goo.gl/j3IU4i

O glifosato é o herbicida mais produzido no mundo, e é classificado por várias agências reguladoras — incluindo a Agência de Proteção Ambiental (EPA), nos Estados Unidos, e a Anvisa, no Brasil — como não carcinogênico e de baixa toxicidade, tanto para o ambiente quanto para os seres humanos. Nas lavouras transgênicas, o fato de a soja ou o milho serem resistentes a ele permite que os agricultores pulverizem toda a plantação com glifosato, para matar todas as ervas daninhas com um único produto, sem prejudicar a lavoura. Por isso, com a adoção dos transgênicos, aumentou o consumo de glifosato e diminuiu o consumo de outros herbicidas.

A publicação inicial feita pela IARC, na revista The Lancet, inclui apenas uma descrição muito breve dos dados científicos que serviram de base para a reclassificação. Segundo a agência, há “evidências limitadas de carcinogenicidade” do glifosato para seres humanos em casos de linfoma não-Hodgkin, “evidências convincentes” de que o glifosato pode causar câncer em animais de laboratório e “evidências suficientes” de carcinogenicidade em células humanas in vitro. Um relatório mais detalhado é esperado para os próximos meses.

“As três linhas de evidência nos dizem mais ou menos a mesma coisa, que devemos nos preocupar com isso”, disse ao jornal The New York Times Aaron Blair, um epidemiologista aposentado do Instituto Nacional do Câncer dos EUA, que coordenou o trabalho de revisão do herbicida. Com isso, o glifosato passa a fazer parte do Grupo 2A, que inclui substâncias e atividades “provavelmente carcinogênicas”, como acrilamida, beber chá mate quente, trabalhar em salões de beleza, fazer plantões noturnos, fabricar vidro e respirar fumaça de madeira queimada dentro de casa. Veja a lista completa aqui: http://goo.gl/VVEQ4y

“Do meu conhecimento, não há nada que justifique essa classificação”, diz o toxicologista Flavio Zambrone, da empresa Planitox. “Temos que esperar a publicação definitiva (do IARC) para ver se há algum dado escondido que dê razão a isso. Não dá para transmitir uma notícia dessa forma, sem base científica, criando pânico na população.” Segundo ele, os estudos mencionados pelo IARC na publicação inicial são trabalhos já “desacreditados” pela comunidade científica.

Outros acusam a agência de ter selecionado estudos de forma enviesada, destacando uma minoria que mostra efeitos negativos e ignorando uma maioria que mostra não haver risco para a saúde.
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Post atualizado às 18h15 do dia 4 de maio, para acrescentar informações publicadas no Jornal da Ciência da SBPC.

Tags: agrotóxicos, biotecnologia, inca, milho transgênico, OGMs, organismos geneticamente modificados, soja transgênica, transgênicos

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Exportação de mel e o eucalipto transgênico: Réplica ao Combate Racismo Ambiental e ao Século Diário e proposta de manejo como garantia da sustentabilidade, certificação e exportação da nossa produção apícola

Já faz algumas semanas foi publicada uma postagem comentando os impactos que o eucalipto transgênico poderia ter na exportação de mel brasileiro (http://racismoambiental.net.br/2014/11/eucalipto-transgenico-da-suzano-ameaca-producao-brasileira-de-mel/#more-163695). É valida a preocupação trazida pela Any Cometti, uma vez que os apicultores têm mais lucro exportando seus produtos do que vendendo no mercado interno. Alguns destinos de nossa exportação podem ser bastante exigentes em qualidade e, pelo menos no caso da Europa, podem ser intransigentes em relação à presença de OGMs ou produtos derivados deles. Além disso, parte de nosso mel é exportada com o selo orgânico e, neste caso, não pode haver a presença de OGMs acima de uma certa porcentagem.
Eu esperava ler na postagem do texto da Amy, que apareceu no Combate Racismo ambiental, no Século Diário e em outros portais, considerações ponderadas sobre esta questão importante. Entretanto, a leitura do texto postado, faz a gente pensar naquela estratégia de venda de revistas nos aeroportos: te atraem com uma história e te vendem outra inteiramente diferente. O título (Eucalipto transgênico da Suzano ameaça produção brasileira de mel) fala de exportação de mel, mas o texto só discute isso de forma muito superficial e sem qualquer dado que, entretanto, a Abemel seguramente tem. Aliás, é meio contraditória a declaração da Joelma, quando fala, aparentemente em nome da Abemel, sobre o teste e descarte de mel que tenha pólen transgênico, porque a certificação proposta pela própria Abemel (http://brazilletsbee.com.br/certificacao/protocolo.pdf) não tem uma linha falando de orgânicos nem muito menos de transgênicos.Também fica difícil saber de onde veio a informação de que “do montante exportado, 80% têm procedência orgânica”: não está claro em canto algum qual é a parcela do mel brasileiro exportado que, de fato, é orgânico e nem sequer quanto dele é vendido como orgânico.
Vamos começar do início: A primeira norma técnica para o setor de apicultura foi publicada dia 19 de abril de 2008, a NBR 15585, e está bem alinhada com as exigências duras do mercado europeu. O Brasil, entretanto,  exporta cerca de 82% do seu mel para o EUA (http://brazilletsbee.com.br/noticia.aspx?id=84) e uma parte para outros países (Canadá, com quase 8% e vários outros - http://www.canalrioclaro.com.br/noticia/21769/exportacao-de-mel-cresce-96-79-de-janeiro-a-maio.html ). EUA, Canadá e muitos outros não estão nem aí para a presença de pólen transgênico no mel.  Se houver um dia pólen transgênico no mel brasileiro, isso não será impedimento para a venda do mel, sempre que seja produzido dentro das exigências dos importadores. Só não vai ser vendido como orgânico, coisa que a maioria do mel brasileiro muito provavelmente não é pelos padrões internacionais. Onde a coisa pega é na Europa, que entende a presença do pólen GM, não importa em que quantidade, como impedimento para importação. No duro, a Europa não está usando ciência aí, mas política, e quem ganha são os importadores de mel de lá e quem perde são os consumidores e os produtores de mel do Terceiro Mundo.
Muito antes de afirmar que o eucalipto inviabiliza a exportação de mel é preciso usar boa ciência e estudar as distâncias mínimas entre as colmeias e os plantios de eucalipto GM nas diversas paisagens em que os eucaliptais se inserem. Se é verdade que as floradas de eucalipto são atrativas para as abelhas, também é verdade que as árvores só florescem depois de 7 anos e que as abelhas preferem flores que estejam mais próximas da colmeia. É preciso um sistema de manejo eficiente para que os problemas de exportação sejam abolidos, mas este manejo está muito longe de ser impossível ou mesmo difícil. Assim, nem o eucalipto transgênico e nem qualquer outra planta transgênica vão inviabilizar nossa exportação de mel, basta um manejo adequado.
Aí aparecem as observações do Valmir Noventa, do MPA. O que ele afirma é um absoluto despautério, a começar pelo alcance de voo das abelhas e a terminar pelo impacto na biodiversidade e nas imaginárias sementes crioulas. Pra começar, o impacto do eucalipto transgênico que está em análise pela CTNBio pode até ser menor que o do eucalipto convencional, mas isso é irrelevante: toda a agricultura impacta e a de baixa produtividade, que o MPA defende, impacta muito mais. Em segundo lugar, as abelhas raramente voam mais que 1000 m, ida e volta. Elas preferem visitar plantas próximas à colmeia. Tipicamente, 400 m de raio máximo é o que ocorrem nas regiões de produção de mel.  Para evitar que pastem em flores transgênicas, basta mover as caixas. Afinal, não vai haver só eucalipto no Brasil. Em terceiro lugar, de que sementes crioulas o Valmir está falando? Não existem sementes crioulas de eucalipto e a única planta com a qual o eucalipto pode cruzar e passar suas sementes é o próprio eucalipto (mais especificamente, as duas espécies que conforma o híbrido da Futuragene). Além disso ninguém planta comercialmente eucalipto a partir de sementes! Em quarto lugar, ninguém come eucalipto: em que isso afeta a soberania alimentar? Em quinto lugar, que diabos vem a ser programação genética para o tempo de floração? Se é fazer com que as plantas floresçam juntas, isso vem sendo buscado e obtido pelos homens desde que começaram a domesticas suas plantas. Se é outra coisa, está o Valmir redondamente enganado. Por fim, o Valmir diz que será preciso comprar sempre as sementes. Isso pode ser válido para o milho híbrido, mas não é válido para a soja (que é linhagem) nem muito menos para o eucalipto, que é micropropagado! Toda esta parte do texto é uma mistureba de bandeiras repetidas pelo MPA como os papagaios repetem, sem saber o que dizem e fora do contexto e a publicação desta cacofonia termina por ser um imenso desserviço à apicultura e aos produtores de madeira e celulose. Em última instância, o Vladimir Noventa está atirando pedra no próprio país em nome de uma ideologia obscura.
Já o Dagoberto listou uma série de dúvidas sobre a segurança, mas todas elas, sem exceção alguma, foram consideradas pela CTNBio e há elementos suficientes para uma decisão baseada em ciência, e não em suspeitas hiper-precaucionárias. Boa parte das preocupações trazidas pela sociedade está detalhadamente discutida na avaliação de risco detalhada que postamos em http://genpeace.blogspot.com.br/2014/11/eucalipto-transgenico-quais-sao-de-fato.html.

É muito frustrante a gente ler um texto como este da Amy pensando que vai ver uma coisa e acaba nem vendo direito o que o título sugere, mas tendo que digerir a gordura perigosa do restante.

sábado, 15 de março de 2014

A CTNBio não decide diferente dos demais países que fazem avaliação de risco de transgênicos

Uma crítica que sempre se vê pela internet é a de que a CTNBio é irresponsável e que aprova no Brasil plantas transgênicas e outros OGMs que não foram aprovados nos países “sérios”. O corolário desta afirmação, que é completamente falsa, é obvio: o Brasil seria um campo de testes e os brasileiros, cobaias. Mas será assim?

Observemos o que está aprovado no Brasil. No banco de dados do CERA (http://cera-gmc.org/) constam 24 plantas transgênicas aprovadas no Brasil (há mais algumas no portal da CTNBio (www.ctnbio.gov.br), mas sempre soja, algodão e milho):
·         Quatro variedades de soja (duas da Bayer tolerantes ao herbicida glufosinato de amônio, uma da Basf, tolerante à imidazolinona e uma da Monsanto tolerante ao glifosato)
·         Sete variedades de algodão (Uma da Dow tolerante a insetos, duas da Bayer tolerantes a glifosato e quatro da Monsanto tolerantes a herbicida e/ou resistentes a insetos)
·         Treze  variedades de milho (cinco da Syngenta tolerantes a um herbicida e/ou resistente a insetos praga, quatro da Monsanto resistentes a insetos e/ou tolerantes a herbicidas,  uma da Bayer tolerante a herbicida e três da Pioneer e da Dow tolerantes a herbicida e resistentes a insetos).

Será que só nós, pobre tupiniquins, guiados pelos irresponsáveis professores e pesquisadores que sentam na CTNBio, aprovamos estes “venenos”? Ou talvez mais alguns países subdesenvolvidos, talvez ditaduras, tenham também aprovado, à revelia da segurança de seu povo?  Mas claro, nenhum país responsável faria isso...

Pois senão vejamos. Tomemos como exemplo dois milhos badalados, o NK603 e o TC1507. Observemos as tabelas abaixo, que mostram os países que os aprovaram, seja para plantio ou apenas para consumo (como alimento ou ração).

Tabela I. Países que aprovaram o milho NK603 (resistente a insetos), de acordo com o CERA database

País
Plantio
Alimento ou ração
Alimento
Ração

2004
2004

2002

2008
2008

2001
2001
2001

2005

2004

2009

União Europeia
2004
2004

2001
2001
2001

2002
2004

2002

2005
2003

2002
2002

2003

2000
2000

2011
2011

Tabela II. Países que aprovaram o milho TC1507 (resistente a insetos e tolerante a glufosinato de amônio), de acordo com o CERA database
País
Plantio
Alimento ou ração
Alimento
Ração

2005
2005

2003

2008
2008

2002
2002
2002

2004

2006

2009

2006
2005

2002
2002
2002

2002
2004

2003

2003
2003

2002

2003

2001
2001

2011
2011


Voilá! Estamos em companhia de países bárbaros e dominados por ditaduras sanguinárias ou somos parceiros de países sérios? Uma leitura rápida das duas tabelas mostra que os principais países e uniões do Mundo estão na lista dos que aprovaram estes dois milhos. O primeiro, entretanto, foi motivo de um estudo amalucado do Séralini e sua trupe (vejam http://genpeace.blogspot.com.br/2013/11/sepultando-um-zumbi-o-artigo-cientifico.html) e o segundo está no meio de uma polêmica na Europa entre a França e mais outros países e a União Europeia (http://genpeace.blogspot.com.br/2014/02/ao-desamparo-da-lei-oposicao-francesa.html) . A polêmica sobre estes milhos, completamente esvaziada de ciência, mas entupida de política, é o que leva uma parte dos “ecossocialistas” a condenar a biotecnologia agrícola. Seguramente, se observarmos que nas duas tabelas estão o Canadá, a Austrália, os EUA, a União Europeia e o Japão, é completamente disparatado dizer que a CTNBio está fazendo os brasileiros de cobaias, ao revés do resto do Mundo. É evidente que, na lista, estão os maiores produtores de grãos do Mundo. Por conseguinte, o Mundo está comendo milho transgênico, seja bicho ou gente. Então, como é que os oncologistas (inclusive os veterinários) não estão milionários tratando de uma legião de gente e bicho com câncer? Bom, a resposta é óbvia, mas os que se opõem aos transgênicos nunca a aceitam...

Ainda bem que a CTNBio está em boa companhia. Assim, ao menos teremos um consolo como ex-membros: quando os brasileiros forem extintos pelo consumo de transgênicos, o resto do Mundo vai junto, inclusive os poderosos. Sobrarão os franceses para repovoar a terra...