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terça-feira, 5 de maio de 2015

Instituto culpa transgênicos por aumento no uso de agrotóxicos, sem provas; especialistas rebatem

Autor: HERTON ESCOBAR
23 Abril 2015 | 14:00

Instituto Nacional de Câncer (Inca) diz que sementes geneticamente modificadas são responsáveis pelo país ser o maior consumidor de pesticidas no mundo. Representantes do setor agrícola e da biotecnologia dizem que diagnóstico é “grosseiro”, não considera outros fatores e não retrata a realidade no campo.

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, e o segundo maior produtor de transgênicos, com mais de 42 milhões de hectares plantados com soja, milho e algodão geneticamente modificados.

Uma coisa está relacionada à outra? O Instituto Nacional de Câncer (Inca) diz que sim, apesar de não haver dados que comprovem isso diretamente. Em um posicionamento oficial sobre o uso de agrotóxicos e seus impactos na saúde, publicado em 10 de abril, o instituto chama atenção para o fato de que o Brasil é o maior consumidor de defensivos agrícolas do mundo, e atribui esse consumo elevado ao plantio de lavouras transgênicas.

“É importante destacar que a liberação do uso de sementes transgênicas no Brasil foi uma das responsáveis por colocar o país no primeiro lugar do ranking de consumo de agrotóxicos, uma vez que o cultivo dessas sementes geneticamente modificadas exigem o uso de grandes quantidades destes produtos”, afirma o Inca, que é vinculado ao Ministério da Saúde e fica no Rio de Janeiro. Para ler a íntegra do posicionamento, clique aqui: INCA-Agrotoxicos-Posicionamento

O documento, porém, não apresenta nenhuma estatística ou trabalho científico que corrobore essa afirmação. Procurado pela reportagem, o instituto forneceu uma pequena lista de referências que dariam sustentação ao seu posicionamento, incluindo reportagens e artigos científicos. Desses, apenas dois (um deles com mais de 10 anos) traçam uma relação estatística entre plantio de transgênicos e aumento no consumo de agrotóxicos, e nenhum deles é específico para o Brasil: GMO-PesticideUse-Benbrook e SojaGM-Pelaez-2004

Segundo Márcia de Campos Mello, toxicologista da Unidade Técnica de Exposição Ocupacional, Ambiental e Câncer do Inca, o consumo de agrotóxicos no Brasil aumentou de aproximadamente 700 milhões de litros por ano em 2005 (dois anos após a legalização dos transgênicos no País) para cerca de 1 bilhão de litros por ano, em 2013. “Quando você faz a correlação dessas datas, observa-se que houve um aumento muito grande no consumo de agrotóxicos (desde a liberação dos transgênicos)”, justifica.

“Me assusta muito um instituto como o Inca, que trabalha com câncer — uma doença multifatorial, que não se presta a generalizações grosseiras — fazer esse tipo de generalização com a biotecnologia”, diz a bioquímica Adriana Brondani, diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB). O uso intensivo de agrotóxicos no país, segundo ela, deve-se a uma série de fatores relacionados à agricultura brasileira. “O Inca faz um diagnóstico equivocado, olhando apenas para os dados brutos, sem levar em conta o que acontece no campo.”

“Somos o maior consumidor de agrotóxicos porque somos a maior agricultura tropical do mundo.” - Júlio Britto, coordenador de agrotóxicos do Ministério da Agricultura

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) confirma que o consumo de agrotóxicos cresceu significativamente no Brasil nos últimos dez anos, e que o País é hoje o maior consumidor desses produtos no mundo. Mas discorda da avaliação feita pelo Inca. Segundo Júlio Britto, coordenador geral de Agrotóxicos e Afins do MAPA, o aumento no uso de agrotóxicos no País é reflexo do aumento da área plantada e da produção agrícola, independentemente de ela ser transgênica ou não.

“Vivemos num país tropical, de clima quente, em que se planta o ano inteiro, com alta incidência de pragas”, diz. As mesmas condições excepcionais de clima e solo que favorecem a produtividade das lavouras favorecem o crescimento de ervas daninhas, insetos e outras pestes tropicais. “Não usamos agrotóxicos porque queremos, mas porque precisamos. Sem defesa das lavouras, você não produz”, completa Britto, ressaltando que, relativamente ao tamanho da área plantada, o Brasil usa muito menos agrotóxicos (por hectare) do que países do primeiro mundo, como o Japão.

No caso dos transgênicos Bt, que são resistentes ao ataque de determinadas lagartas, houve uma “redução drástica” no uso de inseticidas contra esses insetos: de 20 para 4 aplicações por lavoura, segundo Adriana. “Ainda assim, a plantação é atacada por outras pragas, para as quais é necessário aplicar outros produtos”, completa.



Ameaças múltiplas

A cultura transgênica mais plantada no Brasil e no mundo é a soja resistente ao herbicida glifosato, desenvolvida pela Monsanto. Com o aumento da área plantada dessa variedade, aumentou também o uso do glifosato, enquanto que o uso de outros herbicidas diminuiu, segundo Britto. Paralelamente, aumentou o uso de inseticidas e fungicidas, devido ao surgimento de novas pragas, como a ferrugem da soja (causada por um fungo) e a lagarta helicoverpa, para as quais os transgênicos não oferecem proteção.

Quando todos os fatores são computados, diz Britto, o volume total de agrotóxicos usados no País aumentou apesar das vantagens oferecidas pelos transgênicos, e não por causa deles.

A conclusão é clara: o aumento no uso de agrotóxicos nada tem a ver com os transgênicos, mas com a agricultura intensiva brasileira.” - Pesquisadores, em artigo publicado no Jornal da Ciência da SBPC

Em uma carta publicada pelo Jornal da Ciência da SBPC no dia 4 de maio, cinco pesquisadores também desmontam o suposto elo entre transgênicos e aumento no uso de pesticidas: “De fato, o Brasil usa agrotóxicos em centenas de diferentes cultivos, assim como na pecuária, mas os transgênicos representam apenas 30% da área plantada: são 160 milhões de hectares cultivados com as mais diversas culturas no país contra apenas 45 milhões com cultivos transgênicos. Por isso, a contribuição dos transgênicos no consumo de agrotóxicos é menor. Esta primeira inferência é claramente referendada pela análise do aumento do uso de agrotóxicos nos últimos 10 anos e do aumento da área plantada com transgênicos: para o primeiro o valor é de 200%, enquanto a área com transgênicos cresceu mais de 1000%! O que justifica, então, o aumento do uso de agrotóxicos? Basta olhar o aumento da produtividade geral da agricultura brasileira nos mesmos 10 anos: foi de 200%. Este valor não é uma coincidência, mas resulta da intensificação do processo produtivo, que demanda um controle mais rígido das ervas daninhas e das pragas em geral. A conclusão é clara: o aumento no uso de agrotóxicos nada tem a ver com os transgênicos, mas com a agricultura intensiva brasileira.”

A carta é assinada pelo geneticista Paulo Paes de Andrade (da UFPE), pelo microbiólogo Francisco Nóbrega (ex-ICB/USP), o sociólogo Zander Navarro (Embrapa), o farmacêutico Flávio Finardi Filho (FCF/USP) e o bioquímico Walter Colli (IQ/USP). O texto foi escrito em resposta a um artigo, também publicado no Jornal da Ciência, no dia 30 de abril, em que três pesquisadores ligados ao Instituto de Estudos Avançados da USP (Hugh Lacey, José Corrêa Leite, Marcos Barbosa de Oliveira, e Pablo Rubén Mariconda) defendem o relatório do Inca e criticam a atuação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) na aprovação de transgênicos no Brasil.

“Cada um tem o seu discurso, pela causa com que está comprometido”, afirma Márcia, do Inca. “A nossa causa é proteger a saúde da população.” Segundo ela, ainda não há garantias de que os transgênicos sejam seguros para a saúde. Isso, apesar de eles já serem plantados e consumidos em larga escala, há mais de duas décadas, com a aprovação dos órgãos reguladores de vários países do mundo, sem qualquer registro de efeitos adversos à saúde humana. “Os efeitos só poderão ser notados com o tempo”, argumenta. “Nossa posição é reduzir o uso de agrotóxicos e incentivar a agricultura orgânica.”

Polêmica do glifosato

O posicionamento do Inca surge na sequência de uma outra publicação polêmica: Um relatório da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer (IARC, em inglês), um braço da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em 20 de março, reclassificando o herbicida glifosato como uma substância “provavelmente carcinogênica (causadora de câncer) para seres humanos”. Veja o relatório aqui: http://goo.gl/j3IU4i

O glifosato é o herbicida mais produzido no mundo, e é classificado por várias agências reguladoras — incluindo a Agência de Proteção Ambiental (EPA), nos Estados Unidos, e a Anvisa, no Brasil — como não carcinogênico e de baixa toxicidade, tanto para o ambiente quanto para os seres humanos. Nas lavouras transgênicas, o fato de a soja ou o milho serem resistentes a ele permite que os agricultores pulverizem toda a plantação com glifosato, para matar todas as ervas daninhas com um único produto, sem prejudicar a lavoura. Por isso, com a adoção dos transgênicos, aumentou o consumo de glifosato e diminuiu o consumo de outros herbicidas.

A publicação inicial feita pela IARC, na revista The Lancet, inclui apenas uma descrição muito breve dos dados científicos que serviram de base para a reclassificação. Segundo a agência, há “evidências limitadas de carcinogenicidade” do glifosato para seres humanos em casos de linfoma não-Hodgkin, “evidências convincentes” de que o glifosato pode causar câncer em animais de laboratório e “evidências suficientes” de carcinogenicidade em células humanas in vitro. Um relatório mais detalhado é esperado para os próximos meses.

“As três linhas de evidência nos dizem mais ou menos a mesma coisa, que devemos nos preocupar com isso”, disse ao jornal The New York Times Aaron Blair, um epidemiologista aposentado do Instituto Nacional do Câncer dos EUA, que coordenou o trabalho de revisão do herbicida. Com isso, o glifosato passa a fazer parte do Grupo 2A, que inclui substâncias e atividades “provavelmente carcinogênicas”, como acrilamida, beber chá mate quente, trabalhar em salões de beleza, fazer plantões noturnos, fabricar vidro e respirar fumaça de madeira queimada dentro de casa. Veja a lista completa aqui: http://goo.gl/VVEQ4y

“Do meu conhecimento, não há nada que justifique essa classificação”, diz o toxicologista Flavio Zambrone, da empresa Planitox. “Temos que esperar a publicação definitiva (do IARC) para ver se há algum dado escondido que dê razão a isso. Não dá para transmitir uma notícia dessa forma, sem base científica, criando pânico na população.” Segundo ele, os estudos mencionados pelo IARC na publicação inicial são trabalhos já “desacreditados” pela comunidade científica.

Outros acusam a agência de ter selecionado estudos de forma enviesada, destacando uma minoria que mostra efeitos negativos e ignorando uma maioria que mostra não haver risco para a saúde.
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Post atualizado às 18h15 do dia 4 de maio, para acrescentar informações publicadas no Jornal da Ciência da SBPC.

Tags: agrotóxicos, biotecnologia, inca, milho transgênico, OGMs, organismos geneticamente modificados, soja transgênica, transgênicos

domingo, 29 de março de 2015

Revisitando a avaliação de risco do mosquito “do bem”: como a maior parte dos perigos percebidos pode ser descartada e os perigos restantes terem seu risco avaliado.


A sinopse da história é a seguinte: os mosquitos transgênicos (Aedes aegypti, transmissores do vírus da dengue e de outras enfermidades) carregam um gene de letalidade condicional, isto é, morrem se não puderem beber água com uma quantidade importante de tetraciclina. O antibiótico é fornecido a eles na “biofábrica”, mas não está disponível na Natureza, uma vez que este antibiótico é artificial. No processo de produção dos insetos, as pupas de machos podem ser separadas das fêmeas e só machos serão depois liberados, nas campanhas de controle. Os machos cruzam com as fêmeas na área de liberação, morrem depois de alguns dias e toda a sua prole também morre, antes mesmo de sua metamorfose para adultos alados. Isto leva a uma redução drástica da população do mosquito e também impede o “escape” dos transgenes para a população selvagem de Aedes aegypti. Como só machos são liberados, os seres humanos não interagem efetivamente com estes mosquitos transgênicos liberados.
Se tudo funcionar exatamente como está descrito acima, quais os riscos?

Muito bem, o que queremos proteger no ambiente urbano onde vivem os A. aegypti e onde serão liberados os mosquitos transgênicos? Os alvos de proteção são o ser humano e seus animais de criação e companhia e alguns animais silvestres urbanos valorados (sabiás, por exemplo, mas seguramente não ratos ou baratas). Não faz sentido dizer que queremos preservar um ecossistema que pudesse ser destruído pela presença transitória do mosquito transgênico, porque o impacto de uma população de mosquitos de tão curta duração, por mais numerosa que seja, seguramente será nulo. Resta então encontrar rotas cientificamente embasadas que pudesse levar a danos aos seres humanos ou a animais urbanos diretamente causados pelos mosquitos transgênicos nos seus poucos dias de vida pela cidade.

Ora, se o mosquito transgênico (macho) nem sequer pica o homem ou qualquer outro animal, não há rota ao dano possível exceto se ele for ingerido. Acontece que os animais que comem insetos comem uma variedade deles e seria muito pouco provável que ingerissem uma quantidade importante dos insetos liberados para controlar a população de insetos, e não para engordar sapos. Mesmo assim, podemos considerar que o primeiro passo de uma rota ao dano a animais insetívoros pode existir, isto é, a ingestão mesma de alguns mosquitos ao longo da semana de liberação controle.

Qual é o próximo passo? Mostrar que os mosquitos são tóxicos para estes insetívoros. Mas o que têm de novo estes mosquitos? Duas proteínas que estão fartamente estudadas quanto à toxicidade, sabendo-se que é nula nas doses que os insetívoros poderiam ingerir. Aqui acaba nossa rota ao dano, concluindo-se que não é possível um dano. Mesmo assim, pode-se fazer experimentos com insetívoros (e foram feitos!); conclusão: não houve danos. Logo, para o único objeto de proteção que é real (seja ele um sapo, uma perereca,uma lagartixa, um morcego ou outro insetívoro urbano, que tem uma valoração muito relativa pela população...) não há danos. Então, o mosquito transgênico NÃO APRESENTA RISCOS à saúde humana, animal ou ao ambiente diferente daqueles representados pelos mosquitos não transgênicos.

E se nem tudo funcionar “como manda o figurino”?

Poder-se-ia argumentar: esta é a situação ideal; mas se nem todos os mosquitos morrerem? E se fêmeas forem liberadas? E se os mosquitos cruzarem com outra espécie e o transgene letal não funcionar nela?

Vamos agora analisar cada uma destas hipóteses.

De fato, nem todos os mosquitos morrem: até uns 5% sobrevivem, mesmo sem tetraciclina. O que ocorre com eles? Vão procriar e talvez morrer de velhos (em 40 dias), mas vão ter crias. Suponhamos que as crias também sobrevivam na taxa de 5%, e as crias das crias também, e assim por diante. Esta população de insetos transgênicos vai crescer e se perpetuar? De jeito nenhum! Os mosquitos selvagens estão se reproduzindo na mesma área, com uma sobrevivência muito maior. A população dos transgênicos será superada e desaparecerá rapidamente no local. É assim que funciona a Natureza, desde que o Mundo é Mundo, isto é, desde que o primeiro progenoto apareceu na casca da Terra.

E se houvesse mais tetraciclina no ambiente do que se imagina? Afinal, cada lugar tem sua particularidade... Deve-se lembrar que tetraciclina era um antibiótico usado em criação intensiva de animais. Estas criações são muito raras em áreas urbanas e, além disso: 
a) o descarte dos efluentes sem tratamento é incomum no caso deste tipo de agroindústria.
b) o A. aegypti prefere águas mais limpas para a oviposição. Se, por um enorme acaso, uma fêmea que cruzou com um macho transgênico botasse seus ovos numa água com muita tetraciclina, é altamente improvável que sua prole escolhesse o mesmo local para ovipor, pois a troca de locais de postura é uma das características do A. aegypti
c) Além disso, neste mesmo local os mosquitos selvagens (“do mal”) também podem fazer posturas... e competir com os transgênicos.
d) o mais importante: desde 2009 a Instrução Normativa SDA no. 26 (MAPA) proíbe o uso de tetraciclina como aditivo alimentar para a criação do que quer que seja no país.!!! Assim, o antibiótico só será usado para o tratamento de alguma infecção. Além disso, a droga é rapidamente metabolizada e muito instável no ambiente. 

Por isso, mesmo sem construir uma rota ao dano formal, vê-se facilmente: a preocupação de que a tetraciclina ambiental pudesse manter viva uma população de mosquitos transgênicas, mesmo pequena, é desprovida de base científica.

Neste pequeno período em que os mosquitos transgênicos que escapam da morte estiverem voando na cidade, o que pode acontecer? Se forem comidos, o assunto já está discutido e concluímos que não há dano. E se picarem pessoas? Procuremos formar uma rota ao dano para este caso. Como a picada do mosquito pode fazer mal a uma pessoa ou a um animal (não considerando a transmissão de alguma doença, porque neste caso não há diferença entre os mosquitos transgênicos e os selvagens)? Pode provocar alergia. De fato, muita gente é alérgica à saliva do mosquito. Então, a pergunta é? Seria a saliva do mosquito (fêmea) transgênico mais alergênica que a do selvagem? Que dano adviria desta nova composição da saliva?

O primeiro passo da rota que leva da presença do mosquito fêmea transgênico ao dano (isto é, uma reação alérgica) é real, embora com baixa probabilidade: alguém ser picado por ele. O segundo passo é: a saliva tem alguma proteína nova alergênica? As duas únicas proteínas novas foram avaliadas quanto ao seu potencial alergênico, concluindo-se que não têm este potencial. Além disso, elas não parecem ser expressas na glândula salivar.  Portanto, a rota ao dano se interrompe no segundo passo e não haverá dano algum, além daquele observado no caso das picadas de mosquitos selvagens.

Resta saber o que aconteceria se o transgene passasse para uma espécie sexualmente compatível. Acontece que esta espécie não existe: mesmo o A. albopictus, um mosquito de hábitos semi-silvestres, que divide áreas de transição silvestre/ rural (ecótonos) com o A.aegypti, não cruza com ele. Então, esta hipótese é nula.

Mas ainda que o transgene passasse ao A. albopictus, este seria morto pela expressão da proteína letal. E ainda que isso não acontecesse, qual seria o problema da população de mosquitos levar os transgenes, uma vez que sua expressão em proteínas não é danosa ao homem nem aos animais? Aliás, a mesma pergunta poderia ser feita para o escape de qualquer transgene cuja expressão não leva a danos: não é presença do transgene que é um dano, mas sua expressão, quando trouxer algum impacto ao ambiente ou à saúde.

Por fim, o que aconteceria se uma fêmea do mosquito do bem picasse uma pessoa numa área endêmica ou epidêmica para dengue? Mesmo que as fêmeas piquem uma pessoa com vírus circulante, elas vão morrer muito antes do vírus poder fazer seu ciclo, escapando do trato digestivo, ganhando a hemolinfa e voltando à glândula salivar. Isso toma pelo menos duas semanas e as fêmeas morrem em menos de 10 dias! Portanto, não há risco de aumento da transmissão.

De fato, no entendimento da CTNBio, como agência de risco, a introdução pelo homem de alterações genéticas – velha como a agricultura – não é um risco em si mesmo: sua expressão é que pode representar risco. Não havendo risco na expressão dos novos genes, a presença deles em si NÃO é danosa.

Assim, em menos de 6000 palavras (ou duas páginas ofício em espaço 1), fomos capazes de demonstrar que não há riscos reais para os objetos de proteção. Foi, na verdade, muito fácil, porque os insetos não sobrevivem numa taxa que pudesse garantir sua perpetuação: é evidente que os riscos sempre tendem a crescer se os agentes de risco (neste caso, os mosquitos GM) estiverem presentes por longo tempo em grande número numa grande área, o que definitivamente não é o caso aqui.


Réplica ao parecer dado por pedido de vistas, lido na reunião plenária da CTNBio no dia 10 de abril de 2014

Ao final da reunião da Plenária da CTNBio de abril de 2014 foi aprovada a liberação comercial da variedade OX513a do Aedes aegypti, produzido epla empresa britânica Oxitec.

Logo antes da votação pela CTNBio da liberação comercial do mosquito transgênico um dos seus membros pediu vistas ao processo. Dificilmente se poderia deixar de ficar impressionado com a quantidade de informações distorcidas e argumentos sem base na ciência que foram por ele então trazidos à CTNBio.

Não interessam ao público e talvez nem mesmo aos membros da CTNBio as questões processuais, uma vez que elas são sempre detalhes menos importantes da questão principal. Quem quiser se aprofundar no rito e outras questões normativas deve ler a postagem sobre aaudiência pública em Piracicaba, um ano após a liberação comercial pela CTNBio. Na audiência o Dr. Kageyama levantou pela n-ésima vez esta bola - http://genpeace.blogspot.com.br/2015/03/audiencia-publica-em-piracicaba-para.html

Afinal, qual será sempre a questão principal na CTNBio? Resposta: Há riscos na liberação destes mosquitos ou não? Se há, quais são?

Foi por isso que me fixei nesta questão, que é o hardcore da avaliação de risco, e expliquei o passoa passo e as conclusões da CTNBio acima.

De volta ao parecer de vistas apresentados pelos Dr. Andriolli e Melgarejo, vale perguntar: que questões de risco foram tratadas? Essencialmente apenas uma: a sobrevivência de uma parcela dos insetos liberados e de sua prole. Como vimos acima, isso não representa risco algum.

E em que mais se estendeu o parecer? Pasmem, a maior parte da explanação foi para mostrar ao público presente (membros e assessores da CTNBio, representantes de empresas e ONGs e curiosos) que a eliminação do A. aegypti poderia trazer problemas muito maiores ao país do que sua presença!  Mas como??? De onde saiu o longo texto lido na planária da CTNBio, carregado de tanta tolice? De um hospício?

Pois é: Segundo o argumento dos relatores, se eliminarmos o A. aegypti abriremos espaço para outros vetores da mesma doença (o A. albopictus, que está espalhado na periferia das cidades e em áreas com mais cobertura vegetal, é o candidato a tomar conta da casa vazia) ou ainda trocar a dengue por coisa pior, como a chikungunya). Então, queridos 3 ou 4 leitores que me acompanham, o nosso pesquisador propôs que não se elimine o mosquito, deixando de combater o certo por medo de uma ameaça duvidosa.

Será que isso tem fundamento? Quando o Triatoma infestans, vetor da doença de Chagas, foi erradicado do Brasil, o espaço deixado vago nas casas NUNCA foi ocupado por qualquer uma das mais de 100 espécies de barbeiros que vadeiam pela Pindorama. Quando nossos corpinhos ficaram livres do vírus da varíola, nem por isso outros vírus, piores ou melhores, tomaram-lhe o espaço vago.

É uma tremenda bobagem imaginar que o A. albopictus, que prefere se reproduzir em ocos de árvores e outros ambientes silvestres, vá agora ovipor nas nossas latas velhas, caixas d´água e outros ambientes propícios ao A. aegypti. A espécie está aqui desde 1986 e nunca invadiu os habitats do A. aegypti mesmo onde as densidades dele eram baixas. A situação é exatamente igual à do Triaoma infestans, que era altamente domiciliado: o ambiente deixado livre nunca pode ser preenchido pelos outros barbeiros porque eles não têm hábito de morar com o homem. 

Independentemente da possibilidade desta troca de guarda de mosquitos ser real ou não, é completamente absurdo dizer que não devemos eliminar o A. aegypti, um seríssimo problema de saúde pública, por causa de uma hipótese pouco provável e cujas consequências são por demais discutíveis.

É exatamente o caso de um caçador que hesita em atirar num leão que o ameaça numa trilha na floresta porque, atrás dele, pode vir um rinoceronte furioso, contra o qual ele não tem balas que prestem.  A presença do leão é real, mas do rinoceronte só se conhecem histórias. O que você faria no lugar do precavido caçador?

Só pode dizer uma coisa destas quem não tem compreensão da avaliação de riscos e despreza seus cidadãos, colocando seu ideário à frente das questões de seu povo. Não causa espanto também saber que uma parte dos que se opõem a esta tecnologia mora na Europa ou vive em outras áreas frias do globo, onde a dengue não existe ou causa poucos problemas. Começo a gostar do aquecimento global!



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Transgênicos e a morte de abelhas: uma grande mentira que precisa ser desmascarada

Enquanto os pseudo verdes terçam sabres contra os transgênicos e seguem argumentando que as abelhas morrem por causa das plantas GM, as ditas vão morrendo de doenças infecciosas emergentes e transmitindo seus patógenos para importantes polinizadores silvestres. Estes muitas vezes já estavam em risco de extinção e, se nada for feito, vão desaparecer. Com eles, desaparecerão também muitas espécies de plantas que são polinizadas exclusivamente por estes insetos na Natureza. E, na avalanche, desaparecerão outros animais associados a estas plantas. Isso, sim, é um problema real com o qual os ecologistas devem se preocupar de verdade.

O artigo recém-publicado na revista Nature mostra claramente a associação entre as doenças infecciosas emergentes das abelhas criadas comercialmente e as infecções entre abelhas silvestres. A abelha europeia (Apis mellifera), embora muito valorizada como prestadora de serviços ambientais, é uma espécie exótica na maior parte dos países em que é empregada como polinizadora e produtora de mel. Seu intenso manejo nos apiários, que inclui até mesmo o transporte rodoviário para distintos campos onde as floradas são exploradas comercialmente, leva ao estabelecimento e disseminação de doenças infecciosas, como ocorre com outros animais de produção sob o regime de criação intensiva. Estas doenças nada têm a ver com as plantas transgênicas, mas com a forma frequentemente super-intensiva e inadequada como as abelhas vêm sendo manejadas. Evidentemente, pode haver um aumento de predisposição às doenças, provocado por outros fatores, como a presença de inseticidas e outros pesticidas no campo, mas o pólen de plantas transgênicas não tem qualquer relação com isso.
A passagem destes agentes infecciosos emergentes para abelhas silvestres é uma questão muito grave. Com a palavra os autores do artigo “Disease associations between honeybees and bumblebees as a threat to wild pollinators”, Fürst, McMahon, Osborne, Paxton e Brown. O artigo foi publicado na Nature agora, no dia 20 de fevereiro de 2014 (doi:10.1038/nature12977). http://www.nature.com/nature/journal/v506/n7488/full/nature12977.html    

As doenças infecciosas emergentes (EIDs) representam um risco para o bem-estar humano, tanto direta1 como indiretamente, afetando animais de criação (gado, mas também abelhas e peixes) e os animais selvagens que fornecem recursos valiosos e serviços ecossistêmicos , como a polinização de culturas 2 . A abelha (Apis mellifera) é o inseto polinizador de colheita mais manejado do Mundo e sofre com as doenças provocadas por uma gama patógenos de alto impacto, emergentes e exóticos 3,4, tornando necessário um manejo pro-ativo das populações de abelhas pelos apicultores para controlar estas doenças. Polinizadores, como abelhas silvestres (Bombus spp.), estão em declínio global e uma das causas pode ser o spillover de patógenos dos polinizadores, como as abelhas em apiários 5,6 ou colônias comerciais de mangangavas, para as espécies silvestres. Neste artigo usamos uma combinação de experimentos de infecção em laboratório com dados colhidos em campo em escala de paisagem para mostrar que as doenças infecciosas emergentes de abelhas são responsáveis pela presença de facto de agentes infecciosos de forma generalizada entre o conjunto de polinizadores. A prevalência do vírus deformador da asa (DWV) e do parasita exótico Nosema ceranae em abelhas e zangões está ligada; como a DWV tem maior prevalência entre abelhas e as mangangavas e outras abelhas melíferas simpátricas estão infectados pelas mesmas cepas de DWV, Apis é a provável fonte pelo menos desta importante EID em polinizadores silvestres. As lições aprendidas com vertebrados 7,8 apontam para a necessidade de maior controle de patógenos em abelhas de apiários para a preservação dos polinizadores selvagens, uma vez que quedas nas populações de polinizadores nativos podem ser causadas por transmissão de patógenos provenientes de polinizadores manejados comercialmente.

1. Binder, S., Levitt, A. M., Sacks, J. J. & Hughes, J. M. Emerging infectious diseases: public health issues for the 21st century. Science 284, 1311–1313 (1999).
2. Oldroyd, B. P. Coevolution while you wait: Varroa jacobsoni, a new parasite of western honeybees. Trends Ecol. Evol. 14, 312–315 (1999).
3. Ratnieks, F. L. W. & Carreck, N. L. Clarity on honey bee collapse? Science 327, 152–153 (2010).
4. Vanbergen, A. J. & The Insect Pollinator Initiative. Threats to an ecosystemservice: pressures on pollinators. Front. Ecol. Environ 11, 251–259 (2013).
5. Evison, S. E. F. et al. Pervasiveness of parasites in pollinators. PLoS ONE 7, e30641(2012).
6. Genersch, E., Yue, C., Fries, I. & de Miranda, J. R. Detection of deformed wing virus, a honey bee viral pathogen, in bumble bees (Bombus terrestris and Bombus pascuorum) with wing deformities. J. Invertebr. Pathol. 91, 61–63 (2006).
7. Fisher, M. C. et al. Emerging fungal threats to animal, plant and ecosystem health. Nature 484, 186–194 (2012).
8. Krebs, J. et al. Bovine Tuberculosis in Cattle and Badgers (MAFF Publications, 1997).



Leituras associadas sugeridas pelo nosso blog

Alexander KA, Lewis BL, Marathe M, Eubank S, Blackburn JK.
Vector Borne Zoonotic Dis. 2012 Dec;12(12):1005-18. doi: 10.1089/vbz.2012.0987. Epub 2012 Nov 30
 Review.   Free PMC Article

Hayman DT, Bowen RA, Cryan PM, McCracken GF, O'Shea TJ, Peel AJ, Gilbert A, Webb CT, Wood JL.
Zoonoses Public Health. 2013 Feb;60(1):2-21. doi: 10.1111/zph.12000. Epub 2012 Sep 7.
Review.   Free PMC Article

Kojima Y, Toki T, Morimoto T, Yoshiyama M, Kimura K, Kadowaki T.
Microb Ecol. 2011 Nov;62(4):895-906. doi: 10.1007/s00248-011-9947-z. Epub 2011 Sep 30.

Fabiszewski AM, Umbanhowar J, Mitchell CE.
Ecol Appl. 2010 Mar;20(2):582-92.