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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Glifosato e transgênicos: tudo como dantes no quartel de Abrantes


EFSA conclui que o glifosato não é carcinogênico nem tóxico aos seres humanos, contrariando as conclusões da IARC. O que vale mais, a conclusão de uma agência de avaliação de riscos (a EFSA) ou a de uma agência de pesquisas (a IARC)? Leiam abaixo as considerações

Um comunicado da IARC (International Agency for Research on Cancer) de  2015 (Monografia 112, ver IARC 2015 e também Guyton et al., 2015) havia reclassificado o glifosato como  ‘probably carcinogenic to humans’ (group 2A)” “provavelmente carcinogênico para seres humans (grupo 2A)”, levantando uma onda de acusações contra os agricultores que empregam o produto, contra os produtores de variedades de plantas transgênicas que apresentam tolerância ao glifosato e contra todas as agências de risco do Mundo que haviam avaliado “erroneamente” o potencial carcinogênico do herbicida. Alarmistas de plantão imediatamente encontraram (ou ressuscitaram) evidências de que o glifosato causava câncer, autismo, colapso da colmeia de abelhas e muitas outras coisas.

Em novembro a EFSA (European Food and Safety Authority) publicou suas conclusões sobre o potencial carcinogênico do glifosato, à luz das evidências existentes. As conclusões da EFSA, que contrariam as da IARC, e recolocam o glifosato como herbicida de baixo risco para a saúde humana (em particular em relação ao potencial carcinogênico), estão abaixo.

 "EFSA concluded that glyphosate is unlikely to pose a carcinogenic hazard to humans and the evidence does not support classification with regard to its carcinogenic potential according to Regulation (EC) No 1272/2008."

“A EFSA concluiu que é improvável que o glifosato represente um perigo como carcinógeno para seres humanos e que a evidência não apoia a classificação com base em seu potencial carcinogênico de acordo com a Regulação (EC) no. 1272/2008”

O processo de revisão da avaliação de risco (RAR) pela EFSA iniciou em janeiro de 2014 e foi concluído agora (novembro de 2015).  As conclusões foram baseadas na avaliação dos usos representativos do glifosato como herbicida para o controle de ervas daninhas num grande número de culturas. Os detalhes dos usos representativos podem ser encontrados no Apêndice A do estudo da EFSA, linkado acima.

Em relação à carcinogênese, a avaliação da EFSA foi focada no produto ativo (o herbicida glifosato) e pesou todas as evidências disponíveis. A conclusão final é que o glifosato não está classificado nem proposto a sê-lo como carcinogênico ou tóxico.

A EFSA identificou alguns aspectos que demandam mais dados para que se possa concluir sobre segurança: a presença de resíduos (contaminantes) nas preparações comerciais e o destino ambiental do AMPA em solos ácidos(o AMPA é o produto gerado pelas plantas transgênicas quando degradam o glifosato). As questões remanescentes nada têm a ver com o potencial carcinogênico do glifosato.

Concluo alertando os leitores que a EFSA é uma agência de avaliação de risco, mas não a IARC. A avaliação de risco é um processo bem estruturado e, embora baseado em ciência, é pouco conhecido e levado a cabo por cientistas fora das agências de risco, exceto quando são partícipes de desenvolvimento de projetos onde a avaliação de risco é requerida pelos regulatórios de seus países. Não é de estranhar, portanto, que a IARC, uma agência de pesquisa em câncer,  tenha concluído erradamente sobre os riscos do glifosato. Volta-se, portanto, ao que sempre se soube: o glifosato é um herbicida com risco muito baixo para a saúde humana. Resta ver se os arautos do apocalipse agrícola e da intoxicação em massa vão rever suas posições, inclusive nosso Instituto Nacional do Câncer (INCA). Vou esperar sentado...

Referências

Guyton KZ, Loomis D, Grosse Y, El GhissassiF, Benbrahim-Tallaa L, Guha N, Scoccianti C, Mattock H, Straif K, 2015.  Carcinogenicity of tetrachlorvinphos, parathion, malathion, diazinon, and glyphosate. The Lancet (Oncology) 16(5): 490–491.

IARC (International Agency for Research on Cancer), 2015. Monographs, Volume 112: Some organophosphate insecticides and herbicides: tetrachlorvinphos, parathion, malathion, diazinon and glyphosate. IARC Working Group. Lyon; 3–10 March 2015. IARC Monogr Eval Carcinog Risk
Chem Hum.


terça-feira, 5 de maio de 2015

Transgênicos: benefícios e diálogo


Em resposta a artigo publicado no JC Notícias no último dia 30 de abril, questionando decisões da CTNBio, pesquisadores demonstram que “o aumento no uso de agrotóxicos nada tem a ver com os transgênicos, mas com a agricultura intensiva brasileira”

Pode-se perfeitamente entender a preocupação de Hugh Lacey, José Corrêa Leite, Marcos Barbosa de Oliveira, e Pablo Rubén Mariconda* em relação aos transgênicos: afinal, ela reflete uma percepção pública do risco, que é o produto da base analítica de cada um de nós, da mídia e das expectativas que temos para nosso futuro. Mas as decisões de Governo sobre novas tecnologias não podem ser tomadas com base no senso comum e sim na avaliação de risco, que trata do impacto direto e específico do organismo geneticamente modificado (OGM) na natureza, e da análise de risco, que envolve outros aspectos ligados à tecnologia. A separação dos dois procedimentos analíticos não é uma manobra antidemocrática ou reducionista, mas é um posicionamento técnico aceito e referendado no mundo todo e em sintonia com os tratados e acordos internacionais de comércio e de proteção à saúde e ao ambiente.

Tendo esta informação em mente, percebe-se que estão equivocados nossos colegas do IEA/USP quando pedem que a CTNBio se debruce sobre a questão dos agrotóxicos: ela não pode fazê-lo pela lei 11.105/2005 e não lhe cabe tal tarefa, que é de alçada exclusiva da ANVISA e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Em que pese o fato de que os agrotóxicos tenham impacto na saúde humana e animal, este é um assunto que foge do escopo da CTNBio. Poder-se-ia argumentar que os transgênicos e os agrotóxicos estão sempre associados, mas esta é uma percepção que, embora muito difundida na mídia alternativa, não encontra amparo na realidade, como comentaremos a seguir.

De fato, o Brasil usa agrotóxicos em centenas de diferentes cultivos, assim como na pecuária, mas os transgênicos representam apenas 30% da área plantada: são 160 milhões de hectares cultivados com as mais diversas culturas no país contra apenas 45 milhões com cultivos transgênicos. Por isso, a contribuição dos transgênicos no consumo de agrotóxicos é menor. Esta primeira inferência é claramente referendada pela análise do aumento do uso de agrotóxicos nos últimos 10 anos e do aumento da área plantada com transgênicos: para o primeiro o valor é de 200%, enquanto a área com transgênicos cresceu mais de 1000%! O que justifica, então, o aumento do uso de agrotóxicos? Basta olhar o aumento da produtividade geral da agricultura brasileira nos mesmos 10 anos: foi de 200%. Este valor não é uma coincidência, mas resulta da intensificação do processo produtivo, que demanda um controle mais rígido das ervas daninhas e das pragas em geral. A conclusão é clara: o aumento no uso de agrotóxicos nada tem a ver com os transgênicos, mas com a agricultura intensiva brasileira.

Vale lembrar ainda que as plantas transgênicas resistentes a inseto levaram a uma importante redução do uso de inseticidas, que também são agrotóxicos. Aliás, uma análise da literatura, do banco de dados do Sinitox e da ANVISA, mostra que os inseticidas estão entre os que causam mais malefício à saúde humana e, portanto, devemos neste sentido ser gratos à adoção das plantas transgênicas resistentes a insetos, que reduziram de forma global o uso destes agrotóxicos em soja e milho. Aqui estamos falando da tecnologia Bt, uma simplificação do nome da bactéria Bacillus thuringiensis que mata as lagartas que comem as plantas. Originalmente, essa bactéria foi usada por plantadores orgânicos. Os cientistas apenas usaram os genes dessa bactéria, incorporando-os na planta. Por isso, com a tecnologia Bt incorporada evita-se, em muito, o excesso de uso dos agrotóxicos.

Vale, então, a pergunta: porque a insistência em ligar os agrotóxicos aos transgênicos? A resposta é simples: porque após 20 anos de produção e consumo verifica-se que as plantas transgênicas no mercado não prejudicam o ambiente ou a saúde humana e animal. A nova forma de atacar a biotecnologia agrícola é ligá-la ao uso de produtos que são tóxicos para uma série de organismos e também para o homem, se ingeridos ou assimilados pelo nosso organismo acima de certa dose. Como mostramos acima, esta associação é falsa.

De fato, atualmente no mundo 180 milhões de hectares são cultivados com plantas transgênicas, sem qualquer impacto diferente daquele observado nas plantas convencionais cultivadas em iguais condições. Bilhões de animais e pessoas se alimentam com produtos formulados a partir de soja, milho, canola e outras plantas transgênicas e nenhum, absolutamente nenhum, problema de saúde foi comprovado. Não há base científica alguma para esperar estes danos e é aí que entra a avaliação de risco, função da CTNBio: depois de 15 anos de plantio e consumo no Brasil, não há sequer uma demonstração de que os OGMs façam mal à saúde ou ao ambiente no nosso país, o que prova, até agora, o acerto das decisões da CTNBio. Lembramos aos leitores também que milhares de outros produtos derivados da biotecnologia fazem parte de nosso dia a dia, indo de fármacos até sabões, tudo consumido e produzido de forma segura. Um exemplo contundente é a insulina, que hoje é idêntica à humana e que antes era derivada de suínos e produzia uma longa lista de problemas colaterais, tanto para o paciente como para o ambiente.

Finalmente, gostaríamos de esclarecer aos nossos colegas do IEA/USP que os membros da CTNBio empregam uma vasta literatura para apoiar seus pareceres e não apenas os dados trazidos pela empresa (inverdade muito encontrada na internet, infelizmente). Além disso, lembramos que os produtos que chegam à linha final da liberação comercial estão, em geral, na ponta de um longo procedimento de avaliação que começa nas casas de vegetação e passam pelos experimentos a campo, muitos anos antes da liberação comercial. Lembramos também que, embora alguns pontos específicos (em geral sobre a construção genética do transgênico) sejam confidenciais, a maioria esmagadora dos processos é pública: basta acessar o e-SIC do MCTI e pedir uma cópia. Por fim, afirmamos aos colegas que a geração de dados pelos cientistas brasileiros e estrangeiros é, de forma muito ampla, independente de financiamento das empresas, pois, o que vale é a consistência do método científico e não quem fez o trabalho ou quem o financiou. Entra aí a honestidade do profissional e sua adesão aos princípios morais de sua carreira e de sua sociedade.

Se os filósofos do IEA/USP ou qualquer outro grupo que crê haver erros na forma de agir da CTNBio desejam de fato o diálogo com a Comissão ou com as sociedades científicas, devem primeiro despir-se do preconceito que revelam a respeito da conduta dos membros da Comissão e dos cientistas em geral, acusando-os de emitirem seus pareceres porque têm apoio indireto ou direto do setor privado que leva seus produtos à CTNBio ou de produzirem dados favoráveis às empresas em troca de financiamentos. Tal posição, além de falsa, é desrespeitosa e não leva a diálogo algum.

Paulo Paes de Andrade, geneticista, UFPE
Francisco G. Nóbrega, microbiólogo, ex-ICB/USP
Zander Navarro, sociólogo, EMBRAPA
Flávio Finardi Filho, farmacêutico, FCF/USP
Walter Colli, bioquímico, IQ/USP

Veja o artigo anterior no link abaixo:

domingo, 8 de março de 2015

Agrotóxicos: tamanho real do problema e não-relação com os transgênicos

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Revi este texto logo após a invasão da CTNBio pelo MST. Na ocasião os manifestantes repetiram inúmeras vezes que os transgênicos eram os culpados pelo aumento dos agrotóxicos e que os agrotóxicos estavam envenenando os trabalhadores e nossa comida. Ora, o texto abaixo, escrito em 2012, revia justamente a questão dos agrotóxicos e dos casos de intoxicação, com base nos dados do Sinitox (Fiocruz) e não apenas com base no que se escuta por aí. O resultado é surpreendente: os agrotóxicos têm um impacto muito pequeno na saúde do trabalhador e muito menor ainda, na do consumidor. Aliás, era de se esperar, uma vez que há um controle relativamente rígido no emprego destes produtos e que os mais empregados são relativamente seguros. Assim, a maioria esmagadora dos casos de intoxicação provém de erros no uso (acidentes individuais) e tentativas de suicídio (estas são 30 % dos casos notificados). Um número ínfimo (em geral rondando 10 casos por ano) é de intoxicação alimentar. Ainda assim, muito provavelmente por produtos que não envolvem transgênicos, uma vez que a maior parte dos alimentos encontrados com resíduos de agrotóxicos provem da pequena agricultura familiar. A releitura do texto, no rescaldo das invasões do MST, é importante demais.
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Recentemente o Valor Econômico (23/02/2012) publicou texto de José Agenor Alves da Silva, diretor da ANVISA, sobre o trabalho daquela agência no rastreamento de resíduos de agrotóxicos em alimentos e as dificuldades que a agência tem enfrentado na aceitação de seus resultados, tendo sido desafiada em sua credibilidade por alguns setores da sociedade (http://www.valor.com.br/opiniao/2538528/agrotoxico-pimentao-e-suco-de-laranja). Não podemos aqui discutir esta questão, que ultrapassa em muito os objetivos deste fórum, mas queremos ressaltar que a incidência de intoxicações alimentares devidas a agrotóxicos no Brasil está grosseiramente exagerada pela mídia e por alguns órgãos de governo. Isso tem também relação direta com as plantas transgênicas, falsamente acusadas de ser fonte de intoxicação por agrotóxicos, o que é uma tremenda inverdade, como se verá mais abaixo.
Se é certo que o Brasil consume uma imensa quantidade de agrotóxicos, é certo também que exporta um volume enorme de produtos agrícolas para todas as partes do mundo, com raríssimos casos de problemas relacionados a resíduos de agrotóxicos. A razão disso é que o grande produtor tem um controle rígido do uso de agrotóxicos, que não apenas representam para ele custos, mas são uma fonte de problemas pós-colheita caso resíduos acima do permitido permaneçam no produto. Isso é válido tanto para produtos de exportação como para o mercado interno, que é fiscalizado, inclusive pela ANVISA. O resultado é que os alimentos industrializados de origem vegetal raramente contem resíduos de agrotóxicos acima do permitido.
Poder-se-ia argumentar que o ideal é resíduo zero. Ora, a própria natureza se encarrega de produzir um sem número de diferentes toxinas, muitas delas análogas aos agrotóxicos, que estão em nossos alimentos sempre. Além disso, como é sabido desde Paracelso, faz quatro séculos, a dose é o que importa. Pode haver, em alguns casos, uma bioacumulação no consumidor final, mas isso só ocorre com alguns agrotóxicos que são, por isso mesmo, muito controlados. O uso bem feito dos agrotóxicos tem permitido ao Brasil ganhar um enorme espaço na exportação de grãos, ao mesmo tempo oferecendo aos brasileiros alimentos de qualidade por preço altamente competitivo.
Assim, é pouco provável que o grosso dos alimentos consumidos pelos brasileiros chegue ao mercado contaminado. Além disso, ao contrário do que afirma o diretor da ANVISA, a linha que separa os efeitos benéficos de eliminar uma praga e os efeitos maléficos, que podem levar um ser humano à morte, não tem nada de tênue. Os mecanismos de ação podem ser muito diferentes e, sobretudo, a dose de agrotóxico que chega a ser ingerida num alimento é muitas ordens de grandeza inferior àquelas observadas na lavoura. Com estas informações em mente, podemos analisar os dados que o país dispõe sobre intoxicação com agrotóxicos e sobre a parcela destes casos que é devida à ingestão de alimentos contaminados com agrotóxicos agrícolas.
O acesso online ao SINAN permite gerar várias tabelas, entre elas esta, para 2006, Não há registro no banco de anos posteriores, embora haja um relato em pdf que está discutido mais abaixo.


Uma breve análise mostra que, dos pouco mais de 3000 casos registrados em 2006, 33% foram tentativas de suicídio, a maior causa percentual de intoxicação com agrotóxicos. Em seguida, outros 30% são devidos a acidentes de trabalho, totalizando quase 1000 casos. Há 15% de casos sem identificação de circunstância. Outros 15% são devidos à acidentes.O que salta à vista é que apenas 43 casos foram atribuídos à contaminação de alimentos, embora não esteja discriminada a origem deles (se diretamente da lavoura ou de revenda, se de pequeno proprietário ou agroindústria, nem o tipo de alimento).
Assim, o número absoluto de casos é muito reduzido e as causas da contaminação alimentar são difíceis de avaliar. No total de casos, elas representam apenas 1,2% dos casos notificados. Uma análise da distribuição geográfica mostra que os casos estão espalhados por alguns estados, sem correlação óbvia com o plantio de transgênicos.
Apesar de suas deficiências conhecidas (subnotificação, viés do notificador, etc,), o SINAN é confiável e abrange todo o país. Uma estimativa precisa dos casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos está fora dos objetivos deste artigo. O que se que ressaltar aqui é a pequena relevância  percentual dos casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos (em torno de 1%) quando comparada às causas maiores (acidentes, ocupação, suicídio, etc.). Deve-se lembrar aqui que o SINITOX registra quase 10 vezes mais casos de intoxicação por alimentos devidos ao próprio estado de conservação dos alimentos do que por contaminação por resíduos de agrotóxicos.

Em um documento da SVS-MS (http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/af_III_informe_agrotoxicos_09.pdf), as mesmas informações acima podem ser apreciadas para 2008. O cenário não muda significativamente (os casos que interessam aqui são da coluna C9):



Para 2007, o SINITOX registra apenas 12 casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos para todo o país. Ainda que o total anual de casos no Brasil de intoxicação alimentar por agrotóxicos totalizasse 100, suas causas podem ser as mais diversas, assim como a origem destes produtos. Não há dúvida que a intoxicação de trabalhadores e por acidentes é um sério problema, assim como o uso destes produtos em tentativas de suicídio, mas não há qualquer base para se atribuir aos transgênicos a pecha de levar à boca do consumidor os agrotóxicos usados na lavoura. Até porque dos alimentos onde se detecta ocasionalmente níveis de pesticidas acima do permitido por lei não faz parte nem milho nem soja, as únicas plantas transgênicas consumidas como alimento no Brasil (do algodão, terceira planta transgênica, só se consome o óleo, que é um produto purificado e não contem pesticidas nem proteínas recombinantes expressas pela planta geneticamente modificada). De fato, a ANVISA monitorou  dezoito  alimentos: abacaxi, alface,  arroz, batata, beterraba, cebola, cenoura, couve, feijão, laranja, maçã, mamão, manga, morango, pepino, pimentão, repolho e tomate. A escolha das culturas baseou-se nos dados de consumo obtidos pelo  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na disponibilidade destes alimentos nos supermercados das diferentes  unidades da Federação e no uso intensivo de agrotóxicos nestas culturas. De acordo com a própria ANVISA, no texto produzido pelo programa PARA, análise dos dados do Censo Agropecuário  do IBGE de 2006 mostra alguns fatores  que  potencializam o risco de uso inadequado dos  agrotóxicos e  a contaminação dos alimentos:
• 785 mil estabelecimentos (56,3% daqueles onde houve utilização de agrotóxicos) não receberam orientação  agronômica.  Das propriedades que receberam assistência (172 mil), 76,7% usam agrotóxicos.
• Quase 85% da mão de obra agrícola se encontram nas pequenas  propriedades, e mais de 80% dos  proprietários rurais  e 37,5% dos trabalhadores com laços de parentesco com  eles é analfabeta ou sabe ler e escrever, mas não tem escolarização formal ou apenas o ensino fundamental incompleto.
Isso é especialmente válido para os produtores dos itens agrícolas que foram avaliados pelo PARA, mas não se aplica de uma forma geral aos produtores de plantas transgênicas, que tem um domínio técnico muito mais elevado. Não se está aqui afirmando que o problema da contaminação dos alimentos com agrotóxicos está restrito à pequena agricultura e à agricultura familiar, mas que ele é certamente de muito menor proporção na agroindústria. Efetivamente, não há qualquer dado que indique contaminação de agrotóxicos em soja e milho, nem razão técnica para isso, e muito menos no caso destes cultivos, quando transgênicos.

Concluímos que, na questão de intoxicação alimentar por agrotóxicos, há muito barulho por pouco. E, especificamente para a participação das plantas transgênicas nisso, há certamente muito barulho por nada. A quem interessa manter esta mentira rolando na mídia?

Atualização

A consulta ao Sinitox para 2012 (dado mais recente) não muda o cenário descrito com base no relatório anterior (1998-2007). Observemos as tabelas:


Tabela das intoxicações em 2012 (Sinitox, apenas as 3 primeiras entradas)

Agente
Vítima humana
Vítima animal
Informação
Total
% do total de intoxicações no país em 2012
Medicamentos
24029
132
627
24788
27,62
Agrotóxicos/Uso Agrícola
3937
76
98
4111
4,58
Agrotóxicos/Uso Doméstico
1843
144
118
2105
2,35

A tabela 10 (http://www.fiocruz.br/sinitox/media/tabela%2010_2012.pdf) mostra que houve cerca de 100 óbitos e 22 sequelas associadas aos agrotóxicos. Não são poucos óbitos. mas que circunstâncias estavam envolvidas nestes casos? É extremamente instrutiva a inspeção da Tabela 6 (http://www.fiocruz.br/sinitox/media/tabela%206_2012.pdf) :  dos  quase 3000 casos de intoxicação, apenas 7 foram por ingestão de alimentos. Ainda assim, não se sabe em que condições exatas. A maioria esmagadora foi a soma de casos individuais e tentativas de suicídio. Estas últimas são justamente as circunstâncias que levam à maior parte dos casos com  sequelas ou de morte.

Além disso, e não menos importante, já no início da década de 90 os casos de intoxicação aguda com agrotóxicos de uso agrícola chegavam a mais de 3.000 por ano (http://www.fiocruz.br/sinitox_novo/media/artigo1.pdf), número quase igual ao de hoje (consulte http://www.fiocruz.br/sinitox/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=8 para os vários anos). Isso parece surpreendente, sobretudo tendo em vista o enorme aumento no uso de agrotóxicos no campo, sobretudo nos últimos 5 anos. Por que o número de casos não explodiu? A explicação é simples e cristalina, mas choca o público e vou deixar ao leitor a tarefa de encontrá-la.

Conclusão de março de 2015

As palavras de ordem do MST sobre os danos dos agrotóxicos à nossa comida carecem de base nos dados levantados pelas autoridades do país. É certo que deve haver uma certa sub-notificação e que casos de intoxicação crônica por ingestão de alimentos contaminados podem existir (http://www.scielo.br/pdf/csc/v12n1/04.pdf), mas provavelmente são poucos ou fatalmente já teriam  surgido e empurrado o país a tomar as medidas cabíveis. Afinal, os médicos estão alertas e há procedimentos específicos para a avaliação de intoxicações crônicas por agrotóxicos, cujos sinais e sintomas são bem conhecidos (ver caixa abaixo)

INTOXICAÇÃO POR AGROTÓXICO A intoxicação crônica caracteriza-se pelo surgimento tardio, após meses ou anos, por exposição pequena ou moderada a produtos tóxicos ou a múltiplos produtos, acarretando danos muitas vezes irreversíveis nos indivíduos expostos. Segundo o Protocolo de Atenção à Saúde dos Trabalhadores Expostos a Agrotóxicos, elaborado pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2006), as patologias relacionados à intoxicação crônica por agrotóxicos podem ser neoplasias, como mieloma múltiplo e leucemias; anemia aplástica; transtornos mentais, como alterações cognitivas e episódios depressivos; doenças do sistema nervoso como distúrbios do movimento, polineuropatias e encefalopatia tóxica; oculares, como neurite óptica e distúrbios da visão e ainda auditivas, circulatórias, respiratórias, digestivas e dermatológicas.

Então, só posso reforçar o que disse antes, faz quase três anos: a espalhafatosa ligação entre os transgênicos e as intoxicações com agrotóxicos, sobretudo nos alimentos, é pura e simples mentira. Que continua sendo repetida, com enorme sucesso, por várias organizações sociais e pela internet, para imenso prejuízo do entendimento do problema.

Leituras recomendadas:

Resultados de campo sobre uso de agrotóxicos por pequenos produtores: muito elucidativo: http://www.ecodebate.com.br/2012/02/23/pequenos-produtores-estao-cientes-de-riscos-dos-agrotoxicos/
Neice Müller Xavier Faria,  Anaclaudia Gastal Fassa e Luiz Augusto Facchini - Intoxicação por agrotóxicos no Brasil: os sistemas oficiais de informação e desafios para realização de estudos epidemiológicos. Ciência & Saúde Coletiva, 12(1):25-38, 2007 (http://www.scielo.br/pdf/csc/v12n1/04.pdf)


Leia também:

quinta-feira, 5 de março de 2015

Aprovado o milho tolerante aos herbicidas glifosato e glufosinato de amônio

No dia 05 de março de 2015, após a leitura do parecer de pedido de vistas, elaborado e lido pelo Dr. Rubens Nodari, seguiu-se a discussão dos vários pareceres e a votação na CTNBio. Foram  2  votos contrários, e  20  votos pela aprovação.

Assim, e como manda a lei, a decisão será suspensa por 30 dias, aguardando o posicionamento do CNBS. A maior probabilidade é de que o Conselho não se pronuncie, seguindo o pedido de registro do produto para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Pedido de Vistas (Dr. Rubens Nodari) - Monsanto do Brasil Ltda.; CQB 003/96; Processo 01200.001982/2013-96.
Liberação comercial de milho geneticamente modificado (NK603 x T25) tolerante aos herbicidas glifosato e
glufosinato de amônio, com vistas ao livre uso no meio ambiente, registro, consumo humano ou animal, comércio ou
uso industrial e qualquer outro uso ou atividade relacionado ao Evento ou seus subprodutos; Protocolado em:
13/05/2013; Próton 19286/2013; Extrato Prévio: 3608/2013 publicado em 22/05/2013; Relatores SSP
Humana/Animal (APROVADO EM SETEMBRO/2014): Dr. Paulo Lee Ho* e Dr. José Fernando Garcia;
Relatores SSP Vegetal/Ambiental: (APROVADO EM FEVEREIRO/2015): Drª. Maria Helena Bodanese Zanettini
e Dr. José Maria Gusman Ferraz/Dr. Hilton Thadeu Zarate de Couto; Assessoria: Allan Edver (Hum/Ani) e Fabiano

Carregaro/Norma Paes (Veg/Amb);

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Soja transgênica, “Academia Militar” Chinesa e riscos hipotéticos: um pouco de investigação esclarece o leitor

Mais uma vez a besteira está na mesa: a Academia Militar de Ciências Chinesa teria publicado um estudo mostrando que milhões de chineses estão doentes por causa da soja transgênica. A notícia está repetida em muitos blogs e sites, iniciando o rosário numa matéria do O Estado de S. Paulo de 09/05/2014. Lá a informação provém de um “artigo publicado pela Academia Militar de Ciências da China” que diz ter “evidências de danos à saúde de 1,3 bilhão de chineses”. O que há de verdade aí?



Nada. A tal Academia é uma Academia de Ciências Militares (e não uma Academia Miliar de Ciências, estilo IME ou ITA, que é coisa muito diferente), nada mais que um grupo (grande) de interessados em assuntos militares (http://en.wikipedia.org/wiki/Academy_of_Military_Science_(People's_Republic_of_China) ) . E o tal artigo não foi publicado, porque não é um artigo, é uma mera comunicação a um encontro técnico na China. E não é um estudo da academia, é uma opinião de um coronel de lá, ex vice-presidente da tal Academia, que vê na soja GM a causa do aumento de uma série de doenças entre os chineses (veja figura). Além disso, o grão da soja transgênica que chega lá (inclusive a brasileira) é dada essencialmente aos porcos e galinhas, não é para consumo humano. O que os chineses comem desta soja é o óleo, que é EXATAMENTE IGUAL ao óleo da soja não transgênica.

Enfim, o que o Estadão publicou é apenas e tão somente um besteirol, mas feito propositalmente para dar a impressão de que algo grave foi demonstrado em relação à saúde humana, tendo como causa a soja GM. Qual variedade de soja, evidentemente, não é citada (há umas duas dúzias), mas em alguns sites já está explícito: é a da Monsanto...

Para os sites que propagam este besteirol (como papagaios do Estadão), vejam:
2.       Pratos limpos -http://pratoslimpos.org.br/?p=6957

De onde proveio esta informação, uma vez que o chinês não é exatamente um idioma popular entre os brasileiros, nem a China é um exemplo de transparência? Tudo indica que a coisa veio do Sustainable Pulse ou do Food Democracy Now, sites de oposição aos transgênicos e a tudo que é novidade tecnológica que possa afetar direta ou indiretamente a vida dos americanos. Mas nosso jornalista bebeu na fonte do Real Farmacy, que neste caso é apenas água servida do esgoto dos outros dois sites. Os links vão abaixo:

Curiosamente, lá no Sustainable Pulse esta claro que o “artigo” é na verdade um resumo publicado num jornal dedicado a questões militares e que o autor é ex (observem bem, ex) vice-presidente da tal Academia de Ciências Militares. O Coronel Mi Zhen-yu é apenas mais um curioso a escrever sobre o que pensa: suas especulações não têm a menor base na observação científica.

Concluo aqui afirmando que o uso destes estratagemas reduz o mérito da luta ambiental e deveria ser evitado.

Apêndice 1: o resumo do texto do coronel, traduzido e disponível no Food Democracy now, parece ser o que está abaixo. Como se pode ver, o tal artigo é simplesmente uma opinião, resumida a poucos parágrafos (1.500 palavras). Erroneamente, o nosso coronel vermelho imagina que o óleo de soja é a causa de tudo, esquecendo que não há a mais ínfima diferença entre os óleos das sojas GM e convencionais, nem resíduos de pesticidas nestes óleos. No fim de seu resumo ele sugere que se façam estudos epidemiológicos, no que está certo. 

In 2013, China imported 63.38 million tons of GM soybeans from USA and other countries. Most of China's imported GM soybeans are used to extract soybean food oil (one of the main tradenames is "Golden Fish" ). GM soybean oil, widely used not because of its quality but rather due to its cheap price, has rapidly dominated China's soybean food oil market, covering most of the restaurant industry and canteens in China. The glyphosate residue contained in GM soybean food oil (and GM soybean protein powder processed from GM soybean cake, a by-product of GM soybean food oil) eaten three meals a day, continuously penetrates the bodies of most Chinese, including children at kindergarden, primary school and middle school, university students and teachers, staff members and soldiers of the Chinese army, government staff members, and other consumers (with exception of special food supplied units).

During the past 20 years, the health level of the Chinese people has rapidly deteriorated with various diseases rapidly increasing. The situation is shocking. China's national health has deteriorated sharply in recent years. Although weather, water pollution and other factors also exist, the harm from GM soybeans can not be eliminated. Assuring absolute safety of the food supply is a firm policy of the state. On the massive issue of human health and life, we have no room for trial and error. Now is the time to dismantle the "information barrier" on GM food.

Concerned departments should seriously carry out epidemiological investigations, face up to reality, control the risks, carry out the prevention priority principle, and adopt effective measures to ensure the bottom line of life and health safety of the people

Mas o texto chinês que está impresso no jornal e que aparece no nosso blog acima é muito mais longo: traduzido e incluindo as referências, ele tem cerca de 10.000 palavras e seu conteúdo é uma colagem de preocupações que circulam na internet com uma pseudo roupagem científica. Ao que tudo indica o velho coronel empenhou pelas orelhas, além de dizer disparates (como o glifosato ser componente do agente laranja!). Devemos dar a ele, contudo, o atenuante de algum erro de tradução.

O blog de onde veio a informação é chinês (blog.sina.com.cn/s/blog_4bb17e9d0102edhg.htmlblog.sina.com.cn/s/blog_4bb17e9d0102edhg.html)  e é cuspido e cagado o site do Sustainable pulse ou outro congênere ocidental, De lá os meus caros 5 ou 6 leitores podem copiar o texto e colar no Google translator, como eu fiz.

Apêndice 2: Vale a pena uma leitura da matéria do Estadão (link), origem da folie furieuse que se desencadeou entre os sites “engajados na luta contra os OGMs”. A matéria traz ao leitor as mais recentes informações que circulam contra as plantas transgênicas e sua adoção no Mundo.

Logo no início a matéria nos fala da proibição que o Senado Frances fez à única variedade de milho transgênico que vem sendo plantada na Europa. O que elaesqueceu de dizer foi que todos os órgãos técnicos franceses foram claros em afirmar: esta proibição não faz sentido do ponto de vista de segurança ambiental e à saúde. Foi uma decisão política, nada mais.

Depois otexto envereda pelo caso da tal Academia Militar de Ciências, que já comentei antes. E continua no caso curioso do Sri Lanka, dizendo que o Governo de lá proibiu a venda do glifosato por causa de uma correlação com doença renal crônica naquele país. Aqui ele resvalou da crítica aos transgênicos à luta contra os pesticidas. Depois que um artigo científico feito por pesquisadores do Sri Lanka foi publicado sobre esta correlação, o Governo local resolveu suspender temporariamente a venda de glifosato. No mesmo site do Sustainable Pulse citado anteriormente (http://sustainablepulse.com/2014/05/13/sri-lanka-lifts-ban-sale-glyphosate/#.U3uRi9JdXrQ) está informado, entretanto, que no dia 12 de maio a suspensão das vendas de glifosato no Sri Lanka havia sido terminada por ordem do Ministério da Agricultura, por falta de justificativas para impor um banimento. Como o texto é de 9 de maio, a gente entende...mas um bom jornalista deve cheirar a barriga: é evidente que um país não vai suspender o uso do herbicida considerado mais seguro e mais empregado na agricultura por causa de um artigo científico isolado e muito especulativo. Para os leitores que podem avaliar o texto que deu origem ao imbróglio no Sri Lanka,  o link está aqui: http://www.mdpi.com/1660-4601/11/2/2125.

Em seguida o nosso bom jornalista resvala para a rotulagem, que nada tem a ver com a segurança dos transgênicos, mas com um direito de informação do consumidor. E termina misturando vaca louca, cabras transgênicas no Ceará e Luiz Gonzaga. Coitado do Velho Lua, que sempre foi um desenvolvimentista e queria para o Nordeste o que existe de mais avançado, sem perder as tradições de nossa gente.

Fonte da imagem: revistaescola.abril.com.br