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domingo, 29 de março de 2015

Revisitando a avaliação de risco do mosquito “do bem”: como a maior parte dos perigos percebidos pode ser descartada e os perigos restantes terem seu risco avaliado.


A sinopse da história é a seguinte: os mosquitos transgênicos (Aedes aegypti, transmissores do vírus da dengue e de outras enfermidades) carregam um gene de letalidade condicional, isto é, morrem se não puderem beber água com uma quantidade importante de tetraciclina. O antibiótico é fornecido a eles na “biofábrica”, mas não está disponível na Natureza, uma vez que este antibiótico é artificial. No processo de produção dos insetos, as pupas de machos podem ser separadas das fêmeas e só machos serão depois liberados, nas campanhas de controle. Os machos cruzam com as fêmeas na área de liberação, morrem depois de alguns dias e toda a sua prole também morre, antes mesmo de sua metamorfose para adultos alados. Isto leva a uma redução drástica da população do mosquito e também impede o “escape” dos transgenes para a população selvagem de Aedes aegypti. Como só machos são liberados, os seres humanos não interagem efetivamente com estes mosquitos transgênicos liberados.
Se tudo funcionar exatamente como está descrito acima, quais os riscos?

Muito bem, o que queremos proteger no ambiente urbano onde vivem os A. aegypti e onde serão liberados os mosquitos transgênicos? Os alvos de proteção são o ser humano e seus animais de criação e companhia e alguns animais silvestres urbanos valorados (sabiás, por exemplo, mas seguramente não ratos ou baratas). Não faz sentido dizer que queremos preservar um ecossistema que pudesse ser destruído pela presença transitória do mosquito transgênico, porque o impacto de uma população de mosquitos de tão curta duração, por mais numerosa que seja, seguramente será nulo. Resta então encontrar rotas cientificamente embasadas que pudesse levar a danos aos seres humanos ou a animais urbanos diretamente causados pelos mosquitos transgênicos nos seus poucos dias de vida pela cidade.

Ora, se o mosquito transgênico (macho) nem sequer pica o homem ou qualquer outro animal, não há rota ao dano possível exceto se ele for ingerido. Acontece que os animais que comem insetos comem uma variedade deles e seria muito pouco provável que ingerissem uma quantidade importante dos insetos liberados para controlar a população de insetos, e não para engordar sapos. Mesmo assim, podemos considerar que o primeiro passo de uma rota ao dano a animais insetívoros pode existir, isto é, a ingestão mesma de alguns mosquitos ao longo da semana de liberação controle.

Qual é o próximo passo? Mostrar que os mosquitos são tóxicos para estes insetívoros. Mas o que têm de novo estes mosquitos? Duas proteínas que estão fartamente estudadas quanto à toxicidade, sabendo-se que é nula nas doses que os insetívoros poderiam ingerir. Aqui acaba nossa rota ao dano, concluindo-se que não é possível um dano. Mesmo assim, pode-se fazer experimentos com insetívoros (e foram feitos!); conclusão: não houve danos. Logo, para o único objeto de proteção que é real (seja ele um sapo, uma perereca,uma lagartixa, um morcego ou outro insetívoro urbano, que tem uma valoração muito relativa pela população...) não há danos. Então, o mosquito transgênico NÃO APRESENTA RISCOS à saúde humana, animal ou ao ambiente diferente daqueles representados pelos mosquitos não transgênicos.

E se nem tudo funcionar “como manda o figurino”?

Poder-se-ia argumentar: esta é a situação ideal; mas se nem todos os mosquitos morrerem? E se fêmeas forem liberadas? E se os mosquitos cruzarem com outra espécie e o transgene letal não funcionar nela?

Vamos agora analisar cada uma destas hipóteses.

De fato, nem todos os mosquitos morrem: até uns 5% sobrevivem, mesmo sem tetraciclina. O que ocorre com eles? Vão procriar e talvez morrer de velhos (em 40 dias), mas vão ter crias. Suponhamos que as crias também sobrevivam na taxa de 5%, e as crias das crias também, e assim por diante. Esta população de insetos transgênicos vai crescer e se perpetuar? De jeito nenhum! Os mosquitos selvagens estão se reproduzindo na mesma área, com uma sobrevivência muito maior. A população dos transgênicos será superada e desaparecerá rapidamente no local. É assim que funciona a Natureza, desde que o Mundo é Mundo, isto é, desde que o primeiro progenoto apareceu na casca da Terra.

E se houvesse mais tetraciclina no ambiente do que se imagina? Afinal, cada lugar tem sua particularidade... Deve-se lembrar que tetraciclina era um antibiótico usado em criação intensiva de animais. Estas criações são muito raras em áreas urbanas e, além disso: 
a) o descarte dos efluentes sem tratamento é incomum no caso deste tipo de agroindústria.
b) o A. aegypti prefere águas mais limpas para a oviposição. Se, por um enorme acaso, uma fêmea que cruzou com um macho transgênico botasse seus ovos numa água com muita tetraciclina, é altamente improvável que sua prole escolhesse o mesmo local para ovipor, pois a troca de locais de postura é uma das características do A. aegypti
c) Além disso, neste mesmo local os mosquitos selvagens (“do mal”) também podem fazer posturas... e competir com os transgênicos.
d) o mais importante: desde 2009 a Instrução Normativa SDA no. 26 (MAPA) proíbe o uso de tetraciclina como aditivo alimentar para a criação do que quer que seja no país.!!! Assim, o antibiótico só será usado para o tratamento de alguma infecção. Além disso, a droga é rapidamente metabolizada e muito instável no ambiente. 

Por isso, mesmo sem construir uma rota ao dano formal, vê-se facilmente: a preocupação de que a tetraciclina ambiental pudesse manter viva uma população de mosquitos transgênicas, mesmo pequena, é desprovida de base científica.

Neste pequeno período em que os mosquitos transgênicos que escapam da morte estiverem voando na cidade, o que pode acontecer? Se forem comidos, o assunto já está discutido e concluímos que não há dano. E se picarem pessoas? Procuremos formar uma rota ao dano para este caso. Como a picada do mosquito pode fazer mal a uma pessoa ou a um animal (não considerando a transmissão de alguma doença, porque neste caso não há diferença entre os mosquitos transgênicos e os selvagens)? Pode provocar alergia. De fato, muita gente é alérgica à saliva do mosquito. Então, a pergunta é? Seria a saliva do mosquito (fêmea) transgênico mais alergênica que a do selvagem? Que dano adviria desta nova composição da saliva?

O primeiro passo da rota que leva da presença do mosquito fêmea transgênico ao dano (isto é, uma reação alérgica) é real, embora com baixa probabilidade: alguém ser picado por ele. O segundo passo é: a saliva tem alguma proteína nova alergênica? As duas únicas proteínas novas foram avaliadas quanto ao seu potencial alergênico, concluindo-se que não têm este potencial. Além disso, elas não parecem ser expressas na glândula salivar.  Portanto, a rota ao dano se interrompe no segundo passo e não haverá dano algum, além daquele observado no caso das picadas de mosquitos selvagens.

Resta saber o que aconteceria se o transgene passasse para uma espécie sexualmente compatível. Acontece que esta espécie não existe: mesmo o A. albopictus, um mosquito de hábitos semi-silvestres, que divide áreas de transição silvestre/ rural (ecótonos) com o A.aegypti, não cruza com ele. Então, esta hipótese é nula.

Mas ainda que o transgene passasse ao A. albopictus, este seria morto pela expressão da proteína letal. E ainda que isso não acontecesse, qual seria o problema da população de mosquitos levar os transgenes, uma vez que sua expressão em proteínas não é danosa ao homem nem aos animais? Aliás, a mesma pergunta poderia ser feita para o escape de qualquer transgene cuja expressão não leva a danos: não é presença do transgene que é um dano, mas sua expressão, quando trouxer algum impacto ao ambiente ou à saúde.

Por fim, o que aconteceria se uma fêmea do mosquito do bem picasse uma pessoa numa área endêmica ou epidêmica para dengue? Mesmo que as fêmeas piquem uma pessoa com vírus circulante, elas vão morrer muito antes do vírus poder fazer seu ciclo, escapando do trato digestivo, ganhando a hemolinfa e voltando à glândula salivar. Isso toma pelo menos duas semanas e as fêmeas morrem em menos de 10 dias! Portanto, não há risco de aumento da transmissão.

De fato, no entendimento da CTNBio, como agência de risco, a introdução pelo homem de alterações genéticas – velha como a agricultura – não é um risco em si mesmo: sua expressão é que pode representar risco. Não havendo risco na expressão dos novos genes, a presença deles em si NÃO é danosa.

Assim, em menos de 6000 palavras (ou duas páginas ofício em espaço 1), fomos capazes de demonstrar que não há riscos reais para os objetos de proteção. Foi, na verdade, muito fácil, porque os insetos não sobrevivem numa taxa que pudesse garantir sua perpetuação: é evidente que os riscos sempre tendem a crescer se os agentes de risco (neste caso, os mosquitos GM) estiverem presentes por longo tempo em grande número numa grande área, o que definitivamente não é o caso aqui.


Réplica ao parecer dado por pedido de vistas, lido na reunião plenária da CTNBio no dia 10 de abril de 2014

Ao final da reunião da Plenária da CTNBio de abril de 2014 foi aprovada a liberação comercial da variedade OX513a do Aedes aegypti, produzido epla empresa britânica Oxitec.

Logo antes da votação pela CTNBio da liberação comercial do mosquito transgênico um dos seus membros pediu vistas ao processo. Dificilmente se poderia deixar de ficar impressionado com a quantidade de informações distorcidas e argumentos sem base na ciência que foram por ele então trazidos à CTNBio.

Não interessam ao público e talvez nem mesmo aos membros da CTNBio as questões processuais, uma vez que elas são sempre detalhes menos importantes da questão principal. Quem quiser se aprofundar no rito e outras questões normativas deve ler a postagem sobre aaudiência pública em Piracicaba, um ano após a liberação comercial pela CTNBio. Na audiência o Dr. Kageyama levantou pela n-ésima vez esta bola - http://genpeace.blogspot.com.br/2015/03/audiencia-publica-em-piracicaba-para.html

Afinal, qual será sempre a questão principal na CTNBio? Resposta: Há riscos na liberação destes mosquitos ou não? Se há, quais são?

Foi por isso que me fixei nesta questão, que é o hardcore da avaliação de risco, e expliquei o passoa passo e as conclusões da CTNBio acima.

De volta ao parecer de vistas apresentados pelos Dr. Andriolli e Melgarejo, vale perguntar: que questões de risco foram tratadas? Essencialmente apenas uma: a sobrevivência de uma parcela dos insetos liberados e de sua prole. Como vimos acima, isso não representa risco algum.

E em que mais se estendeu o parecer? Pasmem, a maior parte da explanação foi para mostrar ao público presente (membros e assessores da CTNBio, representantes de empresas e ONGs e curiosos) que a eliminação do A. aegypti poderia trazer problemas muito maiores ao país do que sua presença!  Mas como??? De onde saiu o longo texto lido na planária da CTNBio, carregado de tanta tolice? De um hospício?

Pois é: Segundo o argumento dos relatores, se eliminarmos o A. aegypti abriremos espaço para outros vetores da mesma doença (o A. albopictus, que está espalhado na periferia das cidades e em áreas com mais cobertura vegetal, é o candidato a tomar conta da casa vazia) ou ainda trocar a dengue por coisa pior, como a chikungunya). Então, queridos 3 ou 4 leitores que me acompanham, o nosso pesquisador propôs que não se elimine o mosquito, deixando de combater o certo por medo de uma ameaça duvidosa.

Será que isso tem fundamento? Quando o Triatoma infestans, vetor da doença de Chagas, foi erradicado do Brasil, o espaço deixado vago nas casas NUNCA foi ocupado por qualquer uma das mais de 100 espécies de barbeiros que vadeiam pela Pindorama. Quando nossos corpinhos ficaram livres do vírus da varíola, nem por isso outros vírus, piores ou melhores, tomaram-lhe o espaço vago.

É uma tremenda bobagem imaginar que o A. albopictus, que prefere se reproduzir em ocos de árvores e outros ambientes silvestres, vá agora ovipor nas nossas latas velhas, caixas d´água e outros ambientes propícios ao A. aegypti. A espécie está aqui desde 1986 e nunca invadiu os habitats do A. aegypti mesmo onde as densidades dele eram baixas. A situação é exatamente igual à do Triaoma infestans, que era altamente domiciliado: o ambiente deixado livre nunca pode ser preenchido pelos outros barbeiros porque eles não têm hábito de morar com o homem. 

Independentemente da possibilidade desta troca de guarda de mosquitos ser real ou não, é completamente absurdo dizer que não devemos eliminar o A. aegypti, um seríssimo problema de saúde pública, por causa de uma hipótese pouco provável e cujas consequências são por demais discutíveis.

É exatamente o caso de um caçador que hesita em atirar num leão que o ameaça numa trilha na floresta porque, atrás dele, pode vir um rinoceronte furioso, contra o qual ele não tem balas que prestem.  A presença do leão é real, mas do rinoceronte só se conhecem histórias. O que você faria no lugar do precavido caçador?

Só pode dizer uma coisa destas quem não tem compreensão da avaliação de riscos e despreza seus cidadãos, colocando seu ideário à frente das questões de seu povo. Não causa espanto também saber que uma parte dos que se opõem a esta tecnologia mora na Europa ou vive em outras áreas frias do globo, onde a dengue não existe ou causa poucos problemas. Começo a gostar do aquecimento global!



terça-feira, 13 de maio de 2014

Mosquitos transgênicos, muriçocas e saneamento: vários alvos e várias soluções

Em comentários a notícia veiculada no blog do Geraldo José, de Petrolina (http://www.geraldojose.com.br/index.php?sessao=noticia&cod_noticia=50807) o Roberto Malvezzi, conhecido como Gogó, trouxe à discussão uma série de informações que merecem discussão, sobretudo em consideração à longa história de luta do Gogó pelo rio São Francisco e pelas comunidades do vale. Além disso, ele mora em Juazeiro, o que lhe dá uma visão privilegiada da questão social do controle de vetores.

O texto comentado
Primeiramente, ele nos traz a informação de que os bairros de Mandacaru e Itaberaba são muito pobres, estando entre os mais pobres de Juazeiro. Foi justamente por isso que foram os bairros escolhidos para a liberação planejada, pois a existência de muitos criadores de Aedes aegypti está associada à falta de abastecimento de água regular e ao elevado número de recipientes que podem acumular água em terrenos baldios e quintais de bairros pobres, ao menos no Nordeste do Brasil. A escolha não foi determinada socialmente, mas biologicamente, tanto aqui como no Caribe ou em qualquer outra parte do Mundo. Mais adiante vou comentar o trabalho levado a cabo pela Fiocruz no controle da muriçoca em Recife, e comentado pelo Gogó, mas já adianto: foi executado num dos bairros mais pobres do Recife, e a escolha não foi feita para transformar a população pobre em cobaia, mas por razões biológicas.

Logo em seguida o Roberto comenta que a liberação planejada foi feita sem os cuidados da precaução, fazendo dos moradores cobaias dessa experiência. É fácil dizer isso, sem mostrar claramente o porque. A CTNBio analisou com muito cuidado todos os possíveis riscos e concluiu que os riscos desta liberação planejada eram efetivamente nulos. Uma vez aprovada a liberação, ela foi conduzido sob a tutela da USP. A população dos dois bairros na verdade se beneficiou da redução do A. aegypti, o vetor da dengue, nos anos em que durou a tal “experiência”: ninguém foi cobaia de coisa alguma. Seria bacana se o Roberto fizesse o que faz quando luta contra os desmandos do poder do Estado e das empresas no vale do São Francisco: mostrasse dados concretos.

Na frase seguinte à do comentário acima o Roberto afirma que a CTNBio já liberou a experiência para todo território nacional. Não é nada disso: a CTNBio liberou o produto para o comércio, já não há experiência alguma e os riscos foram provados como sendo negligenciáveis. De toda forma, haverá um monitoramento da liberação comercial, segundo consta do dossiê de liberação comercial e está em análise na CTNBio. O uso de palavras inadequadas como as empregadas pelo Roberto leva o leitor à conclusão de que, de fato, os brasileiros serão cobaias em larga escala, o que evidentemente seria uma enorme irresponsabilidade da CTNBio.

A presença maciça de mosquitos na cidade de Juazeiro também foi comentada e, de fato, é uma realidade. Mas o que incomoda os moradores em quase todas as cidades é muito mais a muriçoca comum, que não transmite a dengue nem cruza com o vetor desta virose. É contra ela que são usados os mosquiteiros comentados no seu texto: em cima das camas e, num caso extremo, por cima das mesas de bar, à noite. O mosquito da dengue voa de dia e contra ele os mosquiteiros não dão certo, só prá quem dorme fora do horário habitual. A confusão que o texto traz entre o mosquito da dengue e os demais é danosa à compreensão do contexto da luta contra o vetor.

Danosa também é a apresentação do problema de controle do mosquito como se o mosquito fosse uma única espécie. A solução para o controle dos mosquitos pode ser bastante diferente entre as várias espécies. As espécies do gênero Culex são endêmicas no Brasil e espalhados em todo o território, inclusive nas áreas silvestres. Já o Aedes aegypti é uma espécie exclusivamente urbana. Seus criadouros são também bastante diferentes, assim como seus hábitos na hora de buscar sangue para a refeição. Misturar todos os mosquitos num balaio só demonstra falta de trânsito na área de controle. O amadorismo não se encaixa na seriedade que se espera de um formador de opiniões importante como o Malvezzi.

Por fim, o Gogó se pergunta: Será mesmo que a proliferação dos outros mosquitos na cidade nada tem a ver com a soltura do Aedes transgênico ? E os demais possíveis desequilíbrios ambientais foram efetivamente avaliados? A primeira pergunta é inteiramente descabida, uma vez que a liberação de um mosquito que morre depois de duas semanas não pode, de forma alguma, contribuir para aumentar a população de outros mosquitos, nem sequer os da mesma espécie. Mais uma vez, entrando num assunto do qual não tem conhecimento necessário, o Roberto faz de seus comentários uma ferramenta para espalhar medo e desinformação e isso contradiz seu longo histórico de argumentos consistentes contra a transposição e outras barbaridades impetradas contra os ribeirinhos. Os demais desequilíbrios foram identificados e avaliados e os riscos considerados negligenciáveis. Nada foi esquecido, ao contrário do que deixa transparecer o texto.


Epílogo
Numa réplica ao meu comentário no blog, o Gogó nos traz um texto de um ex-membro da CTNBio, a Dra. Lia Giraldo, onde ela tece considerações sobre a dengue e seu controle. Vale a pena uma leitura atenta:

“ Prezados, o MS sempre propagou sucesso no controle da dengue quando insere medidas (como um novo programa) logo após um surto epidêmico. É importante que se saiba que logo após um surto epidêmico temos um período longo, chamado de silêncio imunológico, pois a alta exposição populacional ao vírus causa uma imunidade natural a esses expostos, aí começa um processo de surgimento de novos susceptíveis ao vírus, ou quando entra um outro vírus, ocorre uma novo surto. Essa questão do Aedes transgênico foi liberado tb no Paraguai, sempre em comunidades pobres. A preocupação é justa, pois é muito cedo para cantar vitórias. Especialmente se computarmos outros problemas dela introdução em um nicho ecológico de uma espécie exogena. Ao menos já existe um incômodo constatado. Os enxames de mosquito. A dengue não é uma doença grave, é uma virose que se houve assistência e acompanhamento médico ninguem morre. É de baixíssima letalidade. No Brasil é uma vergonha a mortalidade por dengue, por falta de assistência médica e equívocos na condução clínica dos casos. Na atenção primária à saúde os profissionais não estão preparados para atender e acompanhar os casos de dengue. Sabemos que a hidratação previne muitas complicações, pois é o choque hipovolêmico que é responsável pela morte. Em Cuba, ninguém morre de complicações hemorrágicas do dengue, mesmo considerando a alta incidência dessas complicações. Publiquei um livro em 2004, denominado Abordagem ecossistêmica em saúde: ensaios para o controle do dengue em Pernambuco. Em Recife, conseguimos fazer uma resistência a esses modelos químico-dependentes de controle vetorial. O debate está aberto. A CTNBio, todos sabem, está para legitimar os interesses da biotecnologia e não da biossegurança"

O texto quase nada tem a ver com o uso de mosquitos machos estéreis para o controle de populações de A. aegypti, que é do que se trata a questão. Aqui se fala de uma liberação ocorrida no Paraguai, em comunidade pobre, que nunca existiu. Fala-se que a dengue não é uma doença séria e que o Ministério da Saúde brinca com os dados para dar imagem boa ao Governo. E se conclui com a mesma frase que outra pessoa citou em comentário ao texto do Gogó: A CTNBio, todos sabem, está para legitimar os interesses da biotecnologia e não da biossegurança. A Lia Giraldo se afastou da CTNBio porque sempre achou que a Comissão agia sem atendimento às normas de biossegurança. Mas, quando esteve lá, seus argumentos eram sem base científica. E, depois disso, pelo que se depreende do texto acima, não melhoraram muito.

A abordagem ecossistêmica que a Lia comenta é um conjunto de ideias bem alinhavadas, baseadas muito mais em experiências prévias com Culex (a muriçoca comum) do que em trabalhos efetivos com Aedes, o vetor da dengue (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2007000300033 ). De toda forma, é um trabalho teórico, nunca foi posto efetivamente em prática. Curiosamente, ele afirma (e com razão) que o controle do mosquito (e sua futura erradicação) é o que precisa ser buscado. Ora, se a virose não apresenta de fato gravidade e o problema maior é de assistência médica, o programa devia centrar na capacitação médica! Chega a preocupar ler as afirmações do texto da Lia, veiculadas aqui pelo Gogó: se os gestores de saúde pública acham que a dengue é uma virosezinha à toa, o que dizer dos políticos e do governo?

Para meu espanto, o Gogó comenta que encontrou a novíssima informação de que a soja transgênica pode cruzar com o Amaranthus e produzir uma nova planta híbrida resistente a tudo que é herbicida e, naturalmente, tão invasora quanto o Amaranthus. Rogo aos leitores que comentem esta informação e tragam dados concretos pois, se for verdade, estaremos vendo uma revolução dos conceitos da biologia.



Um dia depois que postei a primeira versão deste post, recebi  de um amigo o comentário enviado a ele por um pesquisador cubano, referente ao texto da Dra. Lia Giraldo, acima. O pesquisador é cubano e trabalha há muitos anos no Instituto de Engenharia Genética de Havana.

From: xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Date: 2014-05-14 14:15 GMT-03:00
Subject: Fwd: GenPeace

Francisco leíste este mensaje de genpeace¿??
En el texto en azul dice que en Cuba nadie muere por la enfermedad. Eso no debe ser verdad. En Cuba también hay complicaciones y muertes. Lo que si es cierto, que no es precisamente el enfoque de ese texto en azul, que hay una gran preocupación por acabar con los niveles de infestación por Aedes. Siempre hay altísimo nivel de aplicación de químicos para mantener la población de mosquitos en un bajo nivel...

Assim vocês podem ver o quanto é fantasioso o texto da Lia Giraldo. É evidente que Cuba tem uma medicina muito melhor que a nossa, mas a dengue não é uma virose à toa e, lá como cá, eles empregam muito inseticida e larvicida para controlar o vetor. Também lá, como cá, se morre de dengue.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Mosquito transgênico: documento oficial da CTNBio esclarece a avaliação de risco e declara que o processo atende as normas para liberação comercial EXTRATO DE PARECER TÉCNICO Nº 3.964/2014 - DOU Seção 1, no. 71, 14 de abril de 2014

Dois dias úteis após a decisão da CTNBio em reunião plenária (veja notícia), o EXTRATO DE PARECER TÉCNICO Nº 3.964/2014 que resume as informações do processo já foi publicado no Diário Oficial da União. Segue o extrato. Sobre ele marcamos a cores algumas informações importantes, que estão comentadas mais abaixo.

O Presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança - CTNBio, no uso de suas atribuições e de acordo com o artigo 14, inciso XIX, da Lei 11.105/05 e do Art. 5º, inciso XIX do Decreto 5.591/05, torna público que na 171ª Reunião Ordinária da CTNBio, realizada em 10 de abril de 2014, a CTNBio apreciou e emitiu parecer técnico para o seguinte processo:
Processo nº: 01200.002919/2013-77
Requerente: Oxitec do Brasil Participações Ltda.
CQB: 357/13
Próton: 28300/13
Assunto: Solicitação de Parecer para Liberação Comercial de
Organismo Geneticamente Modificado
Extrato Prévio: 3676/13 publicado em 15/07/13
Decisão: DEFERIDO
O responsável legal da instituição solicitou à CTNBio parecer técnico referente à biossegurança para liberação comercial da linhagem OX513A de Aedes aegypti, geneticamente modificada para expressar um traço letal condicional e um gene marcador fluorescente com a finalidade de controle do Aedes aegypti, o mosquito vetor do vírus da dengue. A requerente afirma que o presente pedido não contém informações confidenciais. Dois genes foram introduzidos no mosquito OX513A. O primeiro é o tTAV, um sistema de ativação da transcrição controlado por tetraciclina constituído a partir de DNA sintético baseado em uma fusão de sequências da bactéria Escherichia coli e do vírus herpes simples. Altos níveis de expressão deste fator de transcrição, que ocorre na ausência de tetraciclina, confere letalidade celular. O segundo gene introduzido no mosquito é o gene marcador DsRed2 da espécie de coral marinho Discosoma. A expressão deste gene produz uma proteína fluorescente vermelha, e no mosquito OX513A ocorre nos estágios de desenvolvimento. A estabilidade da construção foi amplamente demonstrada na documentação. A biologia do Aedes aegypti favorece a biossegurança deste produto. Embora ainda não exista uma experiência com a liberação comercial deste OGM, há um conjunto considerável de informações pertinentes advindas da liberação planejada deste mosquito em outros países e no Brasil. Os dados apresentados confirmam o que a biologia do mosquito e as alterações fenotípicas advindas da transformação genética sugerem: não parece haver qualquer impacto do OX513A no ambiente. Após a liberação comercial, o monitoramento será feito nos locais de liberação da linhagem OX513A, em três pontos representativos, usando armadilhas para avaliar a população de Ae. aegypti e a proporção da população portadora do transgene OX513. Podemos concluir, portanto, com base em todas as evidências apresentadas pela proponente, na literatura pertinente e em nossa avaliação de risco que o mosquito Ae. aegypti OX513A não apresenta riscos adicionais ao meio ambiente, aos seres humanos e aos animais quando comparado à mesma espécie não geneticamente modificada. Somos, portanto, de parecer favorável à sua liberação. No âmbito das competências dispostas na Lei 11.105/05 e seu decreto 5.591/05, a CTNBio concluiu que o presente pedido atende às normas e legislação pertinentes que visam garantir a biossegurança do meio ambiente, agricultura, saúde humana e animal. A CTNBio esclarece que este extrato não exime a requerente do cumprimento das demais legislações vigentes no país, aplicáveis ao objeto do requerimento. A íntegra deste Parecer Técnico consta do processo arquivado na CTNBio. Informações complementares ou solicitações de maiores informações sobre o processo acima listado deverão ser encaminhadas por escrito à Secretaria Executiva da CTNBio.
EDIVALDO DOMINGUES VELINI



Comentários GenPeace

1. Em amarelo há uma breve descrição da construção genética, das proteínas expressas e suas funções. Em cinza uma súmula da avaliação de risco e em verde a indicação de que outras informações complementares podem ser pedidas por escrito à CTNBio. Esta última frase do parecer remete à transparência e ao acesso à informação, uma marca da CTNBio.
Em laranja há a declaração de que não há dados confidenciais no processo, o que é uma prática crescente entre as empresas.

2. A CTNBio, com base em todas as evidências apresentadas pela proponente, mas também na literatura pertinente e na própria avaliação de risco concluiu que o mosquito Ae. aegypti OX513A não apresenta riscos adicionais ao meio ambiente, aos seres humanos e aos animais quando comparado à mesma espécie não geneticamente modificada. Observe o leitor que o risco analisado não é o da tecnologia ou se ela vai funcionar, mas apenas o impacto do OGM diretamente no meio ambiente. Até a empresa indicou que o mosquito GM será usado para controlar a população de A. aegypti, sem referência ao controle da dengue. É evidente que, se controlarmos o mosquito, controlamos a dengue, mas cada etapa tem sua demonstração e seus atores específicos.

3. Em tempo: desde 2009 a Instrução Normativa SDA no. 26 (MAPA) proíbe o uso de tetraciclina como aditivo alimentar para a criação do que quer que seja no país. Assim, o antibiótico só será usado para o tratamento de alguma infecção. Além disso, a droga é rapidamente metabolizada e muito instável no ambiente.

Divagações como a que ouvimos na leitura do parecer de vistas são absurdas e em nada ajudam a compreensão dos riscos e tampouco dos benefícios da tecnologia.

sábado, 12 de abril de 2014

Mosquito transgênico para controle da Dengue: argumentos insensatos no lugar de avaliação de riscos

Réplica ao parecer dado por pedido de vistas, lido na reunião plenária da CTNBio no dia 10 de abril de 2014
Ao final da reunião foi aprovada a liberação comercial da variedade OX513a do Aedes aegypti, produzido epla empresa britânica Oxitec.

Logo antes da votação pela CTNBio da liberação comercial do mosquito transgênico um dos seus membros pediu vistas ao processo. Dificilmente se poderia deixar de ficar impressionado com a quantidade de informações distorcidas e argumentos sem base na ciência que foram por ele então trazidos à CTNBio.

Não interessam ao público e talvez nem mesmo aos membros da CTNBio as questões processuais, uma vez que elas são sempre detalhes menos importantes da questão principal: há riscos na liberação destes mosquitos ou não? Se há, quais são?

Portanto, vou me fixar nesta parte da questão, que é o hardcore da avaliação de risco, e vou seguir os passos consagrados da avaliação de risco. Procederei em duas etapas: na primeira, considerarei que toda a tecnologia funciona exatamente como previsto, e na segunda vou discriminar onde pode haver falhas na tecnologia e o que elas representam em termos de riscos novos.

Avaliação de risco
A sinopse da história é a seguinte: os mosquitos transgênicos (Aedes aegypti, transmissores do vírus da dengue e de outras enfermidades) carregam um gene de letalidade condicional, isto é, morrem se não puderem beber água com uma quantidade importante de tetraciclina. O antibiótico é fornecido a eles na “biofábrica”, mas não está disponível na Natureza, uma vez que este antibiótico é artificial. No processo de produção dos insetos, as pupas de machos podem ser separadas das fêmeas e só machos serão depois liberados, nas campanhas de controle. Os machos cruzam com as fêmeas na área de liberação, morrem depois de alguns dias e toda a sua prole também morre, antes mesmo de sua metamorfose para adultos alados. Isto leva a uma redução drástica da população do mosquito e também impede o “escape” dos transgenes para a população selvagem de Aedes aegypti. Como só machos são liberados, os seres humanos não interagem efetivamente com estes mosquitos transgênicos liberados.
Se tudo funcionar exatamente como está descrito acima, quais os riscos?
Muito bem, o que queremos proteger no ambiente urbano onde vivem os A. aegypti e onde serão liberados os mosquitos transgênicos? Os alvos de proteção são o ser humano e seus animais de criação e companhia e alguns animais silvestres urbanos valorados (sabiás, por exemplo, mas seguramente não ratos ou baratas). Não faz sentido dizer que queremos preservar um ecossistema que pudesse ser destruído pela presença transitória do mosquito transgênico, porque o impacto de uma população de mosquitos de tão curta duração, por mais numerosa que seja, seguramente será nulo. Resta então encontrar rotas cientificamente embasadas que pudesse levar a danos aos seres humanos ou a animais urbanos diretamente causados pelos mosquitos transgênicos nos seus poucos dias de vida pela cidade.
Ora, se o mosquito transgênico (macho) nem sequer pica o homem ou qualquer outro animal, não há rota ao dano possível exceto se ele for ingerido. Acontece que os animais que comem insetos comem uma variedade deles e seria muito pouco provável que ingerissem uma quantidade importante dos insetos liberados para controlar a população de insetos, e não para engordar sapos. Mesmo assim, podemos considerar que o primeiro passo de uma rota ao dano a animais insetívoros pode existir, isto é, a ingestão mesma de alguns mosquitos ao longo da semana de liberação controle. Qual é o próximo passo? Mostrar que os mosquitos são tóxicos para estes insetívoros. Mas o que têm de novo estes mosquitos? Duas proteínas que estão fartamente estudadas quanto à toxicidade, sabendo-se que é nula nas doses que os insetívoros poderiam ingerir. Aqui acaba nossa rota ao dano, concluindo-se que não é possível um dano. Mesmo assim, pode-se fazer experimentos com insetívoros (e foram feitos!); conclusão: não houve danos. Logo, para o único objeto de proteção que é real (seja ele um sapo, uma perereca,uma lagartixa, um morcego ou outro insetívoro urbano, que tem uma valoração muito relativa pela população...) não há danos. Então, o mosquito transgênico NÃO APRESENTA RISCOS à saúde humana, animal ou ao ambiente diferente daqueles representados pelos mosquitos não transgênicos.
Poder-se-ia argumentar: esta é a situação ideal; mas se nem todos os mosquitos morrerem? E se fêmeas forem liberadas? E se os mosquitos cruzarem com outra espécie e o transgene letal não funcionar nela?
Vamos agora analisar cada uma destas hipóteses.
De fato, nem todos os mosquitos morrem: perto de 5% sobrevivem, mesmo sem tetraciclina. O que ocorre com eles? Vão procriar e talvez morrer de velhos (em 40 dias), mas vão ter crias. Suponhamos que as crias também sobrevivam na taxa de 5%, e as crias das crias também, e assim por diante. Esta população de insetos transgênicos vai crescer e se perpetuar? De jeito nenhum! Os mosquitos selvagens estão se reproduzindo na mesma área, com uma sobrevivência muito maior. A população dos transgênicos será superada e desaparecerá rapidamente no local. É assim que funciona a Natureza, desde que o Mundo é Mundo, isto é, desde que o primeiro progenoto apareceu na casca da Terra.

E se houvesse mais tetraciclina no ambiente do que se imagina? Afinal, cada lugar tem sua particularidade... Deve-se lembrar que tetraciclina era um antibiótico usado em criação intensiva de animais. Estas criações são muito raras em áreas urbanas e, além disso 
a) o descarte dos efluentes sem tratamento é incomum no caso deste tipo de agroindústria.
b) , o A. aegypti prefere águas mais limpas para a oviposição. Se, por um enorme acaso, uma fêmea que cruzou com um macho transgênico botasse seus ovos numa água com muita tetraciclina, é altamente improvável que sua prole escolhesse o mesmo local para ovipor, pois a troca de locais de postura é uma das características do A. aegypti
c) Além disso, neste mesmo local os mosquitos selvagens também podem fazer posturas... 
d) o mais importante: Desde 2009 a Instrução Normativa SDA no. 26 (MAPA) proíbe o uso de tetraciclina como aditivo alimentar para a criação do que quer que seja no país.!!! Assim, o antibiótico só será usado para o tratamento de alguma infecção. Além disso, a droga é rapidamente metabolizada e muito instável no ambiente. 

Por isso, mesmo sem construir uma rota ao dano formal, vê-se facilmente: a preocupação de que a tetraciclina ambiental pudesse manter viva uma população de mosquitos transgênicas, mesmo pequena, é desprovida de base científica.

Neste pequeno período em que os mosquitos transgênicos que escapam da morte estiverem voando na cidade, o que pode acontecer? Se forem comidos, o assunto já está discutido e concluímos que não há dano. E se picarem pessoas? Procuremos formar uma rota ao dano para este caso. Como a picada do mosquito pode fazer mal a uma pessoa ou a um animal (não considerando a transmissão de alguma doença, porque neste caso não há diferença entre os mosquitos transgênicos e os selvagens)? Pode provocar alergia. De fato, muita gente é alérgica à saliva do mosquito. Então, a pergunta é? Seria a saliva do mosquito (fêmea) transgênico mais alergênica que a do selvagem? Que dano adviria desta nova composição da saliva?

O primeiro passo da rota que leva da presença do mosquito fêmea transgênico ao dano (isto é, uma reação alérgica) é real, embora com baixa probabilidade: alguém ser picado por ele. O segundo passo é: a saliva tem alguma proteína nova alergênica? As duas únicas proteínas novas foram avaliadas quanto ao seu potencial alergênico, concluindo-se que não têm este potencial. Além disso, elas não parecem ser expressas na glândula salivar.  Portanto, a rota ao dano se interrompe no segundo passo e não haverá dano algum, além daquele observado no caso das picadas de mosquitos selvagens.

Resta saber o que aconteceria se o transgene passasse para uma espécie sexualmente compatível. Acontece que esta espécie não existe: mesmo o A. albopictus, um mosquito de hábitos semi-silvestres, que divide áreas de transição silvestre/ rural (ecótonos) com o A.aegypti, não cruza com ele. Então, esta hipótese é nula.

Mas ainda que o transgene passasse ao A. albopictus, este seria morto pela expressão da proteína letal. E ainda que isso não acontecesse, qual seria o problema da população de mosquitos levar os transgenes, uma vez que sua expressão em proteínas não é danosa ao homem nem aos animais? Aliás, a mesma pergunta poderia ser feita para o escape de qualquer transgene cuja expressão não leva a danos: não é presença do transgene que é um dano, mas sua expressão, quando trouxer algum impacto ao ambiente ou à saúde.

De fato, no entendimento da CTNBio, como agência de risco, a introdução pelo homem de alterações genéticas – velha como a agricultura – não é um risco em si mesmo: sua expressão é que pode representar risco. Não havendo risco na expressão dos novos genes, a presença deles em si NÃO é danosa.

Assim, em menos de 6000 palavras (ou duas páginas ofício em espaço 1), fomos capazes de demonstrar que não há riscos reais para os objetos de proteção. Foi, na verdade, muito fácil, porque os insetos não sobrevivem numa taxa que pudesse garantir sua perpetuação: é evidente que os riscos sempre tendem a crescer se os agentes de risco (neste caso, os mosquitos GM) estiverem presentes por longo tempo em grande número numa grande área, o que definitivamente não é o caso aqui.

Folie furieuse
De volta ao parecer de vistas, vale perguntar: que questões de risco foram tratadas? Essencialmente apenas uma: a sobrevivência de uma parcela dos insetos liberados e de sua prole. Como vimos acima, isso não representa risco algum.

E em que mais se estendeu o parecer? Pasmem, a maior parte da explanação foi para mostrar ao público presente (membros e assessores da CTNBio, representantes de empresas e ONGs e curiosos) que a eliminação do A. aegypti poderia trazer problemas muito maiores ao país do que sua presença!  Mas como??? De onde saiu o longo texto lido na planária da CTNBio, carregado de tanta tolice? De um hospício?

Pois é: Segundo o argumento do relator, se eliminarmos o A. aegypti abriremos espaço para outros vetores da mesma doença (o A. albopictus, que está espalhado na periferia das cidades e em áreas com mais cobertura vegetal, é o candidato a tomar conta da casa vazia) ou ainda trocar a dengue por coisa pior, como a chikungunya). Então, queridos 3 ou 4 leitores que me acompanham, o nosso pesquisador propôs que não se elimine o mosquito, deixando de combater o certo por medo de uma ameaça duvidosa.

Será que isso tem fundamento? Quando o Triatoma infestans, vetor da doença de Chagas, foi erradicado do Brasil, o espaço deixado vago nas casas NUNCA foi ocupado por qualquer uma das mais de 100 espécies de barbeiros que vadeiam pela Pindorama. Quando nossos corpinhos ficaram livres do vírus da varíola, nem por isso outros vírus, piores ou melhores, tomaram-lhe o espaço vago.
É uma tremenda bobagem imaginar que o A. albopictus, que prefere se reproduzir em ocos de árvores e outros ambientes silvestres, vá agora ovipor nas nossas latas velhas, caixas d´água e outros ambientes propícios ao A. aegypti. A espécie está aqui desde 1986 e nunca invadiu os habitats do A. aegypti mesmo onde as densidades dele eram baixas. A situação é exatamente igual à do Triaoma infestans, que era altamente domiciliado: o ambiente deixado livre nunca pode ser preenchido pelos outros barbeiros porque eles não têm hábito de morar com o homem. 
Independentemente da possibilidade desta troca de guarda de mosquitos ser real ou não, é completamente absurdo dizer que não devemos eliminar o A. aegypti, um seríssimo problema de saúde pública, por causa de uma hipótese pouco provável e cujas consequências são por demais discutíveis.

É exatamente o caso de um caçador que hesita em atirar num leão que o ameaça numa trilha na floresta porque, atrás dele, pode vir um rinoceronte furioso, contra o qual ele não tem balas que prestem.  A presença do leão é real, mas do rinoceronte só se conhecem histórias. O que você faria no lugar do precavido caçador?

Só pode dizer uma coisa destas quem não tem compreensão da avaliação de riscos e despreza seus cidadãos, colocando seu ideário à frente das questões de seu povo. Não causa espanto também saber que uma parte dos que se opõem a esta tecnologia mora na Europa ou vive em outras áreas frias do globo, onde a dengue não existe ou causa poucos problemas. Começo a gostar do aquecimento global!


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Mosquito transgênico para controle da dengue aprovado pela CTNBio

Brasília, 10 de abril de 2014

Hoje pela manhã em reunião Plenária, a CTNbio aprovou o pedido de liberação comercial de uma variedade transgênica de Aedes aegypti (o mosquito transmissor do vírus da dengue e de um novo virus, Chikungunya), desenvolvido pela empresa britânica Oxitec. O A. aegypti OX513a carrega um gene de letalidade condicional, que é ativado na ausência de tetraciclina. Os machos, separados das fêmeas ainda em estado de pupa, podem ser produzidos em biofábrica em enormes quantidades, sendo em seguida liberados no ambiente. Para detalhes ver http://br.oxitec.com/ .

A votação nominal na Plenária teve como resultado 16 votos favoráveis (sendo um condicional) e um contra.

Antes da votação o parecer de vistas do processo foi lido. O membro relator argumentou pela diligência do processo por várias falhas que, ao seu ver, impediam uma conclusão segura do parecer. O argumento principal foi de que a eliminação do A. aegypti, de forma rápida e extensa, abriria espaço para a recolonização do espaço por outro mosquito, como o Aedes albopictus. Seu parecer foi amplamente rechaçado pela Comissão.

Também antes da votação alguns membros sugeriram uma audiência pública de instrução, que foi rechaçada por 11 votos contra 4.

A discussão imediatamente antes da votação versou menos sobre os riscos diretos do mosquito à saúde humana e animal e ao meio ambiente e derivou para aspectos de benefícios à tecnologia. Esta divergência refletiu o consenso da CTNBio quanto à segurança do produto e à premência de novas técnicas para o controle do vetor da dengue. A discussão também refletiu a segurança da CTNBio sobre o potencial da tecnologia na redução de populações de A. aegypti, sem riscos de recrudescimento de outras doenças, parecimento de novas endemias ou substituição do mosquito vetor, em completa oposição ao ponto de vista isolado do membro relator do pedido de vistas. Uma discussão detalhada do ponto de vista do relator está disponível em http://genpeace.blogspot.com.br/2014/04/mosquito-transgenico-para-controle-da_12.html

Com estes resultados,a CTNBio abre ao país a possibilidade de empregar um mosquito transgênico para o controle da dengue. A liberação comercial deste mosquito é, também, a primeira liberação comercial de um inseto transgênico no Mundo. O Brasil, usando uma legislação eficiência e séria na avaliação de risco de organismos geneticamente modificados, dá um exemplo de seriedade e maturidade tanto aos países que já fazem avaliação de risco de OGMs, como àqueles que ainda vacilam em ingressar no uso desta tecnologia.