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terça-feira, 5 de maio de 2015

Instituto culpa transgênicos por aumento no uso de agrotóxicos, sem provas; especialistas rebatem

Autor: HERTON ESCOBAR
23 Abril 2015 | 14:00

Instituto Nacional de Câncer (Inca) diz que sementes geneticamente modificadas são responsáveis pelo país ser o maior consumidor de pesticidas no mundo. Representantes do setor agrícola e da biotecnologia dizem que diagnóstico é “grosseiro”, não considera outros fatores e não retrata a realidade no campo.

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, e o segundo maior produtor de transgênicos, com mais de 42 milhões de hectares plantados com soja, milho e algodão geneticamente modificados.

Uma coisa está relacionada à outra? O Instituto Nacional de Câncer (Inca) diz que sim, apesar de não haver dados que comprovem isso diretamente. Em um posicionamento oficial sobre o uso de agrotóxicos e seus impactos na saúde, publicado em 10 de abril, o instituto chama atenção para o fato de que o Brasil é o maior consumidor de defensivos agrícolas do mundo, e atribui esse consumo elevado ao plantio de lavouras transgênicas.

“É importante destacar que a liberação do uso de sementes transgênicas no Brasil foi uma das responsáveis por colocar o país no primeiro lugar do ranking de consumo de agrotóxicos, uma vez que o cultivo dessas sementes geneticamente modificadas exigem o uso de grandes quantidades destes produtos”, afirma o Inca, que é vinculado ao Ministério da Saúde e fica no Rio de Janeiro. Para ler a íntegra do posicionamento, clique aqui: INCA-Agrotoxicos-Posicionamento

O documento, porém, não apresenta nenhuma estatística ou trabalho científico que corrobore essa afirmação. Procurado pela reportagem, o instituto forneceu uma pequena lista de referências que dariam sustentação ao seu posicionamento, incluindo reportagens e artigos científicos. Desses, apenas dois (um deles com mais de 10 anos) traçam uma relação estatística entre plantio de transgênicos e aumento no consumo de agrotóxicos, e nenhum deles é específico para o Brasil: GMO-PesticideUse-Benbrook e SojaGM-Pelaez-2004

Segundo Márcia de Campos Mello, toxicologista da Unidade Técnica de Exposição Ocupacional, Ambiental e Câncer do Inca, o consumo de agrotóxicos no Brasil aumentou de aproximadamente 700 milhões de litros por ano em 2005 (dois anos após a legalização dos transgênicos no País) para cerca de 1 bilhão de litros por ano, em 2013. “Quando você faz a correlação dessas datas, observa-se que houve um aumento muito grande no consumo de agrotóxicos (desde a liberação dos transgênicos)”, justifica.

“Me assusta muito um instituto como o Inca, que trabalha com câncer — uma doença multifatorial, que não se presta a generalizações grosseiras — fazer esse tipo de generalização com a biotecnologia”, diz a bioquímica Adriana Brondani, diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB). O uso intensivo de agrotóxicos no país, segundo ela, deve-se a uma série de fatores relacionados à agricultura brasileira. “O Inca faz um diagnóstico equivocado, olhando apenas para os dados brutos, sem levar em conta o que acontece no campo.”

“Somos o maior consumidor de agrotóxicos porque somos a maior agricultura tropical do mundo.” - Júlio Britto, coordenador de agrotóxicos do Ministério da Agricultura

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) confirma que o consumo de agrotóxicos cresceu significativamente no Brasil nos últimos dez anos, e que o País é hoje o maior consumidor desses produtos no mundo. Mas discorda da avaliação feita pelo Inca. Segundo Júlio Britto, coordenador geral de Agrotóxicos e Afins do MAPA, o aumento no uso de agrotóxicos no País é reflexo do aumento da área plantada e da produção agrícola, independentemente de ela ser transgênica ou não.

“Vivemos num país tropical, de clima quente, em que se planta o ano inteiro, com alta incidência de pragas”, diz. As mesmas condições excepcionais de clima e solo que favorecem a produtividade das lavouras favorecem o crescimento de ervas daninhas, insetos e outras pestes tropicais. “Não usamos agrotóxicos porque queremos, mas porque precisamos. Sem defesa das lavouras, você não produz”, completa Britto, ressaltando que, relativamente ao tamanho da área plantada, o Brasil usa muito menos agrotóxicos (por hectare) do que países do primeiro mundo, como o Japão.

No caso dos transgênicos Bt, que são resistentes ao ataque de determinadas lagartas, houve uma “redução drástica” no uso de inseticidas contra esses insetos: de 20 para 4 aplicações por lavoura, segundo Adriana. “Ainda assim, a plantação é atacada por outras pragas, para as quais é necessário aplicar outros produtos”, completa.



Ameaças múltiplas

A cultura transgênica mais plantada no Brasil e no mundo é a soja resistente ao herbicida glifosato, desenvolvida pela Monsanto. Com o aumento da área plantada dessa variedade, aumentou também o uso do glifosato, enquanto que o uso de outros herbicidas diminuiu, segundo Britto. Paralelamente, aumentou o uso de inseticidas e fungicidas, devido ao surgimento de novas pragas, como a ferrugem da soja (causada por um fungo) e a lagarta helicoverpa, para as quais os transgênicos não oferecem proteção.

Quando todos os fatores são computados, diz Britto, o volume total de agrotóxicos usados no País aumentou apesar das vantagens oferecidas pelos transgênicos, e não por causa deles.

A conclusão é clara: o aumento no uso de agrotóxicos nada tem a ver com os transgênicos, mas com a agricultura intensiva brasileira.” - Pesquisadores, em artigo publicado no Jornal da Ciência da SBPC

Em uma carta publicada pelo Jornal da Ciência da SBPC no dia 4 de maio, cinco pesquisadores também desmontam o suposto elo entre transgênicos e aumento no uso de pesticidas: “De fato, o Brasil usa agrotóxicos em centenas de diferentes cultivos, assim como na pecuária, mas os transgênicos representam apenas 30% da área plantada: são 160 milhões de hectares cultivados com as mais diversas culturas no país contra apenas 45 milhões com cultivos transgênicos. Por isso, a contribuição dos transgênicos no consumo de agrotóxicos é menor. Esta primeira inferência é claramente referendada pela análise do aumento do uso de agrotóxicos nos últimos 10 anos e do aumento da área plantada com transgênicos: para o primeiro o valor é de 200%, enquanto a área com transgênicos cresceu mais de 1000%! O que justifica, então, o aumento do uso de agrotóxicos? Basta olhar o aumento da produtividade geral da agricultura brasileira nos mesmos 10 anos: foi de 200%. Este valor não é uma coincidência, mas resulta da intensificação do processo produtivo, que demanda um controle mais rígido das ervas daninhas e das pragas em geral. A conclusão é clara: o aumento no uso de agrotóxicos nada tem a ver com os transgênicos, mas com a agricultura intensiva brasileira.”

A carta é assinada pelo geneticista Paulo Paes de Andrade (da UFPE), pelo microbiólogo Francisco Nóbrega (ex-ICB/USP), o sociólogo Zander Navarro (Embrapa), o farmacêutico Flávio Finardi Filho (FCF/USP) e o bioquímico Walter Colli (IQ/USP). O texto foi escrito em resposta a um artigo, também publicado no Jornal da Ciência, no dia 30 de abril, em que três pesquisadores ligados ao Instituto de Estudos Avançados da USP (Hugh Lacey, José Corrêa Leite, Marcos Barbosa de Oliveira, e Pablo Rubén Mariconda) defendem o relatório do Inca e criticam a atuação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) na aprovação de transgênicos no Brasil.

“Cada um tem o seu discurso, pela causa com que está comprometido”, afirma Márcia, do Inca. “A nossa causa é proteger a saúde da população.” Segundo ela, ainda não há garantias de que os transgênicos sejam seguros para a saúde. Isso, apesar de eles já serem plantados e consumidos em larga escala, há mais de duas décadas, com a aprovação dos órgãos reguladores de vários países do mundo, sem qualquer registro de efeitos adversos à saúde humana. “Os efeitos só poderão ser notados com o tempo”, argumenta. “Nossa posição é reduzir o uso de agrotóxicos e incentivar a agricultura orgânica.”

Polêmica do glifosato

O posicionamento do Inca surge na sequência de uma outra publicação polêmica: Um relatório da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer (IARC, em inglês), um braço da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em 20 de março, reclassificando o herbicida glifosato como uma substância “provavelmente carcinogênica (causadora de câncer) para seres humanos”. Veja o relatório aqui: http://goo.gl/j3IU4i

O glifosato é o herbicida mais produzido no mundo, e é classificado por várias agências reguladoras — incluindo a Agência de Proteção Ambiental (EPA), nos Estados Unidos, e a Anvisa, no Brasil — como não carcinogênico e de baixa toxicidade, tanto para o ambiente quanto para os seres humanos. Nas lavouras transgênicas, o fato de a soja ou o milho serem resistentes a ele permite que os agricultores pulverizem toda a plantação com glifosato, para matar todas as ervas daninhas com um único produto, sem prejudicar a lavoura. Por isso, com a adoção dos transgênicos, aumentou o consumo de glifosato e diminuiu o consumo de outros herbicidas.

A publicação inicial feita pela IARC, na revista The Lancet, inclui apenas uma descrição muito breve dos dados científicos que serviram de base para a reclassificação. Segundo a agência, há “evidências limitadas de carcinogenicidade” do glifosato para seres humanos em casos de linfoma não-Hodgkin, “evidências convincentes” de que o glifosato pode causar câncer em animais de laboratório e “evidências suficientes” de carcinogenicidade em células humanas in vitro. Um relatório mais detalhado é esperado para os próximos meses.

“As três linhas de evidência nos dizem mais ou menos a mesma coisa, que devemos nos preocupar com isso”, disse ao jornal The New York Times Aaron Blair, um epidemiologista aposentado do Instituto Nacional do Câncer dos EUA, que coordenou o trabalho de revisão do herbicida. Com isso, o glifosato passa a fazer parte do Grupo 2A, que inclui substâncias e atividades “provavelmente carcinogênicas”, como acrilamida, beber chá mate quente, trabalhar em salões de beleza, fazer plantões noturnos, fabricar vidro e respirar fumaça de madeira queimada dentro de casa. Veja a lista completa aqui: http://goo.gl/VVEQ4y

“Do meu conhecimento, não há nada que justifique essa classificação”, diz o toxicologista Flavio Zambrone, da empresa Planitox. “Temos que esperar a publicação definitiva (do IARC) para ver se há algum dado escondido que dê razão a isso. Não dá para transmitir uma notícia dessa forma, sem base científica, criando pânico na população.” Segundo ele, os estudos mencionados pelo IARC na publicação inicial são trabalhos já “desacreditados” pela comunidade científica.

Outros acusam a agência de ter selecionado estudos de forma enviesada, destacando uma minoria que mostra efeitos negativos e ignorando uma maioria que mostra não haver risco para a saúde.
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Post atualizado às 18h15 do dia 4 de maio, para acrescentar informações publicadas no Jornal da Ciência da SBPC.

Tags: agrotóxicos, biotecnologia, inca, milho transgênico, OGMs, organismos geneticamente modificados, soja transgênica, transgênicos

sábado, 12 de abril de 2014

Mosquito transgênico para controle da Dengue: argumentos insensatos no lugar de avaliação de riscos

Réplica ao parecer dado por pedido de vistas, lido na reunião plenária da CTNBio no dia 10 de abril de 2014
Ao final da reunião foi aprovada a liberação comercial da variedade OX513a do Aedes aegypti, produzido epla empresa britânica Oxitec.

Logo antes da votação pela CTNBio da liberação comercial do mosquito transgênico um dos seus membros pediu vistas ao processo. Dificilmente se poderia deixar de ficar impressionado com a quantidade de informações distorcidas e argumentos sem base na ciência que foram por ele então trazidos à CTNBio.

Não interessam ao público e talvez nem mesmo aos membros da CTNBio as questões processuais, uma vez que elas são sempre detalhes menos importantes da questão principal: há riscos na liberação destes mosquitos ou não? Se há, quais são?

Portanto, vou me fixar nesta parte da questão, que é o hardcore da avaliação de risco, e vou seguir os passos consagrados da avaliação de risco. Procederei em duas etapas: na primeira, considerarei que toda a tecnologia funciona exatamente como previsto, e na segunda vou discriminar onde pode haver falhas na tecnologia e o que elas representam em termos de riscos novos.

Avaliação de risco
A sinopse da história é a seguinte: os mosquitos transgênicos (Aedes aegypti, transmissores do vírus da dengue e de outras enfermidades) carregam um gene de letalidade condicional, isto é, morrem se não puderem beber água com uma quantidade importante de tetraciclina. O antibiótico é fornecido a eles na “biofábrica”, mas não está disponível na Natureza, uma vez que este antibiótico é artificial. No processo de produção dos insetos, as pupas de machos podem ser separadas das fêmeas e só machos serão depois liberados, nas campanhas de controle. Os machos cruzam com as fêmeas na área de liberação, morrem depois de alguns dias e toda a sua prole também morre, antes mesmo de sua metamorfose para adultos alados. Isto leva a uma redução drástica da população do mosquito e também impede o “escape” dos transgenes para a população selvagem de Aedes aegypti. Como só machos são liberados, os seres humanos não interagem efetivamente com estes mosquitos transgênicos liberados.
Se tudo funcionar exatamente como está descrito acima, quais os riscos?
Muito bem, o que queremos proteger no ambiente urbano onde vivem os A. aegypti e onde serão liberados os mosquitos transgênicos? Os alvos de proteção são o ser humano e seus animais de criação e companhia e alguns animais silvestres urbanos valorados (sabiás, por exemplo, mas seguramente não ratos ou baratas). Não faz sentido dizer que queremos preservar um ecossistema que pudesse ser destruído pela presença transitória do mosquito transgênico, porque o impacto de uma população de mosquitos de tão curta duração, por mais numerosa que seja, seguramente será nulo. Resta então encontrar rotas cientificamente embasadas que pudesse levar a danos aos seres humanos ou a animais urbanos diretamente causados pelos mosquitos transgênicos nos seus poucos dias de vida pela cidade.
Ora, se o mosquito transgênico (macho) nem sequer pica o homem ou qualquer outro animal, não há rota ao dano possível exceto se ele for ingerido. Acontece que os animais que comem insetos comem uma variedade deles e seria muito pouco provável que ingerissem uma quantidade importante dos insetos liberados para controlar a população de insetos, e não para engordar sapos. Mesmo assim, podemos considerar que o primeiro passo de uma rota ao dano a animais insetívoros pode existir, isto é, a ingestão mesma de alguns mosquitos ao longo da semana de liberação controle. Qual é o próximo passo? Mostrar que os mosquitos são tóxicos para estes insetívoros. Mas o que têm de novo estes mosquitos? Duas proteínas que estão fartamente estudadas quanto à toxicidade, sabendo-se que é nula nas doses que os insetívoros poderiam ingerir. Aqui acaba nossa rota ao dano, concluindo-se que não é possível um dano. Mesmo assim, pode-se fazer experimentos com insetívoros (e foram feitos!); conclusão: não houve danos. Logo, para o único objeto de proteção que é real (seja ele um sapo, uma perereca,uma lagartixa, um morcego ou outro insetívoro urbano, que tem uma valoração muito relativa pela população...) não há danos. Então, o mosquito transgênico NÃO APRESENTA RISCOS à saúde humana, animal ou ao ambiente diferente daqueles representados pelos mosquitos não transgênicos.
Poder-se-ia argumentar: esta é a situação ideal; mas se nem todos os mosquitos morrerem? E se fêmeas forem liberadas? E se os mosquitos cruzarem com outra espécie e o transgene letal não funcionar nela?
Vamos agora analisar cada uma destas hipóteses.
De fato, nem todos os mosquitos morrem: perto de 5% sobrevivem, mesmo sem tetraciclina. O que ocorre com eles? Vão procriar e talvez morrer de velhos (em 40 dias), mas vão ter crias. Suponhamos que as crias também sobrevivam na taxa de 5%, e as crias das crias também, e assim por diante. Esta população de insetos transgênicos vai crescer e se perpetuar? De jeito nenhum! Os mosquitos selvagens estão se reproduzindo na mesma área, com uma sobrevivência muito maior. A população dos transgênicos será superada e desaparecerá rapidamente no local. É assim que funciona a Natureza, desde que o Mundo é Mundo, isto é, desde que o primeiro progenoto apareceu na casca da Terra.

E se houvesse mais tetraciclina no ambiente do que se imagina? Afinal, cada lugar tem sua particularidade... Deve-se lembrar que tetraciclina era um antibiótico usado em criação intensiva de animais. Estas criações são muito raras em áreas urbanas e, além disso 
a) o descarte dos efluentes sem tratamento é incomum no caso deste tipo de agroindústria.
b) , o A. aegypti prefere águas mais limpas para a oviposição. Se, por um enorme acaso, uma fêmea que cruzou com um macho transgênico botasse seus ovos numa água com muita tetraciclina, é altamente improvável que sua prole escolhesse o mesmo local para ovipor, pois a troca de locais de postura é uma das características do A. aegypti
c) Além disso, neste mesmo local os mosquitos selvagens também podem fazer posturas... 
d) o mais importante: Desde 2009 a Instrução Normativa SDA no. 26 (MAPA) proíbe o uso de tetraciclina como aditivo alimentar para a criação do que quer que seja no país.!!! Assim, o antibiótico só será usado para o tratamento de alguma infecção. Além disso, a droga é rapidamente metabolizada e muito instável no ambiente. 

Por isso, mesmo sem construir uma rota ao dano formal, vê-se facilmente: a preocupação de que a tetraciclina ambiental pudesse manter viva uma população de mosquitos transgênicas, mesmo pequena, é desprovida de base científica.

Neste pequeno período em que os mosquitos transgênicos que escapam da morte estiverem voando na cidade, o que pode acontecer? Se forem comidos, o assunto já está discutido e concluímos que não há dano. E se picarem pessoas? Procuremos formar uma rota ao dano para este caso. Como a picada do mosquito pode fazer mal a uma pessoa ou a um animal (não considerando a transmissão de alguma doença, porque neste caso não há diferença entre os mosquitos transgênicos e os selvagens)? Pode provocar alergia. De fato, muita gente é alérgica à saliva do mosquito. Então, a pergunta é? Seria a saliva do mosquito (fêmea) transgênico mais alergênica que a do selvagem? Que dano adviria desta nova composição da saliva?

O primeiro passo da rota que leva da presença do mosquito fêmea transgênico ao dano (isto é, uma reação alérgica) é real, embora com baixa probabilidade: alguém ser picado por ele. O segundo passo é: a saliva tem alguma proteína nova alergênica? As duas únicas proteínas novas foram avaliadas quanto ao seu potencial alergênico, concluindo-se que não têm este potencial. Além disso, elas não parecem ser expressas na glândula salivar.  Portanto, a rota ao dano se interrompe no segundo passo e não haverá dano algum, além daquele observado no caso das picadas de mosquitos selvagens.

Resta saber o que aconteceria se o transgene passasse para uma espécie sexualmente compatível. Acontece que esta espécie não existe: mesmo o A. albopictus, um mosquito de hábitos semi-silvestres, que divide áreas de transição silvestre/ rural (ecótonos) com o A.aegypti, não cruza com ele. Então, esta hipótese é nula.

Mas ainda que o transgene passasse ao A. albopictus, este seria morto pela expressão da proteína letal. E ainda que isso não acontecesse, qual seria o problema da população de mosquitos levar os transgenes, uma vez que sua expressão em proteínas não é danosa ao homem nem aos animais? Aliás, a mesma pergunta poderia ser feita para o escape de qualquer transgene cuja expressão não leva a danos: não é presença do transgene que é um dano, mas sua expressão, quando trouxer algum impacto ao ambiente ou à saúde.

De fato, no entendimento da CTNBio, como agência de risco, a introdução pelo homem de alterações genéticas – velha como a agricultura – não é um risco em si mesmo: sua expressão é que pode representar risco. Não havendo risco na expressão dos novos genes, a presença deles em si NÃO é danosa.

Assim, em menos de 6000 palavras (ou duas páginas ofício em espaço 1), fomos capazes de demonstrar que não há riscos reais para os objetos de proteção. Foi, na verdade, muito fácil, porque os insetos não sobrevivem numa taxa que pudesse garantir sua perpetuação: é evidente que os riscos sempre tendem a crescer se os agentes de risco (neste caso, os mosquitos GM) estiverem presentes por longo tempo em grande número numa grande área, o que definitivamente não é o caso aqui.

Folie furieuse
De volta ao parecer de vistas, vale perguntar: que questões de risco foram tratadas? Essencialmente apenas uma: a sobrevivência de uma parcela dos insetos liberados e de sua prole. Como vimos acima, isso não representa risco algum.

E em que mais se estendeu o parecer? Pasmem, a maior parte da explanação foi para mostrar ao público presente (membros e assessores da CTNBio, representantes de empresas e ONGs e curiosos) que a eliminação do A. aegypti poderia trazer problemas muito maiores ao país do que sua presença!  Mas como??? De onde saiu o longo texto lido na planária da CTNBio, carregado de tanta tolice? De um hospício?

Pois é: Segundo o argumento do relator, se eliminarmos o A. aegypti abriremos espaço para outros vetores da mesma doença (o A. albopictus, que está espalhado na periferia das cidades e em áreas com mais cobertura vegetal, é o candidato a tomar conta da casa vazia) ou ainda trocar a dengue por coisa pior, como a chikungunya). Então, queridos 3 ou 4 leitores que me acompanham, o nosso pesquisador propôs que não se elimine o mosquito, deixando de combater o certo por medo de uma ameaça duvidosa.

Será que isso tem fundamento? Quando o Triatoma infestans, vetor da doença de Chagas, foi erradicado do Brasil, o espaço deixado vago nas casas NUNCA foi ocupado por qualquer uma das mais de 100 espécies de barbeiros que vadeiam pela Pindorama. Quando nossos corpinhos ficaram livres do vírus da varíola, nem por isso outros vírus, piores ou melhores, tomaram-lhe o espaço vago.
É uma tremenda bobagem imaginar que o A. albopictus, que prefere se reproduzir em ocos de árvores e outros ambientes silvestres, vá agora ovipor nas nossas latas velhas, caixas d´água e outros ambientes propícios ao A. aegypti. A espécie está aqui desde 1986 e nunca invadiu os habitats do A. aegypti mesmo onde as densidades dele eram baixas. A situação é exatamente igual à do Triaoma infestans, que era altamente domiciliado: o ambiente deixado livre nunca pode ser preenchido pelos outros barbeiros porque eles não têm hábito de morar com o homem. 
Independentemente da possibilidade desta troca de guarda de mosquitos ser real ou não, é completamente absurdo dizer que não devemos eliminar o A. aegypti, um seríssimo problema de saúde pública, por causa de uma hipótese pouco provável e cujas consequências são por demais discutíveis.

É exatamente o caso de um caçador que hesita em atirar num leão que o ameaça numa trilha na floresta porque, atrás dele, pode vir um rinoceronte furioso, contra o qual ele não tem balas que prestem.  A presença do leão é real, mas do rinoceronte só se conhecem histórias. O que você faria no lugar do precavido caçador?

Só pode dizer uma coisa destas quem não tem compreensão da avaliação de riscos e despreza seus cidadãos, colocando seu ideário à frente das questões de seu povo. Não causa espanto também saber que uma parte dos que se opõem a esta tecnologia mora na Europa ou vive em outras áreas frias do globo, onde a dengue não existe ou causa poucos problemas. Começo a gostar do aquecimento global!


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Mosquito transgênico para controle da dengue aprovado pela CTNBio

Brasília, 10 de abril de 2014

Hoje pela manhã em reunião Plenária, a CTNbio aprovou o pedido de liberação comercial de uma variedade transgênica de Aedes aegypti (o mosquito transmissor do vírus da dengue e de um novo virus, Chikungunya), desenvolvido pela empresa britânica Oxitec. O A. aegypti OX513a carrega um gene de letalidade condicional, que é ativado na ausência de tetraciclina. Os machos, separados das fêmeas ainda em estado de pupa, podem ser produzidos em biofábrica em enormes quantidades, sendo em seguida liberados no ambiente. Para detalhes ver http://br.oxitec.com/ .

A votação nominal na Plenária teve como resultado 16 votos favoráveis (sendo um condicional) e um contra.

Antes da votação o parecer de vistas do processo foi lido. O membro relator argumentou pela diligência do processo por várias falhas que, ao seu ver, impediam uma conclusão segura do parecer. O argumento principal foi de que a eliminação do A. aegypti, de forma rápida e extensa, abriria espaço para a recolonização do espaço por outro mosquito, como o Aedes albopictus. Seu parecer foi amplamente rechaçado pela Comissão.

Também antes da votação alguns membros sugeriram uma audiência pública de instrução, que foi rechaçada por 11 votos contra 4.

A discussão imediatamente antes da votação versou menos sobre os riscos diretos do mosquito à saúde humana e animal e ao meio ambiente e derivou para aspectos de benefícios à tecnologia. Esta divergência refletiu o consenso da CTNBio quanto à segurança do produto e à premência de novas técnicas para o controle do vetor da dengue. A discussão também refletiu a segurança da CTNBio sobre o potencial da tecnologia na redução de populações de A. aegypti, sem riscos de recrudescimento de outras doenças, parecimento de novas endemias ou substituição do mosquito vetor, em completa oposição ao ponto de vista isolado do membro relator do pedido de vistas. Uma discussão detalhada do ponto de vista do relator está disponível em http://genpeace.blogspot.com.br/2014/04/mosquito-transgenico-para-controle-da_12.html

Com estes resultados,a CTNBio abre ao país a possibilidade de empregar um mosquito transgênico para o controle da dengue. A liberação comercial deste mosquito é, também, a primeira liberação comercial de um inseto transgênico no Mundo. O Brasil, usando uma legislação eficiência e séria na avaliação de risco de organismos geneticamente modificados, dá um exemplo de seriedade e maturidade tanto aos países que já fazem avaliação de risco de OGMs, como àqueles que ainda vacilam em ingressar no uso desta tecnologia.

sábado, 15 de março de 2014

A CTNBio não decide diferente dos demais países que fazem avaliação de risco de transgênicos

Uma crítica que sempre se vê pela internet é a de que a CTNBio é irresponsável e que aprova no Brasil plantas transgênicas e outros OGMs que não foram aprovados nos países “sérios”. O corolário desta afirmação, que é completamente falsa, é obvio: o Brasil seria um campo de testes e os brasileiros, cobaias. Mas será assim?

Observemos o que está aprovado no Brasil. No banco de dados do CERA (http://cera-gmc.org/) constam 24 plantas transgênicas aprovadas no Brasil (há mais algumas no portal da CTNBio (www.ctnbio.gov.br), mas sempre soja, algodão e milho):
·         Quatro variedades de soja (duas da Bayer tolerantes ao herbicida glufosinato de amônio, uma da Basf, tolerante à imidazolinona e uma da Monsanto tolerante ao glifosato)
·         Sete variedades de algodão (Uma da Dow tolerante a insetos, duas da Bayer tolerantes a glifosato e quatro da Monsanto tolerantes a herbicida e/ou resistentes a insetos)
·         Treze  variedades de milho (cinco da Syngenta tolerantes a um herbicida e/ou resistente a insetos praga, quatro da Monsanto resistentes a insetos e/ou tolerantes a herbicidas,  uma da Bayer tolerante a herbicida e três da Pioneer e da Dow tolerantes a herbicida e resistentes a insetos).

Será que só nós, pobre tupiniquins, guiados pelos irresponsáveis professores e pesquisadores que sentam na CTNBio, aprovamos estes “venenos”? Ou talvez mais alguns países subdesenvolvidos, talvez ditaduras, tenham também aprovado, à revelia da segurança de seu povo?  Mas claro, nenhum país responsável faria isso...

Pois senão vejamos. Tomemos como exemplo dois milhos badalados, o NK603 e o TC1507. Observemos as tabelas abaixo, que mostram os países que os aprovaram, seja para plantio ou apenas para consumo (como alimento ou ração).

Tabela I. Países que aprovaram o milho NK603 (resistente a insetos), de acordo com o CERA database

País
Plantio
Alimento ou ração
Alimento
Ração

2004
2004

2002

2008
2008

2001
2001
2001

2005

2004

2009

União Europeia
2004
2004

2001
2001
2001

2002
2004

2002

2005
2003

2002
2002

2003

2000
2000

2011
2011

Tabela II. Países que aprovaram o milho TC1507 (resistente a insetos e tolerante a glufosinato de amônio), de acordo com o CERA database
País
Plantio
Alimento ou ração
Alimento
Ração

2005
2005

2003

2008
2008

2002
2002
2002

2004

2006

2009

2006
2005

2002
2002
2002

2002
2004

2003

2003
2003

2002

2003

2001
2001

2011
2011


Voilá! Estamos em companhia de países bárbaros e dominados por ditaduras sanguinárias ou somos parceiros de países sérios? Uma leitura rápida das duas tabelas mostra que os principais países e uniões do Mundo estão na lista dos que aprovaram estes dois milhos. O primeiro, entretanto, foi motivo de um estudo amalucado do Séralini e sua trupe (vejam http://genpeace.blogspot.com.br/2013/11/sepultando-um-zumbi-o-artigo-cientifico.html) e o segundo está no meio de uma polêmica na Europa entre a França e mais outros países e a União Europeia (http://genpeace.blogspot.com.br/2014/02/ao-desamparo-da-lei-oposicao-francesa.html) . A polêmica sobre estes milhos, completamente esvaziada de ciência, mas entupida de política, é o que leva uma parte dos “ecossocialistas” a condenar a biotecnologia agrícola. Seguramente, se observarmos que nas duas tabelas estão o Canadá, a Austrália, os EUA, a União Europeia e o Japão, é completamente disparatado dizer que a CTNBio está fazendo os brasileiros de cobaias, ao revés do resto do Mundo. É evidente que, na lista, estão os maiores produtores de grãos do Mundo. Por conseguinte, o Mundo está comendo milho transgênico, seja bicho ou gente. Então, como é que os oncologistas (inclusive os veterinários) não estão milionários tratando de uma legião de gente e bicho com câncer? Bom, a resposta é óbvia, mas os que se opõem aos transgênicos nunca a aceitam...

Ainda bem que a CTNBio está em boa companhia. Assim, ao menos teremos um consolo como ex-membros: quando os brasileiros forem extintos pelo consumo de transgênicos, o resto do Mundo vai junto, inclusive os poderosos. Sobrarão os franceses para repovoar a terra...