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domingo, 29 de março de 2015

Revisitando a avaliação de risco do mosquito “do bem”: como a maior parte dos perigos percebidos pode ser descartada e os perigos restantes terem seu risco avaliado.


A sinopse da história é a seguinte: os mosquitos transgênicos (Aedes aegypti, transmissores do vírus da dengue e de outras enfermidades) carregam um gene de letalidade condicional, isto é, morrem se não puderem beber água com uma quantidade importante de tetraciclina. O antibiótico é fornecido a eles na “biofábrica”, mas não está disponível na Natureza, uma vez que este antibiótico é artificial. No processo de produção dos insetos, as pupas de machos podem ser separadas das fêmeas e só machos serão depois liberados, nas campanhas de controle. Os machos cruzam com as fêmeas na área de liberação, morrem depois de alguns dias e toda a sua prole também morre, antes mesmo de sua metamorfose para adultos alados. Isto leva a uma redução drástica da população do mosquito e também impede o “escape” dos transgenes para a população selvagem de Aedes aegypti. Como só machos são liberados, os seres humanos não interagem efetivamente com estes mosquitos transgênicos liberados.
Se tudo funcionar exatamente como está descrito acima, quais os riscos?

Muito bem, o que queremos proteger no ambiente urbano onde vivem os A. aegypti e onde serão liberados os mosquitos transgênicos? Os alvos de proteção são o ser humano e seus animais de criação e companhia e alguns animais silvestres urbanos valorados (sabiás, por exemplo, mas seguramente não ratos ou baratas). Não faz sentido dizer que queremos preservar um ecossistema que pudesse ser destruído pela presença transitória do mosquito transgênico, porque o impacto de uma população de mosquitos de tão curta duração, por mais numerosa que seja, seguramente será nulo. Resta então encontrar rotas cientificamente embasadas que pudesse levar a danos aos seres humanos ou a animais urbanos diretamente causados pelos mosquitos transgênicos nos seus poucos dias de vida pela cidade.

Ora, se o mosquito transgênico (macho) nem sequer pica o homem ou qualquer outro animal, não há rota ao dano possível exceto se ele for ingerido. Acontece que os animais que comem insetos comem uma variedade deles e seria muito pouco provável que ingerissem uma quantidade importante dos insetos liberados para controlar a população de insetos, e não para engordar sapos. Mesmo assim, podemos considerar que o primeiro passo de uma rota ao dano a animais insetívoros pode existir, isto é, a ingestão mesma de alguns mosquitos ao longo da semana de liberação controle.

Qual é o próximo passo? Mostrar que os mosquitos são tóxicos para estes insetívoros. Mas o que têm de novo estes mosquitos? Duas proteínas que estão fartamente estudadas quanto à toxicidade, sabendo-se que é nula nas doses que os insetívoros poderiam ingerir. Aqui acaba nossa rota ao dano, concluindo-se que não é possível um dano. Mesmo assim, pode-se fazer experimentos com insetívoros (e foram feitos!); conclusão: não houve danos. Logo, para o único objeto de proteção que é real (seja ele um sapo, uma perereca,uma lagartixa, um morcego ou outro insetívoro urbano, que tem uma valoração muito relativa pela população...) não há danos. Então, o mosquito transgênico NÃO APRESENTA RISCOS à saúde humana, animal ou ao ambiente diferente daqueles representados pelos mosquitos não transgênicos.

E se nem tudo funcionar “como manda o figurino”?

Poder-se-ia argumentar: esta é a situação ideal; mas se nem todos os mosquitos morrerem? E se fêmeas forem liberadas? E se os mosquitos cruzarem com outra espécie e o transgene letal não funcionar nela?

Vamos agora analisar cada uma destas hipóteses.

De fato, nem todos os mosquitos morrem: até uns 5% sobrevivem, mesmo sem tetraciclina. O que ocorre com eles? Vão procriar e talvez morrer de velhos (em 40 dias), mas vão ter crias. Suponhamos que as crias também sobrevivam na taxa de 5%, e as crias das crias também, e assim por diante. Esta população de insetos transgênicos vai crescer e se perpetuar? De jeito nenhum! Os mosquitos selvagens estão se reproduzindo na mesma área, com uma sobrevivência muito maior. A população dos transgênicos será superada e desaparecerá rapidamente no local. É assim que funciona a Natureza, desde que o Mundo é Mundo, isto é, desde que o primeiro progenoto apareceu na casca da Terra.

E se houvesse mais tetraciclina no ambiente do que se imagina? Afinal, cada lugar tem sua particularidade... Deve-se lembrar que tetraciclina era um antibiótico usado em criação intensiva de animais. Estas criações são muito raras em áreas urbanas e, além disso: 
a) o descarte dos efluentes sem tratamento é incomum no caso deste tipo de agroindústria.
b) o A. aegypti prefere águas mais limpas para a oviposição. Se, por um enorme acaso, uma fêmea que cruzou com um macho transgênico botasse seus ovos numa água com muita tetraciclina, é altamente improvável que sua prole escolhesse o mesmo local para ovipor, pois a troca de locais de postura é uma das características do A. aegypti
c) Além disso, neste mesmo local os mosquitos selvagens (“do mal”) também podem fazer posturas... e competir com os transgênicos.
d) o mais importante: desde 2009 a Instrução Normativa SDA no. 26 (MAPA) proíbe o uso de tetraciclina como aditivo alimentar para a criação do que quer que seja no país.!!! Assim, o antibiótico só será usado para o tratamento de alguma infecção. Além disso, a droga é rapidamente metabolizada e muito instável no ambiente. 

Por isso, mesmo sem construir uma rota ao dano formal, vê-se facilmente: a preocupação de que a tetraciclina ambiental pudesse manter viva uma população de mosquitos transgênicas, mesmo pequena, é desprovida de base científica.

Neste pequeno período em que os mosquitos transgênicos que escapam da morte estiverem voando na cidade, o que pode acontecer? Se forem comidos, o assunto já está discutido e concluímos que não há dano. E se picarem pessoas? Procuremos formar uma rota ao dano para este caso. Como a picada do mosquito pode fazer mal a uma pessoa ou a um animal (não considerando a transmissão de alguma doença, porque neste caso não há diferença entre os mosquitos transgênicos e os selvagens)? Pode provocar alergia. De fato, muita gente é alérgica à saliva do mosquito. Então, a pergunta é? Seria a saliva do mosquito (fêmea) transgênico mais alergênica que a do selvagem? Que dano adviria desta nova composição da saliva?

O primeiro passo da rota que leva da presença do mosquito fêmea transgênico ao dano (isto é, uma reação alérgica) é real, embora com baixa probabilidade: alguém ser picado por ele. O segundo passo é: a saliva tem alguma proteína nova alergênica? As duas únicas proteínas novas foram avaliadas quanto ao seu potencial alergênico, concluindo-se que não têm este potencial. Além disso, elas não parecem ser expressas na glândula salivar.  Portanto, a rota ao dano se interrompe no segundo passo e não haverá dano algum, além daquele observado no caso das picadas de mosquitos selvagens.

Resta saber o que aconteceria se o transgene passasse para uma espécie sexualmente compatível. Acontece que esta espécie não existe: mesmo o A. albopictus, um mosquito de hábitos semi-silvestres, que divide áreas de transição silvestre/ rural (ecótonos) com o A.aegypti, não cruza com ele. Então, esta hipótese é nula.

Mas ainda que o transgene passasse ao A. albopictus, este seria morto pela expressão da proteína letal. E ainda que isso não acontecesse, qual seria o problema da população de mosquitos levar os transgenes, uma vez que sua expressão em proteínas não é danosa ao homem nem aos animais? Aliás, a mesma pergunta poderia ser feita para o escape de qualquer transgene cuja expressão não leva a danos: não é presença do transgene que é um dano, mas sua expressão, quando trouxer algum impacto ao ambiente ou à saúde.

Por fim, o que aconteceria se uma fêmea do mosquito do bem picasse uma pessoa numa área endêmica ou epidêmica para dengue? Mesmo que as fêmeas piquem uma pessoa com vírus circulante, elas vão morrer muito antes do vírus poder fazer seu ciclo, escapando do trato digestivo, ganhando a hemolinfa e voltando à glândula salivar. Isso toma pelo menos duas semanas e as fêmeas morrem em menos de 10 dias! Portanto, não há risco de aumento da transmissão.

De fato, no entendimento da CTNBio, como agência de risco, a introdução pelo homem de alterações genéticas – velha como a agricultura – não é um risco em si mesmo: sua expressão é que pode representar risco. Não havendo risco na expressão dos novos genes, a presença deles em si NÃO é danosa.

Assim, em menos de 6000 palavras (ou duas páginas ofício em espaço 1), fomos capazes de demonstrar que não há riscos reais para os objetos de proteção. Foi, na verdade, muito fácil, porque os insetos não sobrevivem numa taxa que pudesse garantir sua perpetuação: é evidente que os riscos sempre tendem a crescer se os agentes de risco (neste caso, os mosquitos GM) estiverem presentes por longo tempo em grande número numa grande área, o que definitivamente não é o caso aqui.


Réplica ao parecer dado por pedido de vistas, lido na reunião plenária da CTNBio no dia 10 de abril de 2014

Ao final da reunião da Plenária da CTNBio de abril de 2014 foi aprovada a liberação comercial da variedade OX513a do Aedes aegypti, produzido epla empresa britânica Oxitec.

Logo antes da votação pela CTNBio da liberação comercial do mosquito transgênico um dos seus membros pediu vistas ao processo. Dificilmente se poderia deixar de ficar impressionado com a quantidade de informações distorcidas e argumentos sem base na ciência que foram por ele então trazidos à CTNBio.

Não interessam ao público e talvez nem mesmo aos membros da CTNBio as questões processuais, uma vez que elas são sempre detalhes menos importantes da questão principal. Quem quiser se aprofundar no rito e outras questões normativas deve ler a postagem sobre aaudiência pública em Piracicaba, um ano após a liberação comercial pela CTNBio. Na audiência o Dr. Kageyama levantou pela n-ésima vez esta bola - http://genpeace.blogspot.com.br/2015/03/audiencia-publica-em-piracicaba-para.html

Afinal, qual será sempre a questão principal na CTNBio? Resposta: Há riscos na liberação destes mosquitos ou não? Se há, quais são?

Foi por isso que me fixei nesta questão, que é o hardcore da avaliação de risco, e expliquei o passoa passo e as conclusões da CTNBio acima.

De volta ao parecer de vistas apresentados pelos Dr. Andriolli e Melgarejo, vale perguntar: que questões de risco foram tratadas? Essencialmente apenas uma: a sobrevivência de uma parcela dos insetos liberados e de sua prole. Como vimos acima, isso não representa risco algum.

E em que mais se estendeu o parecer? Pasmem, a maior parte da explanação foi para mostrar ao público presente (membros e assessores da CTNBio, representantes de empresas e ONGs e curiosos) que a eliminação do A. aegypti poderia trazer problemas muito maiores ao país do que sua presença!  Mas como??? De onde saiu o longo texto lido na planária da CTNBio, carregado de tanta tolice? De um hospício?

Pois é: Segundo o argumento dos relatores, se eliminarmos o A. aegypti abriremos espaço para outros vetores da mesma doença (o A. albopictus, que está espalhado na periferia das cidades e em áreas com mais cobertura vegetal, é o candidato a tomar conta da casa vazia) ou ainda trocar a dengue por coisa pior, como a chikungunya). Então, queridos 3 ou 4 leitores que me acompanham, o nosso pesquisador propôs que não se elimine o mosquito, deixando de combater o certo por medo de uma ameaça duvidosa.

Será que isso tem fundamento? Quando o Triatoma infestans, vetor da doença de Chagas, foi erradicado do Brasil, o espaço deixado vago nas casas NUNCA foi ocupado por qualquer uma das mais de 100 espécies de barbeiros que vadeiam pela Pindorama. Quando nossos corpinhos ficaram livres do vírus da varíola, nem por isso outros vírus, piores ou melhores, tomaram-lhe o espaço vago.

É uma tremenda bobagem imaginar que o A. albopictus, que prefere se reproduzir em ocos de árvores e outros ambientes silvestres, vá agora ovipor nas nossas latas velhas, caixas d´água e outros ambientes propícios ao A. aegypti. A espécie está aqui desde 1986 e nunca invadiu os habitats do A. aegypti mesmo onde as densidades dele eram baixas. A situação é exatamente igual à do Triaoma infestans, que era altamente domiciliado: o ambiente deixado livre nunca pode ser preenchido pelos outros barbeiros porque eles não têm hábito de morar com o homem. 

Independentemente da possibilidade desta troca de guarda de mosquitos ser real ou não, é completamente absurdo dizer que não devemos eliminar o A. aegypti, um seríssimo problema de saúde pública, por causa de uma hipótese pouco provável e cujas consequências são por demais discutíveis.

É exatamente o caso de um caçador que hesita em atirar num leão que o ameaça numa trilha na floresta porque, atrás dele, pode vir um rinoceronte furioso, contra o qual ele não tem balas que prestem.  A presença do leão é real, mas do rinoceronte só se conhecem histórias. O que você faria no lugar do precavido caçador?

Só pode dizer uma coisa destas quem não tem compreensão da avaliação de riscos e despreza seus cidadãos, colocando seu ideário à frente das questões de seu povo. Não causa espanto também saber que uma parte dos que se opõem a esta tecnologia mora na Europa ou vive em outras áreas frias do globo, onde a dengue não existe ou causa poucos problemas. Começo a gostar do aquecimento global!



domingo, 15 de março de 2015

Professor esclarece características do eucalipto transgênico

15/03/2015

[GenPeace] Segundo o Prof. Hilton Thadeu Zarate Couto, membro da CTNBio e relator do parecer consolidado das setoriais ambiental/vegetal da CTNBio sobre o eucalipto transgênico H421, as criticas aos impactos econômicos da variedade de eucalipto H421 e à avaliação de risco merecem reparos.

No dia 5 de março, cerca de mil mulheres militantes do MST ocuparam um centro de pesquisa da empresa Futuragene, em Itapetininga (SP), destruindo um importante banco genético. Um trabalho de nove anos e todo o investimento acabou sendo perdido, em protesto contra o cultivo de eucaliptos transgênicos no Brasil. Ao mesmo tempo, em Brasília, aproximadamente 200 pessoas invadiram a reunião da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), da qual Hilton Thadeu Zarate Couto, professor do Departamento de Ciências Florestais, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/Esalq), é membro.

No encontro, discutia-se a liberação do eucalipto transgênico desenvolvido pela Futuragene, processo do qual Hilton Thadeu é relator. “A CTNBio é uma comissão composta de 27 membros, pesquisadores de várias instituições do Brasil, representantes da sociedade civil e ministérios. As reuniões têm como objetivo avaliar os processos de produção de material transgênico e, após a liberação, a Comissão estabelece normas de acompanhamento”, explica Couto.

Segundo o docente, a questão do eucalipto transgênico, que tem sido criticada, principalmente por organizações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e merece alguns esclarecimentos. “A empresa terá que fornecer informações do que está acontecendo com esse material e onde ele está sendo plantado, até a liberação total. O material e o ambiente de plantio serão também monitorados por cerca de cinco anos e, durante esse período, a sugestão da CTNBio é que não se plante mais do que 2 ou 3% da área de efetivo plantio da empresa para termos a certeza de que ele não trará nenhum problema ao ambiente”, complementa.

Em relação à falta de água, que é apontada como consequência da plantação deste eucalipto, o professor da Esalq afirma que, ao contrário do que as pessoas dizem, ele não some com a água. “Em seu ciclo, ele faz com que a água vá para a atmosfera e, com as chuvas, para os rios, abastecendo os mananciais. A crise hídrica não é, com certeza, resultado do plantio de eucalipto”.

Outro ponto refutado pelo professor Hilton Thadeu é o argumento do fluxo gênico. “As organizações contrárias afirmam, de forma incorreta, que o pólen do eucalipto transgênico pode percorrer longas distâncias e contaminar outros eucaliptos. No entanto, estudos comprovaram que, a partir de 600 m de distância, não existe mais possibilidade de transmissão. Além disso, ocorre que hoje, no Brasil, 99% dos plantios não são por semente. Não se colhe a semente para plantar eucalipto. Plantamos clones, ou seja, materiais que não são oriundos de sementes, mas sim de propagação vegetativa. Então não justificaria esse argumento de que vamos usar a semente do eucalipto que pode estar contaminada com o pólen transgênico”, reforça. “Se quisermos que não haja contaminação, basta não plantar o transgênico a menos de 600 m dos eucaliptos não transgênicos”.

Thadeu contou que há também a opinião de que a proteína contida no eucalipto transgênico pode causar efeitos maléficos ao organismo humano e explicou a situação. “Existem duas proteínas na produção do transgênico, a Cel1, que tem por função alongar a parede celular, aumentando o crescimento das plantas, mas que realiza sua função e desaparece, e a NPT II, que caracteriza a planta como transgênica, permanece na planta e é muito conhecida por aparecer no algodão, no milho e na soja, por exemplo. Há um estudo (FUCHS et al, de 1993) que avaliou essa proteína e mostra que ela é rapidamente degradada quando entra no trato digestivo de mamíferos, como os humanos. E a agência de proteção ambiental e o ministério de agricultura dos EUA consideram a NPTII segura para consumo humano. Além disso, é encontrada em quantidades muito pequenas”, explicou.

A presença da proteína NPTII é apontada pelos grupos que combatem o eucalipto transgênico como contaminante do mel, fazendo com que o Brasil perca competitividade na exportação e produção do produto. De acordo com o profissional, a quantidade de material transgênico no mel depende da quantidade de pólen que ele tem, porque é o único elemento que pode conter material transgênico, trazido com o néctar pelas abelhas. “Mas a exigência da exportação é que o mel seja filtrado para retirar as impurezas, como pernas de abelha, resíduos de própolis e uma série de contaminantes. Ao filtrar, o pólen e o material transgênico são retirados ou se deixa uma quantidade muito pequena, como por exemplo, de 3,9 nanogramas por grama de mel.” Em relação ao mel orgânico, que também poderia ser afetado, Thadeu afirmou que existe um instituto denominado Instituto Biodinâmico, localizado em Botucatu (SP), que permite até 5% de material não-orgânico no mel orgânico. “Mas, ainda assim, o NPTII se degrada no trato intestinal, não causando danos ao organismo humano”.

Além disso, o Conselho de Manejo Florestal (FSC), que certifica plantações florestais no mundo todo, ainda não aprovou a certificação de material transgênico no Brasil, e esse é um dos motivos que faz com que os manifestantes refutem a liberação do plantio e comercialização do eucalipto transgênico.

“A maioria dos membros desse órgão é de pessoas oriundas de países que tem uma economia dependente da produção florestal e que competem com o Brasil, que tem como produtividade média 40m3/ha/ano nas plantações de eucaliptos. Além disso, o órgão é financiado por doações, as quais não são declaradas as fontes. Pode ser que receba de organismos que protegem suas produções florestais, dessas regiões que dependem muito disso e que tem produtividade inferior à nossa. Agora, sem nenhuma justificativa, são contra o plantio de material transgênico. Acredito que seja porque é um outro patamar para o desenvolvimento florestal brasileiro, que tem agora o primeiro eucalipto transgênico do mundo”.

Segundo o professor, a certificação é importante, pois abre mercados internacionais e dá mais reconhecimento ao produto exportado, mas não é uma preocupação latente no momento. “O selo de certificação é exigido apenas por alguns nichos específicos de mercado, como a Alemanha. Mas a empresa não vai produzir 100% de transgênico já, e sim 2 ou 3%. É um processo lento e ainda não há produção, só plantios experimentais”.

A CTNBio dará continuidade a suas ações, com o apoio do Ministério de Ciência e Tecnologia. Se acontecer, a liberação plantios comerciais do eucalipto transgênico será apenas para a empresa, que produziu o primeiro transgênico de eucalipto e está desenvolvendo-a desde 2006. Se outra empresa desenvolver novos transgênicos, outro processo será aberto.


[GenPeace] Para uma avaliação completa dos riscos do eucalipto, em linguagem acessível ao público geral, leia http://genpeace.blogspot.com.br/2015/02/avaliacao-de-risco-do-eucalipto.html

domingo, 8 de março de 2015

O TERRORISMO DO MST ATRASA A CIENCIA BRASILEIRA

 Luiz Antonio Barreto de Castro*

Acompanho a Biotecnologia desde a primeira experiência bem sucedida de Herbert Boyer, que expressou o gene de insulina em Escherichia coli. Isto aconteceu na California em 1973 há quarenta e dois anos atrás, portanto. A minha experiência em ciência data de 1962, quando conclui meu curso de Agronomia na Universidade Rural do Rio de Janeiro. Portanto mais de meio século. Nestes mais de cinquenta anos a agricultura utilizou, a partir da Segunda Guerra Mundial, com o advento do DDT centenas de milhares de toneladas de agrotóxicos clorados, matou milhares de pessoas e não conseguiu controlar as pragas que ainda assolam nossas lavouras. Curiosamente os que invadiram a FuturaGene e a CTNBIO nunca reagiram. Estão conformados com este contexto, como se o envenenamento por agrotóxico fosse aceitável, inevitável, quase desejável. Mais de setenta anos de envenenamento por agrotóxicos não provocam nestas pessoas nenhuma reação. Se quiserem números visitem o SINITOX da FIOCRUZ. Em 2011 houve 5072 casos de intoxicações por agrotóxicos de uso agrícola no País e 2298 tentativas de suicídio pela ingestão destes produtos. Se considerarmos os agrotóxicos de um modo geral, não só os de uso agrícola, mas também os de uso doméstico, produtos veterinários e raticidas, o numero de intoxicações se eleva para 11.196 e as tentativas de suicídio chegam a 4591.  Centenas de pessoas morrem todos os anos, grande parte por suicídio, sem que ninguém, repito, ninguém meta um pé na porta para coibir esta desgraça. Na minha historia profissional assisti a defesa da energia nuclear como se fosse uma excelente tecnologia para a agricultura embora esta tecnologia não tenha produzido nenhum resultado relevante. Até hoje só vi um tecnologia ser proibida por um Juiz incompetente: a engenharia genética, por sete anos. Há que se perguntar o que motiva os terroristas do MST a invadir campos experimentais e impedir a ciência de mostrar seus resultados, apontando caminhos, favoráveis ou não. Quais são as vitimas da engenharia genética? Quantos morreram? Porque lavouras de feijão resistentes a mosaico dourado, que protegem os pequenos produtores e tiram os agrotóxicos de suas mãos, demoraram tanto para serem aprovadas na CTNBio? Porque plantas que reduzem o uso de inseticidas não são adotadas mais depressa na CTNBIO? Enquanto isto, lamento ter que dizer que o Brasil lidera o comercio internacional de agrotóxicos. Quando me formei ele estava em oitavo lugar. Lamento também ter que dizer que os que coíbem a Biotecnologia fortalecem o uso de agrotóxicos no Brasil. Ganhamos a liderança no exercício de uma tecnologia que mata todos os dias e não reduz pragas e doenças. Um caminho que custa bilhões aos produtores e sucumbe a cada nova lagarta que aparece. Leio a revista Science há mais de quarenta anos. Devo admitir que os agrotóxicos hoje são melhores do que no passado, mas continuam tóxicos. Continuam os suicídios. É uma tecnologia ultrapassada, como será a engenharia genética em uma década. O Brasil investe 20 bilhões de dólares em C&T, os Estados Unidos investem 400 bilhões de dólares, números da Science. Pode se argumentar que o PIB americano é muito maior do que o brasileiro. É mesmo, oito vezes maior. Não é vinte vezes maior. Portanto falta dinheiro para a ciência brasileira. Dinheiro que o MST rasgou. Mais de uma década de investimento. Este fato não é singular. Outras corporações foram invadidas porque investiram em engenharia genética . Quais foram a consequências? Nenhuma. Alguém foi preso? Ninguém. Alguém será preso desta vez? Ninguém. Ser terrorista no Brasil é uma profissão de grande sucesso. Um torcedor de futebol que transgrida a lei recebe uma punição maior do que um terrorista do MST. Concluo que futebol é prioridade maior no Brasil do que ciência, como afirmei no meu livro: Historia da Ciência que eu Vivi.  Ganhe dinheiro para ser vândalo com garantia de que não será preso.  O MST está acima do bem e do mal. Apesar de tudo a agricultura brasileira produziu 200 milhões de toneladas de grãos nesta safra e o Brasil é o segundo maior produtor de plantas geneticamente modificadas no mundo. Fica somente atrás dos Estados Unidos. Imaginem se o vandalismo fosse coibido.
                               
*Presidente da Sociedade Brasileira de Biotecnologia



[GenPeace] Ainda que a gente possa compreender que as invasões fazem parte de um ativismo mais agressivo e que podem, em muitos casos, ser justificadas, e ainda que se possa de forma geral simpatizar e até apoiar um movimento que luta por uma distribuição mais justa de terras, isso não valida automaticamente qualquer ação das entidades que levam esta bandeira. No caso específico do MST e sua oposição aos transgênicos, o que se vê é uma extrapolação grave de sua missão original, que era lutar pela melhor distribuição de terras. Ser contra os transgênicos sem ser contra absolutamente todo o agronegócio é absurdo e vender a luta contra os transgênicos como se fosse a mais refinada forma de luta contra o modelo do agronegócio é vender uma farsa. Aqui o Movimento abraça a questão do capital estrangeiro, sem pensar que os beneficiados pela tecnologia somos todos nós. É inútil adentrar nesta discussão, porque o viés ideológico é potente e dispersa qualquer tentativa de ser razoável.

Quanto à questão dos agrotóxicos, concordo que o problema é grave e lembro que o MST abraça a luta contra os agrotóxicos, ainda que esta causa seja relativamente recente (ao menos na intensidade atual). 


sexta-feira, 6 de março de 2015

SBPC repudia invasão e agressão à CTNBio - MCT se posiciona

Em manifesto entidade afirma que ato representa uma ameaça ao estado de direito. Posição do MCTI ao final do texto

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) considera inaceitável e repudia veementemente a invasão ocorrida ontem (dia 5 de março de 2015) na reunião da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) em Brasília. Mais ainda, os atos de agressão e ameaças contra os pesquisadores que analisavam processos em andamento, inclusive de nova modalidade de eucalipto transgênico, ferem o estado de direito e representam a expressão mais atrasada de posicionamentos baseados em ideologias políticas ao arrepio do conhecimento científico.

Ao mesmo tempo mulheres ligadas ao mesmo movimento invadiram e depredaram instalações da empresa FuturaGene, em Itapetininga (SP), destruindo plantas e equipamentos que representam mais de 14 anos de pesquisa da modalidade transgênica de eucalipto. Entendemos que esse também foi um ato inadmissível contra o qual protestamos. 

A SBPC conclama o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) a tomar todas as medidas cabíveis para garantir a integridade física e moral dos pesquisadores membros do CTNBio, de modo que possam dar continuidade ao trabalho de extrema relevância para o desenvolvimento científico e tecnológico do País. Entendemos que debates e posicionamentos contrários a quaisquer projetos são válidos e necessários, porém quando se chega ao ponto de empregar atos de vandalismo como argumento, rompe-se o diálogo, tornando-se imperativo reestabelecer a convivência e o respeito mútuo. 

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência


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texto original em 
http://www.sbpcnet.org.br/site/noticias/materias/detalhe.php?id=3766

Ainda que possa compreender que as invasões fazem parte de um ativismo mais agressivo e que podem, em muitos casos, ser justificadas, e ainda que se possa de forma geral simpatizar e até apoiar um movimento que luta por uma distribuição mais justa de terras, isso não valida automaticamente qualquer ação das entidades que levam esta bandeira. No caso específico do MST e sua oposição aos transgênicos, o que se vê é uma extrapolação grave de sua missão original, que era lutar pela melhor distribuição de terras. Ser contra os transgênicos sem ser contra absolutamente todo o agronegócio é absurdo e vender a luta contra os transgênicos como se fosse a mais refinada forma de luta contra o modelo do agronegócio é vender uma mentira deslavada. (GenPeace)

Para comentários e fotos da invasão, veja 

Para uma avaliação de risco do eucalipto transgênico, veja 
http://genpeace.blogspot.com.br/2015/02/avaliacao-de-risco-do-eucalipto.html

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Posição do MCTI: http://www.mcti.gov.br/noticias/-/asset_publisher/IqV53KMvD5rY/content/mcti-responde-em-nota-a-preocupacao-da-sbpc
À Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC),
Em relação à nota divulgada por essa entidade manifestando preocupação com a integridade física e moral dos pesquisadores membros da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que tiveram que suspender a reunião que realizavam em Brasília, no último dia 5, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) informa que está empenhado na defesa de todos os integrantes da CTNBio e de seus servidores. A garantia de condições e ambiente de trabalho seguros para pesquisadores e demais servidores do MCTI é condição essencial para o avanço da ciência, tecnologia, inovação e do desenvolvimento, com inclusão social, de nosso País. As medidas cabíveis para garantir esse objetivo estão sendo tomadas.
Veja aqui a íntegra da nota divulgada pela SBPC.

Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação 



quinta-feira, 5 de março de 2015

MST invade a CTNBio e impede a reunião. Cidadão iracundo lidera a invasão, metendo o pé na porta e ferindo funcionária.

Seguia a Plenária da CTNBio na leitura de pareceres e votação, lotada. Muitos membros do MST já tinha tomado lugar, mas respeitavam as regras: não pode haver expressão oral, apenas cartazes ou bandeiras. Depois da votação e aprovação da liberação comercial de dois milhos transgênicos, iniciava-se o processo de análise e votação do eucalipto transgênico. Antes da leitura do “parecer” encaminhado pelo Dr. Paulo Kageyama, que pediu vistas ao processo na reunião anterior, houve uma invasão da sala liderada, segundo informações, por um cidadão enraivecido. Tomado de um ímpeto furioso, o cidadão meteu o pé na porta, que estava fechada e monitorada pela funcionária da CTNBio, ferindo a mesma. Avançou então com dezenas de membros do MST, que gritaram palavras de ordem e fizeram discursos e por fim decretaram o fim da reunião.

Os membros do MST presentes prometeram transformar a invasão numa ação permanente, sem descanso para a CTNBio e pediram repetidamente o fim da Comissão. Não houve reação policial e ninguém ficou ferido.

Com isso a decisão de liberação comercial do eucalipto e todas as demais ficarão para a próxima reunião da CTNBio.

Para saber quais são, de fato, os riscos do eucalipto transgênico, consulte a avaliação de risco, feita com base nas regras internacionais e na ciência.


Anexo fotos da invasão.

A Plenária inicia com muitos manifestantes do MT sentados entre os demais participantes

A enxurrada de manifestantes começa a partir da porta arrombada a chutes

A invasão progride para a frente da sala

Fala na frente da sala. Vários membros discursaram e gritaram palavras de ordem


Outra fala (anterior) na frente da sala




sábado, 28 de fevereiro de 2015

Réplica à Carta aos Ministérios representados na CTNBio sobre autorização para plantio de eucalipto transgênico pela Suzano/FuturaGene

Much ado about nothing (W. Shakespeare)
No dia 27 de fevereiro de 2015, sexta- feira, faltando menos de uma semana para a decisão na Plenária da CTNBio quanto aos riscos de uma liberação comercial da variedade de eucalipto para crescimento acelerado, surge uma carta dirigida a todos os Ministérios representados na CTNBio, com cópia para a Presidente substituta da CTNBio e demais membros, publicada no portal Racismo Ambiental (http://racismoambiental.net.br/2015/02/27/carta-ao-ministro-da-ciencia-tecnologia-e-inovacao-sobre-autorizacao-para-plantio-do-eucalipto-gm-pela-suzanofuturagene/).
A carta é apócrifa, mas já está sendo divulgada, foi traduzida para o inglês e é até a base para um abaixo assinado. Vale a pena uma análise breve, que segue abaixo (contendo preciosas sugestões de outros avaliadores de risco mais gabaritados que eu).
Primeiro, quanto à oportunidade: esta variedade de eucalipto já foi tema de uma audiência pública e antes disso foram abertas consultas públicas, como manda o regimento da CTNBio. Seguiu-se um longo debate pela internet e em outros fóruns e, principalmente, dentro da CTNBio. Houve, portanto, ampla possibilidade de debate: uma carta em tom indignado não contribui com um grama no peso das discussões sérias.
Em segundo lugar, os pontos levantados pelos signatários foram abordados pela CTNBio. Os que são de sua alçada (avaliação de risco) foram devidamente tratados e os que são ligados a outros elementos da análise de risco foram discutidos, ainda que não fosse competência da CTNBio. Nenhum elemento da análise foi deixado de fora das discussões, embora a decisão técnica tenha se baseado estritamente nos elementos de risco representados pela introdução do OGM sobre a biodiversidade e sobre a saúde humana e animal.
Comento, a seguir, alguns dos posicionamentos errôneos dos missivistas;
a) Quando afirmam que “decisão (de liberação comercial) visa apenas beneficiar um segmento do setor privado do país” os autores da carta jogam fumaça nos olhos do leitor: o que a CTNBio avalia são riscos, ela não se intromete e nem tem competência para avaliar vantagens e desvantagens econômicas. Além disso, sempre que um produto tiver sua liberação comercial solicitada, evidentemente alguém (seja uma empresa pública ou privada) irá se beneficiar, e não há nada de errado nisso. Mas, em última instância, quem ganha é o país, com um produto inovador. E quem decide, em última instância, se o produto é bom ou não, é o mercado. Afinal, estamos num sistema de mercado livre, não estamos num país comunista.
b) Quanto ao país ser o primeiro a aprovar um eucalipto transgênico, isso não é problema algum. Por que o Brasil tem sempre que andar a reboque dos demais países? O que importa é que os órgãos competentes fizeram uma criteriosa avaliação de risco e decidiram pela ausência de riscos não-negligenciáveis. O mesmo já ocorreu com algas e leveduras transgênicas e com o mosquito transgênico e, de forma mais incisiva, com o feijão transgênico, desenvolvido por uma empresa do Governo. É imoral pedir que esperemos a adoção de um produto em muitas partes do mundo em nome de um ambientalismo trôpego, sem base em ciência. Se a CTNBio aprovar o plantio de eucalipto transgênico no Brasil, não seremos o primeiro país do mundo a aprovar o plantio comercial de floresta transgênica após a avaliação de sua biossegurança: em janeiro deste ano se tornou pública uma decisão do Serviço de Inspeção de Saúde de Planta e Animal (APHIS) do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) aprovando o plantio comercial de um pinheiro geneticamente modificado geneticamente para ter maior densidade de madeira (http://www.aphis.usda.gov/biotechnology/downloads/reg_loi/brs_resp_arborgen_loblolly_pine.pdf). O curioso é que este pinheiro é nativo de lá, ao contrário do eucalipto, que é exótico e não tem espécies sexualmente compatíveis no Brasil.
c) Quando afirmam que a “CTNBio não possui estudos científicos suficientes”, os redatores da carta desprezam a metodologia de avaliação de risco e a imensa quantidade de dados que foi aportada nas várias etapas do processo de avaliação do produto, tanto pela proponente, como pelos relatores. É vergonhoso tratar de forma tão inepta o trabalho sério da CTNBio. Afinal, TODOS os impactos prováveis foram cuidadosamente avaliados com base em uma riqueza enorme de dados e esta avaliação está disponível não apenas na CTNBio, mas mesmo na internet, neste mesmo blog nosso (http://genpeace.blogspot.com.br/2014/11/eucalipto-transgenico-quais-sao-de-fato.html).
d) Os missivistas divergem, então, do tema de avaliação de risco e passam a tratar do impacto que o pólen transgênico poderia ter sobre a produção de mel orgânico. Ora, isso não é da alçada da CTNBio. Entretanto, o assunto foi ventilado e discutido na CTNBio e fora dela. Sugiro a leitura dos links http://genpeace.blogspot.com.br/2014/11/exportacao-de-mel-e-o-eucalipto.html e http://genpeace.blogspot.com.br/2014/09/audiencia-publica-sobre-o-eucalipto.html)  para uma discussão ponderada sobre este tema. Aqui quero deixar claro apenas que esta NÃO É uma questão de biossegurança, mas um problema de coexistência de atividades econômicas. De toda forma, as abelhas no Brasil frequentam plantações de soja e algodoais transgênicos e também passeiam nos milharais, ainda que nem a soja nem o milho dependam de abelhas para sua polinização. É evidente que, com a taxa de adoção da transgenia nestas culturas, uma ENORME PARTE de nosso mel já contém ao menos traços de pólen transgênico. Culpar o eucalipto como único cultivo a fazer isso é desafiar a inteligência do leitor. Se, no futuro, a Europa ou outro mercado rejeitar nosso mel, haverá seguramente outro que vai comprá-lo. Além disso, um manejo relativamente simples das colmeias pode evitar a presença de pólen de eucalipto GM no mel e em outros produtos apícolas. É tudo, como diria Shakespeare, ”much ado about nothing”.
e) O risco real do pólen GM sobre as abelhas foi minuciosamente estudado, assim como todos os outros perigos arrolados pela própria CTNBio e por outros atores, inclusive a alergenicidade – improvável – das novas proteínas no pólen. Só posso concluir que o representante do MDA, mencionado na carta como muito atento, cochilou na leitura do dossiê e de seus anexos quando chegou à conclusão de que só 5 colmeias foram estudadas e que a questão da alergenicidade não foi adequadamente tratada. Os destinatários da carta (os Ministros) devem ler o dossiê e os pareceres para aquilatar o absurdo da maior parte das afirmações desta carta.
f) Mais adiante na carta os missivistas afirmam que “A CTNBio tem obrigação de respeitar todos os interesses da indústria nacional, os interesses dos cidadãos e das gerações futuras, antes de julgar o pedido que beneficia apenas a FuturaGene/Suzano”. Ora, como disse acima, não é função da CTNBio, nem legalmente nem por extensão de suas atividades de avaliação de risco, adentrar em questões econômicas ou de interesse de a, b ou c. Se não houver riscos (ou se eles forem, efetivamente, negligenciáveis), a CTNBio deixará isso claro em seu parecer de liberação comercial. A adoção do produto vai depender ainda do MAPA e talvez de outro ministério e, sobretudo, da vontade soberana do mercado. A questão de coexistência de atividades econômicas e sociais não é assunto para a CTNBio, como já frisei anteriormente.
g) O que a CTNBio tem que observar é o Protocolo de Cartagena. Ora, o método de avaliação de risco da CTNBio e sua aderência à Biosafety Clearing House são a maior prova de que a Comissão respeita as diretrizes do Protocolo. O que está na carta sobre este assunto é só conversa fiada: não temos que avaliar todos os biomas nem pelo Protocolo de Cartagena (que não tem uma vírgula sobre isso), nem pelas regras da CTNBio (que falam apenas nas regiões mais importantes de cultivo). Mesmo assim, como as avaliações são caso a caso, cabe à CTNBio decidir se isso é importante ou não, ao invés de seguir como uma toupeira uma leitura monástica do regulamento.
h) Por fim, depois de uma longa e detalhada avaliação de risco, que se arrastou por vários anos, a CTNBio está segura de que as incertezas foram muitíssimo reduzidas, se não totalmente eliminadas. Seguir repetindo que há “insuficiência dos estudos realizados” é, como disse anteriormente, uma forma arrogante e desrespeitosa de jogar ralo abaixo a imensa quantidade de dados analisada e o trabalho dedicado e criterioso dos avaliadores na CTNBio e fora dela.

Concluo dizendo a todos os leitores (e espero que os Ministros estejam entre eles) que, nesta etapa, a lei determina ser a decisão exclusivamente da CTNBio. Se quiserem, os Ministros podem, depois, analisar os aspectos econômicos e sociais envolvidos. Para isso existe o Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS), previsto na Lei. Mas até agora tem sido uma sábia decisão deixar esta questão ao mercado, sempre que os riscos forem negligenciáveis. Pedir que os Ministros violem a lei e os regulamentos e interfiram agora na decisão soa decididamente arbitrário.

domingo, 25 de setembro de 2011

Tomada de decisão X polêmica e protelação eternas

Leitores deste blog.

É saudável a discordância, sempre. A unanimidade é burra, como dizia o Nelson Rodrigues. Mas decisões têm que ser tomadas, em resposta a demandas da sociedade. No caso deste feijão, a demanda é econômica: os danos à produção impostos pelo vírus do mosaico dourado são enormes. A Embrapa e muitas outras instituições mundo afora procuraram desenvolver um feijão não transgênico resistente a este vírus e ninguém conseguiu. Então, um grupo  brasileiro iniciou os estudos com várias construções transgênicas e, desde 2004, tem testado exaustivamente este feijão transgênico, tanto no que se refere à resistência quanto aos aspectos de biossegurança.

Os estudos foram suficientes? Há quem ache que não. Mas a maioria na CTNBio, que é o órgão técnico responsável por avaliação de biossegurança de OGMs no Brasil, acha que sim. Os que acham que não acusam os que aprovaram a liberação de, no mínimo, terem sido apressados. Expõem suas razões para terem votado pela diligência (isto é, mais estudos) e creem que, vindo estes estudos, se poderia deliberar outra vez com mais certeza de uma decisão correta. Até aí está certo. Mas há um grupo de pessoas que sistematicamente acusa a CTNBio de irresponsabilidade, de uso de má ciência e até de ligações perigosas com as empresas privadas. Estas acusações são fruto da ideologia destas pessoas, e não de fatos. E resvalam foram da avaliação de risco, que é o cerne desta questão.

Os que julgam que os estudos são suficientes não se apoiam em vantagens do feijão GM, mas na ausência de riscos não-negligenciáveis. É preciso que se entenda isso: não são levadas em consideração na avaliação de risco as vantagens, só as desvantagens (efeitos negativos na saúde e no ambiente). Após análise dos documentos aportados (o processo tem 500 páginas, envolveu 10 unidades da Embrapa e mais de 100 pesquisadores e técnicos durante 7 anos pelo menos), mais toda a vasta literatura sobre este tema (interferência de RNA, construção de plantas GM com esta característica, etc.), 15 membros da comissão votaram pela aprovação (nas setoriais da CTNBio já havia sido votado o processo e aprovado por ampla margem de votos). Podem estar errados? Sim. Mas os riscos percebidos foram muito pequenos e não justificavam a não-aprovação. E os benefícios? Outras instâncias devem analisar isso e contrabalançar com os riscos. A decisão técnica foi tomada.

Ao longo dos próximos anos a Embrapa ainda terá que trabalhar muito para produzir sementes para todos os que quiserem. Não serão cobrados royalties e ninguém será obrigado a comprar e plantar estes feijões, é uma decisão do agricultor, que faz parte do exercício democrático. Poderá haver risco para os produtores de feijão não transgênico? Dificilmente, porque a biologia reprodutiva do feijão facilita muito o trabalho de coexistência. Estará afetada a agrobiodiversidade? Milhares de acessos de variedades brasileiras de feijão estão guardadas nos bancos de germoplasma, garantindo o país quanto a isso. Poderá o feijão fazer mal à saúde? Dificilmente, porque não expressa nenhuma proteína nova e porque tem uma composição igual à do feijão não transgênico. Tudo isso pode estar errado, em parte ou em todo? Sim. O que fazer? Se o feijão for adotado pelos agricultores, será preciso acompanhar por alguns anos os efeitos dele no campo e na alimentação. Chama-se a isso monitoramento. Quanto tempo se vai monitorar? O que se vai acompanhar? Estas são questões que estão em discussão no Brasil e que vão se consolidar numa norma técnica para monitoramento. Organizações independentes também podem e devem acompanhar os resultados do plantio e do consumo deste feijão, quando, daqui há 3 anos, ele chegar ao mercado. E fazer alertas reais, cientificamente embasados, de casos onde efeitos adversos sejam observados. Assim, nós brasileiros saberemos se a avaliação de risco foi certa ou errada. Até agora a CTNBio acertou todas e não há relatos confirmados (só boatos) de danos à saúde ou ao ambiente no Brasil provocados pelas plantas transgênicas comercializadas aqui. Até a coexistência, que não é um problema de biossegurança, mas econômico, vem sendo respeitada em grande parte.

É aguardar para ver.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Validação por plebiscito?


(Por Francisco Gorgônio da Nóbrega, professor universitário)

O jornalista Tuffani, com a melhor das intenções, acredita que abrindo a discussão para a população, com maior antecedência, haveria esclarecimento e paz, sendo evitada a "guerra de desinformação", segundo ele, travada na mídia.
O que jornalistas esquecem, em seu afã democrático, é que assunto que envolve ciência não é da mesma categoria da escolha de representantes para o legislativo e outras coisas próprias para se decidir por plebiscito ou votação, exceto quando o corpo votante tem nível de formação tecno-científica razoavelmente homogênea, como acontece nas plenárias da CTNBio.
Assuntos técnicos como a segurança das plantas geneticamente modificadas são árduos mesmo para os que passaram anos estudando medicina, biologia, ecologia, etc. Nas audiências públicas que assisti, os representantes da população assistem de olhos arregalados um debate, que lhes parece opaco, entre dois grupos. Se forem opinar ao fim, talvez sejam levados simplesmente pelo orador mais hábil.
Aqueles com educação centrada nas humanidades são geralmente adeptos do relativismo cultural e lhes parece lógico colocar ativistas de ONGs ambientalistas no mesmo patamar de conhecimento que os pesquisadores de universidade que se pautam por fatos e pelo conhecimento acumulado e já confirmado pela ciência. Para muitos parece cruel que, em ciência, a resposta certa ou a melhor resposta, costuma ser uma só. Um dos grupos está correto e o outro errado. Parece impossível chegar, em nossos dias, ao ideal da Ágora  grega, quando os filósofos pré-socráticos debatiam longamente até chegar ao consenso, na ausência (suponho) de interesses outros, comerciais e/ou ideológicos, que impeçam uma decisão isenta, racional.
A sugestão do jornalista simplesmente resultará, se aplicada a cada pedido de liberação comercial, na virtual parada dos trabalhos. A comissão já dispende de anos a 2-3 meses para avaliar cada pedido e todos os argumentos, a favor e contra são amplamente discutidos. Se a população está em dúvida, se deve a enorme caixa de ressonância da mídia que capricha em toda notícia catastrófica, imediatamente publicada com letra maiúscula. "Good news are no news" como todos sabem, mas esquecem. Quando vem uma correção, um desmentido, estará em algum recanto humilde da publicação. A população fica com o medo e as "dúvidas". Isso é velho, desde a guerra da vacina no Rio, desde a resistência nos EUA à pasteurização do leite. Em 1998, o prestigioso The Lancet publicou um trabalho que alegava existir uma associação entre o autismo e a vacina tríplice (sarampo, caxumba e rubéola). As ONGs anti-tecnologia se agitaram, a mídia ecoou fortemente o tema. Aparentemente a população não acreditou na declaração do Medical Research Council, já no mês seguinte à publicação, de que não havia evidência crível de associação. O "paper" de qualidade inferior, catastrofista, conquistou as atenções da população, com a ajuda da mídia e ONGs. Dezenas de milhares de pessoas na Europa pararam de vacinar seus filhos, o sarampo voltou a atacar, milhares adoeceram, com algumas mortes. São muitas histórias bem documentadas, como a rejeição da batata e do tomate pelos europeus por dois séculos, com argumentos idênticos aos empregados hoje pelos neo-ludistas que temem a tecnologia genética.
Mas a argumentação do Tuffani leva a algo importante que nós, da ciência, fazemos pouco: ser mais pró-ativos na disseminação de explicações claras e suficientemente penetrantes para que se resista melhor à propaganda enganosa que busca instilar medos e receios infundados. Creio que o blog GenPeace é um passo nesta direção.