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Blog para postagem e discussão de temas científicos e técnicos sobre biossegurança de transgênicos, sua geração e uso.
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quarta-feira, 25 de março de 2015
Perigos percebidos e riscos reais do eucalipto transgênico para crescimento rápido
domingo, 8 de março de 2015
Agrotóxicos: tamanho real do problema e não-relação com os transgênicos
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Revi este texto logo após a invasão da CTNBio pelo MST. Na ocasião os manifestantes repetiram inúmeras vezes que os transgênicos eram os culpados pelo aumento dos agrotóxicos e que os agrotóxicos estavam envenenando os trabalhadores e nossa comida. Ora, o texto abaixo, escrito em 2012, revia justamente a questão dos agrotóxicos e dos casos de intoxicação, com base nos dados do Sinitox (Fiocruz) e não apenas com base no que se escuta por aí. O resultado é surpreendente: os agrotóxicos têm um impacto muito pequeno na saúde do trabalhador e muito menor ainda, na do consumidor. Aliás, era de se esperar, uma vez que há um controle relativamente rígido no emprego destes produtos e que os mais empregados são relativamente seguros. Assim, a maioria esmagadora dos casos de intoxicação provém de erros no uso (acidentes individuais) e tentativas de suicídio (estas são 30 % dos casos notificados). Um número ínfimo (em geral rondando 10 casos por ano) é de intoxicação alimentar. Ainda assim, muito provavelmente por produtos que não envolvem transgênicos, uma vez que a maior parte dos alimentos encontrados com resíduos de agrotóxicos provem da pequena agricultura familiar. A releitura do texto, no rescaldo das invasões do MST, é importante demais.
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Recentemente o Valor Econômico (23/02/2012) publicou texto de José Agenor Alves da Silva, diretor da ANVISA, sobre o trabalho daquela agência no rastreamento de resíduos de agrotóxicos em alimentos e as dificuldades que a agência tem enfrentado na aceitação de seus resultados, tendo sido desafiada em sua credibilidade por alguns setores da sociedade (http://www.valor.com.br/opiniao/2538528/agrotoxico-pimentao-e-suco-de-laranja). Não podemos aqui discutir esta questão, que ultrapassa em muito os objetivos deste fórum, mas queremos ressaltar que a incidência de intoxicações alimentares devidas a agrotóxicos no Brasil está grosseiramente exagerada pela mídia e por alguns órgãos de governo. Isso tem também relação direta com as plantas transgênicas, falsamente acusadas de ser fonte de intoxicação por agrotóxicos, o que é uma tremenda inverdade, como se verá mais abaixo.
Se é certo que o Brasil consume uma imensa quantidade de agrotóxicos, é certo também que exporta um volume enorme de produtos agrícolas para todas as partes do mundo, com raríssimos casos de problemas relacionados a resíduos de agrotóxicos. A razão disso é que o grande produtor tem um controle rígido do uso de agrotóxicos, que não apenas representam para ele custos, mas são uma fonte de problemas pós-colheita caso resíduos acima do permitido permaneçam no produto. Isso é válido tanto para produtos de exportação como para o mercado interno, que é fiscalizado, inclusive pela ANVISA. O resultado é que os alimentos industrializados de origem vegetal raramente contem resíduos de agrotóxicos acima do permitido.
Poder-se-ia argumentar que o ideal é resíduo zero. Ora, a própria natureza se encarrega de produzir um sem número de diferentes toxinas, muitas delas análogas aos agrotóxicos, que estão em nossos alimentos sempre. Além disso, como é sabido desde Paracelso, faz quatro séculos, a dose é o que importa. Pode haver, em alguns casos, uma bioacumulação no consumidor final, mas isso só ocorre com alguns agrotóxicos que são, por isso mesmo, muito controlados. O uso bem feito dos agrotóxicos tem permitido ao Brasil ganhar um enorme espaço na exportação de grãos, ao mesmo tempo oferecendo aos brasileiros alimentos de qualidade por preço altamente competitivo.
Assim, é pouco provável que o grosso dos alimentos consumidos pelos brasileiros chegue ao mercado contaminado. Além disso, ao contrário do que afirma o diretor da ANVISA, a linha que separa os efeitos benéficos de eliminar uma praga e os efeitos maléficos, que podem levar um ser humano à morte, não tem nada de tênue. Os mecanismos de ação podem ser muito diferentes e, sobretudo, a dose de agrotóxico que chega a ser ingerida num alimento é muitas ordens de grandeza inferior àquelas observadas na lavoura. Com estas informações em mente, podemos analisar os dados que o país dispõe sobre intoxicação com agrotóxicos e sobre a parcela destes casos que é devida à ingestão de alimentos contaminados com agrotóxicos agrícolas.
O acesso online ao SINAN permite gerar várias tabelas, entre elas esta, para 2006, Não há registro no banco de anos posteriores, embora haja um relato em pdf que está discutido mais abaixo.
Uma breve análise mostra que, dos pouco mais de 3000 casos registrados em 2006, 33% foram tentativas de suicídio, a maior causa percentual de intoxicação com agrotóxicos. Em seguida, outros 30% são devidos a acidentes de trabalho, totalizando quase 1000 casos. Há 15% de casos sem identificação de circunstância. Outros 15% são devidos à acidentes.O que salta à vista é que apenas 43 casos foram atribuídos à contaminação de alimentos, embora não esteja discriminada a origem deles (se diretamente da lavoura ou de revenda, se de pequeno proprietário ou agroindústria, nem o tipo de alimento).
Assim, o número absoluto de casos é muito reduzido e as causas da contaminação alimentar são difíceis de avaliar. No total de casos, elas representam apenas 1,2% dos casos notificados. Uma análise da distribuição geográfica mostra que os casos estão espalhados por alguns estados, sem correlação óbvia com o plantio de transgênicos.
Apesar de suas deficiências conhecidas (subnotificação, viés do notificador, etc,), o SINAN é confiável e abrange todo o país. Uma estimativa precisa dos casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos está fora dos objetivos deste artigo. O que se que ressaltar aqui é a pequena relevância percentual dos casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos (em torno de 1%) quando comparada às causas maiores (acidentes, ocupação, suicídio, etc.). Deve-se lembrar aqui que o SINITOX registra quase 10 vezes mais casos de intoxicação por alimentos devidos ao próprio estado de conservação dos alimentos do que por contaminação por resíduos de agrotóxicos.
Em um documento da SVS-MS (http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/af_III_informe_agrotoxicos_09.pdf), as mesmas informações acima podem ser apreciadas para 2008. O cenário não muda significativamente (os casos que interessam aqui são da coluna C9):
Para 2007, o SINITOX registra apenas 12 casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos para todo o país. Ainda que o total anual de casos no Brasil de intoxicação alimentar por agrotóxicos totalizasse 100, suas causas podem ser as mais diversas, assim como a origem destes produtos. Não há dúvida que a intoxicação de trabalhadores e por acidentes é um sério problema, assim como o uso destes produtos em tentativas de suicídio, mas não há qualquer base para se atribuir aos transgênicos a pecha de levar à boca do consumidor os agrotóxicos usados na lavoura. Até porque dos alimentos onde se detecta ocasionalmente níveis de pesticidas acima do permitido por lei não faz parte nem milho nem soja, as únicas plantas transgênicas consumidas como alimento no Brasil (do algodão, terceira planta transgênica, só se consome o óleo, que é um produto purificado e não contem pesticidas nem proteínas recombinantes expressas pela planta geneticamente modificada). De fato, a ANVISA monitorou dezoito alimentos: abacaxi, alface, arroz, batata, beterraba, cebola, cenoura, couve, feijão, laranja, maçã, mamão, manga, morango, pepino, pimentão, repolho e tomate. A escolha das culturas baseou-se nos dados de consumo obtidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na disponibilidade destes alimentos nos supermercados das diferentes unidades da Federação e no uso intensivo de agrotóxicos nestas culturas. De acordo com a própria ANVISA, no texto produzido pelo programa PARA, análise dos dados do Censo Agropecuário do IBGE de 2006 mostra alguns fatores que potencializam o risco de uso inadequado dos agrotóxicos e a contaminação dos alimentos:
• 785 mil estabelecimentos (56,3% daqueles onde houve utilização de agrotóxicos) não receberam orientação agronômica. Das propriedades que receberam assistência (172 mil), 76,7% usam agrotóxicos.
• Quase 85% da mão de obra agrícola se encontram nas pequenas propriedades, e mais de 80% dos proprietários rurais e 37,5% dos trabalhadores com laços de parentesco com eles é analfabeta ou sabe ler e escrever, mas não tem escolarização formal ou apenas o ensino fundamental incompleto.
Isso é especialmente válido para os produtores dos itens agrícolas que foram avaliados pelo PARA, mas não se aplica de uma forma geral aos produtores de plantas transgênicas, que tem um domínio técnico muito mais elevado. Não se está aqui afirmando que o problema da contaminação dos alimentos com agrotóxicos está restrito à pequena agricultura e à agricultura familiar, mas que ele é certamente de muito menor proporção na agroindústria. Efetivamente, não há qualquer dado que indique contaminação de agrotóxicos em soja e milho, nem razão técnica para isso, e muito menos no caso destes cultivos, quando transgênicos.
Concluímos que, na questão de intoxicação alimentar por agrotóxicos, há muito barulho por pouco. E, especificamente para a participação das plantas transgênicas nisso, há certamente muito barulho por nada. A quem interessa manter esta mentira rolando na mídia?
Atualização
A consulta ao Sinitox para 2012 (dado mais recente) não muda o cenário descrito com base no relatório anterior (1998-2007). Observemos as tabelas:
Atualização
A consulta ao Sinitox para 2012 (dado mais recente) não muda o cenário descrito com base no relatório anterior (1998-2007). Observemos as tabelas:
Tabela das intoxicações em 2012 (Sinitox, apenas as 3 primeiras entradas)
Agente
|
Vítima humana
|
Vítima animal
|
Informação
|
Total
|
% do total de intoxicações no país em 2012
|
Medicamentos
|
24029
|
132
|
627
|
24788
|
27,62
|
Agrotóxicos/Uso Agrícola
|
3937
|
76
|
98
|
4111
|
4,58
|
Agrotóxicos/Uso Doméstico
|
1843
|
144
|
118
|
2105
|
2,35
|
A tabela 10 (http://www.fiocruz.br/sinitox/media/tabela%2010_2012.pdf) mostra que houve cerca de 100 óbitos e 22 sequelas associadas aos agrotóxicos. Não são poucos óbitos. mas que circunstâncias estavam envolvidas nestes casos? É extremamente instrutiva a inspeção da Tabela 6 (http://www.fiocruz.br/sinitox/media/tabela%206_2012.pdf) : dos quase 3000 casos de intoxicação, apenas 7 foram por ingestão de alimentos. Ainda assim, não se sabe em que condições exatas. A maioria esmagadora foi a soma de casos individuais e tentativas de suicídio. Estas últimas são justamente as circunstâncias que levam à maior parte dos casos com sequelas ou de morte.
Além disso, e não menos importante, já no início da década de 90 os casos de intoxicação aguda com agrotóxicos de uso agrícola chegavam a mais de 3.000 por ano (http://www.fiocruz.br/sinitox_novo/media/artigo1.pdf), número quase igual ao de hoje (consulte http://www.fiocruz.br/sinitox/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=8 para os vários anos). Isso parece surpreendente, sobretudo tendo em vista o enorme aumento no uso de agrotóxicos no campo, sobretudo nos últimos 5 anos. Por que o número de casos não explodiu? A explicação é simples e cristalina, mas choca o público e vou deixar ao leitor a tarefa de encontrá-la.
Conclusão de março de 2015
As palavras de ordem do MST sobre os danos dos agrotóxicos à nossa comida carecem de base nos dados levantados pelas autoridades do país. É certo que deve haver uma certa sub-notificação e que casos de intoxicação crônica por ingestão de alimentos contaminados podem existir (http://www.scielo.br/pdf/csc/v12n1/04.pdf), mas provavelmente são poucos ou fatalmente já teriam surgido e empurrado o país a tomar as medidas cabíveis. Afinal, os médicos estão alertas e há procedimentos específicos para a avaliação de intoxicações crônicas por agrotóxicos, cujos sinais e sintomas são bem conhecidos (ver caixa abaixo)
INTOXICAÇÃO POR AGROTÓXICO A intoxicação crônica caracteriza-se pelo surgimento tardio, após meses ou anos, por exposição pequena ou moderada a produtos tóxicos ou a múltiplos produtos, acarretando danos muitas vezes irreversíveis nos indivíduos expostos. Segundo o Protocolo de Atenção à Saúde dos Trabalhadores Expostos a Agrotóxicos, elaborado pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2006), as patologias relacionados à intoxicação crônica por agrotóxicos podem ser neoplasias, como mieloma múltiplo e leucemias; anemia aplástica; transtornos mentais, como alterações cognitivas e episódios depressivos; doenças do sistema nervoso como distúrbios do movimento, polineuropatias e encefalopatia tóxica; oculares, como neurite óptica e distúrbios da visão e ainda auditivas, circulatórias, respiratórias, digestivas e dermatológicas.
Então, só posso reforçar o que disse antes, faz quase três anos: a espalhafatosa ligação entre os transgênicos e as intoxicações com agrotóxicos, sobretudo nos alimentos, é pura e simples mentira. Que continua sendo repetida, com enorme sucesso, por várias organizações sociais e pela internet, para imenso prejuízo do entendimento do problema.
Leituras recomendadas:
Resultados de campo sobre uso de agrotóxicos por pequenos produtores: muito elucidativo: http://www.ecodebate.com.br/2012/02/23/pequenos-produtores-estao-cientes-de-riscos-dos-agrotoxicos/
Neice Müller Xavier Faria, Anaclaudia Gastal Fassa e Luiz Augusto Facchini - Intoxicação por agrotóxicos no Brasil: os sistemas oficiais de informação e desafios para realização de estudos epidemiológicos. Ciência & Saúde Coletiva, 12(1):25-38, 2007 (http://www.scielo.br/pdf/csc/v12n1/04.pdf)
Outra boa fonte de leitura pode ser acessada em http://br.monografias.com/trabalhos903/agrotoxicos-brasil/agrotoxicos-brasil.shtml.
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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Glifosato e transgênicos: desmistificando o ISIS
Lá dos EUA vem mais um “estudo” com a pátina de texto científico, mas que no duro é apenas uma das misturebas que circulam pela internet contra os transgênicos, sem qualquer forro, um verdadeiro elefante de papel. O autor é o ISIS, um instituto pseudo científico, fundado pela Mae-Wan Ho e pelo Peter Sauders. Com a Mae já tive algumas discussões sobre transferência de genes de insetos para outros organismos e o que ela sustentou nas discussões é um completo desvario. Imagino que um instituto com uma tal fundadora deve estar mais para peça de Ionescu ou ala do Pinel do que para casa de ciências.
De que trata esta nova “contribuição”? Um texto que
pretende provar uma relação entre aumento de doenças humanas e o uso de
glifosato (e o plantio de transgênicos, é claro, embora esta ligação direta só
exista para as variedades tolerantes a este herbicida). Para começar, é muito
difícil estabelecer uma relação de causalidade desta natureza, porque é
literalmente impossível saber o quanto de alimento GM cada um come. Da mesma
forma, é impossível saber quanto cada indivíduo consome de pesticidas. E,
sobretudo, é impossível saber que importância tem isso frente às centenas de
causas de doenças que estão aí para nos atormentar. As “evidências” que o
instituto traz são tão baseadas em boa ciência e em sólida estatística quanto
um show de Michael Jackson.
Vamos ao texto, disponível em http://www.i-sis.org.uk/Deterioration_of_Public_Health.php
Um mau começo
A coisa começa errado quando o ISIS afirma que há ampla
evidência de que o glifosato é (muito) tóxico, mas não cita uma única
referência bibliográfica séria, só suas próprias especulações e as de seus
parceiros de ativismo, além do artigo zumbi do Séralini, completamente
desacreditado pela ciência. Só isso já dá a tônica do texto. Também neste mau
começo se insere a afirmação de que uma nova síndrome de insuficiência renal
seria causada pelo glifosato: esta “nova” doença é causada pelo estresse
hídrico no trabalho agrícola, associado ao consumo de água e má qualidade e,
talvez, a poluentes e plantas tóxicas, mas não há qualquer evidência de que
seja devida ao glifosato. Insistir nisso é tapear o público que, por preguiça,
não vai mesmo procurar a informação, toda ela em áridos artigos científicos.
Todo o assunto sobre esta síndrome, denominada CKDU, está aqui: http://www.medicc.org/mediccreview/index.php?issue=28
. Não citar as autoridades no assunto é, nesta caso, má fé típica e enrolação
do público.
A conclusão a que somos forçados a chegar é que o ISIS não
contribuiu com um único grama no peso de evidências de que o glifosato é
tóxico. É evidente que qualquer herbicida é tóxico, mas entre eles o glifosato
está longe de ser o mais perigoso, ao contrário: todas as evidências apontam o
contrário e exatamente por isso ele foi escolhido para agente seletivo de
plantas GM.
A correlação
transgênicos X doenças
Boa parte do que está neste texto do ISIS foi derivado de
um artigo bizarro de Nancy Swanson e seus colaboradores, publicado na obscura
revista Journal of Organic Systems. Basta uma leitura rápida do artigo para se
ver que seu lastro científico é nulo. Recomendamos que o leitor faça o mesmo e
passamos o link: http://www.organic-systems.org/journal/92/abstracts/Swanson-et-al.html
.
Em que se baseiam as conclusões de Mrs Swanson e seus
parceiros, veiculadas pelo ISIS? (em tempo, Nancy Swanson é co-autora de textos
com a Mae-Wan Ho e publicados no site do ISIS). Num gráfico que mostra um
aumento de várias doenças e igual subida no uso de glifosato! Ora, a gente pode
fazer um gráfico igualzinho relacionando estas doenças e o aumento de produção
orgânica nos EUA... Coeficientes de correlação elevados em estudos deste tipo
valem o mesmo que vida de piolho em cabeça de careca.
Além disso, os dados foram grosseiramente manipulados. Para
comentários mais detalhados vejam http://www.geneticliteracyproject.org/2014/03/28/do-genetically-modified-foods-cause-gluten-allergies/
e também http://gmoanswers.com/studies/ultimate-gluten-free-does-glyphosate-cause-celiac-disease-actually-no.
Há muitos outros portais que desmascaram os estudos pseudo científicos da trupe
do ISIS.
Conclusão
Como sempre, este texto do ISIS está “bombando”: foi
copiado e colado em centenas de sites em língua inglesa e já teve até gente que
traduziu para o português (logo vai aparecer na Pindorama). Repetir na mídia e
via e-mail uma maçaroca de informações inúteis deste tipo é coisa que nem
papagaio em estado normal de saúde faz: precisa comer semente de Cannabis.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
10 anos de transgênicos no Brasil: a história como ela é
O texto abaixo foi elaborado como réplica a uma entrevista
do ano de 2013 à Revista do IDEC. Na ocasião já havíamos feito comentários
rápidos, que estão no blog neste link.
Moldando a percepção de risco dos brasileiros
Sempre que uma nova tecnologia surge no mercado há duas
ondas que se propagam em sentidos contrários no meio midiático: uma que
apresenta a tecnologia como uma nova maravilha que todos consumirão sem
problemas e a outra que procura demonstrar o lado diabólico da novidade, que
fatalmente levará os consumidores e o país ao Armaggedon. As antenas (ou os
osciladores) que propagam estas ondas estão bem sintonizadas como as agendas
dos grupos que representam e, mais ainda,
o framing (o tom ou a apresentação) das informações é
absolutamente coerente com os objetivos das agendas. Muito bem, não se espera
outra coisa de uma sociedade onde o debate é a tônica, mas a polarização do
tratamento do assunto leva a graves distorções na forma como o conhecimento
dobre o assunto é repassado ao público. No final, é um debate que pouco
contribui para o aprofundamento das questões e o público acaba boiando neste
mar turbulento da mídia, sem poder tomar um rumo consciente.
No caso dos transgênicos, a antena da oposição à tecnologia
é muitas vezes mais poderosa do que a sua defensora e usa um framing
muito mais adequado à sensibilização popular.
O resultado é que a percepção pública vai sendo construída com base no temor e nas
suspeitas levantadas pela mídia, com pouco ou nenhum espaço para
informações que, se não defendem a tecnologia, pelo menos não a tratam como
instrumento de dominação ou como obra direta de mentes malévolas que trabalham
para produzir e fazer germinar sementes do mal.
Um exemplo completo da visão apocalíptica da biotecnologia
agrícola foi apresentado um ano atrás pelo IDEC, que tem o chapéu de defensor
dos consumidores e passa ao público a ideia de que ele está sendo traído pela
CTNBio, pelos cientistas, pesquisadores, professores, reguladores e toda esta
ruma de profissionais “a serviço das forças do mal”. Vamos esquecer esta visão
distorcida e quase fascista que o instituto parece ter da maioria dos
profissionais que discordam dele e prossigamos na análise do texto da Revista do
IDEC: é uma entrevista com a Profa. Marijane Lisboa, atual membro da
CTNBio e árdua opositora da biotecnologia agrícola. No sentido de fazer com que
estes comentários sejam bem compreendidos pelo público, vamos usar o mesmo framing e uma linguagem semelhante
àquela que aparece nos portais de oposição à biotecnologia.
Como tudo começou
Em 1992 lá nos EUA várias empresas já estavam com plantas
transgênicas prontas para o mercado. O Brasil, como grande mercado consumidor
de sementes, tinha desde o início o potencial de usar a biotecnologia.
Entendendo isso, o Governo Federal iniciou discussões sobre uma lei que
estabelecesse o arcabouço regulatório de OGMs (ou transgênicos) no Brasil,
resultando na primeira lei de biossegurança de transgênicos em 1995. Em 1997 a
recém-criada CTNBio já estava avaliando a primeira soja transgênica a ser
cultivada no Brasil e no dia 1 de janeiro de 1998 aprovou seu uso comercial (www.ctnbio.gov.br/upd_blob/0000/326.doc). Tudo estritamente dentro da lei e seguindo os princípios de avaliação
de risco que vinham sendo sedimentados desde a reunião de Asilomar, lá na
década de 70. Mas logo em seguida o IDEC
e o Greenpeace (este último sumiu do cenário de oposição aos transgênicos no
Brasil, mas continua muito ativo em muitos países da América Latina e do Mundo
que não adotaram a biotecnologia agrícola) conseguiram um embargo da liberação
comercial na justiça. Para uma
cronologia deste embargo ler http://www.cnpso.embrapa.br/download/cronologia_sojarr.pdf
.
Quase quatro anos depois o embargo foi
suspenso porque a juíza entendeu corretamente que a CTNBio havia provado com
sua avaliação serem os riscos desta soja insignificantes à saúde ou ao
ambiente. Mas neste meio tempo, de olho no sucesso que a soja transgênica vinha
fazendo na Argentina, os agricultores do sul do Brasil (a região produtora de
soja naquela ocasião) começaram a contrabandear soja para plantar no Brasil. A
produção de soja GM em 1998 foi pequena, mas cresceu em 1999 e mais ainda nos
anos seguintes, enquanto o Governo se debatia com os processos movidos pelas
entidades “ambientalistas” e até por outros órgãos de governo, tentando impedir
a liberação comercial da soja. Este embate jurídico foi fruto de uma lei
confusa que não determinava claramente atribuições.
Então, é evidente que a adoção das plantas transgênicas começo
certinho dentro da lei, mas foi logo atrapalhada por processos jurídicos que exploravam as
debilidades da primeira lei, processos estes movidos exatamente pelos que se
dizem defensores do ambiente. Com isso acabaram por fomentar o contrabando e os
plantios iniciais foram feitos sem qualquer controle dos órgãos de
fiscalização. Uma chacrinha.
Contando o caso como o caso foi, fica
evidente que a história trazida pela entrevistada do IDEC, a Marijane
Lisboa, está profundamente equivocada
quando relata que as plantas transgênicas “foram introduzidas no país sem ter havido qualquer
avaliação dos impactos à
saúde e ao meio ambiente”: como
vimos, a CTNBio avaliou e liberou o produto com base em extensos estudos dentro e fora do país.
Num salto lógico, a entrevistada ainda conclui que a primeira aprovação da soja
“mostra a inviabilidade de uma
política de biossegurança”. A única coisa que é inviável
aqui é a conclusão dela...
Promessas dos
transgênicos: quem fez e o que se cumpriu
Começamos esta postagem comentando como os
grupos que se opõem aos transgênicos são bons comunicadores e como, em geral,
são maus comunicadores os que desenvolvem a tecnologia, seja nos laboratórios
públicos ou nas empresas, e também os reguladores. Quando as plantas transgênicas começaram a
aparecer no Mundo, muitas empresas e muitos cientistas bestamente venderam a
ideia de que iam ser uma panaceia universal, que iam aumentar a produtividade e
coisas assim. Também disseram que ia haver a adoção de uma agricultura de menor
impacto e que os lucros dos agricultores seriam maiores, no que estavam certos,
como se verá logo adiante.
No duro, as primeiras plantas
transgênicas que chegaram ao Brasil forem desenhadas para reduzir o trabalho do
agricultor no combate às ervas daninhas e diminuir as pulverizações de
inseticidas. As suas coisas implicam em importantes reduções de custos e, em
alguns casos, num pequeno aumento de produção. Estes benefícios são reais e a
prova disso é a adoção MACIÇA das plantas transgênicas em todos os países que aprovaram
a biotecnologia agrícola.
Além disso, as plantas tolerantes aos
herbicidas permitiram uma adoção ampla da tecnologia de plantio direto, que
dispensa o arado, poupa o solo, economiza água, combustível e mão de obra. Já
as plantas resistentes a insetos derrubaram para menos de 20% o uso de
inseticidas, o que leva a um impacto ambiental muito menor. Estes benefícios (ambientais) e vantagens (ao
agricultor, ao consumidor e ao produtor de sementes) são evidentes e só a
miopia teimosa dos opositores impede que sejam identificados. Por isso, não
surge como surpresa a frase de nossa entrevistada: “nesses 10 anos, vemos que
tudo aquilo que foi dito a favor dos transgênicos não se cumpriu”...
Enfim, as promessas muito audaciosas
foram logo reconhecidas pela comunidade cientifica e pelos agricultores como
tolices (acabar com a fome no Mundo era uma delas...), mas havia ainda um bom
número de promessas concretas que de fato se realizaram, como comentado acima.
O que acontece hoje é que os grupos que se opõem à biotecnologia só comentam as
promessas que não se cumpriram ou que eles acham que não se cumpriram e são
absolutamente cegos aos benefícios e ganhos reais da tecnologia. Comportam-se,
assim, como avestruzes.
O feijão (transgênico) nosso de cada dia
A EMBRAPA desenvolveu por quase uma década um feijão
transgênico resistente ao vírus do mosaico dourado. A planta não é tolerante a
herbicidas, nem resistente a insetos e nem mesmo produz qualquer nova proteína.
Ela expressa apenas um RNA fita dupla que interfere na replicação do vírus,
tornando a planta imune à virose. A avaliação dos riscos deste feijão para a
saúde e para o ambiente foi amplamente discutida e, na verdade, foi das mais
fáceis que a CTNBio fez até hoje, uma vez que a planta não tem parentes
silvestres, não expressa qualquer proteína nova e se mostra idêntica em
composição e em comportamento ao feijoeiro convencional, exceto pela
resistência à virose (bch.cbd.int/database/attachment/?id=13795) . Na ocasião
algumas pessoas levantaram dúvidas sobre a segurança de ingerir RNA fita dupla:
ora, todos os dias ingerimos milhares destes RNAs, provenientes de nossa dieta
variada, muitos deles essencialmente idênticos aos nossos e que poderiam até
interferir com nosso metabolismo, não fosse o fato de que não existe via
alguma pela qual isso seja possível.
Além disso, a sequência de RNA que é produzida pela construção genética
do vírus da EMBRAPA não tem qualquer semelhança com genes humanos (http://genpeace.blogspot.com.br/2013/04/rota-ao-dano-pelo-rna-de-interferencia.html;
Avaliação
de risco de OGMs obtidos por tecnologia de interferência de
RNA:
sistemática da CTNBio e o caso do feijão Emprapa 5.1). Acertadamente,
a CTNBio deliberou que não havia risco algum adicional deste feijoeiro GM.
Ao contrário, seguindo um caminho que nada tem a ver com
avaliação de risco caso a caso, a entrevistada do IDEC afirma erradamente que
deveriam ter sido feitos testes toxicológicos e, ainda, acha que deveriam ser
de longa duração. Para avaliar o que, se
não há novas proteínas e o RNA dupla fita é prontamente degradado pelo
cozimento? Além disso, juntando os dados fajutos do Séralini , obtidos com
milho tolerante a glifosato, e a avaliação do feijão, a entrevistada junta óleo
e água, numa mistura impossível, além de insistir num artigo pseudocientífico
que já foi inúmeras vezes desmascarado por todos os fóruns sérios (ver http://genpeace.blogspot.com.br/2013/09/o-artigo-do-seralini-e-um-cavalo-morto.html).
O fato é que o feijão GM da EMBRAPA é tão seguro quanto o
convencional e vai contribuir decisivamente para a segurança alimentar do
brasileiro. Por que? Porque hoje perdemos 20 a 40% de nossa safra de
feijão para a virose e precisamos importar feijão, um item da cesta básica. Nunca
foi possível obter uma variedade melhorada de forma convencional que seja
significativamente resistente ao vírus do mosaico dourado. O feijão transgênico
da EMBRAPA resolve totalmente este problema. Espertamente, o IDEC esconde isso
do consumidor e a entrevistada parece também desconhecer o “pormenor”.
Pesquisas “independentes” e conclusões erradas
Sempre que um assunto polêmico aparece, aparecem também alguns
pesquisadores que conseguem publicar aqui e ali artigos que “mostram” problemas
onde ninguém mais vê. O que representam estas vozes isoladas? O que são as vozes
isoladas na ciência: quebra de paradigma ou desvio metodológico? O assunto foi
detalhadamente destrinchado em outra postagem nossa e em essência podemos resumi-lo da
seguinte forma: se os resultados foram obtidos com o uso de uma metodologia
científica sólida, as conclusões são válidas, mas precisarão ser referendadas
pelos pares para serem amplamente aceitas, sobretudo se forem controversas. Se,
por outro lado, os resultados tiverem origem numa metodologia falha, violando
as normas da pesquisa científica, só servem para a lata de lixo, nem
sequer podendo servir de alerta. Toda e qualquer nova conclusão e, sobretudo,
as quebras de paradigma, terão que ser apoiadas pela maioria. É assim que
funciona a ciência, como se pode ler nas postagens Maioria e Reducionismo na CTNBio e Ciência, independência e voto.
Então, o que é a ciência “independente”? No caso dos
transgênicos não é diferente daquilo que acontece com muitas outras áreas da
tecnologia - as vacinas, os aditivos
alimentares, os celulares, os preservativos e por aí vai. Em todos estes casos
há e haverá sempre alguns pesquisadores que, empregando uma metodologia que não
é reconhecida como válida pelos pares (embora possa sê-lo pelo editor da
revista), concluem sobre a existência de riscos que os demais não veem. Os arautos da desgraça, de plantão em todas
as áreas polêmicas, e seguindo o princípio de que uma grande desgraça é
uma boa notícia, seguem empurrando como válidos os resultados obtidos
de uma metodologia que viola a ciência. Que argumentos usam estes adeptos do
Armaggedom permanente? A existência de cientistas “independentes”, que não são
pagos, como supostamente todos os outros, pelos grandes interesses
corporativos. Além da suposição ser um tremendo desrespeito aos milhões de
pesquisadores do mundo todo, que ralam anos a fio para produzir resultados
confiáveis, quase sempre pagos com verbas públicas ou de instituições sem fins
lucrativos, ela propositalmente esquece que a qualidade dos
trabalhos destes “independentes” é nula ou muito baixa e que seus resultados
estão inteiramente isolados dos demais, sem uma relação causa efeito e sem
reprodutibilidade, seja porque violam os princípios da ciência, seja porque não
se baseiam numa hipótese cientificamente plausível.
Nossa entrevistada acredita nos cientistas “independentes”.
Podemos dar um desconto porque sua área de atuação passa longe da biologia
molecular, mas a compreensão dos princípios científicos e da forma como se faz
ciência de verdade não pode deixar de estar na mente dos membros da CTNBio.
Defender ciência “de mentirinha” em nome de uma ideologia qualquer é uma
forçada de barra cruel.
Desde que começaram a ser comercializados, faz mais de 15
anos, os transgênicos vem sendo anunciados pelos “independentes” como a fonte
de inevitáveis problemas de saúde. Acontece que, na prática e na ciência de
verdade, nunca se viu nada disso: 100 bilhões de animais foram alimentados com
rações a base de transgênicos, ingerindo muito mais destes produtos do que nós
poderíamos fazer, e absolutamente nada foi visto (exceto as doideiras da Judy
Carman, do Séralini e de mais uns 4 outros grupos “independentes”). O que
conclui nossa entrevistada? “Os efeitos nunca vão aparecer assim, pois não
há como identificar, na saúde das pessoas, aquilo que possa ser consequência só
da introdução do alimento transgênico, a não ser que se faça uma pesquisa
isoladamente. É possível que esteja havendo uma incidência maior de certas
doenças, como alergias, câncer, doenças do sistema imunológico etc. Para comprovar,
é preciso ter uma pesquisa específica, como essa que comentei [estudo francês]”.
Muito melhor que o estudo francês, descartado do âmbito da ciência séria, é a
constatação de que as proteínas transgênicas não fazem mal, resultante de centenas
de outros estudos sérios e com boa metodologia.
É muito cômodo dizer que há efeitos nas populações humanas, mas que não
vemos porque não há uma metodologia adequada: é quase um dogma religioso,
contra o qual a ciência é, de fato, inteiramente impotente.
Avaliação de risco e impacto de herbicidas e outros pesticidas
Uma afirmativa que aparece com frequência na internet é a de
que, quando se avalia os riscos de uma planta transgênica, deve-se embutir os
riscos da tecnologia associada. Assim, quando a CTNBio avalia os riscos de um
milho tolerante ao 2,4-D (um herbicida bastante empregado em muitas culturas
não transgênicas no Brasil e no Mundo), deve avaliar os impactos do milho e
também do herbicida. Ora, a coisa não funciona assim: no Mundo todo, a
avaliação de risco de OGMs se debruça sobre os impactos diretos dele sobre o
ambiente ou sobre a saúde. Os
avaliadores de risco de OGMs não avaliam a tecnologia associada, que cabe aos
órgãos de fiscalização e registro. Assim, no Brasil, a CTNBio avalia o impacto
direto do OGM e a AVISA, o IBAMA e o MAPA podem avaliar impactos de produtos
associados à tecnologia, como herbicidas, por exemplo. Não cabe à CTNBio esta
avaliação que, inclusive, lhe é vetada por lei. O que cabe à CTNBio está
pormenorizadamente descrito em nosso blog na postagem O que cabe à CTNBio e quais são seus procedimentos.
A entrevistada parece querer mudar a avaliação de risco de
transgênicos, que está muito bem sedimentada no Brasil e no Mundo (ver http://genpeace.blogspot.com.br/2013/09/guia-para-avaliacao-do-risco-ambiental_687.html).
Embora seja uma preocupação válida, o impacto dos herbicidas é assunto de
outros órgãos e agências no Brasil.
O Agente Laranja, a Guerra do Vietnam e o herbicida 2,4-D
Ninguém pode negar o horror que foi a Guerra do Vietnam. Na
ocasião, os militares americanos, a grande mídia e muitas outras fontes vendiam
a ideia de que os vietnamitas eram uns monstros, que não davam valor à vida
como nós, ocidentais, cristãos e...brancos. Uma visita ao país agora nos fez descobrir que
os vietnamitas são os brasileiros de olho puxado: adoram conversar, são alegres, comilões, criativos
e ligados num futebolzinho. Têm um tremendo orgulho do país deles, mas não
dispensam as tecnologias desenvolvidas em nenhuma parte do Mundo: importam e
adaptam os produtos americanos e acabaram de promulgar uma lei para os
transgênicos extremamente sensata, que lhes permitirá adotar a biotecnologia
agrícola muito rápido. O que isso tudo tem com o Agente Laranja?
Primeiro, o IDEC e a entrevistada confundem seriamente o
Agente Laranja e o 2,4-D. Na Guerra do Vietnam o tal agente continha 2,4-D, que
é um herbicida seguro, mas tinha outros produtos: um outro herbicida, o 2,4,5-T
(em partes iguais ao 2,4-D) e, o que era pior, a 2,3,7,8-tetrachorodibenzodioxina
(TCDD), extremamente tóxica e que vinha como contaminante do...2,4,5-T!!!. Como
o agente foi empregado numa guerra imbecil e injusta, ninguém se preocupava com
isso. Os terríveis efeitos que este agente causou nada têm a ver com o 2,4-D,
mas com a dioxina. Quem não conhece este
assunto, não deve repetir como um papagaio alucinado o que ouve por aí, com o
risco de confundir os brasileiros e, sobretudo, com o grave risco de
ofender nossos irmãos antípodas, que sofreram e sofrem com os efeitos das dioxinas,
e não dos herbicidas. Instruam-se, povos do mundo todo! Nem é preciso ir muito
longe, basta ler http://en.wikipedia.org/wiki/Agent_Orange.
O propósito das audiências públicas promovidas pela CTNBio
A entrevistada do IDEC comenta que a CTNBio deveria ter
feito uma audiência pública para as plantas com tolerância ao 2,4-D. Será
mesmo? Para que a CTNBio promove uma audiência pública? Qual o objetivo de tal
audiência? É comum que o cidadão imagine a audiência como uma oportunidade de
aprender com o proponente da audiência sobre o tema em pauta. Mas não é nada
disso, juto ao contrário: a Audiência é feita para ouvir a opinião dos cidadãos
e grupos sociais. Ora, a CTNBio já havia feito audiência sobre plantas
transgênicas resistentes a herbicidas e, do ponto de vista técnico, isso basta.
Não importa nem um pouco se o herbicida é o glifosato, o Tordon ou outro
qualquer.
Acertadamente, a audiência foi rechaçada pela Plenária e
também acertadamente, foi promovida pelo MPF. Se o Ministério quer aprofundar
seu conhecimento e burilar sua percepção de risco sobre uma planta tolerante ao
2,4-D, é justo que ouça os brasileiros,
uma vez que não se interessou por isso na primeira audiência que a própria
CTNBio promoveu nem pediu ele mesmo uma tal audiência para os demais eventos
transgênicos tolerantes a herbicidas. A audiência não trouxe qualquer novidade
para a CTNBio (ler aqui).
Observações finais
Em nossa leitura, não há nada de novo nesta entrevista e, o
mais sério, a avaliação dos 10 anos de transgênicos no Brasil não traz
informações concretas ao leitor, apenas discussões de bastidor e suspeitas
infundadas. O fato é que, nestes 10 anos, a biotecnologia agrícola disparou e
hoje o país adota de forma maciça as plantas transgênicas. O fato, també, é que
a agricultura brasileira avançou enormemente e somos grandes exportadores de
produtos que antes importávamos.
Apenas como informação que não deve ser esquecida: milho e
soja transgênicos entram diariamente na alimentação humana no Brasil e, mais
ainda, na animal. Seguramente muito mais do que o feijão, na média dos
brasileiros. Por que? Porque os produtos derivados de soja e milho GM estão em
toda parte, nos óleos, margarinas, recheios, aditivos proteicos, sucos, etc. Se
nossa entrevistada se preocupa mais com o feijão, que nem expressa proteína
transgênica, do que com os milhos e sojas que estão aí, precisa se reciclar em
nutrição.
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quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Exportação de mel e o eucalipto transgênico: Réplica ao Combate Racismo Ambiental e ao Século Diário e proposta de manejo como garantia da sustentabilidade, certificação e exportação da nossa produção apícola
Já faz algumas semanas foi publicada
uma postagem comentando os impactos que o eucalipto transgênico poderia ter na
exportação de mel brasileiro (http://racismoambiental.net.br/2014/11/eucalipto-transgenico-da-suzano-ameaca-producao-brasileira-de-mel/#more-163695). É valida a preocupação trazida
pela Any Cometti, uma vez que os apicultores têm mais lucro exportando seus
produtos do que vendendo no mercado interno. Alguns destinos de nossa
exportação podem ser bastante exigentes em qualidade e, pelo menos no caso da
Europa, podem ser intransigentes em relação à presença de OGMs ou produtos
derivados deles. Além disso, parte de nosso mel é exportada com o selo orgânico
e, neste caso, não pode haver a presença de OGMs acima de uma certa
porcentagem.
Eu esperava ler na postagem do texto
da Amy, que apareceu no Combate Racismo ambiental, no Século Diário e em outros
portais, considerações ponderadas sobre esta questão importante. Entretanto, a leitura do texto postado, faz a gente pensar naquela
estratégia de venda de revistas nos aeroportos: te atraem com uma história e te
vendem outra inteiramente diferente. O título (Eucalipto transgênico da
Suzano ameaça produção brasileira de mel) fala de exportação de mel, mas o
texto só discute isso de forma muito superficial e sem qualquer dado que,
entretanto, a Abemel seguramente tem. Aliás, é meio contraditória a declaração
da Joelma, quando fala, aparentemente em nome da Abemel, sobre o teste e
descarte de mel que tenha pólen transgênico, porque a certificação proposta
pela própria Abemel (http://brazilletsbee.com.br/certificacao/protocolo.pdf) não tem uma linha
falando de orgânicos nem muito menos de transgênicos.Também fica difícil saber
de onde veio a informação de que “do montante exportado, 80% têm procedência
orgânica”: não está claro em canto algum qual é a parcela do mel brasileiro
exportado que, de fato, é orgânico e nem sequer quanto dele é vendido como
orgânico.
Vamos começar do início: A primeira norma técnica
para o setor de apicultura foi publicada dia 19 de abril de 2008, a NBR 15585,
e está bem alinhada com as exigências duras do mercado europeu. O Brasil,
entretanto, exporta cerca de 82% do seu
mel para o EUA (http://brazilletsbee.com.br/noticia.aspx?id=84)
e uma parte para outros países (Canadá, com quase 8% e vários outros - http://www.canalrioclaro.com.br/noticia/21769/exportacao-de-mel-cresce-96-79-de-janeiro-a-maio.html
). EUA, Canadá e muitos outros não estão nem aí para a presença de pólen
transgênico no mel. Se houver um dia
pólen transgênico no mel brasileiro, isso não será impedimento para a venda do
mel, sempre que seja produzido dentro das exigências dos importadores. Só não
vai ser vendido como orgânico, coisa que a maioria do mel brasileiro muito
provavelmente não é pelos padrões internacionais. Onde a coisa pega é na
Europa, que entende a presença do pólen GM, não importa em que quantidade, como
impedimento para importação. No duro, a Europa não está usando ciência aí, mas
política, e quem ganha são os importadores de mel de lá e quem perde são os
consumidores e os produtores de mel do Terceiro Mundo.
Muito antes de afirmar que o eucalipto inviabiliza a
exportação de mel é preciso usar boa ciência e estudar as distâncias mínimas
entre as colmeias e os plantios de eucalipto GM nas diversas paisagens em que
os eucaliptais se inserem. Se é verdade que as floradas de eucalipto são
atrativas para as abelhas, também é verdade que as árvores só florescem depois
de 7 anos e que as abelhas preferem flores que estejam mais próximas da colmeia.
É preciso um sistema de manejo eficiente para que os problemas de exportação
sejam abolidos, mas este manejo está muito longe de ser impossível ou mesmo
difícil. Assim, nem o eucalipto transgênico e nem qualquer outra planta transgênica
vão inviabilizar nossa exportação de mel, basta um manejo adequado.
Aí aparecem as observações do Valmir Noventa, do
MPA. O que ele afirma é um absoluto despautério, a começar pelo alcance de voo
das abelhas e a terminar pelo impacto na biodiversidade e nas imaginárias
sementes crioulas. Pra começar, o impacto do eucalipto transgênico que está em
análise pela CTNBio pode até ser menor que o do eucalipto convencional, mas
isso é irrelevante: toda a agricultura impacta e a de baixa produtividade, que
o MPA defende, impacta muito mais. Em segundo lugar, as abelhas raramente voam
mais que 1000 m, ida e volta. Elas preferem visitar plantas próximas à colmeia.
Tipicamente, 400 m de raio máximo é o que ocorrem nas regiões de produção de
mel. Para evitar que pastem em flores
transgênicas, basta mover as caixas. Afinal, não vai haver só eucalipto no
Brasil. Em terceiro lugar, de que sementes crioulas o Valmir está falando? Não
existem sementes crioulas de eucalipto e a única planta com a qual o eucalipto
pode cruzar e passar suas sementes é o próprio eucalipto (mais especificamente,
as duas espécies que conforma o híbrido da Futuragene). Além disso ninguém
planta comercialmente eucalipto a partir de sementes! Em quarto lugar, ninguém
come eucalipto: em que isso afeta a soberania alimentar? Em quinto lugar, que
diabos vem a ser programação genética para o tempo de floração? Se é fazer com
que as plantas floresçam juntas, isso vem sendo buscado e obtido pelos homens
desde que começaram a domesticas suas plantas. Se é outra coisa, está o Valmir
redondamente enganado. Por fim, o Valmir diz que será preciso comprar sempre as
sementes. Isso pode ser válido para o milho híbrido, mas não é válido para a
soja (que é linhagem) nem muito menos para o eucalipto, que é micropropagado!
Toda esta parte do texto é uma mistureba de bandeiras repetidas pelo MPA como
os papagaios repetem, sem saber o que dizem e fora do contexto e a publicação desta
cacofonia termina por ser um imenso desserviço à apicultura e aos produtores de
madeira e celulose. Em última instância, o Vladimir Noventa está atirando pedra
no próprio país em nome de uma ideologia obscura.
Já o Dagoberto listou uma série de dúvidas sobre a
segurança, mas todas elas, sem exceção alguma, foram consideradas pela CTNBio e
há elementos suficientes para uma decisão baseada em ciência, e não em
suspeitas hiper-precaucionárias. Boa parte das preocupações trazidas pela
sociedade está detalhadamente discutida na avaliação de risco detalhada que
postamos em http://genpeace.blogspot.com.br/2014/11/eucalipto-transgenico-quais-sao-de-fato.html.
É muito frustrante a gente ler um texto como este da
Amy pensando que vai ver uma coisa e acaba nem vendo direito o que o título
sugere, mas tendo que digerir a gordura perigosa do restante.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Eucalipto transgênico: quais são, de fato, os riscos ao ambiente e à saúde?
Paulo Paes de Andrade1, Amaro de Castro Lira
Neto2, Marcia Almeida de Melo3
1 Departamento de Genética/ UFPE. 2
Instituto Agronômico de Pernambuco. 3 Centro de Saúde e Tecnologia
Rural/ UFCG
Nesta postagem mostramos ao leitor, com grande detalhamento, como é
possível avaliar os riscos que um eucalipto geneticamente modificado pode trazer
ao ambiente e à saúde. Para tal seguimos as orientações internacionais e
refizemos os cinco passos da avaliação, concluindo que nenhum dos 13 perigos
identificados concretiza-se em danos. As informações aqui repassadas ao público
podem servir de base para a tomada de decisões em qualquer fórum técnico e
estão baseadas na melhor ciência e nos dados experimentais trazidos à luz pela
proponente do eucalipto em análise.
1. Introdução
O Brasil é um país megabiodiverso. Cabe aos brasileiros o
dever de preservar esta gigantesca biodiversidade e fazer uso dela de forma
sustentável. Mas o país é também o lar de 200 milhões de habitantes que
precisam viver dignamente e para isso devem produzir bens de consumo e
exportação para garantir uma renda per capita compatível com o nível de
desenvolvimento social que desejamos. A busca por um equilíbrio entre os dois
objetivos, aparentemente conflitantes, deve ser contínua e não pode desprezar o
mais importante elemento que garante a mudança de paradigmas, seja na economia,
seja no comportamento que determina outras mudanças sociais: a inovação.
É de fato a inovação que permite mudanças estratégicas de produção e consumo e
que, em última instância, tem levado a humanidade, sucessivamente, a vencer
desafios aparentemente intransponíveis.
Neste contexto, o Brasil enfrenta um desafio científico que
chama a atenção do Mundo: a avaliação de risco do eucalipto geneticamente
modificado (GM) para crescimento mais rápido e a possível aprovação desta
variedade para plantio comercial. Embora outras variedades de eucalipto GM
estejam sendo avaliadas em outros países (ver http://www.nature.com/news/brazil-considers-transgenic-trees-1.15769),
o Brasil é o único que está na reta final de aprovação para uso comercial de
uma árvore transgênica. Para um país que depende fortemente da produção
florestal, tanto para madeiras como para celulose, seja no mercado interno,
seja para exportação, a chegada de uma tecnologia que aumenta a produtividade
em madeira é, seguramente, algo que deve ser pensado com cuidado, sem descartar
apressadamente sua possibilidade de adoção em nome de algum temor quiçá
infundado.
A internet traz dúvidas provenientes de diferentes atores no
complexo cenário do agronegócio X ambientalismo, mas quase nada contribui para o
desenvolvimento de uma avaliação de risco deste OGM. A CTNBio ainda não ouviu
os pareceres de todos os membros responsáveis pela análise do dossiê
encaminhado pela FuturaGene para solicitar a liberação comercial do seu eucalipto
GM. Assim, os textos mais técnicos disponíveis são o próprio dossiê submetido
pela proponente e as contribuições à audiência pública 05/2014, realizada no
último dia 04 de setembro, todos disponíveis no site da
CTNBio. A consequência da falta de informação técnica mais ampla, numa
linguagem acessível ao publico interessado, é que a percepção de risco
vem sendo inteiramente moldada pelos portais que se opõem à biotecnologia. Assim,
hpa um distanciamento considerável entre os riscos percebidos e os riscos
reais, repetindo o que já aconteceu outras vezes em cenários onde a opinião
pública é fortemente influenciada pela mídia (ver comentários aqui).
O presente texto procura preencher esta lacuna, oferecendo ao leitor todas
as informações necessárias à compreensão do risco real do
eucalipto GM, organizadas e empregadas na sistemática de avaliação de risco
oficial.
As informações estão divididas em vários tópicos, mostrados
no sumário abaixo:
Avaliação de risco de um OGM e decisão sobre sua segurança
ambiental: um processo estruturado – neste tópico, descrevemos para o leitor o
passo a passo da avaliação de risco, como estabelecida nos últimos 10 anos e
consolidado em muitos documentos oficiais e textos científicos e técnicos.
A avaliação de riscos ambientais do eucalipto transgênico com
crescimento acelerado – neste tópico, bastante longo, detalhamos toda a
avaliação de risco do eucalipto GM. Em sua maior parte esta avaliação coincide
com aquela feita na CTNBio. Os vários passos da avaliação estão descritas nos
sub-tópicos abaixo:
Contexto – neste passo focalizamos a avaliação de riscos do
eucalipto nos parâmetros relevantes.
Lista de perigos – um passo democrático, onde listamos
perigos percebidos pelos distintos segmentos da sociedade, além daqueles
identificados por nós mesmos, oriundos da contextualização do problema.
Caracterização do risco – este é talvez o passo mais crítico,
depois da contextualização, pois exige a construção de rotas ligando cada
perigo ao seu dano por hipóteses cientificamente plausíveis. Exige trabalho
duro e muito conhecimento dos vários elementos que configuram o contexto.
Classificação do risco – um passo simples, onde a
probabilidade de que o dano se concretize e a magnitude do dano são integradas
para estimar o risco.
Decisão (ou recomendação) às autoridades - o passo final em
que os riscos são apresentados ao tomador de decisões e sopesados (quando
existem) às medidas de mitigação cabíveis.
Observações finais – neste ponto voltamos às considerações
sobre desenvolvimento sustentável, preservação do ambiente e inovação.
A avaliação de risco desta variedade de eucalipto dá uma
oportunidade ímpar de se demonstrar a aplicabilidade integral do passo a passo
de avaliação de risco que vem se consolidando nos últimos 10 anos. Textos
produzidos pela Convenção de Biodiversidade, pela Autoridade Australiana em
Avaliação de Riscos de OGM e por outros experts, inclusive o guia
produzido por um grupo de avaliadores de risco da América Latina, podem servir
de base para avaliar qualquer OGM. Este é o primeiro ponto a se ter em vista: não
há qualquer necessidade de se ter diretrizes específicas para avaliação de
árvores GM, pois a forma como está estruturada a avaliação de risco moderna
é aplicável para todo e qualquer organismo geneticamente modificado,
independente de sua espécie, construção ou uso. Na leitura deste texto (alertamos
o leitor que o texto é longo, e pedimos desculpas por isso) deve-se sempre ter
em mente que as avaliações de risco procedem caso a caso, passo a passo e
comparam o organismo transgênico com o convencional em busca de novos
riscos advindos da transformação genética. Os riscos comuns aos
organismos transgênico e convencional não interessam ao avaliador de risco, que
só se debruça sobre os perigos novos, embora possam ser importantes para o
analista de risco, que sopesa riscos e benefícios.
A Figura 1 ilustra os vários passos da avaliação de risco,
como estabelecidos na última década. O processo assim estruturado permite que o
avaliador se debruce efetivamente sobre os perigos que podem se transformar em
dano aos objetos de proteção amplos estabelecidos na nossa Constituição, sem
desprezar os demais perigos trazidos à sua consideração pelos vários atores no
complexo cenário da biotecnologia moderna. Em cada passo o avaliador vai
progressivamente se concentrando nos elementos indispensáveis para proceder a
classificação dos riscos de cada perigo identificado como possível. A legenda
da figura descreva de forma breve, mas elucidativa, o que se espera atingir em
cada passo.
Figura 1. Representação esquemática do
passo a passo da avaliação de riscos de OGMs, consolidado nos últimos 10 anos e
inserido no roteiro de avaliação das principais agências de avaliação de risco
do Mundo. O primeiro passo é a determinação do contexto de liberação do OGM,
que é composto de elementos muito diversificados, provenientes do arcabouço
legal do país, da biologia do organismo não transgênico, da construção
genética, da experiência prévia com organismos semelhantes e do ambiente
receptor. O segundo passo é uma lista extensiva de perigos, advindos da
percepção de risco dos diversos atores envolvidos com a aceitação/rejeição do
produto. No terceiro passo (Caracterização dos riscos), são construídas rotas
que levam do perigo ao suposto dano, descartando-se desta forma aqueles que não
têm uma rota possível apoiada em ciência e, ao mesmo tempo, estimando
probabilidades de ocorrência e magnitude de dano para aqueles perigos que podem
se concretizar em riscos. No quarto passo (Classificação dos riscos), a classe
dos riscos é estimada em função da probabilidade de que a rota ao dano se
concretize e na magnitude do dano esperado. Por fim, no quinto passo, uma
decisão técnica baseada em ciência pode ser tomada, levando em conta
exclusivamente os novos riscos (i.e, não são considerados nesta decisão os
eventuais benefícios que o produto possa trazer ao país nem os riscos que o
organismo convencional já traz ao ambiente, desde que iguais aos trazidos pelo
transgênico).
2.1 Os 5 passos da
avaliação de risco
Em geral assume-se que uma correta contextualização do
problema (Primeiro passo ou Formulação do problema) é vital para que o
avaliador não se perca avaliando perigos que não se referem ao OGM ou, ao
contrário, que deixe de considerar elementos do contexto dos quais podem provir
perigos novos. É também nesta etapa que o avaliador deve definir os pontos
finais de avaliação (isto é, organismos ou sistemas específicos, passíveis de
experimentação) que representem adequadamente os objetos de proteção
identificados dentro das amplas metas de proteção definidas pelas leis do
Brasil.
O segundo passo dá transparência ao processo, no sentido em
que todas as preocupações provenientes das mais diversas fontes podem e devem
estar arroladas na avaliação: a lista de perigos deve ser ampla, mas só deve
incluir os possíveis perigos novos derivados do impacto direto do OGM no
ambiente. Os perigos que já estejam associados ao organismo parental não
modificado não cabem nesta lista, nem aqueles derivados da tecnologia associada
ao produto.
O terceiro passo (Caracterização dos riscos) é, de fato, o
cerne da avaliação de risco: é através do uso judicioso de rotas ao dano que se
pode, por um lado, descartar perigos imaginários e, pelo outro, estimar
probabilidades de ocorrência. Cada passo da rota deve ser cuidadosamente
avaliado com base no que a ciência indica, levando em conta toda a literatura
pertinente e os resultados gerados pela proponente (em geral em parceira com
instituições de ensino e pesquisa públicas e, algumas vezes, com acompanhamento
da própria CTNBio). As rotas que têm passos com probabilidade de ocorrência
nula diretamente descartam o perigo como imaginário. Neste passo também é
preciso definir a magnitude do dano, que está relacionada a impactos em vários
níveis, desde aqueles restritos a poucos indivíduos até um impacto irreversível
em muitas populações.
O quarto passo é relativamente mais simples, pois basta que
se utilizem numa tabela ad hoc desenhada a probabilidade total de
concretização da rota e a magnitude do dano. Este procedimento rápido permite
estimar a classe de risco associada ao perigo.
No quinto passo os riscos são
ponderados globalmente sem, contudo, se levar em conta qualquer benefício que o
produto possa trazer ao país. A experiência nos últimos 10 anos mostra que os
riscos identificados pelas agências de governo são, em geral, insignificantes.
O uso de uma abordagem
estruturada e clara, avançando passo a passo e avaliando cada caso (produto)
separadamente é garantia de que os riscos serão corretamente identificados e
classificados. Uma abordagem sem base neste procedimento costuma ser confusa,
levando a intermináveis discussões sobre pontos irrelevantes e, ao contrário,
podendo facilmente levar a falhas na identificação de perigos reais.
Vamos agora repetir o passo a passo descrito acima,
aplicando os princípios de avaliação para o eucalipto GM expressando duas novas
proteínas: a Cel1, que confere o fenótipo de crescimento acelerado, e a NptII,
que confere resistência a certos aminoglicosídeos e só tem utilidade na fase de
seleção das plântulas.
O primeiro passo, como explicado acima, é a definição clara
do contexto no qual o eucalipto transgênico será liberado e que interações
novas ocorrem entre o eucalipto GM e o ambiente, devidas à modificação
genética. Vários elementos de análise compõem este contexto, como
comentado acima e ilustrado na Figura 1. Comecemos pelo ambiente receptor,
que é talvez o mais simples dos elementos do contexto.
No caso do eucalipto GM, embora ele possa ser cultivado em
todo o país, as áreas com aptidão agrícola e com localização adequada para a
cadeia produtiva são aquelas onde hoje se planta o eucalipto convencional. As
florestas de eucalipto em geral coexistem com outras culturas próximas e com
mata nativa, nas chamadas reservas legais e em outras manchas de floresta. Outras
atividades agrícolas, como a pecuária e a apicultura, coexistem com as
plantações de eucalipto. Os animais, as plantas, o solo e a água deste ambiente
podem interagir com os eucaliptos GM, mas nem todas as interações imaginadas
serão possíveis e os níveis de exposição às proteínas novas (provenientes da
expressão dos transgenes) poderão ser muito diferentes. As interações e as
exposições serão definidas pela biologia do eucalipto e pelas modificações
genéticas determinadas pela transgenia. Elas também dependem do uso que será
feito do eucalipto, o que vai ser visto mais adiante, quando discutirmos o
histórico de uso seguro.
Da biologia do eucalipto podemos extrair algumas
informações muito importantes para nossa avaliação. A primeira delas, que
determina a possibilidade de escape dos transgenes para outras espécies de
plantas, é a existência de espécies de plantas no Brasil, sejam nativas ou não,
que possam cruzar com o eucalipto: o eucalipto GM é um híbrido de duas espécies
(E. grandis X E. urophylla) e não tem parentes silvestres fora da
Ásia e da Oceania, tornando impossível a fuga dos transgenes por cruzamento
sexual (transmissão vertical, como é chamada tecnicamente). Da biologia também
aprendemos que o eucalipto é polinizado principalmente por abelhas e, embora
seu pólen possa ser transportado pelo vento, não é desta forma que a planta se
reproduz, reduzindo a no máximo umas centenas de metros a possibilidade real de
cruzamentos entre eucaliptos. Além disso, embora o eucalipto se reproduza por
sementes, ele não é comercialmente propagado assim e não se espalha em matas ou
mesmo em capoeiras e áreas agrícolas abandonadas ou de uso pouco intensivo
(i.e., não mostra “invasividade”). Por fim, também extraímos da biologia que os
animais silvestres no Brasil não se alimentam de partes da planta de eucalipto
e que apenas os polinizadores frequentam as flores, recolhendo delas o néctar
para a produção de mel e transportando pólen como contaminante neste processo.
Há, naturalmente, uma infinidade de outras informações sobre a biologia do
eucalipto, mas julgamos que estas são as mais importantes para a avaliação de
riscos. O entendimento consensual da biologia do eucalipto pode ser lido no documento
da OECD.
Da construção genética podemos extrair muitas informações,
mas as que são relevantes para a avaliação de risco são poucas e derivadas
essencialmente da análise de alterações fenotípicas, da expressão dos genes e
de sua estabilidade. Empregando uma linguagem mais simples, interessa ao
avaliador saber se o eucalipto GM se comporta como esperado (isto é, cresce
mais rápido), sem que apresente qualquer mudança inesperada de comportamento; interessa
também saber quais novas proteínas são expressas, suas concentrações nos vários
tecidos e a estabilidade destas características ao longo de várias gerações da
planta. No caso do eucalipto, todas as evidências apontam para uma única
alteração de comportamento: o crescimento mais rápido. Em todos os demais
aspectos o eucalipto GM se mostrou igual ao convencional. Isso era esperado,
uma vez que uma única inserção da construção genética foi feita e que ela não
codifica enzimas ou proteínas que possam afetar o comportamento biológico da
planta, exceto seu crescimento mais rápido. As proteínas expressas são uma
endoglucanase (Cel1) e uma enzima que confere resistência a certos antibióticos
(NptII). A primeira é responsável pelo crescimento rápido e provém de Arapidopsis
thaliana, uma planta muito usada como modelo em pesquisas (como o
camundongo nas pesquisas médicas). O eucalipto tem muitas outras endoglucanases
endógenas (isto é, produzidas por ele mesmo) e a proveniente de A. thaliana
é bastante conservada na natureza. A outra enzima vem de Escherichia coli,
uma bactéria intestinal bem conhecida. Nenhuma das duas é tóxica ou alergênica
para seres humanos nem parece afetar negativamente qualquer espécie.
O histórico de uso seguro dos eucaliptos nos traz
algumas informações importantes: as variedades convencionais do híbrido em
pauta nunca se mostraram invasivas e os produtos obtidos com ela são seguros
para todos os usos normais que se faz do eucalipto, inclusive o mel. Variedades
com crescimento mais rápido estão sendo desenvolvidas e avaliadas nas últimas
décadas e esta aceleração do crescimento não parece impactar a qualidade do solo
ou da água e sua disponibilidade nas áreas de plantio, quando os resultados são
comparados àqueles obtidos com variedades mais antigas, de crescimento mais
lento. Ainda não há experiência comercial com o eucalipto GM, seja da variedade
em avaliação pela CTNBio, seja com qualquer outra. Os resultados nesta área
apoiam-se em experimentos de laboratório, em casa de vegetação e a campo, mas
todos apontam para o que a construção genética e sua expressão indicam: o
eucalipto GM não apresenta impactos distintos daqueles já presentes nas
florestas de eucalipto convencional. Outra fonte valiosa para obter dados sobre
os riscos de árvores transgênicas reside nos resultados de avaliações de riscos
de outras plantas ou do eucalipto, feitas em outros países. A tabela abaixo
mostra que o conhecimento sobre árvores GM tem se acumulado rapidamente e a conclusão
tem sido sempre a mesma: os riscos não parecem ser diferentes entre as plantas
GM e as convencionais.
Tabela I. Sumário das liberações planejadas no ambiente
aprovados em diferentes países para árvores (espécies florestais).
País ou região
|
Espécie (no. de ensaios)
|
Fonte ou referência
|
EUA
|
Populus
spp. (212), Pinus spp. (154)
|
|
Eucalyptus
spp. (77)
|
||
Liquidambar
styraciflua (37)
|
||
Castanea
dentata (15)
|
||
Ulmus
americana (5)
|
||
Picea
glauca (1)
|
||
China
|
Populus
spp. (34)
|
M.-Z.
Lu, Chinese Academy of Forestry (comunicação pessoal)
|
Robinia
pseudoacacia (25)
|
||
Larix
spp. (16)
|
||
Paulownia (3)
|
||
Brasil
|
Eucalyptus (65)
|
|
Canadá
|
Populus (28), Picea mariana (10), P. glauca
(7)
|
|
União
Europeia
|
Populus
spp. (30), Betula pendula (6),
Eucalyptus spp. (4), Picea abies (2), Pinus sylvestris (2)
|
|
Japão
|
Eucalyptus (7), Populus (2)
|
|
New
Zealand
|
Pinus
radiata (5)
|
|
Australia
|
N/A
|
Baseado
em Häggman et al. 2013, apud Baulcombe et al, 2014
Procuremos agora definir as metas de proteção
relevantes para nosso evento. Na verdade, estas metas já estão definidas, de
forma muito ampla, na legislação do país, inclusive na Constituição Federal.
Sabemos que é preciso evitar impactos à biodiversidade e proteger nossos
mananciais de água, assim como a qualidade do solo e do ar. A gama de objetos
de proteção que estas metas envolvem é tão grande que é indispensável reduzi-la
escolhendo judiciosamente alguns objetos de proteção que, de fato, possam ser
impactados pelos eucaliptos GM. Tendo em conta o que discutimos da biologia da
planta, da modificação genética, do ambiente receptor e do histórico de uso,
podemos reduzir convenientemente os objetos de proteção, como se verá a seguir.
Considerando inicialmente que o eucalipto, seja GM ou convencional,
não é consumido por animais silvestres, a exposição destes às proteínas da
variedade transgênica é muito baixa. Apenas os polinizadores fazem uso do
néctar das flores que, entretanto, não contém proteínas da planta. As novas
proteínas do eucalipto GM estarão no pólen, que está presente em quantidades
muito variáveis no mel e é tido, em geral, como uma impureza. Pode-se conceber
uma rota pelo qual a presença de pólen GM poderia ter consequências negativas
aos polinizadores (como veremos mais adiante). Assim, polinizadores
podem ser considerados como objetos de proteção que têm relevância nesta
avaliação. Eles são, de fato, o único elemento da biodiversidade animal que poderia
ser afetado por este eucalipto GM.
Por outro lado, como não existem plantas brasileiras que
cruzem com o eucalipto, o perigo da dispersão dos transgenes e de algum dano
causado pela sua expressão nas plantas nativas do país não tem uma rota
possível a um hipotético dano. Uma alternativa de dano à flora seria pela
invasão de ambientes pelo eucalipto GM, mas a probabilidade de que isso
aconteça de forma diferente do que acontece com o eucalipto convencional é tão
remota que pode ser descartada. Assim, a biodiversidade vegetal deixa de
ser uma meta de proteção relevante para esta avaliação de risco.
Há ainda que considerar as novas ameaças que este eucalipto
poderia trazer para a qualidade das águas superficiais e de subsolo e para o
solo nas áreas de cultivo do eucalipto transgênico. As duas proteínas expressas
são, na verdade, comuns na Natureza e sem propriedades físico-químicas
anormais, de forma que se espera sua degradação rápida no solo e nas águas,
seja abioticamente ou através da ação de organismos aquáticos e de solo.
Nenhuma das duas proteínas é tóxica para os organismos indicadores de qualidade
de solo ou água, nem é possível desenhar uma rota cientificamente plausível que
conduza da exposição do solo, da água ou dos organismos neles contidos a um
dano. Então, não se espera qualquer impacto diferente direto do eucalipto
transgênico sobre eles. Menos ainda são esperadas alterações físico-químicas do
solo ou da água produzidas por estas proteínas. Portanto, solo e água não
são objetos de proteção relevantes para esta avaliação.
Indiretamente, seria possível imaginar que um crescimento
mais rápido do eucalipto poderia implicar numa demanda maior de água e que isso
poderia ter efeitos desastrosos ao ambiente. Entretanto, as variedades atuais
convencionais de eucalipto crescem muito mais rápido que as variedades
cultivadas duas décadas atrás e nenhum impacto desta natureza foi visto,
portanto pode-se seguramente descartar este impacto.
Assim, uma vez consideradas as metas de proteção gerais de
nossa legislação, isto é, biodiversidade, solo e água, concluímos que o objeto
de proteção que poderia ser de fato impactado, através de uma rota ao dano
ainda a ser discutida, seria o grupo dos polinizadores que frequentam as
plantações de eucalipto. Nesta fase é necessária ainda uma nova redução da
complexidade da análise, pela escolha de um organismo que represente os
polinizadores de forma adequada. Esta escolha dá ao avaliador o que se chama ponto
final de avaliação (assessment endpoint). Neste caso as abelhas Apis
mellifera são a melhor escolha, pela abundância na Natureza, facilidade de
manuseio em laboratório e vasto conhecimento sobre sua biologia.
Uma vez decididos os pontos finais de avaliação, está
concluída a Formulação do Problema – Contexto, e pode-se seguir para a próxima
etapa da Formulação do Problema: o estabelecimento de uma lista de perigos.
3.2 Lista de perigos
Os perigos que conformarão a lista refletem tanto a
percepção de riscos do público e das várias organizações da sociedade, como a
do próprio avaliador de riscos. E, não menos relevante, inclui os perigos
identificados pelo avaliador através do uso da avaliação de riscos estruturada,
como mostrado acima. De fato, uma correta Formulação do Problema define tanto o
contexto como os possíveis perigos reais.
Na lista a seguir incluímos muitos dos perigos percebidos
pelo público, independentemente de seu potencial em concretizar-se como dano. Entretanto,
após definido o contexto fica claro que muitos destes perigos não representam
de fato ameaças reais. Recomendamos ao leitor que, como exercício, pondere cada
perigo da lista antes de avançar no passo seguinte da avaliação de risco – a
Caracterização do risco.
Os perigos iniciam-se pelos onze identificados nesta
avaliação de risco e pelo público (inclusive os provenientes da audiência
pública) e seguem para outros descartados a priori porque, claramente, não
se concretizam em dano.
1)
Impacto da proteína NPTII
contida no pólen sobre as abelhas. (Hipótese: a enzima irá dificultar ou
impedir o tratamento de infecções bacterianas na colmeia com antibióticos
aminoglicosídeos);
2)
Impacto direto das
proteínas NptII e Cel1 no metabolismo das abelhas, com morte de grande número
de indivíduos;
3)
A transferência de
transgenes para espécies silvestres e os impactos que estes novos genes
poderiam ter na flora brasileira;
4)
Aumento na
competitividade/invasividade da variedade de eucalipto GM de crescimento rápido;
5)
Impacto do eucalipto
transgênico sobre populações de pássaros e outros animais que buscam abrigo e
alimentos na floresta de eucalipto;
6)
A transferência de
transgenes para espécies de eucalipto cultivadas por pequenos agricultores e os
impactos que estes novos genes poderiam ter na agrobiodiversidade (VER TAMBÉM
PERIGO seguinte);
7)
Uma quantidade não
desprezível de sementes de eucalipto é produzida e comercializada no país e o
espalhamento inadvertido dos transgenes poderia ser originado do plantio destas
sementes, com impacto na apicultura;
8)
Esgotamento do lençol
freático e outras perturbações na dinâmica das águas, provocado pelo
crescimento rápido do eucalipto GM;
9)
A introdução dos transgenes
e sua expressão poderiam alterar o metabolismo da planta de forma inesperada;
10)
Movimento transfronteiriço
de pólen e sementes (em atendimento às preocupações embutidas no Protocolo de
Cartagena, do qual o Brasil é signatário);
11)
Síndrome do colapso das
colmeias, supondo que exista uma correlação entre ela e as plantas transgênicas.
**************************************************************
12)
A transferência horizontal
do gene nptII para bactérias, espalhando resistência a antibiótico no
ambiente;
13)
A falta de ensaios com
animais não permite concluir sobre a inocuidade alimentar do eucalipto.
Algumas preocupações não se referem a riscos biológicos, mas
ao método de avaliação. Assim, há uma preocupação de que se empregue uma
abordagem de precaução, em atendimento à Declaração do Rio, de 1992. Lembramos
ao leitor que a abordagem de precaução na avaliação de riscos de OGMs que o
país tem que seguir é aquela que foi definida pela Convenção de Biodiversidade,
como comentado em detalhes no link. Esta preocupação aparece, por exemplo,
no portal da ASPTA: “A falta de estudos ou sua insuficiência prevê a aplicação
do Princípio da Precaução, como previsto na lei de biossegurança (lei
11.105/2005)”. A afirmação, entretanto, está errada: a) a aplicação de uma
abordagem de precaução é indispensável, haja ou não informação suficiente para
uma tomada de decisão esclarecida e b) o uso da avaliação de risco, como
estruturada hoje e mostrada acima, é ela mesma a melhor forma de abordagem de
precaução!
Há também a preocupação de que não houve tempo para avaliar
riscos de impactos sobre as abelhas, a qualidade do mel e outros aspectos de
risco. Na verdade, houve tempo para avaliar a variedade de eucalipto GM em
pauta, uma vez que ela vem sendo estudada há quase uma década e que os riscos
identificados (como se verá neste texto) são poucos. Ainda que haja algumas
liberações planejadas sem conclusão final, os dados acumulados são suficientes
para uma decisão bem instruída da CTNBio.
Em alguns portais se expressa também a preocupação de que o
Brasil não esteja seguindo uma Decisão da Convenção de Biodiversidade sobre
avaliação de riscos de árvores GM, mas isso não acontece, como se pode ler no link.
Na audiência pública foram também trazidas à consideração da
CTNBio preocupações sobre a escolha dos indicadores de impacto ambiental: a
empresa estudou abelhas e alguns invertebrados, mas não transpareciam as razões
destas escolhas no dossiê. Como discutimos anteriormente na Formulação do
Problema, não há razão para se esperar que o eucalipto GM impacte negativamente
a fauna de solo ou a aquática. A escolha foi, assim, baseada na experiência
anterior em avaliação de qualidade do solo e de águas e os experimentos foram
feitos muito mais em atendimento à Resolução Normativa do que em resposta à
avaliação de risco. Quanto à escolha de Apis mellifera, em lugar de
abelhas silvestres, a decisão se deveu à sua abundância e ao vasto conhecimento
sobre a espécie, que pode assim representar um ponto final de avaliação muito
melhor do que as abelhas silvestres. Neste caso também é preciso lembrar que
não há uma rota clara pela qual o eucalipto possa causar dano às abelhas,
exceto a ideia, um tanto vaga e especulativa, de que a presença de neomicina
fosfotransferase nos grãos de pólen pudesse afetar de alguma forma o combate a
bactérias de colmeias infectadas. Para esta suspeita de dano a abelha europeia
é, evidentemente, a escolha mais acertada como espécie a ser avaliada. Ainda
assim, não se deve esquecer que o Projeto CDA Eucalyptus gerou uma
grande quantidade de informação para a avaliação de risco no que concerne
insetos não alvo. Os resultados foram consolidados na dissertação de mestrado
(2014) intitulada “Efeito do Pólen de Eucalipto Geneticamente Modificado em
abelhas Scaptotrigona bipunctata (MELIPONINI) e Apis mellifera (APINI)“,
de Mariana Zaniol Fernandes, através do Programa de Pós-Graduação em Zoologia
da PUCRS (resumo).
Assim como para a abelha europeia, não foram observados efeitos deletérios das flores
do eucalipto transgênico sobre uma melípona.
Por fim, há preocupações que não têm a ver com o impacto
direto do transgênico, mas com alguma prática agrícola (p. ex., aumento do uso
de agrotóxicos, problemas sanitários no médio prazo devido a resistência de
insetos e ervas daninhas e aparecimento de novas pragas, contaminação pelo uso
excessivo de pesticidas – ainda que não haja uma base clara para se
esperar que a transgenia afete de alguma forma estes parâmetros) e não serão
comentadas aqui uma vez que não fazem parte da avaliação de risco. Nesta categoria de preocupação também se encaixa a questão da presença de pólen transgênico proveniente dos eucaliptos GM no mel e os impactos que isso poderia ter na exportação, mas esta não é uma questão de avaliação de risco biológico do OGM e não compete à CTNBio.
Algumas preocupações veiculadas na mídia alternativa não são
válidas porque proveem de fontes que não leram o dossiê que está na CTNBio com
a necessária atenção. Por exemplo, no portal da ASPTA (http://aspta.org.br/campanha/gm-eucalyptus/)
há a preocupação com a composição do mel: segundo a associação, “a empresa
também não avaliou os aspectos nutricionais do mel produzidos por abelhas que
visitaram as árvores transgênicas”. O erro é grave porque a análise
composicional comparativa e vários outros estudos sobre o mel foram feitos em
detalhes, como se lê no Item 3.1 da página 131 do dossiê submetido pela
Futuragene à CTNBio; nenhuma diferença foi observada. Aliás, diferenças não
eram de fato esperadas, uma vez que mel é feito de néctar e só contem açúcares
e que nada na transformação genética poderia alterar a composição do néctar.
Além disso, a variação entre o mel de diferentes origens é muito grande e uma
pequena variação entre mel feito com os dois eucaliptos, mesmo que existisse,
seria completamente irrelevante. Na mesma
fonte lê-se que “não há estudos atualmente que permitam avaliar o potencial
impacto do eucalipto GM”. É evidente que a informação disponível é vasta, como
se depreende do dossiê e da literatura disponível sobre o eucalipto e sobre os
genes e proteínas expressas na variedade em análise.
Uma vez descartadas as preocupações metodológicas e formulada
uma lista de perigos que pareçam ter ao menos algum caminho plausível para
concretizarem-se em danos, podemos seguir para o próximo passo, a
Caracterização do Risco.
Neste passo é necessário criar uma rota que conduza do
perigo ao dano para cada um dos perigos listados no passo anterior. A rota ao
dano é uma cadeia de eventos hipotéticos que precisam ocorrer para que o perigo
se concretize em dano. Para cada evento pode-se estimar a probabilidade de
ocorrência. A probabilidade de que a rota se cumpra é o produto das
probabilidades de cada evento e deve ser classificada em quatro níveis, como
mostrado na Tabela 1 abaixo. É evidente que a existência de um único evento na
rota que nunca ocorra (probabilidade = 0) implica que a rota é impossível ou
inválida e que o perigo não é real.
Tabela 1: Os
quatro níveis (ou classes) de probabilidade de ocorrência de dano devido à
introdução de um OGM
Probabilidade de dano devido à adoção de um OGM
|
|
Muito baixa
|
O dano pode ocorrer
apenas em raras circunstâncias
|
Baixa
|
O dano pode ocorrer
em algumas circunstâncias limitadas
|
Alta
|
O dano pode ocorrer
em muitas circunstâncias
|
Muito alta
|
O dano pode ocorrer
na maioria das circunstâncias
|
Iniciaremos nossa caracterização a partir do segundo perigo,
deixando o primeiro para uma análise mais detalhada posterior.
Em nossa opinião o segundo perigo da lista não
tem uma via pela qual possa se concretizar em dano. De fato, as novas proteínas
estão dento do pólen e sua liberação implica na digestão do pólen, o que reduz
muito a exposição, já pequena, às proteínas intactas. Além disso, não há
relatos de que as duas proteínas sejam tóxicas para animais. Por fim, os
resultados da dissertação de mestrado de Mariana Z. Fernandes comprovam que não
há dano algum.
O terceiro perigo da lista não se concretiza
em dano porque o eucalipto é uma espécie exótica que não cruza com nenhuma
planta nativa e tampouco com as plantas trazidas para o Brasil, exceto o
próprio eucalipto.
Para que o quarto perigo se concretize em dano
é preciso que o eucalipto GM não apenas cresça mais rápido, mas mude seu
comportamento e passe a invadir áreas silvestres ou áreas agrícolas de baixo
manejo. Afinal, as espécies conformadoras do híbrido e o híbrido em si nunca
foram reconhecidos como invasoras. Como não há qualquer indicação de mudança
biológica que pudesse levar a este comportamento e como não faz sentido
imaginar que estas mudanças apareceriam subitamente nos anos vindouros, podemos
descartar este perigo. Ainda assim, a proponente da variedade de eucalipto em
avaliação apresentou diversos estudos relacionados a este perigo: foi feito um
estudo de fluxo gênico, estudos de sobrevivência de plantas oriundas de
sementes germinadas no campo, estudos morfológicos e de viabilidade de pólen, e
muitos outros que comprovam que as plantas GM são essencialmente idênticas às
convencionais (veja também o próximo perigo).
Como não há qualquer alteração significativa das
características agronômicas do eucalipto GM exceto seu crescimento mais rápido,
e como ele não serve de alimento a animais no Brasil, podemos descartar o quinto
perigo.
O sexto perigo tem uma rota possível a um
dano, se admitirmos que a presença do transgene é um dano em si, quando ocorrer
inadvertidamente, e se admitirmos que a espécie receptora do transgene é uma
espécie valorada da agrobiodiversidade. Ora, os eucaliptos cultivados no Brasil
são, em sua imensa maioria, propagados vegetativamente, e o pool genético local
de E. grandis e E. urophylla é pequeno e pouco relevante para a
agrobiodiversidade. Além disso, a simples presença do transgene em nada
prejudica a diversidade. Logo, mesmo existindo uma pequena probabilidade de que
os transgenes sejam transferidos inadvertidamente para alguns eucaliptos e
propagados a partir daí em quantidades significativas, o dano associado é menor
e, portanto, o risco é insignificante (veja a composição do risco no passo
seguinte – Classificação do risco).
O sétimo perigo se relaciona diretamente com o
quinto: se houver fluxo dos transgenes para espécies de eucalipto que, depois,
serão propagadas por sementes, os transgenes podem se espalhar e o mel
produzido das floradas destas plantas conterá pólen transgênico sem que o apicultor
suspeite disso. Na audiência pública e em alguns portais da internet
argumenta-se que a produção de sementes de eucalipto é significativa e que isso
demonstraria que os riscos seriam grandes. Entretanto, um importante produtor
de semente, o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (citado pela ASPPTA
como produtor destas sementes - http://aspta.org.br/campanha/gm-eucalyptus/)
emprega, como esperado, áreas controladas para tal - http://www.ipef.br/sementes/eucapinus.asp
- e é altamente improvável que pólen de eucaliptos transgênicos possa alcançar
a área de produção. O mesmo se espera, naturalmente, de qualquer empresa
responsável na área de produção e venda de sementes. Podemos concluir,
portanto, que os riscos aos apicultores serão muito reduzidos. Devemos
lembrar, além disso, que os riscos neste caso são ao comércio e nada têm a ver
com a segurança alimentar ou ambiental.
O crescimento mais rápido do eucalipto levou algumas pessoas
e organizações a imaginarem que isso poderia se refletir num uso muito mais
intensivo de água (oitavo perigo). Entretanto, como comentamos na
Formulação do problema, variedades com crescimento mais rápido estão sendo
desenvolvidas e avaliadas nas últimas décadas e esta aceleração do crescimento
não parece impactar a qualidade do solo ou da água e sua disponibilidade nas
áreas de plantio, quando os resultados são comparados àqueles obtidos com
variedades mais antigas, de crescimento mais lento. Podemos, portanto,
descartar este perigo como fantasioso.
O nono perigo é percebido, em geral, apenas
pelos que se opõem à biotecnologia: uma alteração genética intencional pode
produzir alterações não intencionais, tanto na biotecnologia moderna como em
qualquer outro método de modificação genética. Mas, assim como no melhoramento
clássico, na biotecnologia centenas de eventos de transformação são analisados
e apenas aqueles que têm o fenótipo desejado e NENHUMA alteração em outros
aspectos da biologia do organismo alcançam o mercado. Isso é de conhecimento de
qualquer melhorista e de boa parte dos agrônomos. Assim, os especialistas não
esperam efeitos não antecipados e isso nada tem a ver com uma forma pouco
precavida de abordar a avaliação de risco. Ao contrário, imaginar que sempre
pode haver efeitos não antecipados escondidos nos OGMs não tem base nem na
ciência, nem na práxis. Podemos, portanto, descartar este perigo por ser muito
pouco provável e porque não temos, a priori, a menor ideia de que danos
poderiam estar associados à alteração não antecipada.
Sendo o Brasil signatário do Protocolo de Cartagena, deve
ter atenção ao transporte de organismos vivos geneticamente modificados de um
país a outro, desde que igualmente signatário do Protocolo. Ora, sementes de
eucalipto transgênico não vão ser exportadas, nem qualquer outro tipo de
propágulo. O pólen não pode ser transportado por distâncias maiores que 10 km e
as plantações de eucalipto transgênico serão feitas longe das fronteiras (por
questões econômicas). Ainda que o pólen pudesse fecundar algumas árvores em
outro país (por exemplo, no Paraguai, igualmente signatário), os frutos
produzidos dificilmente seriam empregados para gerar novos plantios, como já
comentado. E os impactos seriam insignificantes. Podemos, portanto, descartar o
décimo perigo como altamente improvável e com dano associado
muito pequeno.
O
décimo primeiro perigo, apresentado na audiência pública e
comentado em vários portais da internet, embora sem uma via clara ao dano, é o
impacto das flores de plantas transgênicas na saúde das abelhas, causando a síndrome
do colapso das colmeias. Patógenos, presença de metais pesados e de pesticidas,
transporte das colmeias e outros fatores têm sido apontados como causas
possíveis. As proteínas inseticidas produzidas por plantas transgênicas também
estão entre as causas especuladas. Enfim, não existe até o momento uma causa
única detectada como o principal agente causador do CCD (Oldroyd, 2007; Ratnieks
& Carreck, 2010; Pottset al., 2010).
Entretanto, nunca foi descrito um mecanismo plausível pelo qual os transgênicos
pudessem afetar diretamente as abelhas, mesmo aqueles que expressam proteínas
inseticidas (Staveley et al., 2014), o que não é o caso de evento em análise.
Pode-se, portanto, descartar mais este perigo.
O
décimo segundo perigo é, assim como a questão sempre relembrada
dos perigos não antecipados, uma preocupação restrita aos que se opõem à
biotecnologia. De fato, a transmissão horizontal de material genético, embora
não seja impossível, é extremamente rara, sobretudo entre metazoários ou de
metazoários para unicelulados. Não se justifica aprofundar neste perigo, que é
agora considerado como imaginário para fins práticos.
Finalmente, o décimo terceiro perigo é mais metodológico e
não está ligado diretamente à avaliação de riscos ambientais: a falta de
ensaios com animais não permitiria concluir sobre a inocuidade alimentar do
eucalipto. Embora este texto seja dedicado à avaliação de risco ambiental, cabe
comentar que os ensaios com animais só se justificam se as
proteínas mostrarem um comportamento em ensaios bioquímicos que justifique
experimentos com animais. Este procedimento está bem estabelecido pelo Codex
Alimentarius e consolidado em vários guias de avaliação de inocuidade
alimentar. Além disso, por que deveriam ser feitos estes ensaios, se ninguém
come eucalipto? O que é consumido é o mel, que só traz do eucalipto os açúcares
contidos no néctar e diminutas quantidades das duas proteínas, dependendo da
quantidade de pólen no mel. A avaliação dos riscos deste mel foi corretamente
realizada pela proponente e está detalhadamente discutida em outra
postagem nossa, onde concluímos que o risco é insignificante.
Podemos agora nos debruçar sobre o primeiro risco,
que tem ao menos uma rota ao dano possível de ser construída em passos
determinados pela biologia da planta e da abelha. O possível impacto da proteína
NPTII (que determina resistência a certos antibióticos quando expressa no
interior da bactéria) contida no pólen sobre as abelhas pode se dar por dois
caminhos (rotas ao dano) previamente especulados na audiência pública e em
outros locais:
1ª. rota – A
presença de NPTII nas colmeias selecionará doenças resistentes a
este antibiótico, o que pode ser uma tragédia no futuro se uma doença muito
grave se tonar epidêmica, porque o controle será muito mais difícil (proveniente
da audiência pública, apresentação de João Dagoberto
2ª. rota – A
enzima irá dificultar ou impedir o tratamento de infecções
bacterianas na colmeia com antibióticos aminoglicosídeos (outras fontes).
Numa primeira leitura as rotas parecem iguais, mas diferem
profundamente no passo mais crítico: na primeira haveria a seleção de patógenos
resistentes e na segunda haveria a inibição do efeito do antibiótico. Para
evitar a construção de duas rotas ao dano, vamos inicialmente descartar a
primeira rota.
Primeiramente, é indispensável saber como atua o antibiótico e
como a enzima NPTII é capaz de conferir resistência.
O antibiótico é um análogo de aminoácido e liga-se, algumas vezes de forma
irreversível, ao ribossomo, interferindo na síntese proteica e, em última
instância, matando a bactéria (Gram negativa). A enzima inibe a ação do
antibiótico por fosforilação, que se dá pela transferência de um fosfato do ATP
para o antibiótico. Nem todos os aminoglicosídeos são inibidos pela NPTII, mas
apenas os que têm um grupo 3´-hidroxil: canamicina, neomicina, paromomicina e
geneticina (G-418).
De posse deste conhecimento básico podemos nos perguntar: de que
forma uma enzima que inativa um antibiótico, cuja ação depende de ATP, poderia
selecionar bactérias do tubo digestivo de abelhas, sem a presença do
antibiótico e sem ATP? Esta combinação de requerimentos, que está embutida no
questionamento levantado na audiência pública, é inteiramente fantasiosa e não
encontra o mínimo apoio na ciência. Podemos concluir que a primeira rota
não se completa jamais.
Analisemos agora a segunda rota ao dano,
que está ilustrada na figura abaixo.
Figura 2: Rota que
liga a presença da proteína NPTII à dificuldade ou mesmo à impossibilidade de tratar
uma colmeia infectada por bactérias Gram negativas com neomicina ou outros
aminoglicosídeos com grupo 3´-hidroxil . Os passos ilustrados na rota levam da
exposição ao pólen até o dano às abelhas, que pode ser de diferentes magnitudes
(ou classes).
Analisemos,
pois, com atenção cada passo da rota, procurando classificar a possibilidade de
que ele se concretize.
No
primeiro passo testamos a hipótese: as abelhas ingerem pólen? A
resposta seguramente é: sim. Qual a possibilidade de que ingiram pólen? 100%
(isto é, P1=1,0). No segundo passo
investigamos se o pólen contém a enzima NPTII na forma ativa; A resposta é,
novamente, positiva, e a possibilidade de que a enzima esteja ativa é alta,
porém não 100% (dependerá das condições ambientes). Até aí a probabilidade de
que a rota se concretize é elevada.
No
terceiro passo devemos perguntar: a enzima pode ser liberada do
pólen (via digestão ou de outra forma)? A NPTII e todas as demais proteínas da planta
que são produzidas no pólen estão contidas nele, que deve ser digerido pelas
enzimas do tudo digestivo para que o conteúdo possa ser liberado. Uma parte o
pólen é digerido, porém nunca 100% dele. Neste processo as proteínas que estão
no pólen também sofrem uma digestão, de forma que a probabilidade de que uma
fração importante da atividade enzimática da NPTII seja preservada é pequena.
No quarto passo devemos perguntar se a NPTII liberada pela digestão do
pólen não continuará sujeita às enzimas digestivas e que fração dela
permanecera ativa: mais uma vez, a possibilidade de que enzima permaneça ativa
é muito pequena.
No
quinto passo, supondo que ainda exista alguma enzima ativa no
trato digestivo do inseto, devemos perguntar se ela seria capaz de inativar o
antibiótico. Ora, a inativação é um processo de fosforilação que depende de ATP
e é altamente improvável que a enzima possa fazer isso na luz no trato
digestivo. Sua penetração na bactéria é impossível. Logo, a probabilidade de que
a enzima cumpra o seu papel é muito pequena. Na verdade, apenas esta simples
consideração já seria suficiente para invalidar toda a rota ao dano.
Supondo
que, apesar de todas as razões avocadas acima, ainda exista uma possibilidade
real de que um antibiótico ingerido pelas abelhas pudesse ser inativado pela
NPTII do pólen, devemos nos fazer uma pergunta óbvia (sexto passo):
os aminoglicosídeos deste tipo são regularmente empregados no controle das
bacterioses em colmeias? A resposta é: muito raramente: a neomicina e os outros
antibióticos semelhantes não têm uso no tratamento de bacterioses em apiários e
o antibiótico mais empregado é a oxitetraciclina. Então, sabendo da
possibilidade, ainda que remota, de algum tipo de fracasso terapêutico em áreas
de cultivo de eucalipto GM, qual a possibilidade que o apicultor deixasse de
usar os antibióticos recomendados para escolher um que talvez lhe traga
problemas? A possibilidade é, naturalmente, muito remota.
No
sétimo passo cabe perguntar: caso um antibiótico passível de ser
inibido seja administrado à colônia, uma fração majoritária dele será inativado
pela enzima? Dadas todas as considerações acima a resposta é, evidentemente:
não. A possibilidade de inativação será muito reduzida. Finalmente no oitavo
passo da rota podemos perguntar: Haverá falha importante da ação do
antibiótico? Supondo que a enzima ainda esteja ativa, em quantidade
significativa, que possa agir sem ATP intracelular, que o antibiótico possa ser
inativado por ela, pode haver falha terapêutica, embora mesmo isso não seja
100% seguro, porque vai depender da concentração de antibiótico no trato
digestivo.
Assim,
se multiplicarmos as probabilidades de cada passo, podemos fácil e seguramente
concluir que a possibilidade de que o perigo se concretize em dano é muito
pequena.
Cabe
agora perguntar quais os danos que podemos esperar, associados a esta via.
Listamos abaixo os danos em ordem crescente de extensão:
a)
a redução da colônia infectada antes da
troca para um antibiótico efetivo;
b)
a morte da colônia infectada;
c)
a morte de muitas colônias, com perda local de produção de mel e de polinização;
d)
a morte de um enorme número de colônias, com extensa perda de produção de mel e
queda aguda de polinização.
É
razoável assumir que o dano se limitaria ao primeiro nível de consequências ou,
no máximo, ao segundo. Talvez, caso o apicultor fosse muito inexperiente,
poder-se-ia até admitir o terceiro nível. Jamais os dois outros. Observando a
tabela abaixo, que classifica a extensão dos danos, podemos concluir que os
danos seriam marginais oi, no máximo, menores.
Tabela 2: Os quatro níveis (ou
classes) de dano devido à introdução de um OGM
Dano à saúde ou ao ambiente devido à adoção de um OGM
|
|
Marginal
|
Aumento mínimo ou
inexistente de doenças e outras agressões à saúde humana ou animal
Aumento mínimo ou
inexistente de danos a metas de proteção do ambiente
|
Menor
|
Aumento mínimo
doenças e outras agressões à saúde humana ou animal, que pode ser rapidamente
revertido
Aumento mínimo de
danos a metas de proteção do ambiente, limitado temporal e espacialmente ou
restrito a um número reduzido de indivíduos
|
Intermediário
|
Aumento significativo
doenças e outras agressões à saúde humana ou animal, que requer tratamento
especializado
Aumento mínimo de
danos a metas de proteção do ambiente, amplamente distribuído, mas
reversíveis a curto prazo e de severidade limitada
|
Grande
|
Aumento significativo
doenças e outras agressões à saúde humana ou animal, com tratamento difícil
ou inexistente
Aumento significativo
de danos a metas de proteção do ambiente, amplamente distribuído, afetando
populações inteiras, disruptivo para ecossistemas, comunidades de organismos
ou toda uma espécie, e de difícil reversão
|
De
posse da probabilidade de concretização da rota e da classe do dano, podemos concluir
a caracterização deste risco e prosseguir para sua classificação.
Para
todos os demais perigos listados no item 3.2 e discutidos no item anterior,
exceto o primeiro, não foi necessária a construção de uma rota ao dano
completa, uma vez que a probabilidade que se concretizassem em dano era muito
remota ou ainda que o dano era marginal.
Apenas para o primeiro perigo listado – perdas na apicultura por falha
terapêutica causada pela presença da enzima NPTII no pólen - criamos toda a rota e concluímos que a
probabilidade de que ela se complete é muito pequena e que os danos associados
são marginais ou menores.
Se
entrarmos estas duas informações no quadro abaixo, podemos concluir com
segurança que os riscos de que a proteína NPTII afete negativamente as abelhas
é negligenciável.
Quadro
I. Algoritmo para determinação da classe de risco a partir da estimativa da
classe de probabilidade e da extensão dos danos
Chegamos
finalmente à conclusão de que os riscos do eucalipto transgênico com
crescimento rápido, que expressa as proteínas Cel1 e NPTII, são
negligenciáveis. A decisão mais correta seria a recomendação de que seja
liberado comercialmente.
Devemos
aqui ressaltar que em nenhum momento avaliamos os benefícios deste produto: de
fato, não cabe ao avaliador de risco este tipo de consideração. Também não cabe
a ele ponderar sobre questões culturais ou sociais: estas ponderações fazem
parte da análise de risco, para a qual o avaliador de risco em geral não está
capacitado.
É missão de todo brasileiro, assim como de suas
instituições, conservar e preservar os recursos naturais. Mas o país precisa
conciliar a preservação com a produção agrícola e a dos demais setores
industriais do país, uma vez que todos dependemos da produção de bens e
riquezas advindos dos vários setores produtivos. Neste contexto, toda
tecnologia que permita um aumento de produção sem aumentar a área cultivada é
bem vinda à agricultura, desde que não implique em danos ao ambiente maiores do
que aqueles associados à tecnologia anteriormente empregada. Melhor ainda se a
tecnologia puder reduzir danos. Este parece ser o caso da variedade de
eucalipto em análise, uma vez que concluímos que seus danos ao ambiente podem
ser menores do que os ocasionados pelo cultivo da variedade comum
(entendendo-se aqui que um aumento de produtividade reduz a demanda para novas
áreas agrícolas, o que de fato tem sido a regra no Mundo). Desta fora, a
liberação comercial deste eucalipto soma-se aos anseios e esforços dos
brasileiros para encontrar o equilíbrio produção/preservação e está de acordo
com os requerimentos da Constituição Federal.
No texto acima fica bastante claro que a avaliação de risco
de árvores nada tem de diferente da avaliação de risco das culturas anuais: afinal,
os elementos de análise e o procedimento são idênticos para qualquer OGM,
inclusive para os de origem animal, bacteriana ou fúngica.
Também fica bastante claro da leitura do texto que a ciência
governa a avaliação de risco e cada consideração na formulação do contexto,
assim como cada rota ao dano, estão profundamente enraizadas na ciência.
Embora nenhum perigo relevante (seja porque poderia se concretizar em dano ou
porque foi muito mencionado nas redes sociais ou em outros textos e ocasiões) tenha
deixado de ser tratado aqui, não há espaço ao final da avaliação para perigos
que não possam se concretizar em dano e, portanto, não há espaço para
especulações baseadas em generalizações para além do cientificamente plausível.
5.
Referência
Baulcombe D, Dunwell J, Jones J,
Pickett J, Puigdomenech P (2014) GM Science Update. A report to the Council for
Science and Technology (UK). 49 pp. Disponível em https://www.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/file/292174/cst-14-634a-gm-science-update.pdf
Häggman, H. et al., 2013.
Genetically engineered trees for plantation forests: key considerations for
environmental risk assessment. Plant Biotechnology Journal, pp.785–798.
Oldroyd BP (2007) - What’s killing American honeybees? PLoS
Biology 5: e168
Ratnieks FLW, Carreck NL (2010) - Clarity on honeybee collapse?
Science 327: 152–153
Potts SG, Biesmeijer JC, Kremen C, Neumann P, Schweiger O, et al.
(2010) - Global pollinator declines: trends, impacts and drivers. Trends in
Ecology & Evolution 25: 345–353
Staveley JP, Law SA, Fairbrother A, Menzie CA. (2014) - A Causal Analysis of Observed Declines in
Managed Honey Bees (Apis mellifera). Hum Ecol Risk Assess. Feb;20(2):566-591
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