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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Agrotóxicos e transgênicos – sinopse de postagens no GenPeace

Caros,

O assunto “Agrotóxicos e transgênicos” (e, em alguns casos, mais agrotóxicos que transgênicos...) foi tratado no Genpeace em várias ocasiões, com textos meus (sozinho ou em colaboração com colegas mais sábios) e em textos de terceiros. A maior parte foi em resposta à hipótese sem fundamento de que o aumento do uso de agrotóxicos no Brasil se deve ao aumento do uso de transgênicos. A turma que propõe esta ligação se esquece que:

a) só o glifosato (e em menor grau dois outros herbicidas) pode ter um aumento relacionado à expansão das plantas GM tolerantes a ele. Todas as plantas Bt e similares determinaram uma redução importante do uso de inseticidas. Mas mesmo o glifosato sempre foi e continuará sendo usado em uma infinidade de aplicações agropecuárias e é por isso que ele é o líder de vendas. Os demais herbicidas, inseticidas, fungicidas, vermicidas, etc., que estão computados no tal aumento de 200% em dez anos, nada têm a ver com as plantas transgênicas.

b) o aumento no uso de plantas transgênicas, de 2005 a 2014, foi de mais de 10 vezes! Que matemática é essa que iguala um aumento no uso de agrotóxicos em geral, que foi de 2X, com o das plantas GM, que foi de 10X?!!

c) o que de fato aumentou muito (umas 1,5 a 2X) foi a produtividade de nossa agricultura: com um aumento insignificante de área nossa produção aumentou 2X.
Para bom entendedor, a coisa é óbvia: a intensificação da agricultura promoveu um maior uso de agrotóxicos em geral. Mas a turma vai continuar insistindo nesta história da carochinha de aumento de agrotóxico devido aos infernais transgênicos; por várias razões...

Aqui está um sumário das postagens

1. Agrotóxicos: tamanho real do problema e não-relação com os transgênicos -  http://genpeace.blogspot.com.br/2015/03/agrotoxicos-tamanho-real-do-problema-e.html  
2. A adoção dos transgênicos na agricultura não aumentou o uso de agrotóxicos   http://genpeace.blogspot.com.br/2015/04/a-adocao-dos-transgenicos-na.html
3. Instituto culpa transgênicos por aumento no uso de agrotóxicos, sem provas; especialistas rebatem   http://genpeace.blogspot.com.br/2015/05/instituto-culpa-transgenicos-por.html  
4. Cientistas reafirmam ausência de correlação entre aumento do uso de agrotóxicos e aumento do uso de transgênicos: ativista erra nas contas e resvala na ética   http://genpeace.blogspot.com.br/2015/05/cientistas-reafirmam-ausencia-de.html  
5. Resposta detalhada às afirmações de Alan Tygel intituladas “Transgênicos: malefícios do mau uso dos dados e o diálogo mentiroso” publicadas em 11/05/2015 no Jornal da Ciência (SBPC)  http://genpeace.blogspot.com.br/2015/05/resposta-detalhada-as-afirmacoes-de.html  


De toda forma, para a CTNBio o assunto “agrotóxico” é, na prática, vetado pela lei 11.105, no seu artigo 39. Tudo que se refere a agrotóxico vai para a seara do MAPA, da ANVISA e do IBAMA. Mesmo quando a CTNBio aprova um produto que vai usar um agrotóxico, quem regulamenta isso não é ela e quem determina os níveis aceitáveis de uso, menos ainda. De toda forma, não há nada de “imoral” nisso: os níveis de agrotóxicos tolerados para uso em plantas transgênicas não são elevados (10 partes por milhão de resíduo no grão de soja, por exemplo, é o máximo permitido e resulta de limites estabelecidos por aplicações em quantidades rotineiras) e esta história de que as plantas GM foram feitas para tomar banhos de herbicidas é uma fantasia tremenda de alguns ativistas.

Prós e contras dos transgênicos na percepção pública e na avaliação de risco


Paulo Paes de Andrade
Departamento de Genética/ UFPE

Alguns questionamentos sobre as plantas transgênicas hoje no mercado brasileiro surgem sempre, de forma redundante. Muitos são voltados à questão do modelo agrícola brasileiro, outros envolvem o uso de herbicidas, outros ainda questionam os cientistas que não encontraram problemas com os transgênicos e alguns poucos estão centrados nos riscos diretos das plantas transgênicas à saúde e ao ambiente. Embora estes últimos questionamentos sejam os únicos que, de fato, me interessam integralmente, acabo me posicionando sobre os demais, nem sempre com a base técnica ideal. Isso pode me dar dor de cabeça no futuro, mas como sempre me consulto com os especialistas e leio o máximo que posso dentro do tempo que meu trabalho e demais atividades permitem, acho que não erro muito.
A postagem que se segue é baseada em vários questionamentos do Sr. Ruy Freire Filho (link), que gentilmente colocou suas opiniões no blog Tudo sobre plantas e as discutiu comigo. Creio que a ordenação e formalização textual destas respostas podem ser de alguma utilidade ao público interessado nos transgênicos e seu uso na agricultura.

1. Melhor seria se fôssemos um país agroecológico ou ao menos livre de transgênicos
Somos grandes exportadores de grãos. Se isso é bom ou mau, não sei, mas o país foi levado a isso por uma série de circunstâncias históricas, que envolvem o descaso com a educação, a concentração de terras, a aptidão agrícola, nossa vasta área e muitas outras coisas. Se quisermos competir no mercado internacional, tempos que seguir o que há de mais moderno na produção de grãos ou nossos preços não serão competitivos. Isso inclui a transgenia. Alguns argumentam que existe um mercado convencional grande (dos países que não compram transgênicos), mas este mercado é pequeno para o tamanho do nosso país. Outro modelo de agricultura (agroecológico, orgânico, etc.) pode fornecer suficiente grão para o consumo interno, mas duvido muitíssimo que possamos competir e exportar gerando a renda que hoje geramos.
Uma quantidade gigantesca de milho e soja é transformada na comida diária do brasileiro, diretamente (em geral através de produtos industrializados) ou indiretamente (através da pecuária). Grandes e médios agricultores também contribuem para a produção de outros itens da nossa mesa: arroz, batata, açúcar, laranja, café e por ai vai. Evidentemente o país possui também uma vasta área plantada por pequenos agricultores, agricultores familiares e cooperados, que produzem grande variedade de produtos agrícolas, em geral para o consumo in natura ou com pouco processamento. O Governo Federal apoia os dois tipos de agricultura e está certíssimo em fazer assim. Um país que quer garantir divisas com a agricultura e alimentar seu povo deve evitar polarizações tecnológicas e ideológicas e nosso país convive (nem sempre bem) com os modelos baseados em pequena agricultura e grandes produtores, facilitando o suprimento interno de alimentos e garantindo divisas. Também não devemos acreditar que os pequenos agricultores são os responsáveis majoritários pela mesa do brasileiro: não é assim – os pequenos, médios e grandes produtores, todos, garantem nossas refeições diárias com hortaliças e frutas, feijão, cebola, óleo, margarina, arroz, açúcar, café, sucos embalados e engarrafados, embutidos de todo tipo, biscoito, bolachas, cuscuz, canjica, macarrão, pão, leite, queijo, carne, vinhos, cerveja, cachaça e por aí vai, numa lista que inclui todos os agricultores deste país. É uma tremenda inverdade afirmar que 70 % do que comemos provém da pequena agricultura.

2. Compra de sementes e dependência tecnológica
 A compra de sementes a cada safra, no lugar do plantio de grãos, pode parecer ruim para o agricultor, mas não é assim: a cada ano novas variedades são lançadas, cada vez mais produtivas e adaptadas a cada nicho de terra de nosso país. Plantar grãos de uma safra na próxima não incorpora estes ganhos. Além disso, doenças e pragas podem facilmente ser propagadas quando se usa grãos como sementes e isso todo agricultor que planta muitos hectares de terra sabe muito bem. Daí a vantagem de comprar sementes. Mais uma vez, o cenário aqui é o de alta produtividade e o “lucro” com sementes melhoradas, mesmo que adquiridas de uma empresa multinacional, se espalha por toda a cadeia produtiva e para os consumidores. Isso é bem visível nos gráficos da Céleres (http://celeres.com.br/3o-levantamento-de-adocao-da-biotecnologia-agricola-no-brasil-safra-201415/) .
Por outro lado, o melhoramento é feito tanto pelas empresas privadas como pela EMBRAPA, e todas elas bebem da fonte do agricultor: há, sim, um diálogo contínuo entre o produtor e o melhorista, ao menos no Brasil. Cria-se, desta forma, uma certa interdependência entre os melhoristas brasileiros, os agricultores e as empresas multinacionais.
Ainda que o uso de sementes desenvolvidas por multinacionais seja muito difundido (e não apenas no agronegócio, é bom dizer), se os preços não forem vantajosos o agricultor escapa pela tangente, usando grãos como sementes e empregando sementes distribuídas pelo governo. A ninguém interessa um impasse comercial, onde o produtor de semente não consegue vender e o agricultor não consegue plantar.

3. Venda casada de sementes e insumos
A “venda casada” é um problema sério, mas o ubíquo glifosato (herbicida mais usado no Mundo, mesmo antes dos transgênicos) não é um caso típico: várias empresas produzem plantas tolerantes ao glifosato e muitas empresas produzem o glifosato, de forma que o conceito de “venda casada” não se aplica. O mesmo é válido para o 2,4-D, que é produzido por muita gente e para o qual muitas plantas GM de diferentes empresas estão sendo avaliadas pela CTNBio (sugiro uma leitura da última pauta da Comissão, que está sempre disponível no site da CTNBio). A venda casada ocorre desbragadamente em outros setores e os brasileiros raramente percebem...

4. Boatos e suspeitas sobre os OGMS
A questão do suicídio devido aos transgênicos pode ser descartada, seguramente (http://www.nature.com/news/case-studies-a-hard-look-at-gm-crops-1.12907) . Se o algodão GM é proibido em determinadas áreas da Índia, é muito mais uma questão política (e que envolve a percepção de risco) do que uma questão científica (e que envolve a avaliação de risco).
Quanto às superpragas, elas se devem ao mau manejo de pragas e não á tecnologia em si. Além disso, elas não são, na verdade, “super” em nada: a revista Nature, linkada acima, apenas adotou a linguagem usada na mídia popular.
Há um grande número de outros mitos e algumas suspeitas. A diferença entre estas duas categorias é que os mitos não têm qualquer base científica e as suspeitas derivam de trabalhos publicados, relatórios técnicos e outras formas de ordenar resultados de acordo com a praxe científica. Muitas questões pertinentes estão detalhadamente descritas na Wikipedia (https://en.wikipedia.org/wiki/Genetically_modified_food_controversies) e recomendamos uma leitura atenta.

5. Endividamento do agricultor
Os empréstimos bancários, seguros de compra e coisas assim fazem parte da agricultura moderna, como também da indústria inovadora. Mas começou a muito tempo atrás!  Isso é tão antigo como a agricultura brasileira e pode ser facilmente aquilatado lendo o bom “Fogo Morto”, do José Lins do Rego, no tempo que a agroindústria do açúcar estava em plena expansão no Nordeste. É quase impossível entrar no setor da agricultura moderna sem empréstimos, sobretudo se a escala for grande, mas isso nada tem a ver com a transgenia: aplica-se igualmente ao milho, à soja, ao cacau, ao café e por aí vai. E lembro: os royalties raramente ultrapassam 5% do custo da produção: combustível, água, adubos, pesticidas vários e mão de obra importam em custos muito, mas muito maiores mesmo. No fundo, o uso de sementes de alta qualidade é como a compra de sêmen de bons touros para melhorar a genética do rebanho. Não é necessário manter o touro e o benefício da boa genética chega do mesmo jeito.

6. A concentração dos lucros na agricultura
A divisão dos lucros na agricultura é péssima, concordo com os leitores. Mas é ainda pior entre os pequenos agricultores que, muitas vezes sem saber se organizar em cooperativas, entregam por quaisquer 10 réis seus produtos ao dono do caminhão. Ao menos os grandes produtores são tremendamente bem articulados no comércio global.

7. Valor de um trabalho publicado: o que sai em boas revistas é necessariamente bom?
 Um trabalho publicado numa boa revista não significa imediatamente que ele é um bom trabalho: revisores erram e algumas vezes as revistas têm interesse em publicar um artigo polêmico, mesmo que de baixa qualidade ou mesmo um embuste. Todos os anos centenas de artigos são retirados de circulação pelas revistas por várias causas (plágio é uma delas), e isso sempre ocorre porque a comunidade científica denuncia a fraude ou o erro. Foi o que aconteceu com o artigo de Séralini dos ratos com tumor. Sabiamente, a PlosONE suspendeu a publicação de uma nova fantasia do Séralini no último dia 18 (maio/2015) e o homem perdeu seu tempo com o já tradicional circo de press release: só os jornais sensacionalistas da mídia irresponsável na França compraram o embuste. Agora (dia 2 de julho) o artigo finalmente apareceu, mas as críticas de todos os lados (inclusive as nossas - http://genpeace.blogspot.com.br/2015/07/dissecando-o-novo-artigo-do-grupo-de.html)  já não lhe asseguram um futuro promissor.
Afinal, o que é então um trabalho sério (ou mais especificamente, quando um resultado se converte em fato)? Aquele que vai sendo confirmado por outros autores e que está baseado no método científico. Fora disso tudo mais é ilusão.
Para resumir: um resultado só vira um fato quando é corroborado por muita gente. Antes disso é só uma suspeita (se a metodologia for boa) ou um boato (se for ruim). Sobre este tema complexo sugiro a leitura de http://genpeace.blogspot.com.br/2012/03/vozes-isoladas-na-ciencia-quebra-de.html .

8. Os transgenes contaminam o milho crioulo e comprometem a biodiversidade
A “contaminação” de variedades crioulas de milho é assunto muito discutido. É a única que pode ocorrer no Brasil hoje. Mas os produtores de milho crioulo sabem muitíssimo bem manter a identidade de suas variedades, quando querem. Muitos deles também fazem trocas nas feiras de sementes orgânicas e embaralham tudo de novo, com imenso risco para as variedades existentes em cada região. Isso tudo foi cuidadosamente avaliado num livro sobre coexistência do milho GM e não GM que publicamos pelo MCTI vários anos atrás.
A “contaminação” comercial em milho é uma fantasia, sobretudo no replantio de grãos: todo agricultor sabe o que o vizinho está plantando e se insiste em usar para o plantio grãos colhidos a menos de 25 m da cerca do vizinho para o próximo plantio, ou é louco ou mal intencionado. Por outro lado, se alguém planta milho orgânico, tem que seguir as regras dos orgânicos, que exigem uma separação muuuuuito maior entre cultivos orgânicos e convencionais (sejam transgênicos ou não) do que pede a regra de coexistência da CTNBio. Há outras fontes de “contaminação”, como maquinário, caminhão, etc., mas isso foge ao nosso foco.
O Brasil e vários outros países mantêm bancos de germoplasmas que são os responsáveis pelos programas de melhoramento genético das plantas de interesse comercial. No caso do milho o centro de origem é na América Central e o Brasil e demais países fora desta área são, quando muito, centros de diversidade secundária. Além disso, não vejo como as plantas transgênicas poderiam causar mais danos ao milho original do que as variedades comerciais não transgênicas. O transgene em si só será fixado na população nativa se contribuir de forma muito importante para a seleção de grãos no novo plantio. Isso é um assunto complexo e que extrapola um pouco  o espaço aqui. A riqueza de germoplasmas de outras plantas independe do milho, claro.
No contexto do milho, não pode haver erosão genética como entendemos para espécies que se propagam sem a mão do homem. Pode haver perda transiente de diversidade, mas para isso existem os bancos de germoplasma, que são ordens de grandeza mais ricos do que o depósito de sementes dos noruegueses e de outros defensores estelares da Natureza.

9. Superpragas aparecerão em resposta ao uso dos OGMs
 Desde que o Homem ingressou na agricultura que o MIPT (Manejo integrado de pragas e tecnologias) vem sendo exercido, com maior ou menor sucesso, dependendo da base técnica, da pressão econômica e do clima. As pragas sempre driblam, com o tempo, qualquer técnica de controle exceto a destruição completa por fogo ou por máquina.  A tecnologia Bt pode ser superada pelas pragas, mas seu tempo de duração vai depender, como para qualquer outra tecnologia, da adoção de boas práticas agrícolas (que reduz o problema dos heterozigotos e também da subdosagem). É tão simples como isso e não há solução mágica.


10. Percepção de risco X avaliação de risco

O público vê os transgênicos com desconfiança. É difícil aquilatar até que ponto esta desconfiança muda o padrão de consumo e é possível que o preço, o sabor, a forma e outros elementos determinem a decisão de compra, muito mais do que o símbolo T, existente em milhares de embalagens e desconhecido da maioria dos brasileiros. Mas o órgão técnico que avalia os transgênicos, a CTNBio, não vê riscos adicionais nos produtos hoje no mercado. Esta é a diferença entre percepção do risco (de todos nós) e avaliação do risco (dos especialistas). Sugiro a leitura de um texto antigo meu sobre isso: http://genpeace.blogspot.com.br/2014/04/principio-da-precaucao-herbicidas-e.html

Por fim, fico feliz em discutir estas questões de uma forma civilizada com os leitores. Concordo que nosso país poderia ter seguido outro caminho no seu desenvolvimento, mas fomos empurrados para este beco por séculos de incúria quando o assunto era educação, que continua muito ruim. Nosso povo carece de instrução para trabalhar em indústrias de ponta, para se organizar em cooperativas e, de forma geral, para exercer seus direitos. Enquanto isso, tem que gerar renda para fazer o país progredir e ser um pouco menos ingrato aos brasileiros que virão. A biotecnologia tem ajudado nosso país a ter uma balança comercial positiva. Pode ser que em 20 anos a agricultura seja muito diferente do que é hoje e que o país ingresse na área industrial, deixando à agricultura um papel secundário na geração de riquezas. Aí, então, poderemos fazer uma agricultura mais equilibrada e menos produtiva. Mas hoje não vejo como desprezar a agricultura intensiva e, dentro dela, a biotecnologia.

APENAS 10 EMPRESAS DOMINAM 75% DO MERCADO MUNDIAL DE SEMENTES – E DAÍ?

Frequentemente lemos que umas poucas multinacionais dominam o mercado mundial de sementes e que isso seria um imenso risco à soberania alimentar dos povos. Mas será mesmo?

É preciso muita serenidade e certa clareza para entender a questão das sementes vendidas por empresas, sejam elas multinacionais ou pequenas companhias. Nada disso é novo e sementes são vendidas há mais de 50 anos. E sementes “livres”, aquelas fornecidas por órgãos de governo ou propagadas livremente pelos agricultores? Estas sempre continuarão existindo.

Sabendo disso, podemos nos perguntar: em que setor atuam as grandes empresas de sementes? No setor de commodities, ou seja, no setor de grãos que vendem muito pelo mundo todo. As sementes dos demais produtos agrícolas (frutas, legumes, verduras, grãos de menor expressão e outras plantas) também são vendidas por uma infinidade de empresas (inclusive as grandes), assim como podem ser obtidas de graça em muitos órgãos de governo ou pelo menos propagadas de graça. Também podem ser trocadas nas feiras de sementes da agricultura familiar. Finalmente, em muitos casos, os grãos podem ser plantados como sementes.

Então, o que está sendo explorado (mas de forma alguma controlado de verdade!) é o setor de commodities. Do mesmo jeito que celulares, computadores, carros, etc. Da mesma forma, sempre existirão alternativas aos produtores mais prestigiados... Além dos seis grandes há, como afirmamos acima, agências de governo, pequenas empresas, sementes crioulas e sementes de paiol, tudo acessível ou mesmo gratuito.

E, ao contrário dos carros e celulares, sementes e grãos podem ser propagados sempre que os preços não forem convidativos. Se a Monsanto e os outros grandes criam uma dependência do agricultor aos seus produtos (e tecnologias embutidas neles), elas também dependem do agricultor: se o preço for ruim ou a planta não emplacar, babau.

Se a gente olha com calma, não há a mais mínima diferença entre o mercado de sementes e muitos outros onde há concentração de produtos nas mãos de uns poucos e a qualidade do produto varia muito. Mas o Mundo não vai morrer nem sofrer com isso, porque a lei da oferta e procura escraviza igualmente produtores e consumidores, enquanto ela existir, independente de qualquer regime e de qualquer ideologia.

PS. Por que alguém compraria uma semente se pode obter de graça ou plantar seus próprios grãos? Os que combatem o mercado privado de sementes evitam fazer esta pergunta e assim escondem uma parte importante da discussão: a semente vendida só existe porque incorpora vantagens (e tecnologia) que a gratuita não tem. Se o agricultor entra num mercado muito competitivo (como o de grãos), terá que usar as melhores sementes e a melhor tecnologia para alcançar a produtividade necessária. Se ele atua num setor menos competitivo, pode usar uma semente de governo (boas variedades existem para o pequeno agricultor), sementes crioulas ou ainda propagar seus grãos, com as vantagens e riscos destes procedimentos. Em nenhuma destas sementes há tanta tecnologia embutida quanto a que existe nas sementes de grandes empresas. É o mesmo que comprar um Gol em vez de um Porsche ou construir seu próprio veículo em vez de comprar de algum fabricante. E da mesma forma, o Gol tem seu mercado, assim como o Porsche...


(esta postagem está baseada em um comentário que fiz ao site Controversia: http://controversia.com.br/18859?utm_source=wysija&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim+Controversia )

quarta-feira, 29 de julho de 2015

CTNBio bota ordem na presença de público às suas reuniões: se você quiser saber como os transgênicos são avaliados na Comissão, não chegue de surpresa por lá.

Faz tempo que qualquer um podia chegar na hora das reuniões setoriais ou da plenária da CTNBio, colocar seu nome num papel na entrada e sentar-se para acompanhar os trabalhos. Mas muitos abusaram deste acesso e se organizaram em grandes grupos para tumultuar a reunião. Agora a Comissão, sem restringir o direito das pessoas em ouvir o que se discute lá, bota um pouco de ordem: serão precisas inscrições prévias, o número de vagas será determinado pela Secretaria Executiva em função de vários parâmetros , assim como a escolha dos participantes. O objetivo é evitar tumultos e garantir a presença da maior diversidade possível de participantes.


As regras, esclarecidas no site da Comissão e válidas já para a reunião de agosto de 2015, estão abaixo:

Inscrições para as Reuniões da CTNBio

Informações gerais:
1) Fica autorizada a presença de espectadores externos a Comissão nas reuniões ordinárias e setoriais da CTNBio;
2) O numero de vagas será determinado pela disponibilidade de assentos no local da reunião, após garantir espaço a todos os membros da CTNBio, equipe de assessores que dá suporte às reuniões, eventuais palestrantes, convidados e participantes com presença previstas em leis e regulamentos;
3)  As inscrições dos interessados seguirá os procedimentos determinados pela Secretaria Executiva da CTNBio;
4) Os espectadores externos não terão direito a voz, salvo mediante autorização da Coordenação da reunião ou convite formal para isso;
5) Os espectadores externos que poderão participar de cada reunião serão definidos pela Secretaria Executiva da CTNBio:
a. Considerando o número de assentos disponíveis, as justificativas apresentadas, segurança do local e a logística da reunião;
b. Mediante inscrição prévia pelo e-mail: reuniaoctnbio@mcti.gov.br
c. Procurando dar oportunidade para que representantes de diferentes instituições possam participar.

Procedimentos para Inscrição:
• Fazer inscrição prévia pelo e-mail: reuniaoctnbio@mcti.gov.br
• No momento da inscrição os dados pessoais dos interessados deverão ser informados:
1 - Nome;
2 - Endereço;
3 -  Telefone de contato;
4 - Número da identidade e CPF.

• Na inscrição deve-se indicar se a instituição a qual representa possui algum item na pauta em questão ou qual outro interesse específico em acompanhar a reunião;
• Indicar quais reuniões deseja-se acompanhar: (setoriais e/ou plenária)

A seleção dos participantes obedecerá os seguintes critérios:
o Ordem da inscrição;
o Disponibilidade de assentos na reunião escolhida (setorial/plenária);
o Inscrição de mais de um representante da instituição;
o Relevância do assunto a ser acompanhado.

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terça-feira, 19 de maio de 2015

Resposta detalhada às afirmações de Alan Tygel intituladas “Transgênicos: malefícios do mau uso dos dados e o diálogo mentiroso” publicadas em 11/05/2015 no Jornal da Ciência (SBPC)

Sr. Tygel.

Lamentamos dizer que suas contas foram apressadas. Afinal, segundo suas próprias palavras, o Sr. empregou apenas 10 minutos... enquanto nós levamos bem mais de um mês digerindo esta questão com os números disponíveis, alguma vezes conflitantes e parciais. As suas contas, Sr. Tygel, chegaram a resultados divergentes dos nossos e que não refletem o cerne da nossa discussão: a ausência de relação entre os transgênicos e os agrotóxicos. Vejamos com mais detalhes como os dados que embasaram nossa argumentação foram obtidos e computados.

Na Figura 1 abaixo está um resumo das informações para uma avaliação de produção, área e produtividade da agricultura brasileira. A fonte é o mesmo IBGE que o Sr. consultou. No gráfico está claro que área plantada no cálculo da produtividade não é de toda a agricultura brasileira, mas também não é só a de milho, soja e algodão: ela envolve todos os cereais, leguminosas e oleaginosas. Não houve aumento significativo da área, ainda que existam oscilações ao longo dos anos. A produção também oscilou um pouco ao longo dos anos, mas basta passa a régua e se vê que a produtividade aumentos os 200% que afirmamos, pelo menos para estas culturas.


Figura 1:  Aumento da produção agrícola de cereais, leguminosas e oleaginosas (curva e eixo à direita) e área plantada (barras e eixo à esquerda). Observa-se um grande aumento de produção sem um correspondente aumento de área, o que implica em ganhos de produtividade acentuados no período mostrado.

E o resto do Brasil que usa agrotóxico é ocupado com que? Vejamos o que diz a EMATER

Dos 851 milhões de hectares de nosso território, temos 86 milhões com pastagens plantadas (fora da Amazônia), 60 milhões com lavouras temporárias, inclusive cana-de-açúcar; sete milhões com lavouras permanentes, principalmente frutas e café; cinco milhões com silvicultura; e dois milhões com hortaliças, que somam 160 milhões de hectares, ou apenas 19% de todo o território brasileiro. (http://www.emater.go.gov.br/w/5839)

Baseamos nossos dados aí e na figura acima, no que estão parecidos com o que o Sr. nos traz, mas adicionam alguma novidade: 74 são vários tipos de lavoura e 86 milhões são ocupados por pecuária, o que soma 160 milhões para a agricultura. Lembramos ao Sr. Tygel que a pecuária emprega agrotóxicos de diversos tipos, desde carrapaticidas e inseticidas até herbicidas de amplo espectro e este vasto arsenal de agrotóxicos está também computado no aumento visto nos últimos anos.

Por tudo o que está acima, é evidente que nossa agricultura avançou muitíssimo em produtividade: se não foi 200%, foi perto disso, pelo menos nas nossas contas, baseadas nos dados mostrados. Tomando outros dados disponíveis no IBGE ou no MAPA estas estimativas variam de 130 a 170%, o que é muito bom, de todo jeito, e demonstra o que estamos afirmando: houve uma enorme intensificação de nossa agricultura na última década.

Mas este não o cerne da questão: entre 2004 e 2014 houve um aumento de 1000%  pelo menos na área plantada com transgênicos. Aqui ninguém fez divisão por zero, Sr. Tygel, que isso não existe na matemática. Pode-se usar muito bem 4 milhões de hectares como base de cálculo (3 milhões em 2003 ou os 5 milhões do ano seguinte), porque não é uma área desprezível e porque, desde o primeiro plantio, os agrotóxicos começaram a ser empregados, Aliás, como é de seu conhecimento, logo de início já apareceu o glifosato... Se lhe incomoda muito a tomada de um ponto no início da curva, pode usar também a reta interpolada ao longo da década: vai dar no mesmo número. Não há mau-caratismo nenhum nisso e nem é “conta de chegada”, mas a forma correta de equacionar a questão. Quando nos chama de gente de mau caráter, o Sr. reduz muito a possibilidade de futuros diálogos que poderiam, quem sabe, resultar promissores para nosso país.

Acontece que, no mesmo período, o uso dos agrotóxicos subiu, no máximo, 200%. Como é que se explica que o “responsável” pelo aumento do uso de agrotóxicos possa crescer 10X (ainda que fosse 5 ou 6 X, na concepção matemática do Sr. Tygel) e o uso de agrotóxicos só 2X?  Esta imensa diferença não fecha de forma alguma com a hipótese sem fundamento de que a maior parte do aumento do uso de agrotóxicos seja devida ao plantio de transgênicos. Esta é conta que importa, Sr. Tygel.

A sua conta não fecha  pelo que mostramos antes: uma imensa área do país é palco do uso de agrotóxicos - os tais 160 milhões de hectares. Nos dados do MAPA e de outras agências não há discriminação do que é usado na agricultura ou na pecuária, mas nas contas que se vê na internet, inclusive nas suas, todo o aumento é devido ao uso de transgênicos. Não há invenção nenhuma e o Sr. vai ver as mesmíssimas conclusões a que chegamos também lá no Estadão (http://ciencia.estadao.com.br/blogs/herton-escobar/instituto-culpa-transgenicos-por-aumento-no-uso-de-agrotoxicos-especialistas-rebatem/), num artigo completamente independente do nosso.

Por fim, quando não se consegue destruir uma ideia, tenta-se  destruir o autor. Ao contrário de nosso procedimento, que é baseado na análise de dados, o Sr. e seus colegas que o acompanharam na crítica à nossa postagem no Jornal da Ciência atacam o caráter e o compromisso com a verdade que temos. Este procedimento é nefasto e nada traz de positivo para um diálogo produtivo. Porque os senhores o adotam? Porque, efetivamente não querem diálogo algum.

O Brasil é simplesmente o maior produtor agrícola da região tropical do planeta, e com as maiores produtividades. Produzir nos trópicos é desafiador, uma vez que não temos o frio para diminuir populações de pragas ou paralisar seu ciclo de vida. Mas a agricultura brasileira se modernizou e muitos problemas vistos no passado, como os casos de erosão do solo, são cada vez menos  frequentes, graças ao plantio direto, barreiras físicas etc. Há anos não temos os problemas recorrentes (antes de 2005) de falta de milho para alimentar os animais (principalmente frangos).   Obviamente ainda temos muitos problemas e precisamos trabalhar para gerar soluções. Os agricultores precisam  tomar consciência dos problemas e deixar de ter visão de muito curto prazo.  Muitos outros acham que se houver a perda das tecnologias atuais, novas irão substituí-las   imediatamente, o que sabemos que pode ser falso. Mas não podemos desprezar soluções novas por um viés ideológico, sem base em ciência.


Outra réplica à opinião do Sr. Tygel, redigida a 10 mãos, está em http://www.jornaldaciencia.org.br/edicoes/?url=http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/34-opiniao-do-leitor/ .

Cientistas reafirmam ausência de correlação entre aumento do uso de agrotóxicos e aumento do uso de transgênicos: ativista erra nas contas e resvala na ética

Sobre afirmações de Alan Tygel intituladas “Transgênicos: malefícios do mau uso dos dados e o diálogo mentiroso” publicadas em 11/05/2015 no JC
O Sr. Alan Tygel, na seção Opinião do Leitor teceu considerações que pretendem refutar afirmações que fizemos em artigo denominado “Transgênicos: benefícios e diálogo”. A uma certa altura xinga os autores daquele artigo de “mau caratismo”, uma prática comum nos últimos 13 anos, segundo a qual se costuma desqualificar o oponente acusando-o de qualquer coisa, desde que a acusação seja derrogatória. Essa prática imediatamente identifica a tribo à qual pertence quem fez o ataque. Mas não vamos discutir isso.
Nosso artigo quis mostrar que ao perceberem que atacar os transgênicos não funciona porque há 20 anos são consumidos sem evidência de danos ao ambiente ou seres vivos, os ativistas, para não perder a causa, passaram a repetir ad nauseam os dois termos “transgênicos e agrotóxicos” de forma a incutir na população uma percepção inconsciente de sinonímia. O Sr. Tygel afirma, em determinado ponto de sua peroração, que “transgênico é feito para ser resistente a agrotóxico”. Ora, isso é uma inverdade que apenas serve para enganar os incautos. Afirmamos, alto e bom som, que nem todos os transgênicos são feitos para ser resistentes a agrotóxicos. Há muitos que não são: podem ser resistentes a insetos, a vírus ou crescer mais rapidamente, para ficar apenas nos que a CTNBio aprovou.
É verdade que a soja transgênica foi construída para resistir ao agroquímico glifosato que – só para lembrar o leitor – mata todas as ervas daninhas que, assim, deixam de competir com a soja por nutrientes, solo e luz. É verdade também que o primeiro registro de plantação de soja transgênica marca 3 milhões de hectares em 2003 e 5 milhões em 2004. Portanto, nada demais considerar 4 milhões como ponto inicial de cálculo. Segundo as informações atuais (Informativo Céleres IC15.04 de 16/04/2015) a plantação de soja da safra 2014/2015 ocupa 31,4 milhões de hectares. Logo, a plantação de soja cresceu 7,8 vezes. Se considerarmos o número inicial como 5 milhões o crescimento terá sido de 6,3 vezes. É óbvio que aumentando a produção de soja aumenta o uso de glifosato. No entanto, assim que foi lançado, o glifosato tornou-se rapidamente o herbicida mais usado, muito antes do aparecimento da soja transgênica. No ano de 2000 o Brasil consumiu 40.000 toneladas de glifosato e a soja foi introduzida oficialmente em 2004. Nesse ano de 2004, o Brasil já consumia quase 80.000 toneladas desse agroquímico. O consumo atual gira em torno de 180.000 toneladas, isto é, um aumento de 2,25 vezes no período 2004 – 2014. Na verdade, sendo o Brasil um país tropical, o consumo de agroquímicos (nome mais adequado, pois, nem todos têm a mesma toxicidade) aumenta em proporção à atividade agrícola. Para evitar confusão com palavras repetimos um trecho de texto que se encontra emhttp://www.emater.go.gov.br/w/5839 : “Dos 851 milhões de hectares de nosso território, temos 86 milhões com pastagens plantadas (fora da Amazônia), 60 milhões com lavouras temporárias, inclusive cana-de-açúcar; sete milhões com lavouras permanentes, principalmente frutas e café; cinco milhões com silvicultura; e dois milhões com hortaliças, que somam 160 milhões de hectares, ou apenas 19% de todo o território brasileiro.” A soma de tudo isso é 160 milhões de hectares. E por que usamos esse número? A razão é simples: é muito difícil separar, nos dados existentes, o que é pecuária e o que é agricultura. E agricultura não é só milho e soja, mas cereais em geral, leguminosas e oleaginosas.  E para a nossa finalidade não importa separar porque ambas as atividades usam agroquímicos (agrotóxicos): carrapaticidas, inseticidas, herbicidas de amplo espectro e outros. Portanto, o aumento de 200% no uso de agrotóxicos nos últimos 10 anos, isto é, 2 vezes, deve ser atribuído a toda atividade agrícola que, no período, também cresceu 200%. Se considerarmos que a área plantada com transgênicos – incluindo agora milho, algodão e a soja já comentada – é de 47,5 milhões de toneladas, não importa se consideramos o ponto inicial como 4 ou 5 porque teríamos um aumento respectivo de 11,8 e 9,5 vezes de área plantada com transgênicos o que, aproximadamente, é 1000% mais ou menos, mas sem dúvida muito mais do que o aumento do uso de agrotóxicos.
É evidente que o aumento da produção de soja transgênica nos últimos dez anos acompanhou a tendência crescente da atividade agrícola brasileira (aumento de 200%) no uso de agroquímicos (aumento de 200%). No entanto, não há correlação causal entre aumento do uso de agroquímicos e o aumento de área plantada com todos os transgênicos, já que esta cresceu significativamente mais.
Por fim, se quisermos exemplificar o que seja mau caratismo diríamos que é o ato de induzir a crença na população de uma mentira, isto é, que transgênicos e agrotóxicos são sinônimos. Uma mentira vira verdade se repetida muitas vezes, já dizia Goebbels.
Paulo Paes de Andrade, geneticista, UFPE
Francisco G. Nóbrega, microbiólogo, ex-ICB/USP
Zander Navarro, sociólogo, EMBRAPA
Flávio Finardi Filho, farmacêutico, FCF/USP
Walter Colli, bioquímico, IQ/USP