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terça-feira, 5 de maio de 2015

Transgênicos: benefícios e diálogo


Em resposta a artigo publicado no JC Notícias no último dia 30 de abril, questionando decisões da CTNBio, pesquisadores demonstram que “o aumento no uso de agrotóxicos nada tem a ver com os transgênicos, mas com a agricultura intensiva brasileira”

Pode-se perfeitamente entender a preocupação de Hugh Lacey, José Corrêa Leite, Marcos Barbosa de Oliveira, e Pablo Rubén Mariconda* em relação aos transgênicos: afinal, ela reflete uma percepção pública do risco, que é o produto da base analítica de cada um de nós, da mídia e das expectativas que temos para nosso futuro. Mas as decisões de Governo sobre novas tecnologias não podem ser tomadas com base no senso comum e sim na avaliação de risco, que trata do impacto direto e específico do organismo geneticamente modificado (OGM) na natureza, e da análise de risco, que envolve outros aspectos ligados à tecnologia. A separação dos dois procedimentos analíticos não é uma manobra antidemocrática ou reducionista, mas é um posicionamento técnico aceito e referendado no mundo todo e em sintonia com os tratados e acordos internacionais de comércio e de proteção à saúde e ao ambiente.

Tendo esta informação em mente, percebe-se que estão equivocados nossos colegas do IEA/USP quando pedem que a CTNBio se debruce sobre a questão dos agrotóxicos: ela não pode fazê-lo pela lei 11.105/2005 e não lhe cabe tal tarefa, que é de alçada exclusiva da ANVISA e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Em que pese o fato de que os agrotóxicos tenham impacto na saúde humana e animal, este é um assunto que foge do escopo da CTNBio. Poder-se-ia argumentar que os transgênicos e os agrotóxicos estão sempre associados, mas esta é uma percepção que, embora muito difundida na mídia alternativa, não encontra amparo na realidade, como comentaremos a seguir.

De fato, o Brasil usa agrotóxicos em centenas de diferentes cultivos, assim como na pecuária, mas os transgênicos representam apenas 30% da área plantada: são 160 milhões de hectares cultivados com as mais diversas culturas no país contra apenas 45 milhões com cultivos transgênicos. Por isso, a contribuição dos transgênicos no consumo de agrotóxicos é menor. Esta primeira inferência é claramente referendada pela análise do aumento do uso de agrotóxicos nos últimos 10 anos e do aumento da área plantada com transgênicos: para o primeiro o valor é de 200%, enquanto a área com transgênicos cresceu mais de 1000%! O que justifica, então, o aumento do uso de agrotóxicos? Basta olhar o aumento da produtividade geral da agricultura brasileira nos mesmos 10 anos: foi de 200%. Este valor não é uma coincidência, mas resulta da intensificação do processo produtivo, que demanda um controle mais rígido das ervas daninhas e das pragas em geral. A conclusão é clara: o aumento no uso de agrotóxicos nada tem a ver com os transgênicos, mas com a agricultura intensiva brasileira.

Vale lembrar ainda que as plantas transgênicas resistentes a inseto levaram a uma importante redução do uso de inseticidas, que também são agrotóxicos. Aliás, uma análise da literatura, do banco de dados do Sinitox e da ANVISA, mostra que os inseticidas estão entre os que causam mais malefício à saúde humana e, portanto, devemos neste sentido ser gratos à adoção das plantas transgênicas resistentes a insetos, que reduziram de forma global o uso destes agrotóxicos em soja e milho. Aqui estamos falando da tecnologia Bt, uma simplificação do nome da bactéria Bacillus thuringiensis que mata as lagartas que comem as plantas. Originalmente, essa bactéria foi usada por plantadores orgânicos. Os cientistas apenas usaram os genes dessa bactéria, incorporando-os na planta. Por isso, com a tecnologia Bt incorporada evita-se, em muito, o excesso de uso dos agrotóxicos.

Vale, então, a pergunta: porque a insistência em ligar os agrotóxicos aos transgênicos? A resposta é simples: porque após 20 anos de produção e consumo verifica-se que as plantas transgênicas no mercado não prejudicam o ambiente ou a saúde humana e animal. A nova forma de atacar a biotecnologia agrícola é ligá-la ao uso de produtos que são tóxicos para uma série de organismos e também para o homem, se ingeridos ou assimilados pelo nosso organismo acima de certa dose. Como mostramos acima, esta associação é falsa.

De fato, atualmente no mundo 180 milhões de hectares são cultivados com plantas transgênicas, sem qualquer impacto diferente daquele observado nas plantas convencionais cultivadas em iguais condições. Bilhões de animais e pessoas se alimentam com produtos formulados a partir de soja, milho, canola e outras plantas transgênicas e nenhum, absolutamente nenhum, problema de saúde foi comprovado. Não há base científica alguma para esperar estes danos e é aí que entra a avaliação de risco, função da CTNBio: depois de 15 anos de plantio e consumo no Brasil, não há sequer uma demonstração de que os OGMs façam mal à saúde ou ao ambiente no nosso país, o que prova, até agora, o acerto das decisões da CTNBio. Lembramos aos leitores também que milhares de outros produtos derivados da biotecnologia fazem parte de nosso dia a dia, indo de fármacos até sabões, tudo consumido e produzido de forma segura. Um exemplo contundente é a insulina, que hoje é idêntica à humana e que antes era derivada de suínos e produzia uma longa lista de problemas colaterais, tanto para o paciente como para o ambiente.

Finalmente, gostaríamos de esclarecer aos nossos colegas do IEA/USP que os membros da CTNBio empregam uma vasta literatura para apoiar seus pareceres e não apenas os dados trazidos pela empresa (inverdade muito encontrada na internet, infelizmente). Além disso, lembramos que os produtos que chegam à linha final da liberação comercial estão, em geral, na ponta de um longo procedimento de avaliação que começa nas casas de vegetação e passam pelos experimentos a campo, muitos anos antes da liberação comercial. Lembramos também que, embora alguns pontos específicos (em geral sobre a construção genética do transgênico) sejam confidenciais, a maioria esmagadora dos processos é pública: basta acessar o e-SIC do MCTI e pedir uma cópia. Por fim, afirmamos aos colegas que a geração de dados pelos cientistas brasileiros e estrangeiros é, de forma muito ampla, independente de financiamento das empresas, pois, o que vale é a consistência do método científico e não quem fez o trabalho ou quem o financiou. Entra aí a honestidade do profissional e sua adesão aos princípios morais de sua carreira e de sua sociedade.

Se os filósofos do IEA/USP ou qualquer outro grupo que crê haver erros na forma de agir da CTNBio desejam de fato o diálogo com a Comissão ou com as sociedades científicas, devem primeiro despir-se do preconceito que revelam a respeito da conduta dos membros da Comissão e dos cientistas em geral, acusando-os de emitirem seus pareceres porque têm apoio indireto ou direto do setor privado que leva seus produtos à CTNBio ou de produzirem dados favoráveis às empresas em troca de financiamentos. Tal posição, além de falsa, é desrespeitosa e não leva a diálogo algum.

Paulo Paes de Andrade, geneticista, UFPE
Francisco G. Nóbrega, microbiólogo, ex-ICB/USP
Zander Navarro, sociólogo, EMBRAPA
Flávio Finardi Filho, farmacêutico, FCF/USP
Walter Colli, bioquímico, IQ/USP

Veja o artigo anterior no link abaixo:

domingo, 19 de abril de 2015

A adoção dos transgênicos na agricultura não aumentou o uso de agrotóxicos

      Frequentemente lemos na Internet que o grande aumento do uso de agrotóxicos (ou pesticidas) no Brasil se deveu à adoção dos transgênicos. Esta afirmação, tanto menos verdadeira quanto mais repetida na mídia alternativa, tem como único propósito levar a opinião pública à oposição à biotecnologia agrícola: ela se furta a encarar a real razão deste aumento, que está fundamentada na intensificação da agricultura, em geral, e no aumento proporcional de nossa produtividade. Se o modelo agrícola é insustentável, que se discuta isso, mas colocar os transgênicos como bode expiatório está errado e só serve a um debate ideológico e político de baixa qualidade e com fins duvidosos.

 Abaixo destrinchamos preliminarmente a questão para os leitores interessados.

Introdução

Iniciamos este texto com algumas informações que estão em vários documentos oficiais do país.
·         O aumento no uso de agrotóxicos agrícolas foi de aproximadamente 200% nos últimos 10 anos
·         A área plantada com lavouras de soja, milho e trigo não ultrapassa 45 milhões de hectares (41 milhões em 2013)
·         A área agrícola brasileira chega a 160 milhões de hectares
·         Em toda atividade agrícola (exceto na orgânica) emprega-se agrotóxico, inclusive na pecuária, tanto no trato dos animais quanto no pasto e em outras aplicações.
·         De todos os agrotóxicos empregados, apenas três herbicidas podem ter um aumento devido a adoção da biotecnologia agrícola, sendo o glifosato o mais empregado. O uso de inseticidas pode ter diminuído com a adoção dos transgênicos no campo, nas lavouras de milho, soja e algodão.

Transgênicos e agrotóxicos: ausência de correlação

É sabido que o glifosato, o principal herbicida associado aos transgênicos, tem inúmeras aplicações, inclusive fora do ambiente agrícola. Este pesticida rapidamente ganhou a preferência no Brasil e no Mundo, muito antes da adoção dos transgênicos. Os dois outros herbicidas não passam de 5 % do uso global de glifosato. A Figura 1 abaixo, composta da informação até 2006 (quanto tínhamos pouca área plantada com transgênicos) e a de 2012, mostra que houve um aumento de 315% no uso do glifosato. Considerando seus múltiplos usos (muitas lavouras não GM também empregam glifosato) e que o aumento global de herbicidas foi de 200% (o glifosato participa, quando muito com 40%), fica desde o início impossível atribuir aos transgênicos o aumento do seu uso.
Para reforçar esta impossibilidade, deve-se ter em mente que o aumento da área plantada com soja transgênica foi superior a 8 vezes nos mesmos 10 anos! (Veja Figura 3) e que o aumento da área com transgênicos foi de 10 vezes! Assim, se algum aumento houve no uso do glifosato devido à adoção da biotecnologia agrícola, foi discreto:  o aumento de 315% é muito inferior ao aumento da área plantada com transgênicos, que foi de 1000%. Para o conjunto dos pesticidas, a disparidade é ainda maior: o aumento foi de apenas 200%.  A associação entre pesticidas e agrotóxicos não parece ter sustentação, o que será confirmado mais adiante.




Figura 1: Aumento do uso dos principais herbicidas ao longo de 13 anos. O glifosato permaneceu todo o tempo como o mais empregado pesticida, mesmo antes do uso dos transgênicos (iniciado em 2004 com uma área que hoje é menos de 1/10da área plantada com transgênicos.

Afinal, o que acarretou o aumento do uso de agrotóxicos?

A área plantada com cereais, leguminosas e oleaginosas não cresceu nos últimos 15 anos, mas a produção cresceu enormemente. Observe a Figura 2 abaixo, adaptada de http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/conhecimento/bnset/set3507.pdf. Nela foi adicionada a curva correspondente ao aumento de área plantada com transgênicos.



Figura 2: Em vermelho a área plantada com transgênicos, obtida do gráfico da Céleres, mostrado na figura seguinte.

O grande aumento de produtividade se deveu a uma intensificação do cultivo, com tecnificação profunda, envolvendo o manejo integrado de tecnologias. Os agrotóxicos fazem parte disso. Assim, se o aumento nos agrotóxicos foi de 200% em 10 anos, o aumento na produção foi idêntico no mesmo período! Este resultado, associado aos anteriores, indica fortemente que o aumento do uso de agrotóxicos está diretamente ligado ao aumento de produção. Como a área plantada pouco cresceu no período, ele também está ligado ao aumento de produtividade, o que faz todo o sentido: um melhor controle de pragas implica numa produtividade aumentada.


Figura 3: Aumento da área plantada com transgênicos no país. fonte: http://www.celeres.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2014/12/IB1403.pdf

Dados complementares

O IBGE lista as áreas plantadas em 2014 com 32 diferentes produtos (http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/agropecuaria/lspa/lspa_201502_4.shtm) . Eles perfazem 72 milhões de hectares. Destes, 41 milhões são cultivados com soja, milho ou algodão transgênicos. Um pouco mais da metade, portanto, da área agrícola é transgênica? Isso é muito expressivo!

De jeito nenhum, porque a conta está errada: a proporção plantada com transgênicos é muito menor. Na conta acima não estão listadas as pastagens, os plantios florestais e um grande número de fruteiras (mamão, manga, melão, banana, etc.), atividades que empregam agrotóxicos. Na verdade, a área provável de plantio no Brasil deve ultrapassar os 160 milhões de hectares e praticamente em toda parte se usa agrotóxico.
Dos 851 milhões de hectares de nosso território, temos 86 milhões com pastagens plantadas (fora da Amazônia), 60 milhões com lavouras temporárias, inclusive cana-de-açúcar; sete milhões com lavouras permanentes, principalmente frutas e café; cinco milhões com silvicultura; e dois milhões com hortaliças, que somam 160 milhões de hectares, ou apenas 19% de todo o território brasileiro. (http://www.emater.go.gov.br/w/5839)

 Por isso, a área plantada com transgênicos não passa de 30% do total da área agrícola nacional e, portanto, não deve ser responsável por muito mais do que 30% do consumo de agrotóxicos. O resto vem de outros usos e a prova disso é que o perfil de consumo de agrotóxicos não mudou significativamente entre o antes e o depois da adoção dos transgênicos.

Há ainda outros usos, não considerados acima pela Emater? Toda a pecuária brasileira! Ela console um grande volume de diferentes agrotóxicos (inseticidas, acaricidas e até herbicidas!), que estão computados junto ao volume total consumido pelo país.

Síntese e conclusão

a) A parcela do emprego de agrotóxico representada pelas plantações transgênicas está abaixode 30% do total do consumo.
b) O aumento da área plantada com transgênico em 10 anos foi de 1000%, mas o aumento do uso de agrotóxicos foi de apenas 200%.
c) O aumento de produtividade global da agricultura foi de 200%
d) Não houve mudança no perfil de uso de agrotóxicos entre 2000 e 2012, o que indica que a adoção dos transgênicos não afetou o perfil.
e) A área agrícola com transgênicos não ultrapassa ¼ da área agrícola total do país, toda ela empregando agrotóxicos (em lavouras as mais diversas, em espécies florestais e na pecuária).
f) A pecuária também consome muito pesticida e nunca é computada.

Juntando tudo de (a) até (f) é impossível concluir que os transgênicos sejam os responsáveis pelo aumento do consumo de agrotóxicos, Ao contrário, não o são,
definitivamente! É a intensificação de nossa agricultura, num modelo que pede o uso integrado de tecnologias e produtos, que implica noaumento.

Mesmo com este aumento, o número de casos de intoxicação por agrotóxico não aumentou nada em 10 anos. Está tudo no SINITOX. Especulações em cima da casuística oficial não ajudam em nada se não estiverem baseadas na melhor ciência.


domingo, 8 de março de 2015

Agrotóxicos: tamanho real do problema e não-relação com os transgênicos

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Revi este texto logo após a invasão da CTNBio pelo MST. Na ocasião os manifestantes repetiram inúmeras vezes que os transgênicos eram os culpados pelo aumento dos agrotóxicos e que os agrotóxicos estavam envenenando os trabalhadores e nossa comida. Ora, o texto abaixo, escrito em 2012, revia justamente a questão dos agrotóxicos e dos casos de intoxicação, com base nos dados do Sinitox (Fiocruz) e não apenas com base no que se escuta por aí. O resultado é surpreendente: os agrotóxicos têm um impacto muito pequeno na saúde do trabalhador e muito menor ainda, na do consumidor. Aliás, era de se esperar, uma vez que há um controle relativamente rígido no emprego destes produtos e que os mais empregados são relativamente seguros. Assim, a maioria esmagadora dos casos de intoxicação provém de erros no uso (acidentes individuais) e tentativas de suicídio (estas são 30 % dos casos notificados). Um número ínfimo (em geral rondando 10 casos por ano) é de intoxicação alimentar. Ainda assim, muito provavelmente por produtos que não envolvem transgênicos, uma vez que a maior parte dos alimentos encontrados com resíduos de agrotóxicos provem da pequena agricultura familiar. A releitura do texto, no rescaldo das invasões do MST, é importante demais.
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Recentemente o Valor Econômico (23/02/2012) publicou texto de José Agenor Alves da Silva, diretor da ANVISA, sobre o trabalho daquela agência no rastreamento de resíduos de agrotóxicos em alimentos e as dificuldades que a agência tem enfrentado na aceitação de seus resultados, tendo sido desafiada em sua credibilidade por alguns setores da sociedade (http://www.valor.com.br/opiniao/2538528/agrotoxico-pimentao-e-suco-de-laranja). Não podemos aqui discutir esta questão, que ultrapassa em muito os objetivos deste fórum, mas queremos ressaltar que a incidência de intoxicações alimentares devidas a agrotóxicos no Brasil está grosseiramente exagerada pela mídia e por alguns órgãos de governo. Isso tem também relação direta com as plantas transgênicas, falsamente acusadas de ser fonte de intoxicação por agrotóxicos, o que é uma tremenda inverdade, como se verá mais abaixo.
Se é certo que o Brasil consume uma imensa quantidade de agrotóxicos, é certo também que exporta um volume enorme de produtos agrícolas para todas as partes do mundo, com raríssimos casos de problemas relacionados a resíduos de agrotóxicos. A razão disso é que o grande produtor tem um controle rígido do uso de agrotóxicos, que não apenas representam para ele custos, mas são uma fonte de problemas pós-colheita caso resíduos acima do permitido permaneçam no produto. Isso é válido tanto para produtos de exportação como para o mercado interno, que é fiscalizado, inclusive pela ANVISA. O resultado é que os alimentos industrializados de origem vegetal raramente contem resíduos de agrotóxicos acima do permitido.
Poder-se-ia argumentar que o ideal é resíduo zero. Ora, a própria natureza se encarrega de produzir um sem número de diferentes toxinas, muitas delas análogas aos agrotóxicos, que estão em nossos alimentos sempre. Além disso, como é sabido desde Paracelso, faz quatro séculos, a dose é o que importa. Pode haver, em alguns casos, uma bioacumulação no consumidor final, mas isso só ocorre com alguns agrotóxicos que são, por isso mesmo, muito controlados. O uso bem feito dos agrotóxicos tem permitido ao Brasil ganhar um enorme espaço na exportação de grãos, ao mesmo tempo oferecendo aos brasileiros alimentos de qualidade por preço altamente competitivo.
Assim, é pouco provável que o grosso dos alimentos consumidos pelos brasileiros chegue ao mercado contaminado. Além disso, ao contrário do que afirma o diretor da ANVISA, a linha que separa os efeitos benéficos de eliminar uma praga e os efeitos maléficos, que podem levar um ser humano à morte, não tem nada de tênue. Os mecanismos de ação podem ser muito diferentes e, sobretudo, a dose de agrotóxico que chega a ser ingerida num alimento é muitas ordens de grandeza inferior àquelas observadas na lavoura. Com estas informações em mente, podemos analisar os dados que o país dispõe sobre intoxicação com agrotóxicos e sobre a parcela destes casos que é devida à ingestão de alimentos contaminados com agrotóxicos agrícolas.
O acesso online ao SINAN permite gerar várias tabelas, entre elas esta, para 2006, Não há registro no banco de anos posteriores, embora haja um relato em pdf que está discutido mais abaixo.


Uma breve análise mostra que, dos pouco mais de 3000 casos registrados em 2006, 33% foram tentativas de suicídio, a maior causa percentual de intoxicação com agrotóxicos. Em seguida, outros 30% são devidos a acidentes de trabalho, totalizando quase 1000 casos. Há 15% de casos sem identificação de circunstância. Outros 15% são devidos à acidentes.O que salta à vista é que apenas 43 casos foram atribuídos à contaminação de alimentos, embora não esteja discriminada a origem deles (se diretamente da lavoura ou de revenda, se de pequeno proprietário ou agroindústria, nem o tipo de alimento).
Assim, o número absoluto de casos é muito reduzido e as causas da contaminação alimentar são difíceis de avaliar. No total de casos, elas representam apenas 1,2% dos casos notificados. Uma análise da distribuição geográfica mostra que os casos estão espalhados por alguns estados, sem correlação óbvia com o plantio de transgênicos.
Apesar de suas deficiências conhecidas (subnotificação, viés do notificador, etc,), o SINAN é confiável e abrange todo o país. Uma estimativa precisa dos casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos está fora dos objetivos deste artigo. O que se que ressaltar aqui é a pequena relevância  percentual dos casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos (em torno de 1%) quando comparada às causas maiores (acidentes, ocupação, suicídio, etc.). Deve-se lembrar aqui que o SINITOX registra quase 10 vezes mais casos de intoxicação por alimentos devidos ao próprio estado de conservação dos alimentos do que por contaminação por resíduos de agrotóxicos.

Em um documento da SVS-MS (http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/af_III_informe_agrotoxicos_09.pdf), as mesmas informações acima podem ser apreciadas para 2008. O cenário não muda significativamente (os casos que interessam aqui são da coluna C9):



Para 2007, o SINITOX registra apenas 12 casos de intoxicação alimentar por agrotóxicos para todo o país. Ainda que o total anual de casos no Brasil de intoxicação alimentar por agrotóxicos totalizasse 100, suas causas podem ser as mais diversas, assim como a origem destes produtos. Não há dúvida que a intoxicação de trabalhadores e por acidentes é um sério problema, assim como o uso destes produtos em tentativas de suicídio, mas não há qualquer base para se atribuir aos transgênicos a pecha de levar à boca do consumidor os agrotóxicos usados na lavoura. Até porque dos alimentos onde se detecta ocasionalmente níveis de pesticidas acima do permitido por lei não faz parte nem milho nem soja, as únicas plantas transgênicas consumidas como alimento no Brasil (do algodão, terceira planta transgênica, só se consome o óleo, que é um produto purificado e não contem pesticidas nem proteínas recombinantes expressas pela planta geneticamente modificada). De fato, a ANVISA monitorou  dezoito  alimentos: abacaxi, alface,  arroz, batata, beterraba, cebola, cenoura, couve, feijão, laranja, maçã, mamão, manga, morango, pepino, pimentão, repolho e tomate. A escolha das culturas baseou-se nos dados de consumo obtidos pelo  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na disponibilidade destes alimentos nos supermercados das diferentes  unidades da Federação e no uso intensivo de agrotóxicos nestas culturas. De acordo com a própria ANVISA, no texto produzido pelo programa PARA, análise dos dados do Censo Agropecuário  do IBGE de 2006 mostra alguns fatores  que  potencializam o risco de uso inadequado dos  agrotóxicos e  a contaminação dos alimentos:
• 785 mil estabelecimentos (56,3% daqueles onde houve utilização de agrotóxicos) não receberam orientação  agronômica.  Das propriedades que receberam assistência (172 mil), 76,7% usam agrotóxicos.
• Quase 85% da mão de obra agrícola se encontram nas pequenas  propriedades, e mais de 80% dos  proprietários rurais  e 37,5% dos trabalhadores com laços de parentesco com  eles é analfabeta ou sabe ler e escrever, mas não tem escolarização formal ou apenas o ensino fundamental incompleto.
Isso é especialmente válido para os produtores dos itens agrícolas que foram avaliados pelo PARA, mas não se aplica de uma forma geral aos produtores de plantas transgênicas, que tem um domínio técnico muito mais elevado. Não se está aqui afirmando que o problema da contaminação dos alimentos com agrotóxicos está restrito à pequena agricultura e à agricultura familiar, mas que ele é certamente de muito menor proporção na agroindústria. Efetivamente, não há qualquer dado que indique contaminação de agrotóxicos em soja e milho, nem razão técnica para isso, e muito menos no caso destes cultivos, quando transgênicos.

Concluímos que, na questão de intoxicação alimentar por agrotóxicos, há muito barulho por pouco. E, especificamente para a participação das plantas transgênicas nisso, há certamente muito barulho por nada. A quem interessa manter esta mentira rolando na mídia?

Atualização

A consulta ao Sinitox para 2012 (dado mais recente) não muda o cenário descrito com base no relatório anterior (1998-2007). Observemos as tabelas:


Tabela das intoxicações em 2012 (Sinitox, apenas as 3 primeiras entradas)

Agente
Vítima humana
Vítima animal
Informação
Total
% do total de intoxicações no país em 2012
Medicamentos
24029
132
627
24788
27,62
Agrotóxicos/Uso Agrícola
3937
76
98
4111
4,58
Agrotóxicos/Uso Doméstico
1843
144
118
2105
2,35

A tabela 10 (http://www.fiocruz.br/sinitox/media/tabela%2010_2012.pdf) mostra que houve cerca de 100 óbitos e 22 sequelas associadas aos agrotóxicos. Não são poucos óbitos. mas que circunstâncias estavam envolvidas nestes casos? É extremamente instrutiva a inspeção da Tabela 6 (http://www.fiocruz.br/sinitox/media/tabela%206_2012.pdf) :  dos  quase 3000 casos de intoxicação, apenas 7 foram por ingestão de alimentos. Ainda assim, não se sabe em que condições exatas. A maioria esmagadora foi a soma de casos individuais e tentativas de suicídio. Estas últimas são justamente as circunstâncias que levam à maior parte dos casos com  sequelas ou de morte.

Além disso, e não menos importante, já no início da década de 90 os casos de intoxicação aguda com agrotóxicos de uso agrícola chegavam a mais de 3.000 por ano (http://www.fiocruz.br/sinitox_novo/media/artigo1.pdf), número quase igual ao de hoje (consulte http://www.fiocruz.br/sinitox/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=8 para os vários anos). Isso parece surpreendente, sobretudo tendo em vista o enorme aumento no uso de agrotóxicos no campo, sobretudo nos últimos 5 anos. Por que o número de casos não explodiu? A explicação é simples e cristalina, mas choca o público e vou deixar ao leitor a tarefa de encontrá-la.

Conclusão de março de 2015

As palavras de ordem do MST sobre os danos dos agrotóxicos à nossa comida carecem de base nos dados levantados pelas autoridades do país. É certo que deve haver uma certa sub-notificação e que casos de intoxicação crônica por ingestão de alimentos contaminados podem existir (http://www.scielo.br/pdf/csc/v12n1/04.pdf), mas provavelmente são poucos ou fatalmente já teriam  surgido e empurrado o país a tomar as medidas cabíveis. Afinal, os médicos estão alertas e há procedimentos específicos para a avaliação de intoxicações crônicas por agrotóxicos, cujos sinais e sintomas são bem conhecidos (ver caixa abaixo)

INTOXICAÇÃO POR AGROTÓXICO A intoxicação crônica caracteriza-se pelo surgimento tardio, após meses ou anos, por exposição pequena ou moderada a produtos tóxicos ou a múltiplos produtos, acarretando danos muitas vezes irreversíveis nos indivíduos expostos. Segundo o Protocolo de Atenção à Saúde dos Trabalhadores Expostos a Agrotóxicos, elaborado pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2006), as patologias relacionados à intoxicação crônica por agrotóxicos podem ser neoplasias, como mieloma múltiplo e leucemias; anemia aplástica; transtornos mentais, como alterações cognitivas e episódios depressivos; doenças do sistema nervoso como distúrbios do movimento, polineuropatias e encefalopatia tóxica; oculares, como neurite óptica e distúrbios da visão e ainda auditivas, circulatórias, respiratórias, digestivas e dermatológicas.

Então, só posso reforçar o que disse antes, faz quase três anos: a espalhafatosa ligação entre os transgênicos e as intoxicações com agrotóxicos, sobretudo nos alimentos, é pura e simples mentira. Que continua sendo repetida, com enorme sucesso, por várias organizações sociais e pela internet, para imenso prejuízo do entendimento do problema.

Leituras recomendadas:

Resultados de campo sobre uso de agrotóxicos por pequenos produtores: muito elucidativo: http://www.ecodebate.com.br/2012/02/23/pequenos-produtores-estao-cientes-de-riscos-dos-agrotoxicos/
Neice Müller Xavier Faria,  Anaclaudia Gastal Fassa e Luiz Augusto Facchini - Intoxicação por agrotóxicos no Brasil: os sistemas oficiais de informação e desafios para realização de estudos epidemiológicos. Ciência & Saúde Coletiva, 12(1):25-38, 2007 (http://www.scielo.br/pdf/csc/v12n1/04.pdf)


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