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domingo, 15 de março de 2015

Professor esclarece características do eucalipto transgênico

15/03/2015

[GenPeace] Segundo o Prof. Hilton Thadeu Zarate Couto, membro da CTNBio e relator do parecer consolidado das setoriais ambiental/vegetal da CTNBio sobre o eucalipto transgênico H421, as criticas aos impactos econômicos da variedade de eucalipto H421 e à avaliação de risco merecem reparos.

No dia 5 de março, cerca de mil mulheres militantes do MST ocuparam um centro de pesquisa da empresa Futuragene, em Itapetininga (SP), destruindo um importante banco genético. Um trabalho de nove anos e todo o investimento acabou sendo perdido, em protesto contra o cultivo de eucaliptos transgênicos no Brasil. Ao mesmo tempo, em Brasília, aproximadamente 200 pessoas invadiram a reunião da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), da qual Hilton Thadeu Zarate Couto, professor do Departamento de Ciências Florestais, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/Esalq), é membro.

No encontro, discutia-se a liberação do eucalipto transgênico desenvolvido pela Futuragene, processo do qual Hilton Thadeu é relator. “A CTNBio é uma comissão composta de 27 membros, pesquisadores de várias instituições do Brasil, representantes da sociedade civil e ministérios. As reuniões têm como objetivo avaliar os processos de produção de material transgênico e, após a liberação, a Comissão estabelece normas de acompanhamento”, explica Couto.

Segundo o docente, a questão do eucalipto transgênico, que tem sido criticada, principalmente por organizações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e merece alguns esclarecimentos. “A empresa terá que fornecer informações do que está acontecendo com esse material e onde ele está sendo plantado, até a liberação total. O material e o ambiente de plantio serão também monitorados por cerca de cinco anos e, durante esse período, a sugestão da CTNBio é que não se plante mais do que 2 ou 3% da área de efetivo plantio da empresa para termos a certeza de que ele não trará nenhum problema ao ambiente”, complementa.

Em relação à falta de água, que é apontada como consequência da plantação deste eucalipto, o professor da Esalq afirma que, ao contrário do que as pessoas dizem, ele não some com a água. “Em seu ciclo, ele faz com que a água vá para a atmosfera e, com as chuvas, para os rios, abastecendo os mananciais. A crise hídrica não é, com certeza, resultado do plantio de eucalipto”.

Outro ponto refutado pelo professor Hilton Thadeu é o argumento do fluxo gênico. “As organizações contrárias afirmam, de forma incorreta, que o pólen do eucalipto transgênico pode percorrer longas distâncias e contaminar outros eucaliptos. No entanto, estudos comprovaram que, a partir de 600 m de distância, não existe mais possibilidade de transmissão. Além disso, ocorre que hoje, no Brasil, 99% dos plantios não são por semente. Não se colhe a semente para plantar eucalipto. Plantamos clones, ou seja, materiais que não são oriundos de sementes, mas sim de propagação vegetativa. Então não justificaria esse argumento de que vamos usar a semente do eucalipto que pode estar contaminada com o pólen transgênico”, reforça. “Se quisermos que não haja contaminação, basta não plantar o transgênico a menos de 600 m dos eucaliptos não transgênicos”.

Thadeu contou que há também a opinião de que a proteína contida no eucalipto transgênico pode causar efeitos maléficos ao organismo humano e explicou a situação. “Existem duas proteínas na produção do transgênico, a Cel1, que tem por função alongar a parede celular, aumentando o crescimento das plantas, mas que realiza sua função e desaparece, e a NPT II, que caracteriza a planta como transgênica, permanece na planta e é muito conhecida por aparecer no algodão, no milho e na soja, por exemplo. Há um estudo (FUCHS et al, de 1993) que avaliou essa proteína e mostra que ela é rapidamente degradada quando entra no trato digestivo de mamíferos, como os humanos. E a agência de proteção ambiental e o ministério de agricultura dos EUA consideram a NPTII segura para consumo humano. Além disso, é encontrada em quantidades muito pequenas”, explicou.

A presença da proteína NPTII é apontada pelos grupos que combatem o eucalipto transgênico como contaminante do mel, fazendo com que o Brasil perca competitividade na exportação e produção do produto. De acordo com o profissional, a quantidade de material transgênico no mel depende da quantidade de pólen que ele tem, porque é o único elemento que pode conter material transgênico, trazido com o néctar pelas abelhas. “Mas a exigência da exportação é que o mel seja filtrado para retirar as impurezas, como pernas de abelha, resíduos de própolis e uma série de contaminantes. Ao filtrar, o pólen e o material transgênico são retirados ou se deixa uma quantidade muito pequena, como por exemplo, de 3,9 nanogramas por grama de mel.” Em relação ao mel orgânico, que também poderia ser afetado, Thadeu afirmou que existe um instituto denominado Instituto Biodinâmico, localizado em Botucatu (SP), que permite até 5% de material não-orgânico no mel orgânico. “Mas, ainda assim, o NPTII se degrada no trato intestinal, não causando danos ao organismo humano”.

Além disso, o Conselho de Manejo Florestal (FSC), que certifica plantações florestais no mundo todo, ainda não aprovou a certificação de material transgênico no Brasil, e esse é um dos motivos que faz com que os manifestantes refutem a liberação do plantio e comercialização do eucalipto transgênico.

“A maioria dos membros desse órgão é de pessoas oriundas de países que tem uma economia dependente da produção florestal e que competem com o Brasil, que tem como produtividade média 40m3/ha/ano nas plantações de eucaliptos. Além disso, o órgão é financiado por doações, as quais não são declaradas as fontes. Pode ser que receba de organismos que protegem suas produções florestais, dessas regiões que dependem muito disso e que tem produtividade inferior à nossa. Agora, sem nenhuma justificativa, são contra o plantio de material transgênico. Acredito que seja porque é um outro patamar para o desenvolvimento florestal brasileiro, que tem agora o primeiro eucalipto transgênico do mundo”.

Segundo o professor, a certificação é importante, pois abre mercados internacionais e dá mais reconhecimento ao produto exportado, mas não é uma preocupação latente no momento. “O selo de certificação é exigido apenas por alguns nichos específicos de mercado, como a Alemanha. Mas a empresa não vai produzir 100% de transgênico já, e sim 2 ou 3%. É um processo lento e ainda não há produção, só plantios experimentais”.

A CTNBio dará continuidade a suas ações, com o apoio do Ministério de Ciência e Tecnologia. Se acontecer, a liberação plantios comerciais do eucalipto transgênico será apenas para a empresa, que produziu o primeiro transgênico de eucalipto e está desenvolvendo-a desde 2006. Se outra empresa desenvolver novos transgênicos, outro processo será aberto.


[GenPeace] Para uma avaliação completa dos riscos do eucalipto, em linguagem acessível ao público geral, leia http://genpeace.blogspot.com.br/2015/02/avaliacao-de-risco-do-eucalipto.html

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Réplica à Carta aos Ministérios representados na CTNBio sobre autorização para plantio de eucalipto transgênico pela Suzano/FuturaGene

Much ado about nothing (W. Shakespeare)
No dia 27 de fevereiro de 2015, sexta- feira, faltando menos de uma semana para a decisão na Plenária da CTNBio quanto aos riscos de uma liberação comercial da variedade de eucalipto para crescimento acelerado, surge uma carta dirigida a todos os Ministérios representados na CTNBio, com cópia para a Presidente substituta da CTNBio e demais membros, publicada no portal Racismo Ambiental (http://racismoambiental.net.br/2015/02/27/carta-ao-ministro-da-ciencia-tecnologia-e-inovacao-sobre-autorizacao-para-plantio-do-eucalipto-gm-pela-suzanofuturagene/).
A carta é apócrifa, mas já está sendo divulgada, foi traduzida para o inglês e é até a base para um abaixo assinado. Vale a pena uma análise breve, que segue abaixo (contendo preciosas sugestões de outros avaliadores de risco mais gabaritados que eu).
Primeiro, quanto à oportunidade: esta variedade de eucalipto já foi tema de uma audiência pública e antes disso foram abertas consultas públicas, como manda o regimento da CTNBio. Seguiu-se um longo debate pela internet e em outros fóruns e, principalmente, dentro da CTNBio. Houve, portanto, ampla possibilidade de debate: uma carta em tom indignado não contribui com um grama no peso das discussões sérias.
Em segundo lugar, os pontos levantados pelos signatários foram abordados pela CTNBio. Os que são de sua alçada (avaliação de risco) foram devidamente tratados e os que são ligados a outros elementos da análise de risco foram discutidos, ainda que não fosse competência da CTNBio. Nenhum elemento da análise foi deixado de fora das discussões, embora a decisão técnica tenha se baseado estritamente nos elementos de risco representados pela introdução do OGM sobre a biodiversidade e sobre a saúde humana e animal.
Comento, a seguir, alguns dos posicionamentos errôneos dos missivistas;
a) Quando afirmam que “decisão (de liberação comercial) visa apenas beneficiar um segmento do setor privado do país” os autores da carta jogam fumaça nos olhos do leitor: o que a CTNBio avalia são riscos, ela não se intromete e nem tem competência para avaliar vantagens e desvantagens econômicas. Além disso, sempre que um produto tiver sua liberação comercial solicitada, evidentemente alguém (seja uma empresa pública ou privada) irá se beneficiar, e não há nada de errado nisso. Mas, em última instância, quem ganha é o país, com um produto inovador. E quem decide, em última instância, se o produto é bom ou não, é o mercado. Afinal, estamos num sistema de mercado livre, não estamos num país comunista.
b) Quanto ao país ser o primeiro a aprovar um eucalipto transgênico, isso não é problema algum. Por que o Brasil tem sempre que andar a reboque dos demais países? O que importa é que os órgãos competentes fizeram uma criteriosa avaliação de risco e decidiram pela ausência de riscos não-negligenciáveis. O mesmo já ocorreu com algas e leveduras transgênicas e com o mosquito transgênico e, de forma mais incisiva, com o feijão transgênico, desenvolvido por uma empresa do Governo. É imoral pedir que esperemos a adoção de um produto em muitas partes do mundo em nome de um ambientalismo trôpego, sem base em ciência. Se a CTNBio aprovar o plantio de eucalipto transgênico no Brasil, não seremos o primeiro país do mundo a aprovar o plantio comercial de floresta transgênica após a avaliação de sua biossegurança: em janeiro deste ano se tornou pública uma decisão do Serviço de Inspeção de Saúde de Planta e Animal (APHIS) do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) aprovando o plantio comercial de um pinheiro geneticamente modificado geneticamente para ter maior densidade de madeira (http://www.aphis.usda.gov/biotechnology/downloads/reg_loi/brs_resp_arborgen_loblolly_pine.pdf). O curioso é que este pinheiro é nativo de lá, ao contrário do eucalipto, que é exótico e não tem espécies sexualmente compatíveis no Brasil.
c) Quando afirmam que a “CTNBio não possui estudos científicos suficientes”, os redatores da carta desprezam a metodologia de avaliação de risco e a imensa quantidade de dados que foi aportada nas várias etapas do processo de avaliação do produto, tanto pela proponente, como pelos relatores. É vergonhoso tratar de forma tão inepta o trabalho sério da CTNBio. Afinal, TODOS os impactos prováveis foram cuidadosamente avaliados com base em uma riqueza enorme de dados e esta avaliação está disponível não apenas na CTNBio, mas mesmo na internet, neste mesmo blog nosso (http://genpeace.blogspot.com.br/2014/11/eucalipto-transgenico-quais-sao-de-fato.html).
d) Os missivistas divergem, então, do tema de avaliação de risco e passam a tratar do impacto que o pólen transgênico poderia ter sobre a produção de mel orgânico. Ora, isso não é da alçada da CTNBio. Entretanto, o assunto foi ventilado e discutido na CTNBio e fora dela. Sugiro a leitura dos links http://genpeace.blogspot.com.br/2014/11/exportacao-de-mel-e-o-eucalipto.html e http://genpeace.blogspot.com.br/2014/09/audiencia-publica-sobre-o-eucalipto.html)  para uma discussão ponderada sobre este tema. Aqui quero deixar claro apenas que esta NÃO É uma questão de biossegurança, mas um problema de coexistência de atividades econômicas. De toda forma, as abelhas no Brasil frequentam plantações de soja e algodoais transgênicos e também passeiam nos milharais, ainda que nem a soja nem o milho dependam de abelhas para sua polinização. É evidente que, com a taxa de adoção da transgenia nestas culturas, uma ENORME PARTE de nosso mel já contém ao menos traços de pólen transgênico. Culpar o eucalipto como único cultivo a fazer isso é desafiar a inteligência do leitor. Se, no futuro, a Europa ou outro mercado rejeitar nosso mel, haverá seguramente outro que vai comprá-lo. Além disso, um manejo relativamente simples das colmeias pode evitar a presença de pólen de eucalipto GM no mel e em outros produtos apícolas. É tudo, como diria Shakespeare, ”much ado about nothing”.
e) O risco real do pólen GM sobre as abelhas foi minuciosamente estudado, assim como todos os outros perigos arrolados pela própria CTNBio e por outros atores, inclusive a alergenicidade – improvável – das novas proteínas no pólen. Só posso concluir que o representante do MDA, mencionado na carta como muito atento, cochilou na leitura do dossiê e de seus anexos quando chegou à conclusão de que só 5 colmeias foram estudadas e que a questão da alergenicidade não foi adequadamente tratada. Os destinatários da carta (os Ministros) devem ler o dossiê e os pareceres para aquilatar o absurdo da maior parte das afirmações desta carta.
f) Mais adiante na carta os missivistas afirmam que “A CTNBio tem obrigação de respeitar todos os interesses da indústria nacional, os interesses dos cidadãos e das gerações futuras, antes de julgar o pedido que beneficia apenas a FuturaGene/Suzano”. Ora, como disse acima, não é função da CTNBio, nem legalmente nem por extensão de suas atividades de avaliação de risco, adentrar em questões econômicas ou de interesse de a, b ou c. Se não houver riscos (ou se eles forem, efetivamente, negligenciáveis), a CTNBio deixará isso claro em seu parecer de liberação comercial. A adoção do produto vai depender ainda do MAPA e talvez de outro ministério e, sobretudo, da vontade soberana do mercado. A questão de coexistência de atividades econômicas e sociais não é assunto para a CTNBio, como já frisei anteriormente.
g) O que a CTNBio tem que observar é o Protocolo de Cartagena. Ora, o método de avaliação de risco da CTNBio e sua aderência à Biosafety Clearing House são a maior prova de que a Comissão respeita as diretrizes do Protocolo. O que está na carta sobre este assunto é só conversa fiada: não temos que avaliar todos os biomas nem pelo Protocolo de Cartagena (que não tem uma vírgula sobre isso), nem pelas regras da CTNBio (que falam apenas nas regiões mais importantes de cultivo). Mesmo assim, como as avaliações são caso a caso, cabe à CTNBio decidir se isso é importante ou não, ao invés de seguir como uma toupeira uma leitura monástica do regulamento.
h) Por fim, depois de uma longa e detalhada avaliação de risco, que se arrastou por vários anos, a CTNBio está segura de que as incertezas foram muitíssimo reduzidas, se não totalmente eliminadas. Seguir repetindo que há “insuficiência dos estudos realizados” é, como disse anteriormente, uma forma arrogante e desrespeitosa de jogar ralo abaixo a imensa quantidade de dados analisada e o trabalho dedicado e criterioso dos avaliadores na CTNBio e fora dela.

Concluo dizendo a todos os leitores (e espero que os Ministros estejam entre eles) que, nesta etapa, a lei determina ser a decisão exclusivamente da CTNBio. Se quiserem, os Ministros podem, depois, analisar os aspectos econômicos e sociais envolvidos. Para isso existe o Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS), previsto na Lei. Mas até agora tem sido uma sábia decisão deixar esta questão ao mercado, sempre que os riscos forem negligenciáveis. Pedir que os Ministros violem a lei e os regulamentos e interfiram agora na decisão soa decididamente arbitrário.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Eucalipto transgênico, abelhas e riscos para a fauna e a flora

Enquanto alguns grupos combatem a biotecnologia agrícola associando as plantas transgênicas a todos os males ambientais, as abelhas continuam morrendo, inclusive em lugares onde nem se planta transgênico. O “vilão” mais novo é o eucalipto transgênico para crescimento rápido, que não produz proteína inseticida, nem é tolerante a herbicidas: entrou na berlinda só porque está na boca de ser aprovado na CTNBio, isto é, de ser considerado tão seguro ou tão arriscado quanto o eucalipto convencional. Os riscos reais estão detalhadamente avaliados neste link, mas afinal o que vem matando as abelhas?


A morte das abelhas é um fenômeno complexo, mas seguramente está ligado à forma super-intensiva como elas são manejadas e às infecções às quais ficam expostas, e o pólen transgênico, que pode chegar às colmeias e ser ingerido por elas, NADA TEM A VER com isso. Um estudo muito cuidadoso sobre a questão da infecção das abelhas e O GRANDE RISCO de passagens destas infecções para outros polinizadores silvestres está detalhadamente apresentado neste link antigo (do início de 2014), mas que ganha especial relevância agora. Desejamos a todos uma boa leitura.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Exportação de mel e o eucalipto transgênico: Réplica ao Combate Racismo Ambiental e ao Século Diário e proposta de manejo como garantia da sustentabilidade, certificação e exportação da nossa produção apícola

Já faz algumas semanas foi publicada uma postagem comentando os impactos que o eucalipto transgênico poderia ter na exportação de mel brasileiro (http://racismoambiental.net.br/2014/11/eucalipto-transgenico-da-suzano-ameaca-producao-brasileira-de-mel/#more-163695). É valida a preocupação trazida pela Any Cometti, uma vez que os apicultores têm mais lucro exportando seus produtos do que vendendo no mercado interno. Alguns destinos de nossa exportação podem ser bastante exigentes em qualidade e, pelo menos no caso da Europa, podem ser intransigentes em relação à presença de OGMs ou produtos derivados deles. Além disso, parte de nosso mel é exportada com o selo orgânico e, neste caso, não pode haver a presença de OGMs acima de uma certa porcentagem.
Eu esperava ler na postagem do texto da Amy, que apareceu no Combate Racismo ambiental, no Século Diário e em outros portais, considerações ponderadas sobre esta questão importante. Entretanto, a leitura do texto postado, faz a gente pensar naquela estratégia de venda de revistas nos aeroportos: te atraem com uma história e te vendem outra inteiramente diferente. O título (Eucalipto transgênico da Suzano ameaça produção brasileira de mel) fala de exportação de mel, mas o texto só discute isso de forma muito superficial e sem qualquer dado que, entretanto, a Abemel seguramente tem. Aliás, é meio contraditória a declaração da Joelma, quando fala, aparentemente em nome da Abemel, sobre o teste e descarte de mel que tenha pólen transgênico, porque a certificação proposta pela própria Abemel (http://brazilletsbee.com.br/certificacao/protocolo.pdf) não tem uma linha falando de orgânicos nem muito menos de transgênicos.Também fica difícil saber de onde veio a informação de que “do montante exportado, 80% têm procedência orgânica”: não está claro em canto algum qual é a parcela do mel brasileiro exportado que, de fato, é orgânico e nem sequer quanto dele é vendido como orgânico.
Vamos começar do início: A primeira norma técnica para o setor de apicultura foi publicada dia 19 de abril de 2008, a NBR 15585, e está bem alinhada com as exigências duras do mercado europeu. O Brasil, entretanto,  exporta cerca de 82% do seu mel para o EUA (http://brazilletsbee.com.br/noticia.aspx?id=84) e uma parte para outros países (Canadá, com quase 8% e vários outros - http://www.canalrioclaro.com.br/noticia/21769/exportacao-de-mel-cresce-96-79-de-janeiro-a-maio.html ). EUA, Canadá e muitos outros não estão nem aí para a presença de pólen transgênico no mel.  Se houver um dia pólen transgênico no mel brasileiro, isso não será impedimento para a venda do mel, sempre que seja produzido dentro das exigências dos importadores. Só não vai ser vendido como orgânico, coisa que a maioria do mel brasileiro muito provavelmente não é pelos padrões internacionais. Onde a coisa pega é na Europa, que entende a presença do pólen GM, não importa em que quantidade, como impedimento para importação. No duro, a Europa não está usando ciência aí, mas política, e quem ganha são os importadores de mel de lá e quem perde são os consumidores e os produtores de mel do Terceiro Mundo.
Muito antes de afirmar que o eucalipto inviabiliza a exportação de mel é preciso usar boa ciência e estudar as distâncias mínimas entre as colmeias e os plantios de eucalipto GM nas diversas paisagens em que os eucaliptais se inserem. Se é verdade que as floradas de eucalipto são atrativas para as abelhas, também é verdade que as árvores só florescem depois de 7 anos e que as abelhas preferem flores que estejam mais próximas da colmeia. É preciso um sistema de manejo eficiente para que os problemas de exportação sejam abolidos, mas este manejo está muito longe de ser impossível ou mesmo difícil. Assim, nem o eucalipto transgênico e nem qualquer outra planta transgênica vão inviabilizar nossa exportação de mel, basta um manejo adequado.
Aí aparecem as observações do Valmir Noventa, do MPA. O que ele afirma é um absoluto despautério, a começar pelo alcance de voo das abelhas e a terminar pelo impacto na biodiversidade e nas imaginárias sementes crioulas. Pra começar, o impacto do eucalipto transgênico que está em análise pela CTNBio pode até ser menor que o do eucalipto convencional, mas isso é irrelevante: toda a agricultura impacta e a de baixa produtividade, que o MPA defende, impacta muito mais. Em segundo lugar, as abelhas raramente voam mais que 1000 m, ida e volta. Elas preferem visitar plantas próximas à colmeia. Tipicamente, 400 m de raio máximo é o que ocorrem nas regiões de produção de mel.  Para evitar que pastem em flores transgênicas, basta mover as caixas. Afinal, não vai haver só eucalipto no Brasil. Em terceiro lugar, de que sementes crioulas o Valmir está falando? Não existem sementes crioulas de eucalipto e a única planta com a qual o eucalipto pode cruzar e passar suas sementes é o próprio eucalipto (mais especificamente, as duas espécies que conforma o híbrido da Futuragene). Além disso ninguém planta comercialmente eucalipto a partir de sementes! Em quarto lugar, ninguém come eucalipto: em que isso afeta a soberania alimentar? Em quinto lugar, que diabos vem a ser programação genética para o tempo de floração? Se é fazer com que as plantas floresçam juntas, isso vem sendo buscado e obtido pelos homens desde que começaram a domesticas suas plantas. Se é outra coisa, está o Valmir redondamente enganado. Por fim, o Valmir diz que será preciso comprar sempre as sementes. Isso pode ser válido para o milho híbrido, mas não é válido para a soja (que é linhagem) nem muito menos para o eucalipto, que é micropropagado! Toda esta parte do texto é uma mistureba de bandeiras repetidas pelo MPA como os papagaios repetem, sem saber o que dizem e fora do contexto e a publicação desta cacofonia termina por ser um imenso desserviço à apicultura e aos produtores de madeira e celulose. Em última instância, o Vladimir Noventa está atirando pedra no próprio país em nome de uma ideologia obscura.
Já o Dagoberto listou uma série de dúvidas sobre a segurança, mas todas elas, sem exceção alguma, foram consideradas pela CTNBio e há elementos suficientes para uma decisão baseada em ciência, e não em suspeitas hiper-precaucionárias. Boa parte das preocupações trazidas pela sociedade está detalhadamente discutida na avaliação de risco detalhada que postamos em http://genpeace.blogspot.com.br/2014/11/eucalipto-transgenico-quais-sao-de-fato.html.

É muito frustrante a gente ler um texto como este da Amy pensando que vai ver uma coisa e acaba nem vendo direito o que o título sugere, mas tendo que digerir a gordura perigosa do restante.