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segunda-feira, 6 de julho de 2015

Dissecando o novo artigo do grupo de Séralini: pesticidas, glifosato, plantas transgênicas e ... muita insensatez



Sinceramente achei que o PlosONE  não ia publicar a algaravia científica de Mesnage e cols., recém saída do prelo. Tudo indicava que havia erro prá todo lado. Mas até uma revista séria precisa turbinar seu “citation index” e esta farsa científica será certamente muito citada, ainda que seja para dizer que não presta. Ponto para a PlosONE, ainda que obtido de forma quase fraudulenta.

Comentários gerais sobre o artigo

Este novo artigo do grupo do Séralini é mais um imbroglio típico destes autores: eles constatam o óbvio (há resíduo de pesticidas nas rações), mas usam uma metodologia muito particular para determinar que valores serão considerados no estudo e concluem (usando outra metodologia sem referendo de uso) o que é IMPOSSÍVEL  concluir: que estes resíduos estariam falseando os resultados de tudo que vem sendo publicado em câncer experimental com animais!!!

Além disso, eles juntam alhos com bugalhos: os resíduos (quase todos de inseticidas) com plantas transgênicas (que reduzem o uso destes mesmos pesticidas químicos). Somente o glifosato tem relação com as plantas GM, mas mesmo assim a dose que ele toma como referência é completamente absurda e escolhida a dedo de um único estudo: 3400 X mais que o limite aceitável na alimentação humana.

Para simplificar o comentário: um artigo mal escrito publicado numa revista que, cada vez mais, vai deixando os cientistas preocupados com sua credibilidade.




Observações pontuais (mas importantíssimas), que desmascaram a relação entre a presença de tudo que é pesticida em rações animais e as plantas transgênicas.

a) Já no resumo os autores afirmam que o principal pesticida encontrado foi o glifosato, em concentrações de até 370 ppb. Mas a maior parte dos resíduos era de inseticidas químicos! Basta ler o que dizem: dos 9 pesticidas, só dois eram herbicidas – glifosato ou AMPA+glifosato.
Na verdade os autores escreveram o resumo como uma peça jornalística, sabedores de que 99% dos leitores só vão ler aquelas poucas linhas do artigo.
Além disso, o glifosato só foi detectado (claro!) em rações formuladas com soja GM: os níveis variaram de 130 a 310 ppb nos lotes examinados. O valor de 370 ppb é a soma de glifosato e AMPA. Isso é muito ou está dentro do tolerado? Vejamos abaixo.

b) Os limites máximos de resíduos de praguicida por cultura no Brasil estão estabelecidos em normativa do MAPA (http://www.agricultura.gov.br/arq_editor/file/CRC/IN18%20de%202013.pdf) e seguem essencialmente o que é adotado no Mundo. No caso do glifosato a concentração máxima varia de 0,1 até 10 ppm, o que seria equivalente a 100 – 10.000 partes por bilhão. Se uma ração levasse muita soja transgênica tolerante a herbicida (suponhamos 50%) com o máximo de resíduos permitido por lei (10.000 ppb), ela poderia ter até 7.000 partes por bilhão de glifosato e ainda seria considerada segura pela nossa legislação e pela da maioria dos países. Mesmo aqueles países que só autorizam 1/10 do que permitimos na soja ainda aceitariam grãos com 1.000 parte por bilhão de glifosato.

Então, para a legislação brasileira as poucas marcas (e lotes) examinados neste artigo continham glifosato numa concentração 30 vezes inferior ao limite máximo tolerado no grão (de soja).

Em tempo: os autores encontraram mais glifosato na ração examinada no Brasil e deduzem que usamos mais. Até pode ser, porque nosso clima favorece muito mais as ervas daninhas do que os climas temperados, que geraram a soja das outras amostras. Mas ainda assim os resíduos estão muito abaixo do máximo permitido, que é muuuuuito abaixo do nível reconhecidamente danoso aos mamíferos.

c) O que os autores chamam impropriamente de “toxinas Bt mutadas” e que eles imputam uma enorme importância, nem aparece nas dosagens... claro, é uma proteína que se desnatura na preparação das rações, como qualquer proteína...

d) Não há mesmo correlação entre pesticidas totais e plantas transgênicas, somente esta ligação pontual com o glifosato e os autores assim o afirmam e reconhecem: “There is no other correlation between GMO content and total pesticide residues”  (pág, 11).

Esta curta dissecção mostra que o artigo falseia suas conclusões(e seu resumo!) e tenta botar os OGMs como bode expiatório, quando a maior parte dos resíduos é de inseticidas, que tiveram seu uso DIMINUÍDO pelos transgênicos. Mesmo para o glifosato, as doses mais altas encontradas ainda estão MUITO ABAIXO do limite máximo tolerado pelos países e, seguramente, várias ordens de grandeza abaixo do limite que reconhecidamente causa danos aos mamíferos.


O artigo é, portanto, mais uma fantasia deste grupo irresponsável de cientistas, que se mantém ativo chupitando dos recursos das indústrias de homeopatia e das grandes redes de venda de produtos “livres de OGMs”. Esta turma não precisa de apoio de recursos federais franceses, nem pede apoio dos órgãos internacionais (FAO, etc,) e ainda se diz (e é vendida como) independente... ôxe!

terça-feira, 24 de junho de 2014

O artigo republicado de Séralini: a revista sectária e as estranhas palavras de seu editor

Car@s leitores.

Como lhes havia indicado na minha postagem anterior (http://genpeace.blogspot.com.br/2014/06/republicado-o-artigo-zumbi-de-seralini.html), a revista Environmental Sciences Europe é prá lá de comprometida com o movimento anti-OGM. Nela publicam os membros de organizações militantes tais como ENSSER, Genok, Testbiotech e o próprio Criigen, claro. Uma análise detalhada está disponível em ddata.over-blog.com/xxxyyy/1/39/38/37/critical-analysis-of-Env-Sci-Eur.pdf : eu sugiro fortemente a leitura deste estudo.

Vendo as declarações de vários autores neste cenário momesco, me chamou a atenção o que nos diz o editor da revista em relação à republicação do artigo do Séralini:

...any kind of appraisal of the paper’s content should not be connoted. The only aim is to enable scientific transparency and, based on this, a discussion which does not hide but aims to focus methodological controversies. Winfried Schröder (Editor)

...não se deve assumir qualquer tipo de avaliação do conteúdo do paper. O único objetivo é permitir a transparência científica e, com base nisso, uma discussão que não se esconde, mas tem como objetivo focar controvérsias metodológicas. Winfried Schröder (Editor)


O que, exatamente, quis dizer o nosso bravo Schröder? Que o corpo editorial não avaliou o conteúdo e que a publicação foi feita apenas para garantir a circulação do artigo pela internet (já que a revista é Open Access)? Se é isso, pode-se admitir como uma falha gravíssima do editor: a revista tem que primar pela qualidade e consistência científica. Quem garante que o artigo circule entre os interessados é a legião de atores envolvidos nesta discussão de “ratos com tumor”, que beira o teatro de Ionescu. 

Republicado o artigo zumbi de Séralini: os ratos são os mesmos, os dados os mesmos, apenas houve uma maquiagem bem feita.

Car@s leitores.

Como anunciamos (http://genpeace.blogspot.com.br/2014/06/o-zumbi-redivivo-seralini-tenta.html) , o Séralini e a sua trupe anunciaram hoje (24 de junho de 2014, dia de São João) que voltará à vida o estudo zumbi sobre os ratos com tumor depois de comer milho GM. O novo artigo é vazio de conteúdo novo, um balão. Melhor seria se tivessem soltado balões para enfeitar nosso céu.


Mas, melhor do que isso, vocês devem ler o “novo” artigo, exatamente na revista que, dissemos, aceitaria esta nova versão da mesma porcaria: http://www.enveurope.com/content/26/1/14. Vale a pena uma visita a edições anteriores para vocês poderem aquilatar que tipo de "pesquisadores" publica nela.

Também disponibilizo o link para o Press release do Criigen: uma pérola digna dos melhores discípulos de Goebbels - https://www.dropbox.com/l/X1550KyT2lUlTWDIGe61Vr?

Há outros comentários sobre a revista e sobre as palavras "herméticas" de seu editor em http://genpeace.blogspot.com.br/2014/06/o-artigo-republicado-de-seralini.html 

Os papagaios de plantão no Brasil ainda estão dormindo, talvez devido à ressaca da partida de ontem no Mundial. 

domingo, 22 de junho de 2014

O zumbi redivivo: Séralini tenta republicar seu artigo “mostrando” outra vez danos aos ratos pela ingestão de milho transgênico

Soube de fonte muito bem informada da França que o artigo zumbi do Séralini e de sua trupe será republicado. Bizarro!

O CRIIGEN, instituto de pesquisa “independente” onde trabalha o Séralini, já preparou a press conference aos mínimos detalhes, provando mais uma vez que, se eles são ruins em ciência, são excelentes na agenda setting da mídia. Tudo vai ocorrer com grande espalhafato dentro de dois dias na França (onde mais?): a entrevista coletiva terá lugar em Paris no dia 24 de junho, na Salle du bureau d'information du Parlement européen, Bvd St Germain, 288 (chega-se com o Métro 12, parada Assemblée Nationale) às 11:00 hs, quando será revelado o nome da revista e respondidas as questões dos jornalistas. O tal press release do CRIIGEN será então divulgado como informação suplementar.

Embora a revista ainda seja uma surpresa, não é difícil especular que será, provavelmente, a Environmental Sciences Europe, uma revista na qual o Séralini publicou recentemente e que também publica artigos de outros pesquisadores anti-OGM, como a Angela Hilbeck e a turma de “institutos de pesquisa” tais como Epigen, Gesellschaft für Ökologische Forschung e
Testbiotech, todos de Munique e que juntam a fina flor dos “ecologistas” de plantão. Esta turma garimpa verbas públicas e privadas para financiar pesquisas contra um monte de temas que trazem a si os holofotes da mídia. Como a revista é Open Access, há uma porção de downloads dos artigos, menos pela sua qualidade do que pela polêmica que geram.
Estejam preparados, portanto, para a repetição ad neuseam da mesma ária cantada pelos papagaios de plantão aqui no Brasil e no exterior. Haverá leitura prévia do "novo" artigo pelos psitacídeos, antes que repitam o press release do Criigen? Duvido muitíssimo.

Depois da press conference eu posto o “novo” artigo e outras informações e, então vocês, meus caros quatro ou cinco leitores, poderão avaliar com cuidado e se posicionar.

Observações adicionadas 48hs depois da postagem original:
Leiam também:
a) http://genpeace.blogspot.com.br/2014/06/republicado-o-artigo-zumbi-de-seralini.html
b) http://genpeace.blogspot.com.br/2014/06/o-artigo-republicado-de-seralini.html 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Comentários sobre: "CTNBio ignora impactos da aprovação de transgênicos"

Na página do MST está uma entrevista com perguntas bem dirigidas, feitas ao Leonardo Melgarejo. Vale a pena uma leitura e merece comentários (vão os meus para vocês). É curioso como a turma da agroecologia e da agricultura familiar e campesina (seja lá o que isso significa) mete o pau nos membros da CTNBio. Aqui o Melgarejo evitou isso e só critica a própria Comissão e a forma como ela trabalha. Bravo.

Texto original em preto, comentários meus em vermelho, links em azul.

*******************
Desde 26 de março, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) tem um novo presidente. O professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) Edivaldo Domingues Velini, que entrou na comissão em outubro de 2013, foi indicado pelos outros membros para assumir a direção do órgão.

A escolha gerou preocupação para organizações e movimentos sociais do campo (estas organizações têm nome: AS-PTA, MST, Terra de Direitos seus parceiros), pois o presidente declarou em 2011, em entrevista no site da Monsanto, que “ainda não há um herbicida que possa ser comparado ao glifosato em termos de segurança de uso e benefícios para o agricultor”. A preocupação foi tão grande que não houve votos contrários ao nome indicado nem qualquer pronunciamento dos membros da CTNBio que normalmente se posicionam contra a maioria... Além disso, caro Leonardo, qual é o herbicida mais seguro hoje? A enxada? Nem ela: se todos tivéssemos que voltar à capina, o número de acidentes seria muitíssimo maior (veja http://genpeace.blogspot.com.br/2014/03/sobre-enxadas-e-agrotoxicos-jumentos-e.html ).

E acrescentou que “não há o que contestar sobre uma tecnologia que alcança este nível de aceitação em escala mundial [que é produzido em] quantidade suficiente para tratar 1 bilhão de hectares de lavouras”. O que o Edivaldo comenta sobre agrotóxicos deriva do longo trabalho dele nesta área. Na CTNBio o assunto não é tema e não foi na Comissão que ele comentou esta questão.

Para Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo que participou por seis anos da CTNBio, a escolha do novo presidente não levou em conta a dinâmica da comissão.

“É surpreendente que o atual presidente tenha entrado na CTNBio e já assumido a presidência. É como se ele tivesse entrado para ser presidente, como se deixasse de ser relevante para a CTNBio o presidente ter vivência dentro da comissão para mediar as relações que lá ocorrem”. O atual presidente tem uma enorme experiência administrativa e uma igualmente impressionante experiência acadêmica. Deixemos que o tempo dê razão à Plenária da CTNBio ou aos opositores da biotecnologia

Em entrevista à Página do MST, Melgarejo discute o impacto que as decisões tomadas pela CTNBio tem na sociedade, analisa como a proximidade de muitos de seus membros com setores do agronegócio é perigosa para a soberania do país e critica a forma com que a comissão libera transgênicos.

“Os membros da CTNBio estão tomando decisões que tem consequências políticas, sociais e ambientais brutais, mas se comportam como se fossem produtos neutros, que pudessem ser analisados olhando exclusivamente a composição genética, uma parte da planta que é jogada no mercado”. A CTNBio é um órgão técnico que tem por lei a missão de avaliar riscos dos transgênicos, mais nada (veja a lei 11.130  de 2005 - http://www.ctnbio.gov.br/index.php/content/view/11992.html ). A Comissão tem que ser neutra em relação à tecnologia. Quem pode e deve fazer esta análise, por lei, é o Conselho Nacional de Biossegurança. Se o Melgarejo e os demais indivíduos e associações pensam que as consequências da tecnologia são graves, não devem encher o saco da CTNBio, e sim do CNBS. Minha sugestão: oficiem a Casa Civil, que tem a presidência do CNBS, e exijam que se reúnam e analisem a situação. Vamos ver o que acontece.

Confira a entrevista:

Quais as funções do presidente da CTNBio?

O presidente coordena as relações lá dentro, media as discussões e representa o conjunto para a sociedade. Ele também é o responsável por consultar o grupo sobre temas importantes, colocar em plenária as discussões, o que nem sempre é feito em tempo. O que o presidente deve fazer está no regimento da CTNBio. Está no portal da Comissão (http://www.ctnbio.gov.br/index.php/content/view/12005.html)   e não carece ser reinterpretado pelo Melgarejo, nem neste parágrafo nem nos seguintes.

Por ser uma balança entre as posições do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Saúde, Meio Ambiente e do outro lado o Ministério da Agricultura, o presidente deve ser isento. Portanto o presidente da CTNbio deve ser alguém com vivência lá.

É surpreendente que o atual presidente tenha entrado na CTNBio e já assumido a presidência. É como se ele tivesse entrado na CTNBio para ser presidente.

Nos poucos momentos em que esteve lá, ele talvez tenha tido alguma dificuldade de interpretar as várias correntes de pensamento que circulam lá dentro e o acúmulo de acordos estabelecidos ao longo dos anos de como interpretar as normas da CTNBio. Tem várias nuances que exigem vivência, que é mais importante para o presidente do que para os membros comuns.

É como se deixasse de ser relevante para a CTNBio o presidente ter vivência para mediar as relações que lá ocorrem. Não é que ele não tenha competência para isso, talvez até tenha, mas é importante conhecer o que ocorre dentro da CTNBio para presidir a comissão. Para finalizar:  houve uma quase completa renovação dos membros da CTNBio e os mais experientes ou estão indo embora ou já o fizeram. Os poucos que sobraram não queriam ou não podiam assumir o cargo.

Como a proximidade de muitos membros da comissão com as empresas do agronegócio afeta as decisões tomadas na CTNBio?

Dentro da CTNBio, tem pessoas radicalmente confiantes nos transgênicos, tem pessoas radicalmente refratárias a essa tecnologia, e um grupo de pessoas com dúvidas em relação a esta tecnologia e seus impactos. Independentemente da confiança que se tenha na tecnologia, a obrigação de cada membro é fazer uma avaliação caso a caso. Isto significa que as avaliações anteriores ajudam nas novas, mas não as dispensam. Está errado o membro que pensa ser seguro qualquer OGM, como também está errado aquele que imagina que nenhum deles pode ser seguro. Sugiro a leitura do nosso texo sobre avaliação de risco: http://genpeace.blogspot.com.br/2013/09/guia-para-avaliacao-do-risco-ambiental_687.html .
Sempre pode haver riscos, mas se eles forem julgados como negligenciáveis pela maioria da comissão, esta será a decisão e os que forem votos vencidos devem procurar melhores argumentos nas próximas avaliações, e não ficar reclamando da “inconsistência” da maioria.

Em tese, a CTNBio deveria ser composta em sua maioria dessas pessoas que querem entender melhor, e tendo dúvidas, examinam com cautela todos os processos, levando a segurança em conta. Mas não é isso que acontece. Não acontece na opinião do Melgarejo. Os que lá estão (veja a composição da CTNBio: http://www.ctnbio.gov.br/index.php/content/view/2251.html ) procuram entender em profundidade as questões de risco e agem com cautela, sim: leem dezenas de artigos, fazem visitas técnicas, discutem com colegas no mundo todo. As demais questões, como o impacto social da tecnologia, se há alternativas a ela, se vamos ficar reféns das multinacionais ou vamos destruir a agricultura familiar ao adotar a tecnologia, nada disso tem lugar  como tema de discussão na CTNBio. A prova de que os membros agem com cautela é que as decisões da CTNBio são iguaizinhas às decisões de suas agências irmãs pelo mundo afora: OGTR, EFSA, EPA, FSANZ, etc.( http://genpeace.blogspot.com.br/2014/03/a-ctnbio-nao-decide-diferente-dos.html ), exceto naquilo que só foi avaliado pela CTNBio (o mosquito GM, por exemplo).

Mas o grupo majoritário na CTNBio acredita que os estudos feitos pelas próprias empresas defendendo os transgênicos são suficientes. O que não é verdade: os membros da comissão estão tomando decisões que tem consequências políticas, sociais e ambientais brutais, mas se comportam como se fossem produtos neutros, que pudessem ser analisados olhando exclusivamente a composição genética, uma parte da planta que é jogada no mercado.  Primeiro, é uma grossa mentira  dizer que o grupo majoritário se satisfaz apenas com o que as companhias apresentam (mentira repetida nos blog contra os OGM e que metem o pau na CTNBio). Nada disso: os membros escavam toda a literatura científica, consultam os pares e só concluem se houver um razoável nível de certeza. Podem subsistir incertezas, mesmo que elas estejam ligadas a risco (o que nem sempre acontece), desde que as probabilidades de ocorrência de dano sejam remotas. Quem está de fora da CTNBio pode até acreditar nisso, mas o Melgarejo e eu, que estivemos lá seis longos anos, sabemos que isso não é verdade. Ele deve se lembrar de um parecer que ele mesmo trouxe, uma vez, com uma centena de artigos citados, e da réplica que fiz, com outra centena de artigos, além de uma reinterpretação dos que ele mesmo citou. Não havia nada das empresas ali...

É um reducionismo absurdo, pois despreza todas as relações que esse produto tem com outros organismos. A comissão centra sua análise na genética e diz que “este gene gera esta proteína, e olhando essa proteína não causa problemas”.

Essa análise não leva em conta que essa proteína permite que a planta tome um banho de veneno, que ela não tomaria caso a proteína não estivesse lá. E nos testes não se aplica o veneno; o transgênico é consumido de uma forma não produzida no mundo real. Primeiro, esta história de “banho de veneno” já encheu o saco e é mais uma conversa mole repetida ad nauseam: a quantidade de herbicida que pode ser aplicada na lavoura é regulada por lei. Além disso, ninguém vai dar banho de herbicida porque vai ter um enorme prejuízo: herbicida não se compra a preço de banana. Terceiro, o produto colhido será testado em algum momento na cadeia de venda e será rejeitado. Ficar repetindo esta ladainha é uma forma de engambelar o público. Quanto ao tal reducionismo,  a lei pede que a CTNBio faça avaliação de risco, que é EXCLUSIVAMENTE BIOLÓGICA. A análise de risco, que envolve os aspectos citados acima por ele, é incumbência do CNBS, como comentado antes e da ANVISA e do MAPA, no caso dos agrotóxicos. Acho muito pertinente a leitura dos textos que escrevi anos atrás sobre isso (http://genpeace.blogspot.com.br/2012/05/maioria-e-reducionismo-na-ctnbio.html e também http://genpeace.blogspot.com.br/2012/05/transgenicos-metodo-cientifico-politica.html ) .

Além disso, os testes são de curto prazo, não levam em conta as transformações realizadas ao longo da vida do animal. A forma como a segurança alimentar de um alimento formulado com plantas GM é testado está especificada pelo Codex Alimentarius (http://www.codexalimentarius.org/input/download/standards/11023/CXG_068e.pdf para plantas)e as empresas e a CTNBio seguem estas recomendações internacionais. Além disso, a experimentação animal no Brasil é pautada pelas recomendações do CONCEA (http://www.comissao.ufra.edu.br/ceua/attachments/article/76/Diretrizes%20CONCEA%202013%20(1).pdf ), que requer a redução dos animais de experimentação e sua substituição por outros sistemas de avaliação, coisa que todos devemos fazer, evidentemente. Quem quiser,  que vá se queixar ao bispo.

São falhas grandes no processo de análise: as plantas são testadas em condições ótimas nos laboratórios, e nenhum ambiente real é ótimo. Vão existir condições de estresse nesses ambientes, e os membros da CTNBio deveriam exigir testes em todos os biomas, nas condições reais. Primeiramente, não tem cabimento estas argumentações, porque embora possam existir diferenças biológicas em função de estresses, elas não foram julgadas importantes para a questão de risco. Afinal, avaliação de risco NÃO É CURIOSIDADE CIENTÍFICA, mas deve se ater às questões relevantes ao risco (Leiam o guia que está no link alguns parágrafos acima). Em segundo lugar, nem a lógica nem a lei pedem avaliações em todos os biomas! Esta é mais uma das cantilenas que a turma que se opõe cegamente a toda e qualquer biotecnologia derivada da engenharia genética fica repetindo. Desafio a qualquer um deles que mostre lei, decreto, resolução ou norma que obrigue isso.

Os membros da CTNBio também desconsideram alertas de pesquisas que surgem em outros países, mostrando que podem haver problemas novos. Afirmava-se quando entrei na comissão que as proteínas BT, que matam lagartas, seriam destruídas no intestino, não sobrevivendo à digestão.

Mas a proteína foi encontrada no sangue de bebês, passando pelo fio da placenta. Que problema isso pode causar no bebê? Nós não sabemos, pois não temos estudos com animais prenhos comendo milho transgênico. É inacreditável que o Melgarejo ainda considere válido o trabalho bizarro e cheio de gravíssimas falhas experimentais que afirma ter encontrado estas proteínas circulando no plasma e, ainda por cima, cruzando a barreira placentária. Não vou nem me dar ao trabalho de comentar mais. Vejam a notícia ainda em 2011 e meus comentários http://www.radioagencianp.com.br/9872-toxina-transgenica-e-encontrada-no-sangue-de-mulheres-e-fetos; se tiverem paciência, leiam o artigo, uma coleção de erros metodológicos ímpar, que faz os artigos do Séralini parecerem boa ciência).

Então quando se faz um estudo daqueles no qual os ratos, alimentados com milho transgênico, apresentam câncer depois de 90 dias, nós percebemos que damos alimentos com esse milho na papinha das crianças, que isso entra no organismo pelas placentas, isso nos preocupa e constrange por perceber que dentro da CTNBio, onde boa parte dos membros deveria se pautar pela dúvida, o grupo majoritário se pauta pela confiança, e a confiança não ajuda no progresso da ciência, o que ajuda é a dúvida. Não é nada disso: o grupo majoritária segue as recomendações internacionais, que são as do Codex, neste caso. Basta ler o que elas dizem: é tão complexo estudar alimentos completos que os testes com animais pouco ou nada dizem e por isso a avaliação de riscos é feita com aquilo que é diferente entre uma planta GM e uma convencional, não transgênica. O tal estudo de ratos com câncer é uma bobagem feroz e está comentado mais abaixo.

O governo brasileiro favorece o modelo do agronegócio. As posições da CTNBio não estão de acordo com essa visão do governo?

A influência do agronegócio resulta numa posição mais imediatista em relação a estes temas. Passa a ser mais importante uma safra do que as decisões que afetam o longo prazo.

Um exemplo bom é o da lagarta Helicoverpa armigera, que apareceu no Brasil quando o milho BT ocupou a maior parte das lavouras e fez desaparecer outras espécies de lagartas. O sumiço destas fez desaparecer seus predadores, a Helicoverpa surgiu e ficou fora de controle. Uma bobagem: o controle da lagarta, no agronegócio, sempre se fez majoritariamente com inseticidas, os predadores naturais pouco papel tinham nisso. De toda forma, a única forma das plantas Bt reduzirem o predador natural seria eliminando a lagarta, alimento do predador, Ora, eliminar a lagarto é tudo o que a agricultura precisa. Logo, todo o argumento do Melgarejo desce pelo ralo: acaso os agricultures deveriam deixar uns 10 ou 20% dos seus milhos e soja infestados de lagartas só para manter um hipotético predador andando, gordo, pelas lavouras?

Para controlar a nova praga, o governo autorizou importar um veneno que é comprovadamente danoso para o sistema nervoso dos humanos. Foi tomada uma decisão no interesse de salvar uma safra comprometida, usando um veneno danoso, contrariando recomendações da Anvisa. O veneno é usado em todo lugar do Mundo onde existe a H. armigera. É evidente que ele é danoso ao homem, se for bebido, injetado ou usado como loção, mas se aplicado corretamente, será perfeitamente seguro (riscos muito baixos, ainda que não nulos).

O que não quer dizer que não existam questionamentos ou posições contrárias por parte do governo. Os Ministérios da Saúde, Meio Ambiente, o Conselho Estadual de Segurança Alimentar (Consea) tem posições contrárias, e as representantes do Ministério da Agricultura na CTNBio, apesar de votarem a favor da liberação de transgênicos, fazem pareceres coerentes e apresentam questionamentos e argumentos para serem debatidos.

Há um bloco alinhado pedindo estudos quando estes são insuficientes, e pelo que vi até hoje, os estudos sempre são insuficientes. Parece até uma atitude de birra pedir mais estudos, mas de fato são necessários mais estudos em todos os casos. Eu não acredito que, se reavaliássemos qualquer transgênico liberado no Brasil de forma independente, a avaliação com base nos dados que temos permitiria aprovação. É perfeitamente válido pedir mais estudos, se eles trouxerem mais informações sobre questões de risco. Adicionar mais informações científicas que não tenham este fim não ajuda nada. Por exemplo, adicionar montes de dados de proteômica, transcriptômica e outras técnicas high throughput não contribui para a compreensão de riscos. Fazer experimentos em tudo que é canto do Brasil com milho ou soja não contribui com nada porque, ao final, os campos de milho e soja acabam sendo muito parecidos, ou não vão produzir adequadamente. A fauna visitante pode ter diferenças, mas elas raramente são relevantes ao risco. Os estudos adicionais pedidos pelo grupo minoritário raramente trazem esclarecimentos às questões de risco ou a questão já foi suficientemente esclarecida, no entendimento dos demais.
Quanto a tal avaliação “independente”, seria feita por quem? Pelo MST? Pela AS-PTA? Os estudos feitos nas universidades e centros de pesquisa não são independentes? Todos os pesquisadores pagam obrigação aos orixás das multinacionais? A que orixás pagam obrigação a AS-PTA, o MST e a turma de “experts” que orbita no MDA e no MMA, em cargos de confiança, sem serem concursados e sequer sem um CV no Lattes? Duvido que alguém me responda, mas eu não deixo de perguntar. Se tiverem interesse, leia um texto antigo meu: http://genpeace.blogspot.com.br/2013/05/transgenicos-e-financiamento-de.html . Este assunto será retomado mais adiante.

E tomara que eles estejam certos e nós errados, que a nossa preocupação seja ingênua e boba. Infelizmente o acúmulo de informações vem demonstrando cada vez de maneira mais consistente que eles estão errados, e não sei porque não admitem o erro. O acúmulo de informações existe, mas a qualidade dos artigos é terrível: são os Séralini, os Malatesta, os Mezzomo, os Ariz, os Heinemann, as Carman, e por aí vai, cada um pior do que o outro. O exemplo emblemático é o artigo do Séralini com ratos com tumor, discretamente comentado pelo Melgarejo uns parágrafos acima (http://genpeace.blogspot.com.br/2013/11/sepultando-um-zumbi-o-artigo-cientifico.html )

Por que não há maior participação da sociedade nas reuniões da comissão?

As sessões da CTNBio são em tese abertas para a sociedade. Mas como os agricultores e organizações não tem o patrocínio que as empresas tem, apenas os representantes das empresas acompanham presencialmente as decisões, movimentações e discussões que ocorrem lá dentro e exercem uma pressão nas pessoas que votam. Conversa mole: os “representantes” dos pequenos agricultores estão sempre por lá, quando não são membros da própria CTNBio. Além disso, sempre que interessava à oposição, a CTNBio era invadida por ativistas fantasiados de milho, de Dilma e de outras coisas, fora meninas grávidas, gente com enxada e estrovenga, mendigos e o escambau. Todo mundo sabe disso, está nas mídias sociais.

Mesmo que essa pressão não consiga ser medida, é claro que há interesses em jogo e os ficais destes interesses estão lá olhando como votam as pessoas que decidem seus interesses. E a pressão das invasões à CTNBio, perpetradas pelos ativistas do Greenpeace (nos tempos em que esta instituição ainda não tinha jogado a toalha), por políticos em caça de votos e por “organizações” sociais?

Uma maneira de resolver isso é se a sociedade pudesse acompanhar as plenárias da CTNBio, onde são tomadas as decisões. As reuniões abertas deveriam ser transmitidas pela internet, porque aí uma liderança de movimento social poderia acompanhar de qualquer lugar do país. Beleza: teria audiência zero, porque há poucas coisas mais áridas que uma reunião setorial da CTNBio ou, pior ainda, a Plenária. E, de toda forma, a reunião sairia do ar toda vez que se discutisse um assunto confidencial, dos quais existem muitos. É uma sugestão inteiramente insensata. Muito mais sensata seria a transmissão ao vivo das reuniões do COPOM ou do CONSEA, com uito mais audiência e compreensão por parte do público. Dou minha alma ao capeta se isso acontecer.

Essa transparência é necessária. Se o que é discutido lá é para a segurança da sociedade, por que não mostrar? Por que discutir com portas fechadas e apenas com o agronegócio assistindo? Ué, mas as portas estão abertas, o próprio Melgarejo acabou de dizer acima! Deve ser erro da entrevista, naturalmente.
Como não dá para fazer a coisa online, sugiro que o proponente e todos os milhares de simpatizantes da causa se cotizem para ter uns cinco a quinze representantes em todas as reuniões da CTNBio. Ou peçam ajuda aos órgãos de governo que financiam a pequena agricultura e a agroecologia. Os os que financiaram as várias invasões da CTNBio.
Agora, as pautas, atas, decisões e tudo mais, estão disponíveis no site da CTNBio. Duvido que encontrem a mesma transparência no MDA, no IBAMA e nos demais  opositores de CTNBio.

Existem divergências entre os interesses das empresas?

Sim. Quando eu me posiciono contra o 2,4D, que é um veneno mais perigoso para a sociedade do que o glifosato, a Monsanto gosta, porque o milho e soja tolerantes ao 2,4 D vão substituir os tolerantes ao glifosato. Então na defesa da sociedade, de se protejer do veneno, o que acontece na prática é que apoiamos outro veneno que já foi aprovado e não vai ser reavaliado.

Sempre que surge um veneno novo, mesmo a CTNBio preocupada com a defesa da sociedade termina atuando como elemento de proteção das empresas que já aprovaram seus produtos. Isso deveria ser rediscutido.  Tolice completa: a CTNBio não delibera sobre agrotóxicos.

A bancada ruralista apresentou uma proposta para criar uma comissão similar a CTNBio para a aprovação de agrotóxicos. Como você vê essa proposta?

Seria um desserviço muito grande à segurança alimentar e ambiental. Comprometeríamos ainda mais os acordos que o Brasil faz. Recentemente a China devolveu grãos com resíduos de agrotóxicos; a Rússia não quer mais importar transgênicos. Se abrirmos esse espaço para que as empresas tenham uma incidência maior do que é produzido, aumenta nossa vulnerabilidade e diminui nossa capacidade de competição autônoma no mercado internacional. Vejo isso como uma ameaça a ser evitada.

A CTNBio não é um exemplo a ser seguido para se criar uma comissão que tome decisões a respeito de segurança. Essa comissão pretende apenas viabilizar uma aprovação mais rápida de produtos que deveriam ser analisados de forma mais lenta e cuidadosa. A agilidade serve aos interesses do negócio, não da segurança do país.
Não é assunto de avaliação de risco de OGM, portanto não é assunto meu neste blog, embora possa ser em outros fóruns. Mas faço um mea culpa: de vez em quando eu comento sobre agrotóxicos e espero que não diga bobagem (procuro ajuda dos universitários, claro, antes de postar).

Como a CTNBio deveria ser para atender aos interesses da sociedade?

Ela deveria ser apoiada por um órgão público que financiasse estudos independentes e checasse os estudos feitos pelas empresas. Deveria obrigar as empresas a não apresentar somente os dados médios da produtividade de um produto novo, e sim mostrar os dados brutos e como se chegou a este número. A ideia de um Instituto de Avaliação de Risco já foi trazida antes à CTNBio, muitos anos atrás. Mas me diga, Melgarejo, se ele for público, como o são as universidades e centros de pesquisa, como será independente? Ou há dois tipos de órgãos públicos, os que são acadêmicos (e vendidos ao capital das multinancionais) e o que você propõe, a ser povoado pelos “independentes” do NEA ou por outros experts a serviço da agroecologia e, claro, “independentes”?

Deveria possibilitar reavaliações periódicas quando novos estudos surgissem. Ter uma composição mais equilibrada, preocupada com o ambiente, com a saúde e não só com a tecnologia em si. A sociedade precisa ter uma participação maior, com reuniões abertas, transmitidas, e deveria haver audiências públicas para todos os casos polêmicos. Quem quiser consultar a composição da CTNBio, é só olhar no site e na lei, já mencionados acima. Há poucas comissões mais ecléticas. Agora, lembre-se: a comissão tem que fazer avaliação de risco biológico, nada mais. Por isso, se vier alguém representando os assentados do Vale do Acarau, a pessoa tem que ter as bases de genética molecular, genética de populações, fisiologia celular, uma base de toxicologia, etc., etc., humildade para aprender com os colegas, treino científico profundo e vontade de aprender a fazer avaliação de risco. Fica difícil entender o que um advogado, um sociólogo ou um historiador possam contribuir à discussão, ainda que tenham treinamento científico nas suas áreas, a menos que tenham feito pós-graduação nas áreas de interface com os assuntos mencionados acima. Então, é como o milho plantado em diferentes biomas... não importa de onde ele veio, será sempre um milho, que é o que a moenda da CTNBio precisa. Se trouxerem sorgo, trigo ou urucum, não dá nada que preste. Curiosamente, tem uns grãos e sementes deste tipo lá, é só conferir a composição.

A comunidade acadêmica, as organizações ambientais, de defesa do consumidor, deveriam ter representação, e a CTNBio deveria funcionar como uma instância consultiva. Que o consenso de todas as participações gerasse uma recomendação que fosse avaliada por uma instância superior que decidisse e levasse em conta todos os aspectos políticos envolvidos. Vai ser preciso mudar a lei...mobilize-se a bancada ecológica, pois. E já há a instância superior, é o CNBS, o próprio Melgarejo  reconhece no próximo parágrafo. Como já sugeri, vão lá futucar o Conselho, porque cabe a eles uma resposta às preocupações sociais. Sobre a questão de avaliação de risco, entretanto, não existe corpo técnico melhor para fazê-la, nem no Brasil nem no Mundo.

Na lei de biosegurança está previsto essa instância superior, que é o Conselho Nacional de Biosegurança (CNBS), que deveria avaliar a importância e a recomendação de liberar ou não da CTNBio.

Esse conselho não se reuniu uma só vez durante o tempo que estive na CTNBio. Se reuniu ao longo da história três ou quatro vezes, e simplesmente referendou as decisões da CTNBio, que como é hoje, atua como uma instância deliberativa, e a decisão tomada lá não é contestada. Vale o que já disse três vezes: peguem a AS-PTA, O MST, a Terra de Direitos e as mais de 30 outras associações que sempre co-assinam os documentos metendo o pau na CTNBio e vão lá na Casa Civil pedir que se suspenda a comercialização de todos os transgênicos no Brasil por questões socio-econômicas. Lembrem-se, meus caros críticos: o CNBS não vai reavaliar o trabalho da CTNBio. E não se esqueçam de chegar lá chutando o balde: afinal, o CNBS
 nunca rejeitou um produto aprovado pela CTNBio, mesmo quando chamado à fala pela ANVISA e/ou IBAMA.

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A ciência das coisas que não são assim

A ciência das coisas que não são assim

Por Bruce Chassy & I. Henry Miller
Prêmio Nobel de Química, Irving Langmuir relatou em um discurso famoso em 1953 a sua visita ao laboratório de JB Rhine, da Duke University, onde Rhine estava reivindicando resultados de experimentos com percepção extrasensorial que não poderiam ser atribuídos ao acaso, e que ele atribuiu a fenômenos psíquicos. Langmuir descobriu que Rhine estava apenas filtrando seletivamente os dados de seus experimentos, omitindo os resultados daqueles que acreditava haverem sido produzidos pelos seus parceiros apenas a fim de humilhá-lo.
A evidência? Rhine achou que alguns dos valores foram baixos demais para terem ocorrido ao acaso, e que seria, portanto, na verdade, enganoso incluí-los nos cálculos. Langmuir apelidou esse desvio dos princípios do método científico "ciência patológica", a "ciência das coisas que não são assim."
Praticamente todos os cientistas concordam que a metodologia de Rhine cruza a linha de incompetência e desleixo e cai na categoria de má conduta científica, mas essa linha é mal definida hoje para alguns cientistas, cuja pesquisa reflete uma agenda política óbvia. Muitas vezes, a agenda é a oposição cega e a obstrução a qualquer pesquisa, produto ou tecnologia que eles condenam.
Um exemplo atual de um cientista que, embora menos culpado de falsificar dados para obter a resposta desejada, sistematicamente prima pelo desempenho insatisfatório de experimentos através do mau planejamento e da grosseira deturpação dos resultados, é o biólogo francês Gilles-Eric Séralini;, Ele se tornou especialista em experimentos mal projetados, irrelevante e não interpretáveis ​​(mas sobre-interpretados!), destinados a demonstrar dano a partir de plantas geneticamente modificadas em vários cenários experimentais altamente artificiais.
Seu último exercício na ciência-para-propaganda é um artigo que pretende mostrar efeitos tóxicos de duas toxinas da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), cujos genes foram introduzidos em muitas variedades de milho, soja e algodão para aumentar a resistência a insetos. É interessante notar que os esporos e proteínas purificadas produzidas por Bt têm sido usados ​​para controlar pragas de insetos desde a década de 1920: consideradas seguras, exceto para insetos suscetíveis, estirpes diferentes e formulações de Bt estão livre e fartamente disponíveis para jardineiros e agricultores).
Séralini e seus colaboradores examinaram os efeitos de duas toxinas Bt (na presença e na ausência de herbicida Roundup) in vitro sobre uma linhagem de cultura de células embrionárias de rim. Eles procuraram - e encontraram - efeitos sobre três biomarcadores de "morte celular" - ou seja, mudanças nos níveis de diversas enzimas.
Há todo um conjunto de falhas fundamentais no experimento de Séralini. Em primeiro lugar, porque o teste numa placa de Petri é pouco preditivo dos efeitos sobre um animal intacto no mundo real, não sendo de forma alguma um substituto para o teste em animais. Muitos produtos químicos e proteínas que consumimos rotineiramente e sem intercorrências seriam tóxicos se aplicado diretamente às células isoladas. Como a absorção e distribuição de um produto ingerido ou injetado no corpo tem que ser levadas em conta, os testes de toxicologia devem ser realizados de uma forma que se assemelhem à exposição prevista do organismo vivo no mundo real.
Em segundo lugar, quase todos os produtos químicos testados são tóxico para as células isoladas em cultura, literalmente indefesas numa placas de Petri. Uma concentração elevada de sal de cozinha, por exemplo, faz com que células em cultura sequem e morram; muitas são igualmente sensíveis a pequenas alterações no pH. Esta situação é muito diferente em um organismo vivo: os animais evoluíram defesas elaboradas contra os milhões de substâncias químicas presentes no ambiente que podem prejudicar as células. A primeira linha de defesa é simples: a pele, e as células que revestem o trato gastrointestinal. Proteínas Bt não podem atravessar as células destes tecidos (como a imensa maioria das outras proteínas. Nota do editor), e por isso as outras células e órgãos dos animais não são expostos às proteínas Bt. Este fato - que Séralini convenientemente ignora - é conhecido há décadas.

Em terceiro lugar, Séralini e seus parceiros de aventura ignoraram o antigo provérbio de que a dose faz o veneno. Ele é conhecido desde Paracelso no século 16: todas as substâncias podem ser venenosas, mas é a dose determina se são ou não prejudiciais. Sem não tomarmos a coisa nesses termos, sabemos que seria verdade que substâncias tão díspares como o monóxido de carbono e Tylenol poderiam ser encaradas como venenos.

A afirmação de Séralini de que, em seus experimentos, as células em cultura foram expostas a doses agronomicamente relevantes do Roundup (uma marca do onipresente herbicida glifosato) é hipócrita. Os produtos alimentares produzidos a partir de soja e milho geneticamente modificados, amplamente cultivados e consumidos em todo o mundo e tolerantes a herbicidas, contêm apenas pequenas quantidades de Roundup que são várias ordens de magnitude menor do que aqueles usados ​​por Séralini em seus experimentos. Roundup em si é tão tóxico quanto o bicarbonato de sódio. Como informação adicional, é interessante notar que os resultados de Séralini sugerem que proteína Bt efetivamente protege as células de cultura dos danos causados ​​pelos Roundup... Mas é claro que no mundo real as células isoladas nunca seria exposta nem a uma substância nem à outra. 
Quarto, os resultados Séralini são refutados pelos resultados bem conhecidos de experiências reais de alimentação animal: as proteínas Bt não prejudicam os animais em doses um milhão de vezes maiores do que os humanos poderiam encontrar em suas dietas.  Numerosos artigos científicos publicados em revistas de corpo editorial rígido têm demonstrado que as proteínas Bt não são tóxicas para animais ou seres humanos. Proteínas Bt tem especificidade biológica estreita e afetam apenas algumas espécies de insetos estreitamente relacionados, mas não tem nenhum efeito em outros insetos ou organismos superiores. Esses fatos por si só tornam os resultados deste experimento de Séralini irrelevantes.

Finalmente, os toxicologistas avaliam os potenciais efeitos prejudiciais de uma substância baseados na dose e nos níveis e frequência de exposição. Nos Estados Unidos, a vasta maioria do milho colhido vai para alimentação animal e biocombustível; menos de 2% da colheita total de milho é usado para fazer produtos alimentícios de (chips, farinha de milho, etc). Em muitos destes produtos, a farinha de milho é processado de uma maneira que destrói as proteínas Bt.
Em qualquer caso, cozer, assar ou fritar o alimento fatalmente desnatura as proteínas Bt. Os demais usos da soja e do milho Bt em outros alimentos em geral envolvem amidos altamente purificados e óleos que não têm contem Bt. O ponto crítico é que a exposição humana esperada para proteínas ativas de Bt é efetivamente nula. Mesmo se pequenas quantidades sobreviveram ao processamento e forem consumidas na forma ativa, seriam desnaturadas pelo ácido gástrico e digeridas no intestino. E finalmente, mesmo que por algum motivo restem algumas moléculas sem serem digeridas, elas não seriam absorvidos pelas células epiteliais do trato gastrointestinal , sendo excretadas pelas fezes ao final. (Mesmo no Nordeste brasileiro e em outras áreas do mundo, onde o milho é consumido in natura ou diretamente em preparações alimentares, mas sempre cozido, assado ou frito – pipoca -  o consumo nunca é tão alto nem tão regular como se poderia imaginar pelo discurso dos aguerridos oposicionistas ao milho GM. Nota do Editor)

Tais experimentos irrelevantes e flagrantemente falhos nunca farão incursões na comunidade científica, mas sua existência é importante porque suas descobertas espúrias são copiadas e repetidas várias vezes por ativistas anti-biotecnologia.

Às vezes eles podem até encontrar o caminho para a grande mídia, e aí reside o perigo. Ela distorce a opinião pública através do fenômeno da "cascata de informação." Esta é a maneira pela qual as idéias incorretas ganham a aceitação, por serem repetidas à exaustão até que sejam aceitas como verdadeiras, mesmo na ausência de evidência persuasiva.
Muitos equívocos sobre certos temas, tecnologias ou produtos, tais como produtos químicos, energia nuclear e engenharia genética, surgem a partir da batida constante de acusações dúbias de grupos de defesa variados, políticos de plantão e da mídia. A promoção de tecnofobia tornou-se uma grande indústria nos Estados Unidos e na Europa. (mas os tecnófobos não dispensam a energia elétrica gerada pelas usinas nucleares, os caros novos, celulares, Ipods, Ipads, tablets, etc...Nota da redação).
Outro fator que contribui para equívocos entre o público é o que foi apelidado de "ignorância racional", que entra em jogo quando o custo de se informar suficientemente acerca de um assunto para tomar uma decisão supera qualquer benefício potencial que se poderia esperar a partir dessa decisão. Por exemplo, os cidadãos ocupados com as preocupações da vida diária de suas famílias, trabalho e saúde podem não considerar que seja rentável estudar os potenciais riscos e benefícios de usinas nucleares ou de plastificantes em brinquedos infantis. Isso é lamentável, porque a liberdade de expressão e os processos democráticos só podem servir a sociedade quando os cidadãos estão suficientemente bem informados para serem capazes de rejeitar alegações pseudocientíficas como as de Séralini e de outros propagandistas e deturpadores da ciência.
Nas sociedades livres, propagandistas como Séralini podem cometer delitos ou mesmo improbidade, sem medo de represálias. Para conter aqueles que abusam da ciência responsável, outros cientistas devem expor enganos e as revistas científicas devem realizar rigorosa e consciente revisão por pares de todos os artigos (mais rigorosa e consciente, certamente, do que foi feita no artigo de Séralini).

Bruce M. Chassy é professor de Ciência dos Alimentos e Nutrição Humana na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign e um ex-membro da Comitê Consultivo da FDA; Henry I. Miller é médico e ex-diretor do escritório do FDA de Biotecnologia, Robert Wesson fellow de Filosofia Científica e Políticas Públicas na Universidade de Stanford. 

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